ÁRVORES DE CONHECIMENTOS, ESCOLA E ATENÇÃO:
um triângulo amoroso sem final feliz

por Eduardo Loureiro Jr.
eduardo@patio.com.br

[O presente texto é resultado de uma leitura do seguinte livro: LÉVY, Pierre e AUTHIER, Michel. As árvores de conhecimentos. São Paulo: Ed. Escuta, 1995.]

 

A escola onde estudei por dez anos tem menos árvores hoje do que no meu tempo. A universidade em que me formei foi o único lugar em que pude ver uma moto-serra em funcionamento - para tristeza da mangueira e morte minha. Não sei se é um efeito colateral a longo prazo do coito contínuo do Iluminismo com a Revolução Industrial, mas sombra de árvore está difícil em nossas instituições de ensino. Sombra agora só de prédio, e de no máximo três andares para não ter que colocar elevador.

Então fiquei curioso sobre qual seria a relação d' As árvores de conhecimentos, concebidas por Pierre Lévy e Michel Autier, com a instituição escola...

Eles fazem uma crítica feroz à instituição:

"A escola, como instituição, define a priori (em função de suas tradições e da percepção da demanda social) os conhecimentos indispensáveis, corretos, válidos, quer seja para a cultura geral ou para os saberes especializados. Mas esses conhecimentos somente representam uma ínfima minoria do que "cada um sabe", do saber trazido pelo conjunto da humanidade, um saber que, além disso, se transforma e aumenta hoje em um ritmo tal que a escola tem, a cada dia que passa, mais dificuldade de acompanhar." (p. 106)

"Temos, definitivamente, como resultado do sistema de reconhecimento de saber ainda hoje defendido pela escola e pela universidade: que alguns dentre nós são absolutamente ignorantes (ainda que cada um saiba); que se possuo um diploma, eu sei (ainda que nunca se saiba); que o saber somente é válido quando reconhecido pela instituição (ainda que todo saber esteja na humanidade)." (p. 106-107)

"é a própria sociedade que se encarregará da questão da educação e não mais uma instituição separada!" (p. 80)

Mas ao mesmo tempo alisam a cabeça da fera:

"Não colocamos de forma alguma em questão a indispensável tarefa de instrução das crianças realizada na escola primária, nem o ensino dispensado pelos colégios e universidades. Propomos apenas um método de visibilização dos saberes e de reconhecimento das competências muito mais amplo e democrático do que o que vigora hoje." (p. 107)

"Não se trata, de forma alguma, aqui, de um panfleto a mais "contra a escola", mas de um projeto positivo de que os educadores poderiam perfeitamente se apropriar no próprio exercício de sua profissão." (p. 107)

"A escola existirá sempre, mas como um componente entre outros da educação, do aprendizado e do ensino." (p. 80)

Difícil é saber como Lévy e Authier ousam afirmar que uma instituição que não existe desde sempre - a escola - há de existir para sempre. Mas dure quanto durar, e espero que seja pouco, a crítica à escola pode ser resumida a um único aspecto: a monopolização da atenção.

Numa época que questiona o espaço dos meios de comunicação de massa, é até divertido observar como a escola, um início, meio e fim de comunicação de massa, mais universal que o rádio, a televisão e o telefone, é encarada como a salvação de nossos problemas sociais, éticos e econômicos.

A moeda da nova economia não é o dinheiro, mas a atenção. O que está sendo explorada não é a nossa mão-de-obra mas o nosso olho-ouvido-de-atenção.

"A atenção é escassa porque cada um de nós tem apenas um tanto para dar, e ela vem apenas de nós - não de máquinas, computadores ou qualquer outra coisa." (Michael H. Goldhaber, M.H. GOLDHABER'S Principles of the NEW ECONOMY, http://www.well.com/user/mgoldh/principles.html)

No meu tempo, nas décadas de 70 e 80, a gente passava pouco menos de quatro horas diárias na escola e tinha três meses de férias por ano. Hoje em dia, houve um aumento do número de dias letivos e a escola de tempo integral parece ser a ideal para a maioria dos educadores e dos pais.

Enquanto se propõe continuamente a redução da jornada de trabalho dos adultos, seja pensando no indesejável aumento do desemprego ou na esperada ampliação do tempo de lazer, nossas crianças têm sua carga horária elevada e seu tempo de divertimento reduzido. Cada vez mais, a escola monopoliza a atenção da criança.

Acrescentar simplesmente o sistema d'As árvores de conhecimentos ao sistema escolar seria o equivalente a uma pessoa obesa encarar com um refrigerante diet um rodízio de massas: só aumentaria o tempo de atenção roubado aos educandos, ou seria a escola para quem já se livrou da escola.

Talvez essa amabilidade em relação à escola seja a origem de alguns pontos problemáticos da excelente idéia d'As árvores de conhecimentos...

Haver uma representação gráfica dos saberes de um indivíduo, e relacioná-la com os saberes de outros indivíduos da comunidade formando uma árvore de conhecimentos, é bom. Chamar as unidades de conhecimento de patentes (- Sim, senhor General!) e solicitar uma prova para que seja obtido o diploma relativo a cada patente é o mesmo que fazer uma prova sobre Independência dos Estados Unidos, outra sobre Revolução Francesa e outra sobre Guerra de Secessão ao invés de fazer uma só avaliação bimestral sobre História Contemporânea.

Arquivar informações em uma coisa chamada banco é correr o risco de ser assaltado ou de ter o dinheiro bloqueado. O que me garante que o banco de patentes não vai ter uma mas 37 patentes sobre Informática Educativa, cada um com uma descrição e uma prova que permite obter o diploma para cada uma das 37 interpretações do que venha a ser informática educativa?

Colocar As árvores de conhecimentos não dentro de uma ecologia do saber, mas em uma economia do saber, e ainda escolher uma moeda, o Sol (Standard Open Learning unit - unidade padrão de aprendizado aberto), não seria dar bobeira para uma nova forma de concentração de renda ou de receptores de energia solar?

Enquanto não descobrirmos uma forma para que as pessoas mais capazes, independente de sexo, idade ou diploma, realizem as atividades mais apropriadas em cada momento; enquanto tivermos os diplomas (de escolas ou d'As árvores de conhecimentos) como atravessadores entre as pessoas e o trabalho que precisa ser feito para o bem das pessoas; enquanto burocratizarmos as boas idéias, como um dia deve ter sido a escola e como hoje são As árvores de conhecimentos; enquanto as pessoas ganharem mais porque sabem mais ou porque podem provar que sabem mais; enquanto o aprendizado não for estimulado pelo prazer mas por "O que eu vou ganhar com isso?", Andrea continuará desejando que esta seja a pergunta que nunca lhe foi feita e que ela gostaria que alguém lhe fizesse: "Ao invés de perguntar: Qual seu Grau de Escolaridade? Eu gostaria que perguntassem: Você é capaz e sabe esta função?" (Andrea Magalhães, 5inco: onde você é o entrevistado, http://www.patio.com.br/5inco/a/Andrea%20Magalh%E3es.html).

 

Fevereiro de 2001