SILVA, Alexandre Soares. A Coisa Não-Deus. São Paulo: Beca Produções Culturais, 2000. 166 p.

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p. 11
"O Paraíso não é um estado de espírito. É um lugar. Se você der dois passos pra fora, está fora; se der dois passos pra dentro, está dentro. Uma vez lá dentro, você pode pisar à vontade na grama, dar cambalhotas, pode até se machucar dando cambalhotas, porque o chão não é de ectoplasma, não é de nenhuma espécie mística de fog, não é de gelatina amorfa; é matéria, pura e sólida e dura matéria. Mesmo os Anjos são matéria. Se você perguntar a eles se acreditam em algo que não seja matéria, eles vão rir da sua cara. Logo, eles não só são matéria, como são materialistas; e não só são materialistas, como são ateus."

p. 12
"Anjos são mais diferentes uns dos outros do que nós seres humanos somos uns dos outros. Não existe uniformidade no bem; não no verdadeiro bem. O caminho espiritual consiste em expandir o seu ego, e não, for Christ sake, transcendê-lo; expandi-lo até que ele se transforme em algo único, caprichoso, específico. Espíritos elevados são, no verdadeiro sentido da palavras, excêntricos."

p. 14
"faço questão de ser escapista com todas as letras e me perder".
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"os espíritos existentes evoluem pela sacralidade absoluta da virtude teológica chamada Capricho, que seria uma espécie de primo frívolo da solene Força de vontade; a Natureza condescende em Mimar alguns eleitos, na verdade está morrendo de vontade de Mimar alguns eleitos, e o Mimo é o estado da graça. Fazer Beicinho é o Grande Exercício espiritual".

p. 15-16
"sei que estou sonhando um sonho acordado, que em algum momento eu atravessei a porta para o outro mundo. É sempre assim que começa, é sempre assim".

p. 16
"aos colecionadores de sonhos".

p. 17
"Não é tão natural ver tantos detalhes em coisa alguma no mundo normal. Nunca mais vi tantos detalhes em lugar nenhum, com a exceção do Paraíso."
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"Ele viu o que eu via; parou de jogar."
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"pavonear-se é a atividade mais constante e mais característica de todos os espíritos que significam alguma coisa neste universo."

p. 18
"o prêmio para quarenta anos de loucura laboriosamente auto-induzida."
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"assim como há carros de quatro portas há anjos de quatro asas"
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"como cronista do Senhor, preciso agir com tato no mundo dos homens."

p. 19
"Aliás, achar foi o que mais fiz, ali sem poder ver nada".

p. 21
"quando se entra no Paraíso, se perdoa qualquer coisa que se tenha sofrido, e até mesmo se esquece qualquer coisa que se tenha sofrido."
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"A felicidade mais intensa é um vírus de computador que apaga da mente a própria noção metafísica da Dor."
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"Não é que você se esqueça do que aconteceu de ruim com você no passado é mais que você se esquece e como foi ruim o que aconteceu."

p. 21-22
"como essas mulheres que vão todas lindas e bronzeadas conversar com os velhinhos de um asilo, uma vez por mês o que não as impede de se esquecerem deles no dia seguinte e levarem uma vida perfeitamente boa com seus vibradores coreanos e aulas de hidroginástica."

p. 22
"Esta é uma verdade sobre o espírito humano que nunca havia sido revelada antes, mas, fueda-se, eu a revelei."

p. 23
"Se você usa palavras como lúdico, irreverente, seminal, você cai fora, porque no Paraíso existem estudos (Tatossian, H.C.-Sensibilidade verbal em Quaresmeiras Roxas. Anatomia do Espírito, pp. 133-140, 1986) que provam o seguinte fato: se um espírito minimamente refinado fala a sério a palavra "lúdico", no momento em que o fonema |C| é pronunciado sua boca se arrebenta, seus dentes voam em estilhaços e seus lábios pendem em tiras sacolejantes. (Pendegast discorda, e diz que o efeito é meramente o de deslocar o maxilar. Mas ninguém se arrisca a tirar a prova.)

p. 24
"é o que há de mais vivo no edifício inteiro. Brilha tanto contra o céu de verão que as pessoas têm vontade de fazer alguma coisa viva e estupenda, declarar uma guerra, escrever um livro revolucionário, brigar com alguém na rua, fundar um império."

p. 28
"O Mal é um ângulo de Doze Graus."
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"A alma dele vai morrer junto com o corpo. Ele é o único espírito em toda a história do universo que, quando morrer, vai puf! Deixar de existir."

p. 29
"Isso de ter o direito de saber é demagogia de jornal".

p. 30
"como sempre, ao ouvir falar de uma desgraça, estava com uma vontadezinha idiota de rir."
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"Eu não posso impedir. Não estamos numa democracia. Ele faz o que quer."

p. 34
"se um espírito, por melhor que seja, não se importa com pequenas ou grandes frivolidades para ter uma aparência, digamos, espetacular, esse espírito é um bárbaro, um filisteu; é avesso à civilização, às artes, às humanidades."

p. 36
"Eles eram o que Allan Kardec teria chamado, pouco diplomaticamente, espíritos zombeteiros. Mas quem, nos altos escalões, não é?"
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"uma violência sem sentido e muito divertida."
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"o modo de se descobrir se uma determinada região está perto das regiões infernais é o seguinte: quanto mais siglas se usa nessa região, mais perto das regiões infernais. Espíritos de segunda têm uma atração inacreditável por siglas."

p. 44
"Mais do que isso eu só vou ficar sabendo quando for um iniciado, e daí vou ter que calar a minha boquinha."

p. 47
"Ele pensa muito mas não sei se chega a uma conclusão. É sempre assim. Conhece os versos de Yeats sobre os maus estarem cheios de convicção, e os melhores cheios de dúvida?"

p. 47-48
"a única coisa do universo que não é Deus, porque seria inconcebível que Deus morresse."

p. 49
"só hesitava porque parecia haver alguma armadilha... ou pelo menos algum lado ruim na minha tarefa, que eu não havia visto e ninguém havia me mostrado."
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"Falta de ética não me avisar."

p. 51
"estava ocupado demais falando pra prestar atenção na decoração. Falava sobre decoração."

p. 52
"espírito de pijama".
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"português de deputado cearense concorrendo ao Senado."
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"Sua preocupação com os pobres, achava agora, era ridícula e artificial e descabida."

p. 53
"é que ele não era visual, era verbal."
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"E o sofrimento não me causava nenhum prazer histérico."

p. 55
"Eu entendo um pouco [...] Mas não sei se tenho o direito de contar muito."
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"Primogênitos dificilmente são felizes. São autodisciplinados e tendem à melancolia e ao auto-sacrifício."
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"o segredo da felicidade é tratar a todos não somente como se fossem seu irmão, mas como seu irmão mais velho. Não só pessoas, mas pedras e correntes de ar e abstrações também: tudo é primogênito para o Ego.""

p. 57
"Três copos de urina de anjo com o sol se pondo por detrás: paz."

p. 61
"Ele não desgruda de mim e quer à toda força ler um livro em voz alta pra mim e quer que eu ouça e reflita."

p. 62
"um encanto pessoal inacreditável, que havia chocado os espíritos avançados da época por defender a preguiça, a luxúria, a gula, e por colocar o refinamento estético acima do intelecto e da bondade (naquela época, isso era uma novidade)."
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"Numa noite dessas de que vale ser um belo e esplêndido anjo se não se pode voar por aí?"

p. 64
"aquilo que eles valorizavam acima de tudo, mais que a bondade, embora valorizassem a bondade, e mais que a inteligência a parte externa do refinamento interno: charme."
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"Como vou descrever esta cena? [...] Preciso de uma pausa para extrair todas as forças da minha Bic mística."

p. 66
"Não era horroroso, e dependendo do ângulo talvez passasse por bonito, não sei."

p. 68
"A natureza é cega e muda e não temos ninguém a quem pedir explicações."

p. 69
"um boato cretino que andou circulando por aí, às vezes na forma de piada."

p. 71
"Isso havia sido apenas uma nota de pé de página em um artigo, uma brincadeira intelectual".

p. 72
"um dos paraísos mais humanamente inteligíveis."
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"Bêbado por simplesmente acreditar que estava sonhando."

p. 74
"Isso não tinha a menor aplicação à situação; ou pelo menos eu não via a menor aplicação; ainda não vejo; mas me pareceu perfeito."

p. 75
"Até que ponto se pode aprofundar a relação com uma mulher?"

p. 76
"aquela dignidade vagabunda e despreocupada que me parecia, e me parece, a maior conquista do espírito."

p. 77
"os caminhos do espírito são estranhos. Um espírito elevado é sempre algo de chocante. Sempre. Do mesmo modo que a aristocracia se parece mais com a "canalha" do que com as classes médias e altas não-aristocratizadas".
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"Seis ou sete daqueles anjos voaram até as vaquinhas mococas, e desceram devagarinho até elas com as asas abertas, os mantos flutuantes abertos, e as abraçaram por trás com braços e asas, e as vaquinhas fizeram meigamente mu."

p. 78
"dormia com uma expressão concentrada, como se dormir fosse uma questão de disciplina".

p. 85
"O mundo material é o que é; não é ruim, nem bom, em si mesmo; e às vezes é útil;mas não é o nosso mundo. O espírito sempre se sente péssimo nele. Só que às vezes se esquece disso."
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"Voltar para o mundo material [...] me causou, enfim, aquela sensação que se tem quando se está deitado em uma banheira cheia de água morninha, e alguém destapa o ralo, sabe, e o corpo vai ficando pesado, pesado, à medida que a água vai baixando até que o corpo fica absurdamente, grotescamente esmagado contra o fundo úmido da banheira."

p. 85-86
"A nostalgia do Paraíso talvez seja a saudade de um mundo em que a força de gravidade é levemente inferior. [...] É claro que, enfim, a matéria é tão matéria lá como aqui seria uma decepção descobrir que os corpos das huris no Paraíso são feitos de mero pensamento abstrato parecido com uma fumacinha."
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"eu sou mais eu, eu fui dignificado por uma visita ao Outro Lado, eu falei com os anjos e fui encarregado de uma missão, certo? O que me dá o direito de ser chato, certo? Não. Fui tomar um banho."

p. 88
"a maravilha abriu caminho até o mundo concreto e até mim."

p. 89
"É curioso como o mergulho na felicidade nos faz esquecer tudo o mais, se você tirasse alguém do Inferno e o colocasse no Paraíso, em dois segundos ele se esqueceria que esteve no Inferno um dia, e perderia a Surpresa. E ao contrário do que os leigos na Ciência do prazer pensam, a Surpresa, e a Supressão da dor, são prazeres ínfimos e insípidos comparados com o Prazer em si. O Paraíso não se define pelo Inferno. Se define por si mesmo."

p. 90
"Você não vai conseguir se comunicar com ele, porque ele não fala português, nem francês, nem espanhol, nem inglês. Gesticule. Ele não é de falar muito mesmo."

p. 91
"o cheiro exato de Vênus saindo do banho".
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"a história de alguém que amou uma pessoa que deixou de existir."

p. 92
"Sei que não é justo, que ele só estava fazendo o trabalho dele, etc., mas eu não me sinto na obrigação de ser justo com ninguém. É tão melhor ser bom e doce e colérico."

p. 95
"Mas não olhava para trás nunca, ficando meio duro. Sua nuca parecia dizer, à maneira das pessoas tímidas, Eu sei que vocês aí atrás estão olhando pra mim..."

p. 96
"O gênio é um ser especial saído do nada."

p. 100
"A timidez não pode ser pior do que a morte."

p. 104
"Isso soa sublime, mas é, afinal, uma derrota."

p. 111
"tudo o que eu e a posteridade temos para especular é essa anotaçãozinha no seu diário."

p. 111-112
"Nada do que você possa ter experimentado em uma vida normal é parecido: nada. Eu próprio não sei do que eu estou falando, não faço a menor idéia, mas sei que é verdade e sonho com isso, toda noite, antes de dormir."

p. 112
"Eram (e são) espíritos criados para serem mimados, e não para mimar: os caçulas voluntários do universo. Mas o hábito de esperarem do universo apenas o que era bom, maravilhosamente bom e deliciosamente bom, havia causado personalidades sem asperezas, fáceis, dóceis, e com uma capacidade de sugerir aos outros, com um sorriso só, ou com o tom da voz, que a vida pode ser sem aspereza, fácil, dócil, boa, maravilhosamente boa, deliciosamente boa."

p. 114
"Mas quando você realmente vê o movimento de um monstro ou um anjo ou de qualquer coisa excepcional, você estranha tanto, que o movimento não parece realista. Ele parece truncado, como um monstro de massinha filmado quadro a quadro."

p.121
"A festa me parece uma mistura de Natal e 1o de Abril."

p. 135
"nossa escaramuça com os espíritos ovóides nos corredores e escadas estreitos de um cortiço gigantesco e labiríntico. Foi o lugar onde mais eu me diverti; serei eu um espírito muito atrasado?"

p. 135-136
"começou a contar dos espíritos que vivem na Nebulosa do Bruxo, e da Hedonologia, a Ciência do Prazer, e que eles haviam conseguido medir a capacidade de Prazer que uma pessoa sente em um dado momento, que eles haviam inventado uma medida-padrão, enéles. [...] uma pessoa média, na Terra, quando diz que teve um dia muuuuuito bom, deve ter recebido de 80 a 160 enéles naquele dia. [...] Felicidade são cinco dias seguidos com uma média superior a 80 enéles."

p. 137
"Surely whoever speaks to me in the right voice, him or her I shall follow." (Walt Whitman)

p. 138
"você entra numa espécie de coma... porque você recebe tanto prazer que não consegue nem reagir aos outros estímulos externos".

p. 139
"irracional, mas muito compreensível".

p. 142
"consciência (uma palavra idiota que eu abomino)".

p. 147
"aquela impressão de irrealidade que a gente tem quando percebe que já aconteceu, antes que a gente desse por isso, uma coisa que se estava habituado a enxergar no futuro."

p. 149
"a diligência [é] uma forma de vulgaridade".

p. 149-150
"Uma espécie de impaciência tomou conta de mim; não consigo me entregar a nada que não me interesse completamente".

p. 155
"uma comunidade de espíritos objetivos, secos, frios, que coloquem a busca do conhecimento acima do capricho, do mimo, do esteticismo e do hedonismo, acima da moral."

p. 156
"toda admiração é prejudicial ao espírito que admira."

p. 157
"se as coisas não fossem iguais a si mesmas num dado instante, não existiriam."
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"Em um dado instante, as coisas são diferentes de si mesmas."

p. 158
"claro que tudo isso é bobagem, no sentido de que não é verdadeiro. Há falhas de argumentação em várias partes, que eu procurei encobrir com truques simples de lógica."
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"o prazer, e não a verdade, deve ser o nosso objetivo final."

p. 159
"Alguém acabaria surgindo com uma teoria consoladora qualquer, apropriada para o nosso temperamento, que diminuiria a melancolia dos sobreviventes, ou mesmo acabaria com ela."
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"a própria razão recomenda o irracionalismo de vez em quando."
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"Eu sou acima de tudo um intelectual. Isso significa que eu vivo de acordo com certos padrões intelectuais. Não vou brincar com esses padrões só pra me divertir, ou só pra fugir de verdades desagradáveis. A razão tem a sua ética própria, e nesse sentido eu sou moralista."

p. 160
"Acho que vou passar o resto da minha vida em casa, lendo, bebendo, e procurando trabalhar o menos possível."

 

Elaborado por Eduardo Loureiro Jr. em dezembro de 2000

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