A vida de Ariadne por um fio

Paulo Meireles Barguil

 

                        Múltiplas leituras chama-se isso: você pode olhar, contemplar um objeto, uma realidade, a partir de vários locais, que originam sortidas visões, cada uma verdadeira (embora que se deva dizer, parcialmente verdadeira, pois ela o é somente sob a sua óptica).

 

                        Minha vida nunca teve grandes emoções. Filha do rei Minos, de Creta, nunca me preocupei com alguma coisa que realmente valesse a pena: sempre tive quem cuidasse das minhas roupas, da minha alimentação, do meu quarto, … Acostumei-me a ter o mundo aos meus pés. Tudo que eu precisava fazer era permanecer no meu canto, esperando que os acontecimentos se sucedessem na ordem e no ritmo determinados pelo meu amado pai.

                        Eu tinha uma relação muito especial com minha mãe, Pasífae. Admirava-a bastante, sendo uma fonte de inspiração para o meu desenvolvimento, uma vez que ela não concordava com tudo o que meu pai decidia, o que, por vezes, era motivo de discussões acirradas entre eles. Ela era a pessoa que mais me entendia, talvez pelo fato de que nos parecíamos bastante. Devido às atribuições de rainha, ela quase não tinha tempo para desempenhar as funções tipicamente maternas. Mas, como eu era a caçula, ela havia dedicado a mim um tratamento especial, tendo inclusive me ensinado a ler e a escrever. Ela se deliciava com os papiros oriundos do Egito, sobre os quais comigo ela sempre conversava.

                        Assim, você pode imaginar como foi duro para mim a sua morte, ainda mais tendo em vista as circunstâncias, as quais nunca foram suficientemente esclarecidas, o que fez com que eu suspeitasse do próprio rei, uma vez que ele tratou o caso com uma frieza inaceitável, como se o passamento da rainha não fosse motivo de sofrimento, mas de alívio e regozijo. Suspeito que ele nunca a havia perdoado de uma falta que ela cometera no passado, a qual você em breve ficará sabendo.

                        Tinha dois irmãos (Androgeu e Minotauro), embora eles não me fizessem companhia. O primeiro havia anos antes viajado a Atenas para participar de um campeonato. Depois de se sagrar vitorioso, orgulhoso do recente feito, ele resolvera enfrentar o famoso touro de Maratona, uma fera que amedrontava os habitantes locais. Infelizmente, ele não foi bem sucedido e morreu sem que as pessoas que assistiam ao combate pudessem fazer algo para salvá-lo. Não era essa a opinião do meu pai, que acusou Egeu, o rei de Atenas, de conspiração. Num gesto insensato, movido por uma profunda dor, ele partiu com seu exército e dominou a cidade vizinha, amiga até então, e obrigou-a a enviar anualmente 14 jovens para saciar a fome do meu outro irmão, o Minotauro.

                        Como era do conhecimento de todos, ele era fruto de uma relação que minha mãe tivera com um belo touro, que havia sido enviado por Poseidon para meu pai como sinal da benção divina, tendo esse se comprometido em sacrificá-lo como prova de gratidão. Noutro momento insano, ele decidiu enganar o habitante celeste e imolou um espécime parecido do original. Irritado pela ofensa praticada pelo meu genitor, aquele deus jogou um feitiço em minha mãe, que se apaixonou terrivelmente pelo garanhão a ponto de suplicar que Dédalo, um arquiteto da corte, construísse uma engenhoca que a permitisse copular com o animal.

                        Como resultado da concretização do infortúnio, nasceu um menino. Devido ao trabalho de parto ter sido muito difícil, o bebê ficou com as feições muito alteradas. Com o passar dos dias, enquanto o seu corpinho assumia contornos mais suaves, sua cabeça apresentava uma estranha forma, o que foi motivo de grande angústia para os meus pais. Quando, enfim, a verdade foi revelada pela rainha, meu pai resolveu colocar o seu nome no rebento, como forma de se redimir da sua culpa no episódio. Mais do que rapidamente, movido por um sentimento dúbio de carinho e vergonha, ele ordenou que Dédalo erigisse um espaço, o labirinto, onde o Minotauro deveria ser confinado por toda a sua vida. Uma vez preso, nunca pude visitá-lo, desconhecendo até mesmo se ele é capaz de se comunicar como um ser humano.

                        Fedra era minha única irmã. Morávamos no Palácio de Cnossos, mas é como se habitássemos em reinos diferentes. Sua companhia me era interessante, embora eu não tivesse grandes afinidades com ela. Tínhamos valores e ambições um tanto díspares: ela adorava as regalias de ser princesa, de ser servida pelos escravos, de ser paparicada pela corte, enfim, desempanhava com perfeição o seu papel de filha do rei. Eu, por outro lado, não me sentia muito confortável e satisfeita com a dinâmica da minha vida, pois sentia que algo me faltava, só não sabia bem o que, muito menos como alcançá-lo… Claro está que sozinha era como eu me sentia. Por isso, eu não estava (e não era) feliz.

                        Por motivos variados, os quatro filhos tivemos destinos bastante diferentes, talvez porque nossas almas seguiam símbolos particulares: Androgeu era um amante da vida, um boêmio, gostava de esportes, de movimento, tinha a alma de um artista; o Minotauro, em virtude do isolamento imposto por meu pai, tinha uma dinâmica semelhante a um religioso, mais especificamente um ermitão, que habita longe dos humanos, na tentativa de alcançar a iluminação; Fedra, com um senso de praticidade invejável, estava sempre tratando das coisas do reino, das próximas conquistas, da cobrança de novos impostos, com uma precisão característica de um cientista; eu, com minha inquietude constante, motivo de tanta incompreensão, tinha a alma de um filósofo, pois nada escapava ao meu olhar, às minhas indagações, assim, se eu não me manifestava sobre as injustiças praticadas pelo rei, como por inúmeras vezes minha mãe agira, era por não querer magoá-lo e, também, por temer pela sua reação.

                        Espero que o breve relato que lhe fiz não tenha lhe chocado, nem tenha despertado em você um sentimento de pena, pois eu não objetivava isso. Eu queria, simplesmente, condensar forças para mais uma vez confessar a  mim mesma que eu não me sentia viva. Era como se algo vivesse por (e para) mim, só não era eu. Faltava-me o apetite para romper a mesmice do meu cotidiano, pois sequer eu acreditava que fosse possível mudar aquele quadro! Para piorar ainda mais minha situação de monotonia, o príncipe que ia se casar comigo ainda não tinha aparecido, embora uma advinha me tivesse garantido que ele estava perto de aparecer.

                        Desconheço os motivos que me compeliram a compartilhar com você tais acontecimentos. O que importa a mim, nesse momento, é desabafar um pouco, ao mesmo tempo em que desnudo um pouco do meu interior e lhe forneço uma caricatura de como me sentia na época em que conheci aquele rapaz que mudou completamente a minha vida.

 

                        Por que não ocorreria comigo a inércia de não buscar outras impressões?

 

                        Meus pais julgavam-me uma filha feliz, afinal eu tinha tudo que uma jovem desejava: roupas caras, casa, alimentação, viagens, ... Minha irmã, tão absorta nas questões administrativas do reino, não era capaz de perceber o quão insatisfeita eu estava! Minhas acompanhantes do palácio, filhas dos nobres que compunham a corte, invejavam-me por não precisar me inquietar com o meu futuro, além do fato de que eu, todas as noites, tinha um vestido novo para jantar e ficar alguns minutos na companhia dos convidados dos meus pais, que me viam como um bibelô, e não como uma pessoa, muito menos como uma mulher. As empregadas que me serviam, por sua vez, julgavam-me uma moça desligada da realidade, com a cabeça na lua, “tão diferente da irmã!”. Os rapazes da corte, oh!, os rapazes, o que será mesmo que eles pensavam de mim? Talvez, eu fosse apenas uma rara (e fácil) oportunidade de conseguir um ótimo dote, algo bastante compreensível, uma vez que meu pai era um dos homens mais poderosos do mundo. Afinal, quem iria ligar para os meus atrativos intelectuais e emocionais? Mas, o que poderia eu fazer?

                        Poucos são os sujeitos que decidem investigar outras percepções, ampliando as suas certezas iniciais, talvez por temer descobrir que elas não são tão completas e certas quanto o imaginado (e desejado). Então, certa noite, enquanto contemplava as estrelas, num céu rajado de pontos brancos, decidi que iria daquele momento em diante brincar de pula-pula mental: para cada certeza, eu inventaria pelo menos outras três proposições, de modo que elas se fizessem companhia e acabassem se esquecendo de quem era a mais importante delas. Esse artifício era, inicialmente, apenas uma tentativa de ocupar a minha mente, afastando dela devaneios inoportunos. Aos poucos, porém, descobri que elas possibilitavam que eu estabelecesse infindáveis diálogos internos, o que me permitiu perceber que a realidade não tem somente uma leitura, uma interpretação, mas várias…

                        Somente alguns meses depois ter inventado aquele divertimento é que percebi que ele era uma tentativa de ter os meus irmãos, pelo menos internamente, mais próximos de mim. Sim, pois eu costumava imaginar o que cada um deles pensaria, diria ou faria diante de um acontecimento. Afinal, os nossos desejos, sonhos, perspectivas e ambições eram bastante diferentes, o que possibilitava que tivéssemos explicações ou condutas tão diversas, pelo menos eu assim acreditava no meu jogo quase pueril. Quando eu era mais nova, lamentava e costumava sofrer com aquele fato, mas com o tempo eu fui me acostumando. Não posso dizer que superei completamente essa dor, mas aprendi a conviver com esse fato.

 

                        Abrindo os braços e o coração, despida de certezas, segui rumo ao desconhecido. O que iria encontrar?

 

                        Por mais que eu tente, não consigo explicar o que senti quando vi aquele rapaz pela 1a vez. Para mim, aquela solenidade não era novidade, afinal este era o terceiro ano que Creta enviava 14 de seus filhos para serem deixados na porta do labirinto. Não sei se foi em um sonho ou de algum sussurro fecundado nos férteis corredores do palácio, mas soubera que um dos rapazes que vinha nessa expedição tinha matado o touro de Maratona, o mesmo que anos antes tirara a vida do meu saudoso irmão. Aquele fato perturbou-me de modo incomparável: um misto de gratidão e raiva borbulhava em meu peito e circulava em meu virginal corpo, enquanto me arrumava para conhecer as novas vítimas a serem imoladas.

                        Isso não era tudo o que ouvira! Soubera que ele era o filho único do rei, que viera na esperança de matar o monstro e libertar a sua cidade daquele jugo terrível, que enchia de vergonha e tristeza os atenienses. Lembrei-me, então, das inúmeras histórias que já tinha ouvido sobre casamentos que aconteciam entre impérios inimigos com o objetivo único de promover a paz entre cidades antagônicas. Assim, não seria um absurdo total imaginar que a minha união com ele fosse o início de uma nova era nas relações entre nossos povos. Não continuei nessa elucubração, pois sabia seria apenas perda de tempo, uma vez que meu pai não gostaria nem um pouco dessa idéia!

                        Ao contemplar Teseu, fui apoderada por um sentimento até então desconhecido. Tudo o que eu desejava era sair do castelo com ele, montados num único cavalo, para poder senti-lo bem próximo de mim, rumo ao desconhecido para começar uma vida nova. Oh!, como eu ansiava por outros horizontes. Congelada naqueles devaneios, não percebi quando eles foram levados ao calabouço, onde deveriam permanecer até a manhã seguinte, quando seguiriam, escoltados pela cavalaria real, de olhos vendados até o local do holocausto.

                        Ao despertar daquele sonho, decidi ter uma audiência com Dédalo, para rogar-lhe que me dissesse se haveria algum modo de sair daquela construção. Se a sorte estivesse comigo, eu iria, na calada da noite, visitar o meu amado, e confessar-lhe os meus sentimentos, ao mesmo tempo em que proporia a minha oferta amorosa…

                        Depois de alguns minutos de profundo silêncio, quando fitava a mansidão da planície, o astuto arquiteto confessou-me que, tendo em vista a exigüidade de tempo, a melhor opção seria o forasteiro adentrar ao prédio de posse de um novelo de fio, o qual deveria ser amarrado na entrada, de modo a lhe permitir retornar ao ponto inicial. Deveria ele, ainda, ter muito cuidado para que não acontecesse o infortúnio de rompê-lo, sob pena de redundar infrutífera tal artimanha.

                        Sentada na cadeira de quarto, minhas mãos acariciavam aquele enredo, enquanto eu tentava  imaginar como seria a reação de Teseu. Tivera uma difícil negociação momentos antes, pois Dédalo se recusara, inicialmente, a me ajudar, temendo que o rei descobrisse e o matasse. Aos prantos, garantindo-lhe segredo, supliquei-lhe o seu auxílio, ameaçando me matar caso ele se negasse a me socorrer. Só agora, vejo o quanto agira de modo impulviso, afinal não consigo me lembrar se alguma vez precisei pedir algo para alguém, quanto mais implorar. O mais importante é que ele se propôs a me ajudar, embora tenha feito uma condição: caso a minha tentativa não fosse bem sucedida, eu aceitaria a corte do filho dele, Ícaro. Estava tão decidida a salvar a vida do príncipe, que limitei-me a balançar a cabeça afirmativamente.

                        Achar-me com Teseu, às escondidas do meu pai, na calada da noite, foi a prova inequívoca do quanto eu estava perdida. Mas, eu estava decidida a seguir o meu desejo, a minha paixão, a minha intuição. Resolvi, ao contrário do que sempre costumara acontecer, fazer escolhas sem sequer bem compreendê-las, nem dimensioná-las. Estava, sem dúvida, fora do meu juízo, do meu “normal”. Isso, ao mesmo tempo em que me angustiava, era motivo de júbilo, por significar que algo de muito importante estava acontecendo comigo.

                        Quando todos estavam dormindo, à exceção do corpo de guarda que vigiava atentamente os jovens cretenses, dirigi-me sorrateiramente ao calabouço e tive uma rápida conversa com Teseu. De início, ele ficou muito perturbado com a proposta que fiz, mas depois, por motivos que só mais tarde eu iria entender, aceitou pensar sobre ela, que consistia em retribuir a minha ajuda com um simples favor: se casar comigo, depois que fugíssemos de Creta, o que permitiria, na minha vã esperança, criar um clima de harmonia entre as nossas cidades natais, interrompendo aquele colheita anual de sangue de jovens indefesos.

                        Então, numa prova de confiança, entreguei-lhe o rolo que havia recebido à tarde de Dédalo, bem como lhe instruí a respeito do correto uso, sob pena de ele ficar confinado para sempre no interior do labirinto, isso no caso de ele conseguir derrotar o monstro, tarefa que ele estava bastante confiante de obter sucesso. Segurando com afeto as mãos daquele que poderia vir a ser o meu herói, desejei-lhe boa sorte e voltei aos meus aposentos com uma forte dor no peito, pois não sabia se o veria de novo…

                        Esperar silenciosamente por Teseu foi uma das maiores torturas que passei, afinal não podia compartilhar com ninguém o que estava acontecendo comigo. A alegria dos meus conterrâneos com os festejos aumentava terrivelmente o meu pesar. Depois que eles foram confinados no labirinto, já tinham se passado várias horas, o que aumentava terrivelmente a minha angústia, a minha ansiedade. Para ocupar a minha mente, arrumei alguns dos meus pertences mais valiosos, aqueles que me eram mais importantes, e coloquei num baú que havia sido um presente da rainha no meu aniversário de 15 anos, juntamente com um colar de pedras de diamante com rubi. A minha ausência no festivo almoço oferecido pelo meu pai aos nobres foi justificada devido a uma indisposição generalizada.

                        Para aumentar a minha tribulação, fui invadida por uma terrível constatação: caso Teseu consiga matar meu meio-irmão e encontrar a saída do labirinto, com a ajuda do fio que Dédalo havia me concedido, ele não terá como me avisar. Assim, vesti as roupas de minha escrava e segui ao porto, pois o navio que o trouxe estava lá ancorado. As roupas e jóias ganhas de nada valiam ante à possibilidade de ser livre, embora eu não tivesse a menor idéia do que isso significava. Caso ele não aparecesse, eu voltaria para o castelo e continuaria a minha vida.

                        Não tinha comido nada durante todo o dia, mas não sentia fome, só um pouco de sede. Lembrei-me, então, das inúmeras opções de bebida que me aguardavam na minha suntuosa casa, ao contrário da maioria dos habitantes da cidade, que pegava água de qualidade duvidosa num lago distante mais de 2km do centro. Só então, percebi o quão difícil é a vida do povo, conforme algumas vezes tinha me dito mamãe. Realmente, poucas são as pessoas que usufruem a diversidade de alternativas, pois essas raramente estão disponíveis para aquelas. Sim, eu era uma privilegiada, sem dúvida, pelo menos do ponto de vista material. Porém, eu acreditava que a vida é bem mais do que poder, luxo e status. E era exatamente essas outras coisas que eu estava querendo descobrir!

                        Deitada sobre a relva, debaixo de uma frondosa oliveira, angustiada pela incerteza da volta do amado, pus-me a indagar sobre a busca da liberdade. Eu desejava ser livre, semelhante aos pássaros que cruzam o azul do céu, voando de um lado para outro; Teseu almejava libertar seu povo do jugo imposto pelo meu pai e construir um reino próspero; o Minotauro, talvez, gostaria de sair do labirinto, se é que ele sabia que existia um mundo fora dele…

                        No final da tarde, quando eu já me preparava para desistir, percebi uma pessoa correndo rapidamente em direção ao porto. Por ser muito longe de onde me encontrava, limitei-me a esperar uma maior aproximação. Que susto eu tomei quando constatei que a capa do jovem que vinha me era conhecida: a mesma que Teseu vestia na noite anterior. Então, nós dois muito assustados – eu por vê-lo vivo, ele por me encontrar próxima ao seu barco –, seguimos em disparada até o portal do paraíso para zarpar em direção à sua terra, que deveria ser a minha nova morada muito em breve.

                        A viagem começou tranqüila, embora eu não coubesse em mim de felicidade, curtindo aquela carta de alforria, generosamente concedida pelos deuses. Já era alta noite, quando paramos em Naxos para descansar um pouco e jantar. Pouco nos falamos e nas raras vezes em que trocamos olhares, o semblante de Teseu não me era agradável, mas imaginei que ele estivesse exausto depois de ter esquadrinhado os traiçoeiros corredores do labirinto e ter lutado bravamente com o Minotauro. Depois da refeição, ele me acompanhou até a barraca onde eu dormiria, despediu-se com um beijo terno na minha mão e desejou-me boa noite. Amanhã, com certeza, tudo seria diferente!

 

                        Por Cupido, o que diria minha ama de leite se estivesse aqui e pudesse receber minha cabeça e meu frágil corpo sobre o seu colo? Quão tola fui ao me apegar às crenças, aos sentimentos, reputando-os como imutáveis! Até quando continuarei submetida aos fatos que ocorrem alheios à minha vontade?

 

                        Ao amanhecer, um silêncio profundo pairava do lado de fora do meu modesto abrigo, composto de um tapete persa e alguns travesseiros coloridos: tão diferente do conforto e da pompa do meu quarto! Apesar disso, um sono profundo tinha me visitado e eu me sentia disposta, pronta para continuar a jornada. Fiquei mais alguns instantes deitada, imaginando se alguém viria me acordar. Depois de muito esperar, decidi sair: minhas pernas começaram a tremer, minha boca secou, meus olhos se encheram dágua, mas era verdade: o barco não estava mais ancorado, ele havia partido e tinha me deixado sozinha nessa ilha deserta! Após alguns minutos parada como estátua, em que relutava para acreditar no óbvio, encontro, do lado de fora da barraca, uma cesta com algumas frutas e água. Melhor teria sido se ele não tivesse me deixado nada, assim eu morreria mais depressa.

                        Renunciei à vida de princesa para viver com aquele jovem desconhecido e fiquei sem passado – não mais poderia retornar à cidade natal, pois meu pai já devia ter descoberto que conspirei contra ele – e sem futuro, pois fui abandonada por aquele aventureiro, antes mesmo que pudesse usufruir das alegrias da minha escolha! Então, aos poucos, comecei a recapitular toda a minha aventura e percebi o quanto havia sido ingênua confiando a minha vida a uma pessoa que nunca havia visto antes!

                        Teseu, infelizmente, não havia sido um cavalheiro, pois ele mentira para mim. Pensando bem, que outra opção ele tinha? Desejoso de retornar vitorioso à sua cidade, ele seria capaz de tudo. O que dizer, então, de mentir? Não sei se eu teria lhe entregue o novelo de fio se ele tivesse me dito a verdade. Que tragédia é uma guerra, pois traz à tona o que as pessoas têm de pior. Na busca pela sobrevivência, o instinto de preservação falta mais alto.

                        Foi naquele instante que comecei a compreender o que minha mãe dizia sobre ser difícil estabelecer um equilíbrio, uma harmonia entre interesses tão díspares, principalmente quando eles se excluem. Infelizmente, existem momentos na nossa vida em que os sentimentos eclodem de forma muito intensa e, se resolvemos segui-los, as estradas são abandonadas e trilhas virgens são desbravadas.

                        Ouvira dizer, também, que a aventura e o prazer são tanto maiores quanto menos nós pararmos para analisar o que está acontecendo. Decidida a descobrir mais sobre a vida, assumi o risco da dor, não acreditando que ela pudesse vir tão cedo a ser minha única companheira nessa ilha inabitada. Era terrível aceitar a idéia de que eu nada poderia fazer, a não ser esperar. Lembrei-me, então, dos meus irmãos e na tentativa de criar alternativas e buscar horizontes pus-me, mais uma vez, a brincar de pula-pula mental.

                        Inspirada no Minotauro, compreendi que, assim como ele, eu estava num labirinto. A diferença é que este era aberto ao céu. Mas, me sentia frágil e indefesa e sem ânimo para sair de onde estava. Quando me lembrei de Androgeu, no seu espírito guerreiro, destemido, levantei-me rapidamente e decidi partir imediatamente para explorá-lo, investigá-lo, ao invés de ficar à mercê dos acontecimentos, os quais se pronunciavam como bastante improváveis. Fedra, com sua mente incrivelmente prática e utilitária, ajudar-me-ia a encontrar nesse novo ambiente aquilo que seria necessário para me manter viva, enquanto não surgisse alguém para me resgatar, hipótese um tanto quanto otimista, tendo em vista que aquele local era fora dos principais roteiros de navegação.

 

                        Que outras surpresas ainda me reservará a vida, mãe misteriosa, dotada de inúmeros caprichos, cada qual mais fascinante que os demais?

 

                        Após vários dias de intensas e cansativas excursões, numa tarde em que o sol brincava de se esconder atrás das nuvens brancas, ouço a voz de alguém. Ao sair da minha tenda, deparei-me com uma figura exótica, acompanhada de alguns serviçais. Ele me convidou para passear na praia, e tendo em vista que eu não tinha nada mais importante para fazer, decidi caminhar um pouco na sua companhia.

                        Durante o trajeto, ele se apresentou como Baco, o deus do vinho, falou um pouco das suas aventuras e conquistas, o que me fez imaginar (e temer) que estivesse diante de um outro Teseu. Com muita polidez, ele me indagou o que eu fazia sozinha numa ilheta perdida no meio do mar. Respirei fundo e lhe falei de como era a minha vida em Creta, do meu sonho de conhecer o mundo, do encontro com Teseu e, finalmente, da sua fuga.

                        Atônito, em virtude de tudo que ouvira, permaneceu calado por um bom tempo, o que me permitiu concluir que aquele relato, embora desagradável para mim, havia sido importante, por ter me possibilitado elaborar um discurso, forçando-me a sair do silêncio externo imposto pelas circunstâncias. O fato de ser introspectiva não significava que eu não gostasse de prosar com as pessoas, embora deva confessar que sou exigente na escolha dos interlocutores.

                        Quando, enfim, retornamos à minha singela morada, ele me convidou para visitá-lo mais tarde, para degustar uma ceia, uma vez que estava acampado há cerca de 1km dali. Pedi-lhe que enviasse um emissário no final da tarde para receber a resposta, pois, não ficaria bem para mim, aceitar, de imediato, o convite. Isso era algo que havia aprendido nas minhas aulas na corte: a cautela é uma boa e fiel amiga nos momentos iniciais de qualquer empreendimento. E, sem dúvida alguma, a minha situação se enquadrava nesse parâmetro. Ademais, a recente experiência amorosa com Teseu houvera me ensinado a ser menos impulsiva e um pouco mais prudente.

                        É claro que o fato de a cesta com provimentos estar vazia era um bom incentivo para consentir com a oportunidade de me alimentar decentemente, depois de tanta privação. A isso, soma-se o fato de que eu estava me sentido muito só e precisando de companhia. Infelizmente, eu não havia trazido nenhuma roupa para a ocasião, o que fez com que a minha produção para o encontro se resumisse a algumas flores que coloquei no meu cabelo, que tinham a dupla função de adorná-lo e perfumá-lo.

                        No jantar, depois de termos comido peixe assado com frutas, e, é claro, termos bebido muito vinho, ele se declarou para mim e me pediu em casamento. Perplexa e surpresa, pois nunca imaginara que tudo entre nós aconteceria tão rápido, principalmente depois do desastre que foi minha tentativa anterior. Mas, a proposta havia sido feita e eu não tinha muito tempo para ficar divagando, pois ele me fitava profundamente, esperando a minha resposta.

                        Que perspectivas tinha eu? Por quantos dias eu ainda conseguiria me manter viva naquele local? Dificilmente, ele aceitaria me levar dali se eu recussasse a sua oferta. Além disso, eu não poderia me dar ao luxo de rejeitar a chance de me casar com um deus, algo inusitado, que nunca fizera parte das minhas cogitações. Se o que eu desejava era conhecer o mundo, ir além do que se apresentava como definitivo, talvez essa oportunidade não devesse ser desprezada, ainda mais tendo em vista a minha situação caótica. Assim, depois de tomar mais dois longos goles daquela bebida afrodisíaca, comuniquei-lhe a minha decisão: “Sim, eu aceito!”.

                        É verdade que eu pouco sabia sobre o passado do meu pretendente. Eu não tinha como averiguar a veracidade do que ele tinha me dito. Eu precisava, mais uma vez, assumir os riscos, mesmo que desconhecidos, daquela decisão. Por isso, é que abraçei (e beijei) a chance que os céus me deram de me unir a Baco. Bem sabia que ele não era um exemplo de deus (afinal, o vinho era o seu maior companheiro!), mas ele deveria ter seus méritos, suas qualidades, os quais me propiciariam momentos de alegria. Afinal, eu sempre soube que a perfeição não era privilégio de ninguém, nem mesmo dos deuses…

                        O mais importante que aprendi com essa aventura, a qual eu discorri apenas em alguns detalhes, foi que ao fazer escolhas, por mais que acredite ter contemplado todas as opções, existe sempre o risco de não considerar o universo de possibilidades, que costuma se manter escondido, à espera de uma chance de se revelar em sua plenitude. E mais: que o resultado nunca é o esperado, tão pouco o final. Descobrir-me polivalente, dotada de uma versatilidade (mental, emocional e espiritual) foi uma conquista. O que me importa, desde então, é prosseguir, com esperança e confiança renovadas, afinal o imprevisível, o inesperado pode estar em qualquer lugar, despertando de um sono profundo!

                               Por um fio, foi assim que a minha vida ficou…

 

BIBLIOGRAFIA INSPIRADORA

 

ARIADNE. In: DICIONÁRIO de mitos literários. Verbete escrito por André Peyronie. Direção do professor Pierre Brunel. Tradução Carlos Sussekind et al.. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. p. 82-88.

CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Tradução Vera da Costa e Silva. 6. ed. Rio de Janeiro: José Olympo, 1992.

KAZANTZAKIS, Nikos. At the Palaces of Knossos. Translation Theodora and Themi Vasils. Ohio: Ohio University Press, 1988.

MÉNARD, René. Mitologia greco-romana. Tradução Aldo Della Nina. Vol. 3. São Paulo: Opus, 1991. p. 187-196.