Conhecimento Virtual
por Eduardo Loureiro Jr.

"Ter uma idéia é uma espécie de festa"
(Gilles Deleuze)

Numa de suas conferências, Deleuze declarou que a função da filosofia era trabalhar as idéias com conceitos, a do cinema era trabalhá-las com movimentos e a da ciência com conjuntos ou correspondências de conjuntos. O limite de todos esses trabalhos (filosofia, ciência, cinema, religião, arte...) seria o espaço-tempo, e a idéia precederia todos os conceitos e formas com que é trabalhada.

Pergunto-me então que conhecimento se basearia apenas na idéia, sem operá-la com conceitos, conjuntos ou outra forma específica qualquer? A idéia em si, ter idéias, jogar idéias, provocar idéias... Um conhecimento baseado em idéias sem querer traduzi-las na formalidade de uma linguagem específica. Usar qualquer linguagem. Uma idosofia. Uma idência. Uma Idarte.

Tentarei me aproximar de um tal tipo de conhecimento me servindo da caracterização do que seja o virtual na obra de Pierre Lévy. O objetivo básico é propor uma virtualização do conhecimento: "A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. Consiste em uma passagem do atual ao virtual, em uma 'elevação à potência' da entidade considerada [...] em vez de se definir principalmente por sua atualidade ("uma solução"), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num corpo problemático." (Lévy, 1996: 18-19)

Para não incorrer na contradição de fazer uma proposição conceitual de um tipo de conhecimento que se pretende não conceitual, organizarei o presente texto da seguinte forma: uma alternância entre citações relacionadas ao virtual e pequenas intuições minhas sobre o que seria um conhecimento virtual. Mais do que definições, aforismos.

...

"a virtualização fluidifica as distinções instituídas, aumenta os graus de liberdade, cria um vazio motor." (Lévy, 1996: 19)

O conhecimento virtual é livre, pode ser praticado por qualquer pessoa conscientemente. Inconscientemente, suponho que todos pratiquem o conhecimento virtual, apesar de não haver meios nem necessidade de provar isso.

"A virtualização reinventa uma cultura nômade, não por uma volta ao paleolítico nem às antigas civilizações de pastores, mas fazendo surgir um meio de interações sociais onde as relações se reconfiguram com um mínimo de inércia." (Lévy, 1996: 20-21)

O conhecimento virtual é fluido, adota formas diferentes dependendo do meio e tem uma tendência ao movimento.

"Além da desterritorialização, um outro caráter é freqüentemente associado à virtualização: a passagem do interior ao exterior e do exterior ao interior. Esse "efeito Moebius" declina-se em vários registros: o das relações entre privado e público, próprio e comum, subjetivo e objetivo, mapa e território, autor e leitor etc." (Lévy, 1996: 24)

O conhecimento virtual não comporta sujeitos e objetos. É impossível conhecer sem ser ao mesmo tempo conhecido.

"A constituição de um corpo coletivo e a participação dos indivíduos nessa comunidade física serviu-se por muito tempo de mediações puramente simbólicas ou religiosas: "Isto é meu corpo, isto é meu sangue'. Hoje ela recorre a meios técnicos." (Lévy, 1996: 31)

O conhecimento virtual é experiência de ser em conjunto, consciente ou inconsciente.

"Meu corpo pessoal é a atualização temporária de um enorme hipercorpo híbrido, social e tecnobiológico." (Lévy, 1996: 33)

A conscientização e a tentativa de definição do conhecimento virtual a partir de indivíduos ou individualizações do coletivo não tem nenhuma garantia de eficiência prática e pode ser comparada às mutações caóticas que acontecem em organismos com experiência estável e satisfatória.

"Não é mais o sentido do texto que nos ocupa, mas a direção e a elaboração de nosso pensamento, a precisão de nossa imagem do mundo, a culminação de nossos projetos, o despertar de nossos prazeres, o fio de nossos sonhos." (Lévy, 1996: 36)

O conhecimento virtual nunca esgota seu processo. Conhecer virtualmente é menos absorver aquilo que preexiste, e mais estar em sintonia com aquilo que está sendo continuamente criado e recriado.

"É talvez porque não sou mais o que sei que posso recolocar este saber em questão." (Lévy, 1996: 38)

"O ideal da inteligência coletiva não é evidentemente difundir a ciência e as artes no conjunto da sociedade, desqualificando ao mesmo tempo outros tipos de conhecimento ou de sensibilidade. É reconhecer que a diversidade das atividades humanas, sem nenhuma exclusão, pode e deve ser considerada, tratada, vivida como "cultura', no sentido que acabamos de evocar. Em conseqüência, cada ser humano poderia, deveria ser respeitado como um artista ou um pesquisador numa república dos espíritos." (Lévy, 1996: 120)

Não é possível quantificar, nem talvez qualificar a relação de qualquer indivíduo com o conhecimento virtual. Não existe saber mais, nem talvez saber melhor, virtualmente. É como se todo o saber girasse em infinitos microciclos, sendo impossível determinar a posição e a velocidade do indivíduo em relação ao todo do conhecimento virtual. Aferições de conhecimento virtual são completamente arbitrárias e não devem estar vinculadas a qualquer tipo de privilégio.

"o suporte digital permite novos tipos de leituras (e de escritas) coletivas. Um continuum variado se estende assim entre a leitura individual de um texto preciso e a navegação em vastas redes digitais no interior das quais um grande número de pessoas anota, aumenta, conecta os textos uns aos outros por meio de ligações hipertextuais." (Lévy, 1996: 43)

"o hipertexto digital seria portanto definido como uma coleção de informações multimodais disposta em rede para a navegação rápida e "intuitiva"."(Lévy, 1996: 44)

O conhecimento virtual não apresenta forma de expressão definida ou preferencial. Palavras, sons, imagens, gestos... são designadores igualmente válidos e sem qualquer hierarquia.

"No limite, só há hoje um único computador, um único suporte para texto, mas tornou-se impossível traçar seus limites, fixar seu contorno. É um computador cujo centro está em toda parte e a circunferência em nenhuma, um computador hipertextual, disperso, vivo, pululante, inacabado, virtual, um computador de Babel. o próprio ciberespaço." (Lévy, 1996: 47)

"Longe de circunscrever o reino da mentira, o virtual é precisamente o modo de existência de que surgem tanto a verdade como a mentira. (Lévy, 1996: 148)

O conhecimento virtual, seja um todo que tudo abrange, um todo entre outros todos ou um todo rodeado de não-todos, possui plena fluência vital. Toda incoerência declarada, toda alegação de mentira ou falsidade é sempre ignorância da parte que conhece, sua incapacidade de se comunicar ou ainda um ruído no entendimento da audiência. Toda coerência pretendida, toda afirmação de verdade é sempre orgulho da parte que conhece, sua manipulação da comunicação ou uma inércia da audiência.

"Até a segunda metade do século XX, uma pessoa praticava no final de sua carreira as competências adquiridas em sua juventude. Mais do que isto, transmitia geralmente seu saber, quase inalterado, a seus filhos ou a aprendizes. Hoje, esse esquema está em grande parte obsoleto. As pessoas não apenas são levadas a mudar várias vezes de profissão em sua vida, como também, no interior da mesma "profissão", os conhecimentos têm um cicio de renovação cada vez mais curto (três anos, ou até menos, em informática, por exemplo). Tornou-se difícil designar as competências "de base" num domínio." (Lévy, 1996: 54)

O conhecimento virtual não admite especializações que visem a dominá-lo por partes.

"O saber prendia-se ao fundamento, hoje se mostra como figura móvel. Tendia para a contemplação, para o imutável, ei-lo agora transformado em fluxo, alimentando as operações eficazes, ele próprio operação. [...] "os novos recursos chaves são regidos por duas leis que tomam pelo avesso os conceitos e os raciocínios econômicos clássicos: consumi-los não os destrói, e cedê-los não faz com que sejam perdidos." [...] "se transmito a você uma informação, não a perco, e se a utilizo, não a destruo." (Lévy, 1996: 55)

O conhecimento virtual não pode ser negociado nem abrigado em blocos menores para consumo.

"a hora uniforme do relógio não é mais a unidade pertinente para a medida do trabalho. Essa inadequação há muito era flagrante para a atividade dos artistas e dos intelectuais, mas hoje se estende progressivamente ao conjunto das atividades." (Lévy, 1996: 61)

Não existe hora nem local para a prática do conhecimento virtual. Tampouco para a teoria. O conhecimento virtual não admite o par prática-teoria. Pensamentos, palavras, atos e omissões se equivalem.

"a mensagem sobre o acontecimento é ao mesmo tempo e indissoluvelmente uma seqüência do acontecimento." (Lévy, 1996: 58)

"essas formulações são mais uma metáfora do que uma caracterização conceitualmente rigorosa." (Lévy, 1996: 66)

Todo ato encorpa o conhecimento virtual mas nenhum o define.

"Qualquer ato humano é um momento do processo de pensamento e de emoção de um megapsiquismo fractal e poderia ser valorizado e até remunerado enquanto tal. Se todos os atos pudessem ser captados, transmitidos, integrados a circuitos de regulação e devolvidos a seus produtores, e participassem deste modo de uma melhor informação global da sociedade sobre si mesma, a inteligência coletiva conheceria uma enorme mutação qualitativa da maior importância." (Lévy, 1996: 69)

A vivência consciente do conhecimento virtual pressupõe uma ética universal.

"A linguagem, em primeiro lugar, virtualiza um "tempo real" que mantém aquilo que está vivo prisioneiro do aqui e agora. Com isso, ela inaugura o passado, o futuro e, no geral, o Tempo como um reino em si, uma extensão provida de sua própria consistência. A partir da invenção da linguagem, nós, humanos, passamos a habitar um espaço virtual, o fluxo temporal tomado como um todo, que o imediato presente atualiza apenas parcialmente, fugazmente. Nós existimos." (Lévy, 1996: 70)

O conhecimento virtual se dá por uma suspensão do ser e do estar. Quando conhecemos virtualmente, estamos em qualquer lugar e somos qualquer ser.

"Arriscaremos uma resposta positiva a essa questão, mas apenas parcial e bastante geral. Ela não dispensa, em cada caso particular, nem uma descoberta audaciosa, nem uma construção coletiva longa e trabalhosa." (Lévy, 1996: 81)

O conhecimento virtual não se atualiza como autoridade, mas sempre pede colaboração. Não é passível de repasse ou transferência, mas sempre de troca.

"A invenção suprema é a de um problema, a abertura de um vazio no meio do real." (Lévy, 1996: 94)

O conhecimento virtual é sempre um problema, não no sentido da problemática, da conceitualização em torno de uma questão, mas no sentido da própria questão, da própria dúvida, do não saber e do não saber-se.

"Jamais pensamos sozinhos, mas sempre na corrente de um diálogo ou multidiálogo, real ou imaginado." (Lévy, 1996: 97)

O conhecimento virtual não se dá a um sujeito cognoscitivo individual mas a reflexões surgidas nas relações.

"O universo de coisas e de ferramentas que nos cerca e que compartilhamos pensa dentro de nós de mil maneiras diferentes." (Lévy, 1996: 98)

O conhecimento virtual não é privilégio dos seres humanos, mas de tudo o que existe.

"Como diz Gilles Deleuze, o interior é uma dobra do exterior." (Lévy, 1996: 106)

O conhecimento virtual é o sempre externo, sua atualização é o sempre interno. Essas identidades não se dão fixamente em nenhum tempo ou lugar.

"não existem limites a priori para a eclosão de novos tipos de afetos, como tampouco existem limites para a produção de objetos ou de paisagens inéditas. Poder-se-ia mesmo falar de uma inventividade afetiva. A classificação ordinária das emoções (medo, amor etc.) apresenta portanto apenas uma lista restrita e bastante simplificada dos tipos de afetos." (Lévy, 1996: 108)

O conhecimento virtual só é limitado pela nossa imaginação do que ele possa ser. Ele é a onisciência de Deus.

"há uma qualidade difundida em diversos graus em todos os tipos de espíritos mas que as sociedades humanas (e não mais os indivíduos) exemplificam melhor que as outras: a de refletir o todo do espírito coletivo, cada vez diferentemente, em cada uma de suas partes. Os sistemas inteligentes são "holográficos" e os grupos humanos são os mais halográficos dos sistemas inteligentes. Como as mônadas de Leibniz ou as ocasiões atuais de Whitehead, as pessoas encarnam, cada uma delas, uma seleção, uma versão, uma visão particulares do mundo comum ou do psiquismo global." (Lévy, 1996: 110)

O conhecimento virtual é perfeitamente reconstituível a partir de qualquer uma de suas atualizações. É só puxar o fio do novelo, mesmo que ele não tenha fim.

"simples de enunciar mas difícil de resolver." (Lévy, 1996: 119)

O conhecimento virtual pode ser facilmente compreensível por qualquer pessoas. Toda dificuldade de comunicação decorre dos próprios mecanismos de comunicação. O conhecimento virtual não busca a resolução de problemas ou de si mesmo, busca o fluxo contínuo.

"Nas arquibancadas, fazer sociedade é ser a favor e contra, torcer por um time, aplaudir os seus, vaiar os outros. No campo, ao contrário, não é suficiente detestar o time adversário. É preciso estudá-lo, adivinhá-lo, prevê-lo, compreendê-lo. Sobretudo é preciso coordenar-se com a própria equipe em tempo real, reagir de maneira fina e rápida "como um só homem", embora sejam vários. Os espectadores têm necessidade de jogadores, as equipes não têm necessidade de espectadores." (Lévy, 1996: 122)

Não há conhecimento virtual bom ou ruim, tudo faz parte do mesmo fluxo de construção e desconstrução. Não se cria para depois destruir, ou vice-versa, criar é destruir, assim como destruir é criar, instantaneamente.

"Para desempenhar seu papel antropológico, o objeto deve passar de mão em mão, de sujeito a sujeito, e subtrair-se à apropriação territorial, à identificação a um nome, à exclusividade ou à exclusão." (Lévy, 1996: 123)

O conhecimento virtual não admite qualquer espécie de propriedade. Seus produtos não deveriam admiti-lo tampouco.

"Se a virtualização for bloqueada, a alienação se instala, os fins não podem mais ser reinstituídos, nem a heterogênese cumprida: maquinações vivas, abertas, em devir, transformam-se de súbito em mecanismos mortos. Se for cortada a atualização, as idéias, os fins, os problemas tornam-se bruscamente estéreis, incapazes de resultar na ação inventiva. A inibição da potencialização conduz infalivelmente ao sufocamento, ao esgotamento, à extinção dos processos vivos. Se for impedida a realização, enfim, os processos perdem sua base, seu suporte, seu ponto de apoio, eles se desencarnam. Todas as transformações são necessárias e complementares umas das outras." (Lévy, 1996: 140-141)

O conhecimento virtual não teme o fim do próprio conhecimento virtual, assim como a vida não teme o fim da vida.

"Aliás, por mais duráveis que sejam, não podem as coisas mais estáveis ser interpretadas como acontecimentos em relação a uma duração que as ultrapassa, como a existência de montanhas na escala da história da Terra?" (Lévy, 1996: 144)

O conhecimento virtual, que nos parece tão grandioso e impalpável, há de ser para alguém, em algum lugar e em algum tempo, tão ínfimo quanto uma nota numa coluna de jornal.

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Tenho duas discordâncias básicas com relação ao pensamento de Lévy em "O que é o virtual?"

"A formiga não somente recebe menos que o humano da inteligência social, como também, simetricamente, contribui para ela apenas numa fraca medida." (Lévy, 1996: 111)

Primeira. Acredito que a distinção que ele faz entre os coletivos humanos e os coletivos animais (como as abelhas e as formigas) é meramente cultural. Quando for criada a antropologia das espécies, teremos que pedir desculpas a esses animais que julgamos menos inteligentes e incapazes de reflexão e comunicação.

"Abandonar totalmente qualquer pretensão à propriedade sobre os programas e a informação, como certos ativistas da rede propõem, seria arriscar-se a voltar aquém da invenção do direito autoral e da patente". (Lévy, 1996: 64)

Segunda. Acredito que o processo crescente de virtualização oferece à humanidade a possibilidade de viver segundo a capacidade e a necessidade de cada um. O direito autoral é um resquício de propriedade. O único a ter direitos é o próprio conhecimento, e o seu direito se resume a fluir.

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Acho que está bem claro o caráter utópico do conhecimento virtual defendido neste texto. Ele não contrasta, preto e branco, com o conhecimento que temos hoje. Há toda uma escala de cinza em que vivemos. Isso não é justificativa para uma conquista gradual do virtual, que é por si só refratário a planejamento. Não há que se seguir ninguém para chegar a lugar algum. O conhecimento virtual não é meta nem horizonte.

Novembro de 2000
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