Digitalizar é criar encruzilhadas num labirinto
por Eduardo Loureiro Jr.
eduardo@patio.com.br

[O presente texto é resultado de uma leitura bifurcativa do seguinte livro: LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34, 1999. 264 p. (Coleção TRANS)]

Imagine um mundo em que não houvesse arrependimento, em que ao invés de se lamentar pelo que fizeram ou deixaram de fazer as pessoas simplesmente pudessem voltar atrás, passo após passo, até o lugar, ou o tempo, em que gostariam de tomar um rumo diferente.

Imagine não um video game, em que se tem muitas vidas e se pode recomeçar tudo do zero, mas um mundo completamente reversível, sem ponto de chegada, sem recordes, sem fases predeterminadas, com infinitas possibilidades de caminhos, e de caminhos dentro dos caminhos.

Em qualquer programa de computador, é possível andar para trás, desfazer a última ação, e mais outra, e mais outra... e também é possível andar para frente, salvando como, experimentando como seria assim e como seria assado.

Essa ampliação das possibilidades se deve, paradoxalmente, a uma redução da informação a apenas dois números. "Não importa qual é o tipo de informação ou de mensagem: se pode ser explicitada ou medida, pode ser traduzida digitalmente", afirma Pierre Lévy (1999: 50). E continua: "Digitalizar uma informação consiste em traduzi-la em números." (1999: 50) E arremata: "Ora, todos os números podem ser expressos em linguagem binária, sob forma de 0 e 1. Portanto, no limite, todas as informações podem ser representadas por esse sistema." (1999: 51)

O sistema binário é tão comum à matemática quanto à nossa vida biológica (sol e lua, dia e noite, vigília e sono), ou à religião (bem e mal), ou à filosofia (verdadeiro e falso), ou à ciência (fato e ficção), ou à arte (belo e feio), ou... ou... ou... ou...

Nossa relação com a dubiedade da vida vai da contemplação à intervenção, da submissão à interferência. Uma de nossas aliadas na possibilidade, se não de domínio, pelo menos de escolha é a memória. A memória indica o limite, o tamanho do fio que podemos desenrolar no nosso caminho de ir e vir, arriscando passos, avançando com sucesso, ou recuando, experimentando um desvio que ficou para trás.

Quanto mais memória temos, mais podemos desfazer ações e nos dar ao luxo de perder tempo simulando futuros. Quanto mais memória, menos maniqueísmo, menos polarização, menos oposição, cada bem se divide em vários bens, cada mal em vários males, cada sol em tantas estrelas, cada lua em tantas fases, cada vigília em diversas atividades, cada sono em diversos sonhos, cada verdade em tons de verdades, cada falsidade em tons de mentiras, cada fato em múltiplas interpretações, cada ficção em múltiplas viagens, cada belo em numerosos detalhes, cada feio em numerosas mutações. "O anel de Moebius, passagem contínua e insensível de uma ordem de realidade a outra: do signo à coisa, depois da coisa ao signo, da imagem ao caractere, depois do caractere à imagem, da leitura à escrita, depois da escrita à leitura." (Lévy, 1999: 78)

Assim como uma única célula fecundada se divide, se bifurca, se diferencia, também o mundo para nós — talvez um imenso borrão original indistinto e inacessível para nossa memória, talvez um monolito esculpido com a paciência de 2001 bilhões de anos — vai se deixando arar, furar, pelo cinzel de nossa dualidade. Somos feito formigas cavando túneis num espaço de que desconhecemos os limites.

"Existem menos gestos do que pessoas no mundo. Pessoas não possuem gestos. Gestos possuem pessoas", dizia Roberto Marques, não sei se citando ou parodiando Milan Kundera. Mas o possuidor é sempre o que está em menor quantidade.

Até aqui fomos nós que bifurcamos o mundo, que traçamos nosso destino. Mas com o avanço da digitalização, com a informação (cada palavra, cada som, cada imagem) sendo um imenso labirinto de zeros e uns, de corredores e paredes, há mais encruzilhadas no mundo do que seis bilhões.

Encruzilhadas não possuem pessoas, não definem a hora de dormir e de acordar, o belo e o feio, o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o fato e a ficção. Pessoas possuem encruzilhadas, serviços 24h, quatro turnos de trabalho, são atraídas pelo exótico e pelo grotesco, alteram enquanto observadores a realidade observada, relativizam o mal que sempre dura e o bem que nunca acaba, profetizam com ficção científica.

Quem não se perde é que está perdido. "A inteligência coletiva que favorece a cibercultura é ao mesmo tempo um veneno para aqueles que dela não participam (e ninguém pode participar completamente dela, de tão vasta e multiforme que é) e um remédio para aqueles que mergulham em seus turbilhões e conseguem controlar a própria deriva no meio de suas correntes." (Lévy, 1999: 30)

Somos percorridos pelo labirinto tanto quanto o percorremos. "A digitalização introduz uma pequena revolução copernicana: não é mais o navegador que segue os instrumentos de leitura e se desloca fisicamente no hipertexto, virando as páginas, deslocando volumes pesados, percorrendo a biblioteca. Agora é um texto móvel, caleidoscópico, que apresenta suas facetas, gira, dobra-se e desdobra-se à vontade frente ao leitor." (Lévy, 1999: 56) Somos não apenas Teseu, mas o Minotauro, que mesmo não podendo sair da construção, do vício da vida, sabe a hora e o lugar de abocanhar a presa, garantir a sobrevivência.

E o labirinto perfeito é o de Borges, o deserto, onde são tão finas as paredes e tantas as encruzilhadas, que parece que não há nada, "uma civilização da telepresença generalizada" (Lévy, 1999: 127). "Nagarjuna (o grande filósofo budista do "caminho do meio") (Lévy, 1999: 91) confirma Borges, mesmo tendo vivido antes dele:

"Para quem quer que a vacuidade seja possível,
Todos os significados são possíveis.
A vacuidade e o surgimento interdependente
São o mesmo no caminho do meio."
(Mulamadhyamakakarika XXIV)

O caminho do meio é a parede que já não existe entre as encruzilhadas.

Encruzilhadas que geram encruzilhadas como coelhos que gerassem coelhos até produzir uma raça de carne tão leve, tão sem calorias, que se confundiria com a água. "Um universo indeterminado e que tende a manter sua indeterminação, pois cada novo nó da rede de redes em expansão constante pode tornar-se produtor ou emissor de novas informações, imprevisíveis, e reorganizar uma parte da conectividade global por sua própria conta." (Lévy, 1999: 111) Um labirinto vivo, que nasceu, cresceu e se reproduz.

Um labirinto vivo que sobreviveu ao vírus da antibifurcação, da antiencruzilhada: "a totalização, ou seja, o fechamento semântico, a unidade da razão, a redução ao denominador comum etc." (Lévy, 1999: 117) Um labirinto feito não de tijolo e cimento, mas de rastros e pegadas, "registro de vestígios de interação ou de percurso que terminam constituindo a obra" (Lévy, 1999: 136)

Um labirinto que há de morrer em alguns bilhões de anos. "A essência das grandes rupturas ou dos verdadeiros 'progressos' não é [...] retornar paradoxalmente ao começo?" (Lévy, 1999: 155) E o começo não seria a ignorância, o não saber nada, o não saber-se diferenciado do enorme borrão? "A emergência do ciberespaço não significa de forma alguma que "tudo" pode enfim ser acessado, mas antes que o Todo está definitivamente fora de alcance." (Lévy, 1999: 161)

Um labirinto de que não somos espectadores, telespectadores. "O ciberespaço contém, de fato, aquilo que as pessoas nele colocam. A manutenção da diversidade cultural depende principalmente da capacidade de iniciativa de cada um de nós" (Lévy, 1999: 241). Um labirinto feito de nossa própria matéria, o tempo, "frágil, esse lado para cima". "Verdadeiros produtores inventam — muitas vezes de forma deliberada — uma civilização frágil, ameaçada" (Lévy, 1999: 127).

Tudo na mais perfeita ordem, registrado, passível de reprodução e retoque. Tudo na mais imperfeita desordem, com milhares de futuros de onde viemos, milhares de passados para onde vamos e milhares de presentes que pulamos como quem joga uma amarelinha infinita em seu vaivém. Um pé, dois pés, um pé, dois pés, infinitas pedras em infinitos números aleatórios. Cada macaca no seu galho, que é o galho alheio emprestado, alugado, invadido, nascido de outro galho, e outro, e mais outro, e ainda todos, sem tronco final.

"O ciberespaço se constrói em sistema de sistemas, mas, por esse mesmo fato, é também o sistema do caos. Encarnação máxima da transparência técnica, acolhe, por seu crescimento incontido, todas as opacidades de sentido. Desenha e redesenha várias vezes a figura de um labirinto móvel, em expansão, sem plano possível, universal, um labirinto com o qual o próprio Dédalo não teria sonhado. Essa universalidade desprovida de significado central, esse sistema de desordem, essa transparência labiríntica, chamo-a de "universal sem totalidade". Constitui a essência paradoxal da cibercultura." (Lévy, 1999: 111)

Pense duas vezes antes de agir. Aja duas vezes antes de pensar. Bifurque, diferencie, simule, salve como. "0 e 1: apagamento, substituição, separação, ordenação, desvio para determinado endereço de gravação ou canal de transmissão" (Lévy, 1999: 51). Cara e coroa, a bifurcação plana da moeda que, girando, parece uma esfera. Cinza. 250 tons de cinza. Redonda como a terra. Azul. Mas um azul microscopicamente encruzilhado, labirinto feito de 16 milhões de cores em movimento.

Janeiro de 2001

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