Educação dialógica pelas viagens de Teseu

Andréa Havt

 

O MITO DE TESEU

 

Era mais uma vez...

 

Teseu, um herói como muitos, salva Atenas do domínio de Creta. Mata o Minotauro e acaba com a obrigação do sacrifício de sete moças e sete rapazes. Cumpre, como em todo ritual de passagem, as etapas: da separação, afastando-se de seu mundo; da purificação, matando o que significava a morte para seu povo; e do retorno, como o salvador que devolve a Atenas sua liberdade. Mostra, ou simboliza, as transformações que devem ocorrer ao longo da vida de cada pessoa, para que se possa desenvolver adequadamente. Nos rituais, sabe-se aonde chegar: uma criança vira adulto, uma mulher se torna mãe, um estudante se gradua, um herói salva seu povo que se torna livre para ser o que é.

Por isso dizem que não há muito o que contar de um herói que “chega, vence e retorna” (Teseu, 1998: 875). Por isso dizem que heróis são todos iguais: meros sobreviventes para quem a vida é melhor que tudo. Como em filmes hollywoodianos, salvam-se e salvam seu povo, mesmo com sacrifício de outras pessoas “menos importantes”, com a destruição de prédios e carros, com a morte de um “monstro”. E tudo volta a ser como antes ou ainda mais perfeito.

Mas, fosse assim, as sociedades avançariam, mas não se transformariam e as pessoas não passariam de categorias: crianças imaturas virariam adultos maduros, mulheres maternais se tornariam mães dedicadas, estudantes esforçados seriam profissionais produtivos e competentes... Mas a gente sabe que não é bem assim. Mesmo idealmente não é só assim. Mesmo desejando que nossa educação seja uma garantia de vida bem adaptada à sociedade, não é só assim. Qualquer experiência, ritual ou não, é, ao menos potencialmente, muito mais rica. Há uma grande diferença entre você ter um diploma e melhorar uma sociedade que estatisticamente vai poder somar mais um pontinho no nível de escolarização de seu povo, o que é muito discutível, e tudo que se vive ao longo de uma graduação e o que se faz depois e com ela. Como é diferente um herói que retorna para ser coroado rei do herói que retorna e, ao ser coroado rei, “instaura” a democracia, famosa democracia ateniense, em seu reinado.

Mais que afirmações, a história do herói sugere perguntas, mais que certezas, convida a outras viagens, outras histórias, vários “e se”. Porque “... resta muito mais por ser experimentado do que será possível saber ou contar.” (Campbell, 1949: 15). A história de Teseu faz pensar sobre os vários labirintos: aquele que parece bem determinado dos rituais, mas pode ser indefinido a quem o experimenta; aquele que criamos ao percorrer nossas escolhas; aquele dos encontros, que nos desfiguram e nos fazem sempre outros, sempre Teseus, “que tem o destino daqueles para quem o acontecimento sucede, e o futuro daquele que se aventura.” (Teseu, 1998: 875)

Então...

 

Era uma vez...

 

Teseu, um jovem que chega a Atenas para conhecer seu pai, Egeu, descobre da submissão de seu futuro reino a Creta e se oferece para ser um dos viajantes que serão sacrificados pelo Minotauro. Mas por que correr o risco de sacrificar o futuro rei?

Coragem é a virtude do herói. “A pessoa corajosa não é a que jamais tem medo. (...) Herman Melville ilustra isso com perfeição na passagem de Moby Dick em que Starbuck, capitão do Pequod, se dirige à tripulação: ‘Não quero no meu barco nenhum homem que não tenha medo de baleia.’” (Bennett, 1995: 287).

Luiza de Teodoro falou dessa coragem na Reunião quinzenal dos Núcleos Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola e Educação, Currículo e Ensino (2000): “(...) essa coragem que faz a gente entrar no labirinto e saber que pode encontrar a morte e não ter medo da morte. E a morte ser um estímulo pra você continuar vivo. Porque pra mim essa questão do medo a criança é que sabe. Todos vocês se lembram mais do que eu quando foram crianças, porque estão mais perto disso, de como a gente gostava de ter medo. A gente adorava essas histórias que faziam medo a gente. Então, as crianças, por exemplo, elas vêem esses filmes horrorosos de televisão que eu não tenho mais coragem de ver (...) Mas menino fica ali vidrado e acha ótimo. Essa grandeza a gente vai perdendo. E quando eu vejo as professoras minhas alunas, que são a maioria de mulheres, (...) essas pessoas perderam a grandeza de ter medo. Elas têm um medo pequeno, esse medinho frouxo, esse medinho besta, esse medinho que faz você se agarrar nas coisas... qual é o próximo passo que eu vou dar? qual é o programa? qual é o currículo? qual é a nota? qual é o conteúdo? qual é a didática, se é antiga, se é nova? qual é o método mais recente? o que que é construtivista, o que que é desconstrutivista? (...) O medo é o medo de ser grande, é não ter coragem de inventar porque nunca ninguém fez isso, então, como é que eu vou fazer? que que vão dizer de mim? que que vão achar de mim? Eu tô tão machucada com essa pequenez de espaço, de pessoas que eu sei que são maravilhosas, que tão dando a vida por uma coisa que não dá prestígio social, que não dá dinheiro, que não dá pra você viajar pro exterior, que não dá nem pra você ir pra Miami. E você fica ali, todo dia trabalhando, e não consegue crescer interiormente, não consegue perceber em que labirinto está, e que aventura incrível e maravilhosa é estar nesse labirinto.

Covardia, e não o medo, é o contrário de coragem. “Quem tenta o suicídio pra valer, ou seja, pra morrer mesmo, é corajoso. (...) Um exemplo basta: Jesus Cristo. Aquilo de crucificação foi suicídio. Um que multiplica pães. Um que cura leprosos. Um que expulsa demônios. Um que ressuscita mortos... morrer numa cruz é brincadeira. Francamente. Aquilo foi suicídio. E de extrema coragem. (...) Covardia é ser na vida muito menos do que se nasceu para ser. Covardia é ser um Deus Glorioso quando se nasceu para ser um Deus Crucificado. Covardia é ser um profissional liberal quando se nasceu para ser sei-lá-o-que-que-nunca-se-vai-saber-pela-covardia.” (Loureiro Jr., 1995). Houve quem comparasse Teseu a Jesus por salvarem seus povos. Mas não seria Teseu, como Jesus, um suicida? Um que dispensa o conselho de sua mãe de ir por mar e vai para Atenas por terra, tendo de enfrentar vários bandidos que estavam matando seu povo. Um que desce ao inferno por lealdade a um amigo. Um que instaura a democracia... morrer num labirinto seria brincadeira. Francamente. Aquilo poderia ter sido suicídio. E de extrema coragem. Covardia é ser um Rei Protegido quando se nasceu para ser um Herói Glorioso.

E não seria o suicídio o primeiro passo para o aprendizado, para o conhecimento? Dispor-se a enfentrar o outro, o que não se sabe, isso que se poderia chamar curiosidade, não é um gesto de morte? Evitar as mortes, matar a curiosidade, não é um gesto de covardia? Covardia de não se deixar ser ou deixar que o outro seja o que nasceu para ser? E o que se nasceu para ser parece destino, pelas habilidades e talentos que se demonstra ter desde cedo, mas é também construção: o labirinto que se compõe pelas experiências. Temos sempre experiências dentro de experiências, experiências paralelas, experiências que se cruzam. Experiências que são encontros vividos entre muitos. Encontros com coisas, com pessoas e consigo mesmo.

Esses encontros chamo de diálogos. As experiências chamo de viagens. Não só por ter de fato envolvido deslocamentos espaciais de Teseu: de Trezena para Atenas, para Creta, de volta para a Atenas, passando por Naxos. Mas também porque a viagem segue o ritual de afastamento, experiência, talvez de purificação, e retorno. Porque, como para os rituais, coloca-se esse movimento entre “continuidade de um modelo/experiências transformadoras” na reflexão do papel do herói aprendiz e, portanto, da educação. Um bom exemplo disso está no livro/filme “O Turista Acidental” em que um homem trabalha viajando por vários lugares para elaborar roteiros que permitissem encontrar o tipicamente americano nos lugares mais distantes dos Estados Unidos. Até que ele se apaixona e começa a viajar por esses lugares que ele evitava, começa a dialogar com eles.

Dialogar é colocar-se em jogo. É permitir-se transformar a partir do outro. Como uma lagarta que, ao devorar uma folha, transforma e é transformada pela árvore. Dialogar é ser poesia, ser um dos elementos da metáfora que, ao entrar em contato com o outro elemento, se transforma porque pode adquirir novos significados. No cinema, para Howard e Mabley (1999), o diálogo mais se aproxima da realidade, mais toca o espectador, quando “revela personagens e leva a história adiante” e não quando fica dando explicações do que está acontecendo. Diálogo é ação. Ele envolve o corpo inteiro, o contexto e os indivíduos, toda a história da relação com o outro, coletiva e individual, reflete quem fala ao mesmo tempo que dá acesso a sua vida interior. Embora diálogo seja a parte falada do roteiro de cinema, ela só faz sentido e é melhor aproveitada quando incorporada ao conjunto da ação.

Comumente se defende a necessidade de diálogo, falando da necessidade de conversar para deixar claro o que pensamos e tornar acessível a nossa escuta para que o outro possa contar com uma opinião que se dispõe mais a explorar possibilidades do que efetuar julgamentos. Mas o diálogo não se realiza se o outro não é em si uma possibilidade. Numa relação dialógica, não há experiência ou autoridade que justifique o aconselhamento. Não é uma relação entre um que sabe e outro que precisa saber, nem mesmo o debate para saber quem tem razão, mas um cruzamento de duas linhas que, ao se tocarem, se confundem em um nó e geram novas linhas. Não se trata apenas de negar relações de poder, mas de perceber que mesmo em relações de poder o outro é uma ameaça a nossa estabilidade e é isso que nos dá movimento. Diálogo, diz Crapanzano (1991), é “fato criativo” que gera uma compreensão diferenciada para os sujeitos que interagem.

Quando a Luiza de Teodoro pergunta, em uma das conversas que compõem a dissertação do Eduardo (Loureiro Jr, 1995), “onde é que a gente se toca?”, expõe um mistério, talvez insolúvel, do diálogo. Porque ele não se dá apenas entre pessoas que se gostam e se dispõe, embora isso facilite incomparavelmente essa possibilidade de transformação e crescimento através do outro. Esses encontros não são necessariamente bons ou amigáveis, Teseu e Minotauro são um exemplo disso. Mas certamente são encontros que nos fazem conhecer um pouco mais sobre nós mesmos e, conseqüentemente, sobre infinitas possibilidades do homem. O abrir-se é um movimento daquele que se arrisca. Eu não dialogo quando aceito e entendo o que leva uma pessoa a matar outra, eu dialogo quando, ao perceber esses significados da morte para o assassino, consigo vislumbrar o que ando matando em mim e nas outras pessoas.

Um exemplo aparentemente mais ameno... Uma conversa com uma garota de aproximadamente 6 anos que tivemos, eu e Eduardo, na praia de Icapuí-Ceará e que eu usei na primeira versão do projeto para o doutorado:

¾ A água é um ser vivo?

¾ O que você acha?

¾ Eu acho que é. Minha professora diz que não, mas eu acho que é porque ela se movimenta. Olha a onda se mexendo, o mar não tá vivo?

¾ Eu também acho.

Tudo que fazemos e dizemos é uma forma de expressar e construir o que acreditamos ser o mundo. A professora da Carmem fechou questão, não se dispôs ao diálogo porque não pensou na possibilidade de reformular e questionar sua forma de ver o tema. A Carmem teve seu percurso interrompido, num certo sentido, porque sequer teve a oportunidade de colocar sua idéia em questão, de explorá-la como uma possibilidade, tanto que não mudou de idéia. Pode-se dizer que as duas estavam conversando em monólogos. No entanto, dentro dessas dimensões do encontro que fogem ao controle e às intenções, Carmem pode ter descoberto uma série de coisas: uma delas, é que ela pode continuar pensando que a água é um ser vivo, desde que não coloque isso na prova de ciências. Afirmar o diálogo é afirmar que não existe uma forma de convencer o outro. É uma questão de escolha, e de coragem, deixar-se morrer e deixar que a curiosidade e o interesse trace o percurso de cada um, ou optar por obrigatoriedades e modelos que aparentemente se impõem, mas acabam por gerar diálogos menos abertos, mais estratégicos, criando, ao invés de espaços de troca, campos de batalhas, ainda que silenciosas.

Não me atrevo a dizer que o diálogo é um método ou uma teoria para a educação, encontros não carecem de modelos, compõem harmonias. Mas me atrevo a dizer que é uma forma de estar no mundo. Como escrevi em e-mail, é um sentimento constante de que, “se tem alguém que pensa diferente de você, então não existe o óbvio. Se não existe o óbvio, temos sempre opções.” (Andréa Havt, in: Labirinto, mensagem 296, 07 mai. 2001). Como me atrevo a dizer que é a forma como a educação se dá, com suas surpresas e sustos. Sempre a experiência da encruzilhada que faz pensar: de onde vim, para onde vou. O conteúdo são as interpretações, as maneiras de ler e viver o mundo.

 

AS VIAGENS-DIÁLOGOS DE TESEU

 

Conta a história de por que...!

 

Quando se fala em encontro não faz muito sentido dizer que há um mestre e um aprendiz. Mas há um outro tipo de mestre, aquele a quem se confia as questões importantes, que não impõe suas próprias questões nem suas próprias verdades. O que espera ser perguntado, que não toma as perguntas como um questionamento da sua autoridade, e, portanto, nunca responde “porque sim”, “porque eu quero”, “porque é assim que deve ser” ou “porque sempre foi assim e não é você quem vai mudar isso”. Aquele que é mestre porque é sensível ao outro. Aquele que sabe que caminho não se ensina, percorre. E sabe andar ao lado quando é convidado. Aquele que sabe que tudo o que se pode comunicar, com palavras, gestos ou silêncio, é a si mesmo. Usando a versão de Mary Renault (1988) para a história de Teseu, diria que esse mestre foi seu avô materno, Piteu, rei de Trezena, onde Teseu nasceu. Como um artesão que ensina seu ofício ao discípulo, ele foi o rei com quem Teseu aprendeu a ser rei. Mas aprender no sentido de Galeano (1994: 86), em Janela sobre a memória (I):

 

“À beira-mar de outro mar, outro oleiro se aposenta, em seus anos finais.

Seus olhos se cobrem de névoa, suas mãos tremem: chegou a hora do adeus. Então acontece a cerimônia de iniciação: o oleiro velho oferece ao oleiro jovem sua melhor peça. Assim manda a tradição, entre os índios do noroeste da América: o artista que se despede, entrega sua obra-prima ao artista que se apresenta.

E o oleiro jovem não guarda esta peça perfeita para contemplá-la e admirá-la: a espatifa contra o solo, a quebra em mil pedacinhos, recolhe os pedacinhos e os incorpora à sua própria argila.”

 

Aos sete anos Teseu participou da Festa do Cavalo, um ritual de sacrifício de um cavalo sagrado que ele conheceu um ano antes, contrariando as regras, acreditando ser ele seu irmão, por serem filhos de Poseidon. Era a idade em que Teseu seria reconhecido como homem e, ao final do ritual, deveria ser oferecido ao deus Poseidon para servi-lo em períodos regulares, durante três anos, guardando seu santuário. Teseu não entendia o sacrifício e questionou o próprio deus: “se ele é capaz disso, como podemos acreditar nele?” Seu avô o levou para uma conversa em seu quarto, como uma avó senta em sua cadeira de balanço para contar histórias aos netos.

 

“[Avô] Quando você é um rei, você fica melhor lá do que aqui. Somente o feio e o ordinário devem morrer, o que é corajoso e belo deve viver para sempre. Você conheceu o Cavalo Rei, ele era seu amigo. Então você sabe se foi escolha dele ser um rei ou não. Você sabe que ele vivia como um rei, sendo o primeiro a ser atendido em tudo sem ter de trabalhar para isso.

“[Teseu] Ele teve de lutar para isso?

“[Avô] Sim...

“[Teseu] Ele era tão velho para morrer?

“[Avô] Não tão velho para um cavalo como Talaos para um homem. Mas ele morreu por uma outra causa. Mas se eu falar pra você por que, você deve ouvir, mesmo que não entenda. Quando estiver mais velho, se eu estiver vivo, vou contar-lhe novamente. Se não, você terá ouvido ao menos uma vez e alguma coisa dela você vai lembrar.

“Quando eu era um menino, conheci um velho homem, meu bisavô, e ele me contou essa história que eu vou lhe contar e que você poderá contar para seus filhos.

“Há muito tempo, nosso povo vivia ao norte. Ele disse, e ficou com raiva quando eu duvidei, que nunca tinham visto o mar. Em lugar de água, eles tinham um oceano verde, que ia até onde a andorinha voa do nascer ao pôr do sol. Eles viviam do rebanho que crescia e não construíam cidades. Quando o pasto era comido, eles mudavam para onde existisse mais. Eles não conheciam a falta do mar, nem as boas coisas que a terra pode dar quando cultivada. Eles tinham poucas habilidades e conhecimentos porque eram homens errantes. Mas eles viram o céu se abrir, o que os atraiu aos deuses e eles colheram seus primeiros frutos ao imortal Zeus, que lhes mandou a chuva.

“Quando viajavam, tinham de guardar os rebanhos e as mulheres. Tinham de conviver com os perigos como hoje, é o preço que o homem paga pela honra. E mesmo nesses dias, apesar de viverem na ilha de Pelops, de terem erguido construções, plantado olivas e cevada, ainda se derramava sangue por roubo de gado. Mas o cavalo é mais. Com os cavalos nós tomamos esse lugar dos Shore, que estavam aqui antes de nós. O cavalo será o sinal da vitória enquanto nosso povo lembrar.

“As pessoas mudaram pouco a pouco para o sul, deixando suas antigas terras. Talvez porque Zeus não mandasse chuva, porque a população crescia muito ou porque fugiam dos inimigos. Mas meu avô dizia que vinham abençoados pelo onisciente Zeus, porque era o lugar de sua “moira”.

“[Teseu] O que é isso?

“[Avô] Nosso destino final, a linha traçada sobre ele. É a tarefa que os deuses nos designam e a glória que nos cabe; os limites que não podemos passar e nosso fim determinado. Moira é tudo isso.

“[Teseu] Quem lhes disse aonde ir?

“[Avô] O Deus Poseidon, que domina tudo sob o céu: a terra e o mar. Ele ordenava ao Cavalo Rei e ele nos conduzia. Quando precisavam novas pastagens, soltavam o cavalo sagrado. E ele, cuidando de seu povo como os deuses lhe indicavam, podia cheirar o ar procurando comida e água. Nesses dias ele corria livre. Os soldados o seguiam para lutarem em caso de disputas, mas somente o deus dizia aonde ir.

“O Cavalo Rei mostrava o caminho, os soldados o limpavam e o Rei conduzia seu povo. Quando o trabalho do Cavalo Rei terminava, ele era dado ao deus, como você viu ontem. E nesses dias, disse meu bisavô, o mesmo acontecia ao Rei.

“Os cavalos vão cegamente para o sacrifício, mas os deuses dão conhecimento ao homem. Quando o rei era oferecido, ele sabia sua moira. Os costumes mudam, Teseu, os símbolos nunca. Lembre-se, mesmo que não entenda.

“Teseu quis dizer que entendia, mas ficou em silêncio.” (Renault, 1988: 14-17, tradução minha, livre e com cortes).

 

Minha sobrinha Julia, que está com três anos, além de gostar de perguntar o porquê de tudo, gosta de perguntar o mesmo porquê várias vezes. Notei com ela que a satisfação, ou a insaciabilidade, não está na resposta, mas na história contada. Ela não pergunta só por que o lobo caiu na água gelada, ela pede para contar a história de por que o lobo caiu na água gelada. Teseu diz que entende, não que aceita. Entender é perceber que a opinião diferente faz sentido tanto quanto a sua própria e, por isso, pode ser revolucionária. Daí a questão não ser de estar ou não certa a postura do avô ou a opção cultural de seu povo, mas como fazemos para trocar significados sem estabelecer hierarquia para eles. Como continuar tendo prazer e curiosidade em perguntar convidando: conta pra mim a história de por que...?

 

O estrangeiro

 

Uma das grandes questões de Teseu, como parece ser comum para os heróis, era a sua filiação. Alguns contam que ele era filho de Egeu, rei de Atenas, outros, do deus Poseidon. Embora no livro de Mary Renault (1988) a história contada, em mais uma conversa de neto com avô, seja a de como Egeu chegou a Trezena e tornou-se pai de Teseu, não elimina a possibilidade da dupla paternidade que, aliás, eu prefiro. Essa revelação marca o início da viagem que dizem ser o ritual de iniciação de Teseu na vida adulta. Ele deve ir a Atenas conhecer seu pai e tornar-se seu herdeiro. A partir daí, Teseu se torna o viajante, o estrangeiro, com todo poder, desconfiança e rejeição que o desconhecido, o estranho pode ter.

Teseu já chegou a Atenas como um herói por ter enfrentado e libertado vários povos e viajantes de monstros e bandidos assassinos que dominavam algumas terras, ao longo do percurso que ele fez até chegar a Atenas. Mas é em Atenas que as várias possibilidades do estrangeiro são acentuadas. Seu poder foi reconhecido por suas façanhas, mas por ser desconhecido quase foi morto envenenado por seu pai Egeu e sua mulher, que teria argumentado que um homem estranho e poderoso poderia ser uma grande ameaça. Foi salvo pelo próprio pai que percebeu que Teseu carregava a espada que ele deixara enterrada sob uma pedra para ser retirada apenas por seu filho.

A chegada de Teseu provocou várias mudanças. Atenas nessa época estava sujeita a Creta, obrigada a enviar os sete rapazes e as sete moças para alimentar o Minotauro. Questões políticas ligadas a essa submissão e à sucessão de Egeu sofrem uma reviravolta. Ninguém sabia que Egeu tinha um herdeiro herói que além de seu sucessor já havia matado vários monstros e se ofereceu para ir a Creta, enfrentar o labirinto e o Minotauro.

Atenas era desconhecida para Teseu tanto quanto ele era para Atenas. Até então, um e outro ocupavam o imaginário um do outro. Atenas como o futuro reino, com a expectativa de ser reconhecido pelo seu pai; Teseu como o valente lutador que ninguém sabia porque queria ir para Atenas. Quem viaja sabe quantas vezes se faz uma viagem antes de realizá-la. Mas sabe também que a experiência da viagem não é a mesma que se imaginou. Tanto mais você se aproxima do lugar por onde passa, mais o seu imaginário vai sendo transformado. Quanto mais se permite viver as diferenças mais ameaçadoras e enriquecedoras se tornam as viagens.

 

O seu olhar melhora o meu

(Arnaldo Antunes, 1995 )

 

Chegando em Creta, Teseu se deparou com uma encruzilhada antes mesmo de entrar no labirinto. Sua viagem ganhou novo significado quando conheceu Ariadne, que se apaixonou pelo herói. Isso fez com que ela procurasse Dédalo para lhe dar uma alternativa de saída do labirinto. Uma das formas de se usar a figura do labirinto na literatura é como “prisão de amor”. Não faltam especulações em torno deste encontro. Teseu poderia ter usado Ariadne para escapar do labirinto, mas estava apaixonado por sua irmã Fedra, com quem se casaria depois, o que fez com que Teseu abandonasse Ariadne na ilha de Naxos, a meio caminho de Atenas. Teseu se apaixonou verdadeiramente por Ariadne e o labirinto agora teria de ser superado também para que pudessem ir juntos para Atenas. O deus Dionísio já poderia ter interferido para que Teseu levasse Ariadne para a ilha de Naxos onde lhe seria entregue. Ariadne queria a liberdade, experimentar novas coisas, e viu em Teseu uma possibilidade para isso.

O que esse tipo de relação coloca em foco é a questão da dependência ou de uma espécie de dissolução da individualidade. A diferença entre viver com o outro e viver para o outro. Roberto Freire (1996: 5), falando de educação familiar e escolar, lembra de como o amor é transformado em instrumento de dominação e de posse através de chantagens, usadas para evitar a dor e o remorso de um possível abandono. Um encontro que pode não ser feito de lutas, mas pode impedir o movimento. Mas Teseu entrou no labirinto como se propôs, embora não seja difícil imaginar que seriam diferentes os percursos com e sem o fio.

Quando estávamos conversando sobre a definição dos temas que cada um iria desenvolver no projeto coletivo de doutorado e eu fiz a opção pelo diálogo, imediatamente me veio o verso “O seu olhar melhora o meu” (Antunes, 1995), da música O seu olhar:

 

o seu olhar lá fora

o seu olhar no céu

o seu olhar demora

o seu olhar no meu

o seu olhar seu olhar melhora

melhora o meu

 

onde a brasa mora

e devora o breu

como a chuva molha

o que se escondeu

 

o seu olhar seu olhar melhora

melhora o meu

 

o seu olhar agora

o seu olhar nasceu

o seu olhar me olha

o seu olhar é seu

 

o seu olhar seu olhar melhora

melhora o meu

 

O amor de Ariadne e Teseu faz lembrar histórias clássicas, como Romeu e Julieta, de amores indesejáveis. Creta era, para Atenas, a prisão, a submissão, o sacrifício dos jovens. O encontro dos dois, para usar um termo comum em casos de amor, transcende essa rivalidade. Mas parece existir uma tendência a se anular a experiência amorosa depois que ela acaba. O que poderia ter sido transformador na vida de Teseu e Ariadne, vira fracasso.

Junito de Sousa Brandão (1997) destaca a tendência a atribuir todas as coisas ruins que aconteceram a Teseu como decorrências do abandono de Ariadne na ilha de Naxos. Inclusive a morte de Egeu, que se jogou no mar ao ver que o navio retornava com a bandeira negra hasteada, ao invés da branca, sinal de que Teseu não sobrevivera ao Minotauro. Essa é uma das partes mais nebulosas e cheias de possibilidades da história de Teseu. Como saber, em meio a tantas experiências tão intensas, como entrar em um labirinto, o que teria feito Ariadne ficar ou ser deixada para Dionísio? No Dicionário de mitos (Teseu, 1998: 874) encontra-se a versão de Marguerite Yourcenar: “porém uma vez no labirinto Teseu não sabe reconhecer as vozes que o perseguem, vozes familiares que o lembram de suas fraquezas e culpas, não sabe tornar-se o herói que esperávamos que ele fosse. E escolherá Fedra e a facilidade. ‘Quem não tem seu Minotauro?’ Quem não tem em si o animal e o deus? Quem não tem a escolha?”

Quando falo de encontros como diálogos, falo de viver uma experiência imprevisível, sem rumos e fins determinados, de deixar-se levar pelas próprias escolhas. Falo de “quantas vezes estamos dispostos a trocar o bom pelo ótimo, mesmo arriscando a obter como resultado o ruim?” (Eduardo Loureiro Jr., in: Labirinto, mensagem 316, 16 mai. 2001).

 

A seta e o alvo (Paulinho Moska, 1997)

 

Eu falo de amor à vida

você, de medo da morte

Eu falo da força do acaso

e você, de azar ou sorte

 

Eu ando num labirinto

e você, numa estrada em linha reta

Te chamo pra festa

mas você só quer atingir sua meta

Sua meta é a seta no alvo

mas o alvo, na certa não te espera

 

Eu olho pro infinito

e você de óculos escuros

Eu digo “te amo”

e você só acredita quando eu juro

Eu lanço minha alma no espaço

você pisa os pés na terra

Eu experimento o futuro

e você só lamenta não ser o que era

E o que era? era a seta no alvo

mas o alvo, na certa não te espera

 

Eu grito por liberdade

você deixa a porta se fechar

Eu quero saber a verdade

e você se preocupa em não se machucar

 

Eu corro todos os riscos

você diz que não tem mais vontade

Eu me ofereço inteiro

e você se satisfaz com metade

 

É a meta de uma seta no alvo

mas o alvo, na certa não te espera

Então me diz qual é a graça

de já saber o fim da estrada

quando se parte rumo ao nada

 

Sempre a meta de uma seta no alvo

mas o alvo, na certa não te espera

Então me diz qual é a graça

de já saber o fim da estrada

quando se parte rumo ao nada

 

O aprendiz é um esbanjador que conversa com pedras

 

Além do Minotauro, antes e depois, Teseu teria de enfrentar o labirinto. E essa construção, como os rituais, também é feita de passagens, mas não são etapas bem determinadas, não para quem vai atravessá-lo. Quando Teseu se oferece ou se dispõe a entrar no labirinto, dispõe-se ao desconhecido, ao inesperado. E ele não sabe que vai receber um fio, não sabe que vai vencer o Minotauro, não sabe como vai ser no retorno. Mas “a necessidade de conhecimento é compulsiva, como a de liberdade e a de oxigênio.” (Freire, 1996: 10).

Diante dessa figura tão enigmática, a curiosidade, o movimento de conhecer assume sua liberdade. Um lugar de onde não se tem referência porque ninguém saiu pra contar. Um espaço ao mesmo tempo tão indeterminado e tão cheio de significados e formas que Jorge Luis Borges o chama de deserto. A metáfora que propomos diz: conhecer é percorrer o labirinto, e o aprendiz é aquele que se aventura. Teseu, corajoso, se dispõe à própria morte. Como um caçador que come a carne da presa para adquirir sua força, mas pode descobrir que adquiriu também suas fraquezas. No texto Labirintos, Luis Fernando Veríssimo (1998) mostra com o melhor humor essa compulsão criativa do conhecimento na relação do aprendiz com o labirinto:

 

“O que é um labirinto?

Um labirinto é o caminho mais rápido entre o ponto A e o ponto B para quem queria ir para o ponto C.

Como se constrói um labirinto?

De preferência, de dentro para fora.

Quem inventou o labirinto?

Não se sabe o seu nome. O conceito de corredor não existia na arquitetura antiga. Nas habitações e nos prédios públicos uma peça dava na outra, ou todas se juntavam e davam num átrio central. Foi então que, numa remota região da Mesopotâmia, um arquiteto inventou o corredor. Mas como não tinha o conceito de peças, fazia casas só de corredores que se cruzavam e recruzavam, nas quais as pessoas entravam e nunca mais saíam, e que certamente estão nas origens do labirinto moderno. Impossibilitadas de ter qualquer contato social, ou mesmo de buscar mantimentos, as famílias que ocupavam estas casas acabaram extintas, levando com elas para o esquecimento o nome do arquiteto.

Como começou a mania dos nobres ingleses de terem um labirinto na sua propriedade rural?

Lord Auberon Bores-Easily, a quem se atribui a invenção do muxoxo, perdeu a paciência com a placidez e a previsibilidade das suas terras em Sussex e, reunindo engenheiros e jardineiros num trecho do seu gramado, decretou: "Quero uma complicação aqui". O próprio lorde desapareceu durante uma inspeção das obras e nunca mais foi visto.

Para que serve um labirinto?

Para você matar o tempo, e vice-versa. Para você exercer plenamente o seu direito de ir e vir, ir e vir, ir e vir. Para você saber o que é mudar de orientação, voltar atrás, rever posições, escolher novos caminhos, repetir os mesmos erros e perder a compostura sem precisar entrar na política. Para você passear com aquela pessoa especial com quem decidiu que quer passar o resto da sua vida. Para cronistas que precisam fazer muito material adiantado poderem escrever sobre um assunto sem qualquer atualidade ou utilidade, mas com várias partes. Para nada.

Como entrar num labirinto?

Pela entrada. Mas cuidado, pode ser a saída disfarçada.

Como reconhecer a saída de um labirinto do lado de fora?

Se não tiver ninguém saindo, é a saída.

Como sair de um labirinto?

Depende. Onde você está?

Num corredor estreito com paredes altas e brancas de cada lado.

Algum grafito nas paredes?

Tem. "Mané esteve aqui." Depois, "Mané esteve aqui de novo." Depois, "Meu Deus é a terceira vez que eu passo por aqui." Assinado... a lata de spray está na mão de uma caveira!

É o Mané... Algum outro grafito?

Sim. "Penso que estive aqui". Assinado Jorge Luiz Borges.

Finja que não viu esse.

Como é que eu saio deste labirinto?!

Calma. Na verdade, a sua situação é invejável. Você tem sempre só duas escolhas, o que raramente acontece com quem não está num labirinto. Você só pode ir para um lado ou para o outro. Sempre tem cinqüenta por cento de chance de fazer a escolha certa.

Não existe nenhuma maneira cem por cento certa de me livrar deste labirinto?

Existe, mas você devia ter tomado uma providência antes de entrar.

Qual?

Não entrar.

Espere! Acabo de encontrar uma planta do labirinto na parede com uma seta apontando um lugar!

O que diz a seta?

"Você não está aqui"...

Típico humor de labirinto. Se enxergar uma porta com os dizeres "Saída de Emergência", não entre.

Por quê?

É um cemitério.

Atenção! Encontrei uma caixa presa na parede com os dizeres "Se você está perdido, quebre o vidro". Estou quebrando o vidro!

O que tem dentro da caixa?

Calmante.

Talvez o exemplo de outras pessoas que tiveram experiências em labirintos me ajude a sair deste.

Bem, existem algumas parábolas. Como a do Esbanjador, do Avaro e da galinha.

Como é?

O Esbanjador entrou no labirinto e, para não perder o caminho de volta, foi deixando moedas de ouro atrás de si. Depois era só ir catando as moedas do chão que voltaria à liberdade. O Esbanjador chegou no centro do labirinto, examinou tudo, e estava se preparando para voltar quando deu de cara com o Avaro, que chegava botando a última moeda de ouro na algibeira. O Avaro tinha passado pela entrada do labirinto, visto as moedas enfileiradas, e não resistira. Saíra a catá-las, labirinto adentro. "Seu imbecil!", gritou o Esbanjador. "E agora, como vamos encontrar o caminho de volta?". "Sou avaro mas não sou burro", disse o Avaro. "No lugar de cada moeda, deixei um grão de milho. É só ir catando os grãos de milho do chão que voltaremos à liberdade."

E aí?

Aí entrou a galinha. Ela tinha passado pela entrada do labirinto, visto os grãos de milho enfileirados, e...

Não sei como essa parábola pode me ajudar a sair daqui.

É o problema com as parábolas. Elas dão lições valiosas, mas de uma forma que ninguém entende. Acho que esta tem a ver com os diferentes tipos de compulsão, e a perdição a que nos levam. A galinha tinha a compulsão de viver, o Avaro a de juntar dinheiro, e o Esbanjador a pior compulsão de todas.

A de esbanjar?

A de entrar em labirintos.”

 

O labirinto, como todos os outros diálogos apresentados, é uma viagem dentro de outra viagem. De Atenas a Creta e de volta a Atenas, tudo é expectativa de reconquistar a liberdade. Como mais um projeto a ser transformado pela experiência. Poderia tratá-lo como um encontro mediado entre Teseu e Dédalo, mas estaria ignorando o encontro com a construção em si. Talvez não o mesmo tipo de encontro que se dá com pessoas porque as possibilidades de comunicação são diferentes. As outras coisas da natureza e as menos naturais que inventamos têm formas diferentes de dizer sim e não e muitas delas nem entendemos ainda. Mas ainda assim o diálogo é possível. No segundo semestre de 2000 cursei uma disciplina sobre Análise Institucional, a partir de algumas conversas fiz um texto sobre como as coisas nos falam...

 

Um mundo de espelhos

 

Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens [...] Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu corpo.

 

 Os que buscam são aquilo que buscam.

Jorge Luis Borges

 

João morreu para ser o guardador daquele local onde nasceu, de onde nunca saiu, por onde fez a mais perigosa e irresistível das viagens, a que leva o mais fundo para dentro de si mesmo. Transformou-se cedo no mestre João dos pescadores. Diziam que conhecia a alma do mar e era o ar nos pulmões das falésias que envolviam seu lugarejo, que tinha por mania percorrer todos os finais de tarde. Quando vivo era tido por louco, falava com pedras e peixes, que caíam em suas redes como se descobrissem o mais desejado descanso: a eternidade.

Não era anjo aparecido a ninguém, deixou herdeira a filha Ana que o acompanhou durante anos. Como era mulher e não podia pescar, trocou o mar pelas dunas, seu pai dizia que dava no mesmo.  E assim se fizeram seus dias: pastoreando cabras pelas dunas, percorrendo entranhas nas falésias nos mesmos finais de tarde. Diziam que era louca como o pai, falava com pedras e encantava cabras, que a seguiam como se descobrissem naqueles caminhos de sempre o sentimento mais desejado: de liberdade. Diziam que era anjo como o pai, e mantinha vivo, sob sua benção, aquele lugar tão pequeno e insignificante, apesar de toda a destruição que o rodeava.

De todo lugar chegavam notícias de dunas que invadiam as vilas, de pescadores que se perdiam porque não tinham as falésias para orientá-los. Lá mesmo a desgraça deu sinais de força e um dia acordaram com duas casas soterradas pelas dunas. Deram conta de que Ana não andara pelas falésias no dia anterior e cuidaram de acender velas pedindo proteção ao mestre João e se deram por atendidos quando a viram logo cedo subir desenvolta a duna com suas cabras.

Tardou mas apareceu uma estrangeira, viajante do mundo, que deu com Ana cantarolando recostada numa pedra verde e telha de onde escorria um fio dágua.

¾ Oi! Você que é a Ana, não?

¾  Eu mesma.

¾ Dizem que você conversa com as pedras. O que elas dizem pra você? O que você faz todos os dias aqui?

¾ Comecei a vir com meu pai e gostei. Continuei mesmo depois que ele morreu.

¾ E você sabe por que seu pai vinha?

¾ Ah, isso ele me contou um montão de vezes... Um dia veio um viajante de longe, como você, e disse para o meu pai: “Dê a tudo que vês os contornos de teu próprio corpo”. Ele disse que não entendeu nada. Mas o viajante trouxe meu pai para uma dessas fontes e falou: “Não vês que das pedras saem água e plantas e cores, que você é uma pedra de onde saem palavras e cheiros, idéias e água até”. Meu pai sempre repetia nas nossas caminhadas de final de tarde: “Dê a tudo que vês os contornos de teu próprio corpo e verás que mundo infinito habita dentro de ti”.

¾ É assim que você conversa com as pedras...

¾ Como um espelho encantado...

¾ Então hoje sou areia, de tanta leveza que sinto, e posso voar ao vento...

¾ E formar outra duna lá na frente...

¾ E outra e outra até cair no mar...

Nunca se soube bem como, mas desde aquela tarde, em que Ana rolou pelas dunas com a estrangeira, o mar, as falésias e as dunas se encherem de gente. De longe se ouviam vozes e cantos e silêncios, viajantes de si, anjos buscando suas próprias almas. (Havt, 01 dez. 2000)

 

Teseu andou pelo labirinto e lhe deu sua forma, descobriu como se percorre a vida. O aprendiz é um esbanjador que conversa até com pedras e pode explorar sempre mais caminhos para conhecer. Mas Teseu entrou com o fio, um outro objeto que tem muito a dizer. Para alguns é a própria destruição do sentido do labirinto, da possibilidade de perder-se para descobrir-se. Mas pode ser também o sinal do vínculo a Ariadne e ao novo sentido amoroso de percorrê-lo e sair vivo dele. Um sinal de proteção divina. Pode ser o símbolo do heroísmo de Teseu que costuma ser pensado como um homem descomunal, mas também foi descrito como não sendo essa fortaleza física, tendo de vencer seus inimigos usando a agilidade e a astúcia. O fio garante a volta mas não determina o percurso e pode ser, ao contrário do sinal de qualquer vínculo ou dependência, o símbolo da autonomia do viajante, o seu desenho pessoal do labirinto. O fio pode ser tudo isso e comunicar coisas diferentes e fazer com que Teseu tenha a sua experiência que não poderia ser de nenhuma outra pessoa.

 

Quem não tem seu Minotauro?”

(Título de livro de Marguerite Yourcenar)

 

O encontro de Teseu e Minotauro é o encontro daquele que teve, ao longo de toda a vida, que lidar com questões de afirmação individual diante de todas as expectativas sociais de tornar-se rei, um exemplo de ser coletivo; e aquele que sequer foi “educado”, não conviveu com outros seres e não chegou a ser humano. Por isso faz pensar no lado não humano de Teseu e em tudo que pode ter acontecido nos encontros anteriores do Minotauro com suas vítimas e com o próprio Teseu.

Na primeira proposta que preparamos do Labirinto, a partir de onde desenvolvemos o projeto, tinha uma frase minha que definia a idéia de ver o labirinto não como prisão, mas como possibilidades e escolhas: “A proposta é enfrentar o caos, conhecer sem caminho determinado; encontrar o Minotauro, resgatar a desordem aprisionada; e voltar usando o fio de Ariadne, a confirmação do próprio caminho.” Lendo isso, o Eduardo observou que eu estava vendo o labirinto com o olhar de Teseu e, desde esse momento, assumi o personagem. O Minotauro me vinha, então, como um reflexo de Teseu, fazendo pensar esse encontro como um diálogo interno, que envolve a consideração da multiplicidade ou da pluralidade de cada ser, como faz Fernando Pessoa (1993: 81), ao escrever sobre seus heterônimos em Consciência da Pluralidade:

 

“Não sei quem sou, que alma tenho.

“Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que eu não sei se existe (se é esses outros).

“Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.

“Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.

“Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.”

Nesse mesmo sentido, na reunião conjunta dos núcleos de Movimentos Sociais e Currículo e Ensino (Reunião dos núcleos, 30 ago.2000), quando convidamos as pessoas a falarem sobre o que o labirinto lhes sugeria ou inspirava, Elvis Matos lembrou um poema, também de Fernando Pessoa (o poema pode ser encontrado em Pessoa, 1995):

 

 

Eros e Psique

 

Conta a lenda que dormia

Uma Princesa encantada

A quem só despertaria

Um Infante, que viria

De além do muro da estrada.

 

Ele tinha que, tentado,

Vencer o mal e o bem,

Antes que, já libertado,

Deixasse o caminho errado

Por o que à Princesa vem.

 

A princesa Adormecida,

Se espera, dormindo espera.

Sonha em morte a sua vida,

E orna-lhe a fronte esquecida,

Verde, uma grinalda de hera.

 

Longe o Infante, esforçado,

Sem saber que intuito tem,

Rompe o caminho fadado.

Ele dela é ignorado.

Ela para ele é ninguém.

 

Mas cada um cumpre o Destino ¾

Ela dormindo encantada,

Ele buscando-a sem tino

Pelo processo divino

Que faz existir a estrada.

 

E, se bem que seja obscuro

Tudo pela estrada fora,

E falso, ele vem seguro,

E, vencendo estrada e muro,

Chega onde em sono ela mora.

 

E, inda tonto do que houvera,

À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera,

E vê que ele mesmo era

A Princesa que dormia.

 

Tomando mais uma referência do Dicionário de mitos (Teseu, 1998: 874), há o livro Thésée, de Nikos Kazantzakis, que propõe a morte dos dois, Teseu e Minotauro, e o surgimento de um outro ser: “Quando a porta do labirinto se abre, surge Kouros, o Minotauro libertado, na figura de um homem maior, mais belo e mais sereno que Teseu...”.

Não lembrava e fui reler, quase por acidente, A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector (1998), e lá estavam, no encontro de G.H. com sua barata morta, mais uma vez, o encontro de Teseu com o Minotauro, um diálogo com um outro e consigo:

 

“Parece que vou ter que desistir de tudo o que deixo atrás dos portões. E sei, eu sabia, que se atravessasse os portões que estão sempre abertos, entraria no seio da natureza.

“Eu sabia que entrar não é pecado. Mas é arriscado como morrer. Assim como se morre sem se saber para onde e esta é a maior coragem de um corpo. Entrar só era pecado porque era a danação de minha vida, para a qual eu depois não pudesse talvez mais regredir. Eu talvez já soubesse que, a partir dos portões, não haveria diferença entre mim e a barata. Nem aos meus próprios olhos nem aos olhos do que é Deus.” (p. 81).

“A barata com a matéria branca me olhava. Não sei se ela me via, não sei o que uma barata vê. Mas ela e eu nos olhávamos, e também não sei o que uma mulher vê. Mas se seus olhos não me viam, a existência dela me existia ¾ no mundo primário onde eu entrara, os seres existem os outros como modo de se verem. E nesse mundo que eu estava conhecendo, há vários modos que significam ver: um olhar o outro sem vê-lo, um possuir o outro, um comer o outro, um apenas estar num canto e o outro estar ali também: tudo isso também significa ver. A barata não me via diretamente, ela estava comigo. A barata não me via com os olhos mas com o corpo.” (p. 76).

“Assassinato o mais profundo: aquele que é um modo de relação, que é um modo de um ser existir o outro ser, um modo de nos vermos e nos sermos e nos termos, assassinato onde não há vítima nem algoz, mas uma ligação de ferocidade mútua.” (p. 82).

“A grande realidade neutra do que eu estava vivendo me ultrapassava na minha extrema objetividade. Eu me sentia incapaz de ser tão real quanto a realidade que estava me alcançando ¾ estaria eu começando em contorções a ser tão nuamente real quanto o que eu via? No entanto toda essa realidade eu a vivia com um sentimento de irrealidade da realidade. Estaria eu vivendo, não a verdade, mas o mito da verdade? Toda vez em que vivi a verdade foi através de uma impressão de sonho inelutável: o sonho inelutável é a minha verdade.” (p. 100).

“A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la. Minha vida é mais usada pela terra do que por mim, sou tão maior do que aquilo que eu chamava de “eu” que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria. Seria necessário uma horda de baratas para fazer um ponto ligeiramente sensível no mundo ¾ no entanto uma única barata, apenas pela sua atenção-vida, essa única barata é o mundo.” (p. 122-3).

¾ Mas é que tornar-se humano pode se transformar em ideal, e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver. Somos livres, e este é o inferno. Mas há tantas baratas que parece uma prece.” (p. 124).

 

A saída é a porta principal

(verso da música Gotham City, Boca Livre, 1992)

 

Na Reunião dos núcleos (30 ago. 2000), já mencionada, fomos questionados:

 

“Eu sinto uma preocupação em relação à imagem (...) Nossa relação com o vídeo, com o cinema, ela é sempre mediada pela possibilidade da narrativa. Ou seja, a gente só entra na imagem a partir do momento que a gente começa a estabelecer uma narrativa a partir dela. A gente não se debate muito, quando a gente está fazendo um vídeo, quando está fazendo um filme, com a aspereza da imagem, aspereza no sentido da materialidade própria dela. Ela é sempre reconduzida a um sentido que passa pela narrativa. Então, quais os valores cromáticos, plásticos, ou mesmo de inquietude, de indecifrável da imagem que se perdem na linha da narrativa? E aí eu queria fazer uma provocação assim: se o Teseu não seria o assassino do labirinto? Porque ele acaba com o labirinto. Primeiro ele cria o estratagema para sair do labirinto, ou seja, ele inviabiliza o labirinto como uma complexidade inextrincável. Ele cria um estratagema para sair, não ele necessariamente, mas o fio, e ele mata o Minotauro, que é o escondido, a dimensão oculta, invisível do labirinto. (...) Quem faz o labirinto é o viajante, não é o arquiteto. O arquiteto cria, vamos dizer, os caminhos. Ele faz a arquitetura, o desenho flanérico do labirinto. Mas o labirinto talvez se constitua muito mais como experiência do que o espaço concreto. Então, o que mantém mais o labirinto seria essa experiência de mergulhar. E essa experiência de certa forma é intraduzível. Sair do labirinto e contar é, de certa forma, trair o labirinto.” (fala editada de Alexandre Veras).

 

A viagem de Teseu foi uma viagem com volta. Às vezes trazemos fotos e histórias para contar não só para ficar de lembrança, mas porque pensamos nas pessoas que ficaram, porque as levamos conosco. Mas comumente sentimos a frustração das pessoas e nossa própria porque elas podem se encantar pela beleza ou exotismo da foto, podem ter vontade de fazer a mesma viagem, mas não tiveram a experiência. Fizeram uma outra viagem. Narrar não é matar a história, é aumentar um ponto contando um conto. A narrativa em si é uma experiência, uma viagem. Concordo com o Alexandre Veras quando ele chama atenção para as imagens. Fotografias são diferentes das histórias narradas, são outras histórias, outras versões do mito, por isso não gosto de explicações de fotos, gosto de olhar e viajar no que estou vendo. E, como já disse, o diálogo não envolve apenas, nem necessariamente, palavras. Ele se define por encontros que tomam todo o corpo e pode fazer você sentir que entendeu, ou construiu um lugar, num arrepio intraduzível.

De uma certa forma, Teseu matou o labirinto, porque nem ele nem o labirinto seriam os mesmos. Mas não é só a narrativa que mata o labirinto, ela é apenas uma possibilidade da história. O que mata um e outro é a transformação que o encontro permite. Como é possível que Dédalo tenha transformado o labirinto quando este foi transformado de idéia em realização. Desde então, ele não seria mais só seu, ou parte da sua relação com o rei Minos. Desde então, suas possibilidades só cresceram e suas imagens se multiplicaram. E desde que não se aceite uma versão final para ele, o que é difícil até supor, ele ficará cada vez mais indefinível e múltiplo.

“... igual ao familiar verídico do sonho, a ‘lógica’ era outra, era um que não faz sentido quando se acorda, pois a verdade maior do sonho se perde.” (Lispector, 1998: 104). Não sabemos o que morreu e o que saiu do labirinto. Essa dificuldade de comunicação no retorno de uma viagem, ou de uma experiência, está sinalizada, na história de Teseu, com a morte de seu Pai, que, como já falei, se jogou ao mar quando viu a bandeira negra erguida no navio. Está também na história de Alice no país das maravilhas (1951), de Lewis Carrol:

 

¾ “Explica-te!

¾ Sinto muito, mas não posso explicar... já não sou a mesma como vê. Não sei como explicar, pois para mim não há nada claro!

¾ Quem és tu?

¾ Eu já nem sei, mudei tantas vezes desde hoje de manhã.”

 

Mas acredito que o Alexandre Veras tenha ainda uma outra preocupação: a de que não resulte, dessa metáfora que propomos do conhecimento ser um labirinto, uma nova teoria ou método que faça do mito não mais uma obra aberta, como em outros tempos foi feito com a história. Como ele mesmo diz em outro trecho da sua fala: “Acho importante contar com a metáfora do labirinto, mas tomar muito cuidado para não esgotar, numa tentação pedagógica muito imediata, acho que tem que se manter uma tensão, uma suspensão, que continuasse nos inquietando.” (Reunião dos núcleos, 2000).

Joseph Campbell (1949: 367-8) esclarece que “a mitologia tem sido interpretada pelo intelecto moderno como um primitivo e desastrado esforço para explicar o mundo da natureza (Frazer); como um produto da fantasia poética das épocas pré-históricas, mal compreendido pelas sucessivas gerações (Müller); como um repositório de instruções alegóricas, destinadas a adaptar o indivíduo ao seu grupo (Durkheim); como sonho grupal, sintomático dos impulsos arquetípicos existentes no interior das camadas profundas da psique humana (Jung); como veículo tradicional das mais profundas percepções metafísicas do homem (Coomaraswamy); e como a Revelação de Deus aos Seus filhos (a Igreja). A mitologia é tudo isso. Os vários julgamentos são determinados pelo ponto de vista dos juízes. Pois, a mitologia, quando submetida a um escrutínio que considere não o que é, mas o modo como funciona, o modo pelo qual serviu à humanidade no passado e pode servir hoje, revela-se tão sensível quanto a própria vida às obsessões e exigências do indivíduo, da raça e da época.”

Fico com o Campbell quando diz que “a mitologia é tudo isso” e muito mais o que se possa criar. Chegar à saída não como quem acha a segurança, ainda que fosse ela o objetivo, mas como quem descobre possibilidades. “Correr o sagrado risco do acaso” e “substituir o destino pela probabilidade”, como pensou G.H. (Lispector, 1998: 13). O tempo do mito é todo tempo. Por isso pude recontar a história de Teseu sem negar todas as outras narrativas e deixando tantas coisas de fora das histórias que já foram contadas; ler coisas que me despertaram curiosidade; inesperadamente, descobrir livros e retomar uma conversa sobre viagem, tema da minha dissertação de mestrado; contar, recortar e colar histórias pensando em diálogo; andar em círculo porque comecei e voltei ao Campbell; criar um percurso que virou uma mistura de coisas que tinha imaginado e outras que foram surgindo; travar algumas vezes e ir fazer outras coisas; dormir e talvez sonhar entre um trecho e outro. Agora quero terminar essa viagem e a única coisa que me vem é um começo, uma outra frase de Campbell (1949: 59):

 

“Era uma vez, quando o desejo ainda era capaz de levar a alguma coisa...”

 


BIBLIOGRAFIA

 

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