FORMIGAS, HOMENS E MÁQUINAS

por Eduardo Loureiro Jr.
eduardo@patio.com.br

O presente texto é resultado das seguintes leituras:
- LÉVY, Pierre. O que é o virtual. São Paulo: Ed. 34, 1996.
- TEIXEIRA, João de Fernandes. Mentes e máquinas: uma introdução à ciência cognitiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

Com tanto cientista por aí em busca de vida e inteligência extraterrenas, fico até meio constrangido em dizer que estou em busca justamente do inverso: inteligência intraterrena, dentro ou sobre a terra, com minúscula mesmo. Mas assim como nenhum cientista sério espera encontrar homenzinhos verdes, tampouco espero eu encontrar formigas com complexo de não serem cigarras.

Formigas e homens

A melhor explanação que eu conheço sobre a relação de inteligência entre homens e formigas é do Pierre Lévy. Transcrevo na íntegra uma longa passagem:

"A noção de inteligência coletiva evoca irresistivelmente o funcionamento das sociedades de insetos: abelhas, formigas, cupins. No entanto, as comunidades humanas diferem profundamente dos cupinzeiros.

"Primeira diferença, da qual decorrem todas as outras, a inteligência coletiva pensa dentro de nós, ao passo que a formiga é uma parte quase opaca, quase não holográfica, um elo inconsciente do formigueiro inteligente. Podemos usufruir inteligentemente da inteligência coletiva, que aumenta e modifica nossa própria inteligência. Contemos ou refletimos parcialmente, cada um à sua maneira, a inteligência do grupo. A formiga, em troca, tem apenas uma pequeníssima fruição ou visão da inteligência social. Não obtém dela um acréscimo mental. Obediente beneficiária, participa somente às cegas dessa inteligência.

"Isto equivale a dizer, de uma maneira mais trivial, que o homem é (antes de tudo) inteligente, enquanto a formiga é, relativamente ao humano, estúpida. A formiga não somente recebe menos que o humano da inteligência social, como também, simetricamente, contribui para ela apenas numa fraca medida. Uma mulher ou um homem, no quadro de uma cultura, é capaz de aprender, de imaginar, de inventar e finalmente de fazer evoluir, mesmo que muito modestamente, as linguagens, as técnicas, as relações sociais que vigoram em seu ambiente, o que uma formiga estritamente submetida a uma programação genética dificilmente é capaz de fazer. Entre os insetos, somente a sociedade pode resolver problemas originais, ao passo que, entre os humanos, os indivíduos são em geral mais inventivos que certos grupos tais como as multidões ou as burocracias rígidas. A inteligência das sociedades humanas é variável e, no melhor dos casos, evolutiva, graças à natureza dos indivíduos que a compõem e, o que é a outra face de uma mesma realidade, das ligações, geralmente livres ou contratuais, que a tecem. Em troca, no quadro de uma determinada espécie de formigas, o funcionamento do formigueiro é fixo.

"O estatuto do indivíduo num e noutro tipo de sociedade cristaliza e resume o conjunto das diferenças que os opõem. O lugar e o papel de cada formiga estão definitivamente fixados. No seio de uma espécie particular, os tipos de comportamentos ou as diferentes morfologias (rainhas, operárias, guerreiras) são imutáveis. As formigas (corno as abelhas e os cupins) estão organizadas em castas e as formigas da mesma casta são intercambiáveis sem perda. Em troca, as sociedades humanas não cessam de inventar novas categorias, os indivíduos passam de uma classe a outra e, sobretudo, é na verdade impossível reduzir urna pessoa a seu pertencimento a uma classe (ou a um conjunto de classes), pois cada indivíduo humano é singular. As pessoas, tendo seu próprio caminho de aprendizagem, encarnando respectivamente mundos afetivos e virtualidades de mutação social (mesmo mínima) diferentes, não são intercambiáveis. Os indivíduos humanos contribuem, cada um diferentemente e de maneira criativa, para a vida da inteligência coletiva que os ilumina em troca, ao passo que uma formiga obedece cegamente ao papel que lhe dita sua casta no seio de um vasto mecanismo inconsciente que a ultrapassa absolutamente.

"Certas civilizações, certos regimes políticos tentaram aproximar a inteligência coletiva humana da dos formigueiros, trataram as pessoas como membros de uma categoria, fizeram crer que essa redução do humano ao inseto era possível ou desejável. Nossa posição filosófica, moral e política é perfeitamente clara: o progresso humano rumo à constituição de novas formas de inteligência coletiva se opõe radicalmente ao pólo do formigueiro. Esse progresso deve, ao contrário, aprofundar a abertura da consciência individual ao funcionamento da inteligência social e melhorar a integração e a valorização das singularidades criadoras que os indivíduos e os pequenos grupos humanos formam nos processos cognitivos e afetivos da inteligência coletiva. Tal progresso de maneira nenhuma é garantido, está sempre ameaçado de regressões. Antes de ser uma lei da história, trata-se de um projeto transmitido, enriquecido, reinterpretado a cada geração e infelizmente suscetível de esclerose ou de esquecimento." (Lévy, 1996: 110-112)

A meu ver faltam máquinas, computadores, na visão do Pierre Lévy.

Homens e máquinas

Já sobre a relação entre homens e máquinas, João Carlos Teixeira apresenta a questão assim:

"será nosso cérebro capaz de produzir uma noção de complexidade que nos permita descrevê-lo? Este problema se desdobra imediatamente na dificuldade envolvida em representar a multiplicidade das conexões que devem estar presentes no cérebro. Esta multiplicidade pode ser tão complexa e intrincada que, mesmo que nela encontremos algum tipo de padrão, a geração de um modelo de cérebro, mesmo com o auxílio de computadores, pode facilmente levar-nos a um problema do tipo NP (ver o final do Capítulo 1, primeira parte), ou seja, não poderíamos, num tempo razoável, produzir sequer um "retrato" aproximado de nosso próprio cérebro. E, neste caso, como poderíamos estabelecer todas as possíveis conexões entre seus neurônios - conexões que seriam responsáveis pelo aparecimento de formas mais complexas de vida mental. Em outras palavras, como simular aquilo que não podemos sequer representar?

[...]

"uma descrição completa do cérebro será sempre mais complexa do que o próprio cérebro que a produz. Ora, como pode o cérebro produzir algo mais complexo do que ele mesmo? E como o próprio cérebro poderia compreender e reconhecer como sendo verdadeiro algo mais complexo do que ele mesmo? O problema do reconhecimento de tal teoria ou descrição pode levar a um impasse de difícil solução: não seria possível assegurar que tal descrição, uma vez atingida, é a correta. Ora, se o cérebro não pode produzir algo mais complexo do que ele mesmo, a possibilidade de replicá-lo através de sistemas artificiais fica afastada. Pelo menos a possibilidade de construir uma réplica do cérebro em laboratório." (Teixeira, 1998: 116)

A meu ver faltam bichos, formigas, na visão de João Carlos Teixeira.

FormiguinhaZ

O filme que conta a história de uma formiga, na verdade um formigo operário neurótico chamado Z-4195 que tenta se libertar da sociedade totalitária enquanto tenta conquistar o amor da princesa do formigueiro por quem se apaixonou, é a única associação entre formigas, homens e máquinas (efeitos especiais, modelização e digitalização de ambientes e personagens 3-D) que conheço:

Z-4195, Z 1: I'm supposed to do everything for the colony? What about my needs?

Z-4195, Z 1: I've got to believe there's someplace better for me. Otherwise I'll just curl up into a larval position and weep.

Z-4195, Z 1: I think everything must go back to the fact that I had a very anxious childhood. You know, my--my mother never had time for me. You know, when you're--when you're the middle child in a family of five million, you don't get any attention.

Z-4195: Let's be real about this. Bala and I... Bala is a princess, and I'm a soil relocation engineer.

Z-4195: There you have it: your basic boy-meets-girl, boy-likes-girl, boy-changes-the-underlying-social-order story.

Z-4195: What a bunch of losers. Mindless zombies capitulating to an oppressive system.

Princess Bala: Hi. Wanna dance?

Z-4195: ABSOLUTELY!

Z-4195: Why'd I have to be born a worker? You soldiers get all the glory. Plus, you get to go out in the world. You know, you meet interesting insects; you get to kill them.

Weaver: Yeah, but you get to spend all day with those beautiful worker girls.

Z-4195: Weaver, they're CAREER girls. They're obsessed with digging.

No filme, as formigas foram feitas à imagem e semelhança dos homens. Ou colocamos os insetos em desvantagem ou os animamos de acordo com nossos próprios hábitos. Não haveria outra opção? Se há um caminho e apenas um, é normal que o sigamos. Mas se há dois caminhos, por que não criar um terceiro?

Cheiro, logo formigo

Os mirmecólogos se dedicam ao estudo das formigas. Segundo a mirmecóloga Deborah Gordon, "as formigas só percebem as companheiras mais próximas. Nem sabem o tamanho de seu formigueiro." (Superinteressante, 2001, n║ 1: 68) Isso poderia confirmar a idéia de Lévy sobre a inconsciência das formigas. Mas, por outro lado, não parece haver evidência de relação de obediência que leve a conceber uma sociedade de formigas como totalitária. Cada grupo de formigas faz o seu trabalho, e só. O fato de não haver individualidade não quer dizer que não haja inteligência, nem que a inteligência humana lhe seja superior.

Se concordarmos com a idéia de que não há pensamento, e conseqüentemente inteligência, sem linguagem, seria até ingênuo comparar a inteligência humana à inteligência das formigas já que elas não falam, não articulam aqueles que são nossos símbolos básicos. Sua comunicação é feita através de substâncias que carregam odores (os feromônios). As formigas não usam palavras, mas cheiros. Uma verdadeira apreciação da inteligência ou não das formigas teria que se basear numa análise de sua comunicação olfativa.

Da mesma forma que uma formiga nos parece inferior porque não fala, talvez nós humanos lhes pareçamos inferiores porque não cheiramos bem.

"inteligência resulta da representação mental, e esta nada mais é do que atividade simbólica. O que nos distingue de outros animais menos inteligentes é nossa capacidade de produzir e manipular símbolos. Este é o real caráter distintivo da inteligência humana: a produção e manipulação de símbolos que dão origem às atividades cognitivas superiores, como a Matemática e a linguagem." (Teixeira, 1998: 44)

Não seria possível pensar em produção de símbolos não só ao nível da fala mas também ao nível do olfato/secreção? Ao invés de mais ou menos inteligentes do que as formigas, não teríamos tomado apenas um caminho diferente numa encruzilhada dos sentidos? O que nos separa das formigas não seria menos um grau de inteligência do que uma escolha de inteligência? Se lançamos sinais simbólicos (música, cálculos, palavras) para o espaço na busca de vida inteligente, não deveríamos ampliar nossos sinais para cheiros, objetos e outras produções? E não poderíamos tentar comunicação com as formigas ao invés de se ater à busca de contato com extraterrestres?

Segundo o paradigma enativo (Varela e Maturana) citado por Teixeira:

"A noção de inteligência é também alterada: em vez de ser definida como capacidade de resolver problemas, ela passa a ser a capacidade de ingressar num mundo compartilhado." [...] "a atividade de comunicação não consiste na transferência de informação do emissor para o receptor, mas na modelação mútua de um mundo comum através de uma ação conjunta." (Teixeira, 1998: 147)

Mais do que analisar e estudar animais, talvez seja tempo de interagir com eles, compartilhar o mundo.

Meu computador não fala, computa

O mesmo pode ser pensado para os computadores. Não se trata de definir um modelo ideal, o cérebro humano, e querer criar máquinas que o imitem. Assim como as formigas encontraram um forma de se relacionar com o mundo que as rodeia, os computadores, as máquinas estão fazendo o mesmo.

"uma vez que a inteligência do sistema surge a partir de sua interação com o meio ambiente, ela não precisa ser pré-programada. Comportamentos inteligentes, mais complexos, surgem a partir de uma multiplicidade de comportamentos simples." (Teixeira, 1998: 135)

Os computadores que estamos criando talvez não difiram das crianças que nós também criamos. Só que computadores são filhotes de outras espécie, com sua própria forma de simbolizar o mundo. O medo de que as máquinas um dia dominem os homens é na verdade a projeção do domínio do homem sobre os animais, domínio esse que se pretende estender sobre as próprias máquinas. Ao invés de construção de computadores, talvez devêssemos falar em educação de computadores.

Os computadores, com sua extraordinária capacidade de armazenamento e processamento, pela primeira vez colocaram a arrogância humana em cheque. Pela primeira vez sentimos que nosso pico de inteligência seja alcançado, talvez superado. Mas este pensamento também é mesquinho. Que os computadores nos eduquem para o fato de que há muitas maneiras de marcar presença no mundo, muitas formas de constituir interação e produzir símbolos.

Formigas, homens e máquinas não estão em diferentes degraus de uma mesma escada. Estão sobre uma mesma bola que rola no espaço. Ainda incomunicáveis. Mas talvez não por muito tempo.

Março de 2001