INTERDISCIPLINARIDADE:

TATEANDO DE OLHOS ABERTOS

Paulo Meireles Barguil

Novembro/2000

 

I. Um sono profundo - aspectos filosóficos

Já choramos muito, muitos se perderam no caminho

Mesmo assim não custa inventar uma nova canção (que venha nos trazer)

Sol de primavera abre as janelas do meu peito

A lição sabemos de cor, só nos resta aprender

(Beto Guedes & Ronaldo Bastos)

 

Na sua breve e fecunda história na Terra, o Homem se caracteriza pelo esforço de compreender o mundo: desde o que lhe é mais próximo até onde a sua imaginação o permite ir. No início desse empreendimento, a compreensão do universo formava um bloco só, não havendo a separação entre Filosofia, Ciência, Arte e Religião. O que teria provocado essa divisão?

Vislumbro, inicialmente, um fator básico: o aumento substancial de saberes, fruto da vocação ontológica do homem - conhecer, interpretar o seu ambiente - , que tornou necessária (indispensável, até!) a constituição de grupos menores que congregassem os elementos mais parecidos entre si. Uma das conseqüências oriundas dessa contingência foi a formação de uma série de visões particulares, restritas de saberes. Na busca de ampliar ao máximo cada uma delas, o Homem tem se esquecido de que as diversas áreas não possuem, isoladamente, a capacidade de retorquir às questões indagações mais profundas elaboradas no seu cotidiano sobre a vida.

O caráter relacional entre as diversas partes e entre estas e o todo, entre os inúmeros particulares e entre estes e o geral, tem sido, via de regra, ignorado, deslustrando as maravilhosas descobertas, pois qual o valor dessas senão o de poder contribuir para formação de um mosaico multicolorido, favorecendo a crescente admiração por parte do Homem quanto às delícias do mundo?

O problema se acentuou quando, por questões diversas, a Humanidade valorizou alguma forma de conhecimento em detrimento das outras, desenvolvendo, por conseguinte, uma verdadeira caça às demais, que deixaram de ser vistas como irmãs gêmeas, pois que filhas do mesmo parto, e passaram a ser vistas como inimigas, que precisavam ser eliminadas por ameaçarem a sua existência.

O desafio atual é, creio eu, vislumbrar caminhos que possibilitem uma maior harmonia entre aquelas manifestações culturais. Para tanto, é necessário que o Homem investigue a sua relação com a natureza, que é mais do que o seu lar: é o seu útero. Quanto mais o Homem se separa dela, mais ele pode se tornar consciente de si, um ser histórico, temporal. Porém, ele precisa voltar, ininterruptamente, seu olhar (e seu amor) para a sua criadora, sob pena de desperdiçar a chance de aprofundar a sua capacidade de compreensão, pois somente quando ele se percebe separado da natureza, ele pode buscar a ligação, a relação, a integração com ela, a qual acontece, coetaneamente, em dois níveis: dentro e fora de si.

Até quando o Homem continuará a fracionar a sua existência em categorias estanques? "O homem se divide e divide tudo o mais. A formação da subjetividade é empurrada para o interior. E esta é a questão que nos preocupa: a visão dualista do homem; mais: a vivência da dualidade" (Fontanella, 1995: 08). Urge, pois, que se busquem novos fundamentos que propiciem uma Educação que valorize o aluno, os seus conhecimentos, a sua história, os seus sonhos, a sua avaliação sobre o seu desempenho no cotidiano, não mais como realidades separadas e quase sem nenhuma relação, mas como elementos de um todo.

Mas, será que ainda é possível se falar em subjetividade ante às pressões sociais e econômicas que fazem com que as pessoas tenham um ritmo cada vez mais intenso, que as obrigam a agir de modo tão competitivo? Como deve ser compreendida a falta de espaço (e de tempo) para que o Homem viva sua dimensão artística, estética? Como deve ser interpretada a não oportunidade de expressar as suas emoções? Que atalhos deve a Humanidade desbravar se quiser decifrar enigmas ainda obscuros?

Infelizmente, no mundo ocidental, temos assistido a um excesso de valorização do conhecimento dito científico, que se caracteriza pelo domínio da razão, em detrimento das outras dimensões da pessoa. É um paradoxo terrível que a Ciência nas diversas áreas, enquanto expressão do esforço da Humanidade de melhorar a sua vida, seja para a maioria dos alunos apartada do cotidiano deles, gerando a lamentável cisão entre Teoria e Prática, escola e vida, razão e emoção.

Como é possível se assistir, coetaneamente, a dois grandes movimentos antagônicos no que se refere à construção e vivência do conhecimento? Acredito que a compreensão distinta do papel do erro pela Ciência etapa natural do processo do conhecimento e pela escola uma erva daninha, que precisa ser erradicada constantemente, por atrapalhar o sucesso das atividades oferece uma boa pista para a forma diferenciada como o cientista e o estudante encaram o conhecer. Para o primeiro, a tarefa de conhecer é permeada de mistérios, de ilusões, de esperanças, de explicações parciais; para o segundo, é uma obrigação que deve ser executada da forma mais perfeita possível, mesmo que desprovida de significado para si, sem espaços para equívocos, sob pena de ser ridicularizado pelo professor e alunos.

A compreensão do caráter histórico do conhecimento permite que o sujeito estabeleça com o mesmo uma relação menos tensa e angustiante, pois ele está cônscio de que a sua missão é interminável: sempre haverá algo a ser descoberto, refeito e ampliado, fazendo com que o foco da sua atenção afaste-se do produto (que ele sabe que nunca é final) e se volte ao processo, permitindo-se desfrutar do privilégio que é aprender. Nesse sentido, a Educação deixa de ter um caráter meramente decorativo (no duplo sentido), passando a contribuir no processo investigativo e exploratório do universo.

Uma nova compreensão epistemológica estabelece, obrigatoriamente, ligações múltiplas com a realidade em que se insere, possibilitando (ou não) a construção de relações sociais pautadas em valores que respeitem a dignidade humana, denunciando todas as formas alienantes, inclusive, e principalmente, as realizadas no ambiente escolar.

A opção por uma Educação destinada a formar cidadãos comprometidos com a busca de uma maior justiça social clama por práticas mais vivas, que compreendam que o distanciamento entre o mundo do aluno e as práticas escolares explica a apatia, o desânimo e a tristeza de aprender que caracterizam as salas de aula, problemas que não são privilégio do Brasil.

O resgate da subjetividade e a valorização de uma visão integral do Homem são necessários para que possa ocorrer uma aprendizagem significativa: "(...) o único aprendizado que influencia significativamente o comportamento é o aprendizado autodescoberto, auto-apropriado. (...) Um conhecimento autodescoberto, essa verdade que foi pessoalmente apropriada e assimilada à experiência de um modo pessoal, não pode se comunicar diretamente a outra pessoa" (Rogers, 1991: 254).

O que pode ser feito para que alunos e professores proclamem, não somente com palavras, a beleza e o prazer de aprender? Para elaborar algumas pistas, delinear algumas possibilidades, no sentido de lobrigar alternativas, é que se faz necessária a discussão sobre o currículo, notadamente sobre a questão da interdisciplinaridade.

 

O conhecido é finito, o desconhecido, infinito; intelectualmente permanecemos em uma ilhota dentro de um oceano ilimitado de inexplicabilidade. Nosso objetivo em todas as gerações é reivindicar por um pouco mais de terra. (T. H. Huxley apud SAGAN, 1982: 03)

II. Sonhando com um despertar - aspectos pedagógicos

Vamos precisar de todo mundo

Um mais um é sempre mais que dois

Pra melhor juntar as nossas forças é só repartir melhor o pão

Recriar o paraíso agora para merecer quem vem depois

(Beto Guedes & Ronaldo Bastos)

 

A partir da certeza de que "O acontecer é global e simultâneo. Ao passo que o verbal é sucessivo e linear..." (Marshall McLuhan apud gaiarsa, s/d: 13), pugno a necessidade de se buscar, com fé e amor, uma Educação que valorize não mais somente a inteligência lingüística e/ou lógico-matemática, mas que, por compreender que o Homem é organismo extremamente complexo e misterioso, desenvolva também as demais inteligências intrapessoal, interpessoal, musical, espacial, corporal-cinestésica e naturalística , afinal a aprendizagem acontece de modo mais consistente quando ela envolve as diversas maneiras que a pessoa apreende a realidade. A grande contribuição da Teoria das Inteligências Múltiplas, de Howard Gardner, não é a descoberta de novas inteligências, com a ampliação das possíveis classificações das pessoas, mas exatamente a certeza de que o Homem não pode ser reduzido a um rótulo.

Segundo Kamii, a meta educacional da Teoria de Piaget é o desenvolvimento da autonomia (moral e intelectual), em oposição à heteronomia. Defendo que a autonomia dos autores pedagógicos seja um princípio da práxis educacional. O ensino centrado no educador precisa ser refeito, não somente com a utilização de computadores, que costuma ocasionar somente uma mera mudança da fonte do conhecer, daquele para esse, mas pela transformação das relações pedagógicas, onde o ensino busque desenvolver, cada vez mais, a competência dos educandos, permitindo-lhes assumir a responsabilidade pela sua vida.

Tais contribuições teóricas vão de encontro às formatações curriculares desenvolvidas, que, conforme sintetizou Márcio Simeone Henriques, se baseiam em certos princípios que engessam as práticas docente e discente: i) homogeneidade; ii) unidimensionalidade; iii) normatividade; iv) seqüencialidade; v) previsibilidade; e vi) disciplinaridade.

A crise da Educação é multi-fatorial, sendo a questão curricular um aspecto que deve ser devidamente considerado. As propostas pedagógicas devem, cada vez mais, valorizar a participação do aluno (de acordo com as suas possibilidades) em todas as etapas do processo, desde a escolha dos conteúdos a serem estudados (que devem, sempre que possível, ter relação com a sua vida) até a forma como a avaliação se efetivará, objetivando responder àquela antiga (mas sempre atual!) indagação dos alunos sobre a importância de determinados conteúdos para a sua vida.

"Que critérios devo observar na escolha dos conteúdos relevantes para os meus alunos?" é uma pergunta que o professor deve constantemente se fazer quando da estruturação de um currículo. Porém, diante do incremento da quantidade de saberes e a pressão exercida pela sociedade na qualificação de seus profissionais, será possível alguém afirmar que dentro de poucos anos tal conhecimento e não outro será imprescindível para o futuro profissional de seus alunos?

Uma solução que se tem buscado é a valorização dos saberes dos alunos, construídos a partir do seu complexo e desafiante cotidiano, buscando enriquecê-los com reflexões que os permitam elaborá-los em níveis mais refinados. Um dos frutos dessa postura pedagógica é possibilitar que o educando se perceba como responsável pela sua vida, pelo seu aprendizado, contribuindo substancialmente para a elaboração de um autoconceito e uma auto-estima positivos.

Nessa mesma direção, Marlucy Alves Paraíso, partindo do princípio de que o currículo é um produtor de identidades, defende a importância do multiculturalismo, no sentido de respeitar os valores, crenças e costumes das minorias sociais. Por fim, ela denuncia o caráter homogeneizador do currículo, por valorizar o homem, o heterossexual e o branco, em detrimento, respectivamente, da mulher, do homossexual e do negro.

Sem dúvida alguma, lidar com o diferente constitui-se num grande desafio para toda pessoa. Os conflitos sociais têm origens variadas, mas em muitos deles se percebe a presença da intolerância com o não-eu. Acredito e defendo que a escola se constitui num espaço privilegiado no aprendizado dessa importante lição, afinal, é a partir do outro que construo, ininterruptamente, a minha identidade. Ana Canen & Antonio Flávio Barbosa Moreira defendem um currículo que se forja a partir das seguintes linhas gerais: i) a articulação da pluralidade cultural da sociedade à pluralidade de identidades presentes na sala de aula; ii) o multiculturalismo não é mais uma disciplina, mas se explicita nos conteúdos selecionados, frutos da diversidade cultural; iii) o diálogo é fundamental para uma prática curricular que valoriza o diferente; e iv) os aspectos cognitivos não bastam: é necessário existir um envolvimento afetivo.

Uma outra resposta é o desenvolvimento de práticas interdisciplinares, que buscam integrar as diversas áreas do conhecimento, por compreendê-lo como um todo. Sem dúvida, a interdisciplinaridade requer do profissional da Educação uma formação bem diferente da que se tem oferecido a ele, pois, mais do que uma extensa fundamentação teórica, é indispensável que ele tenha uma experiência interdisciplinar, que o contemple não somente cognitivamente, mas também corporalmente, afinal a disciplina escolar deve ser sempre entendida nesse duplo aspecto.

Percebo, porém, que o velho distanciamento entre Ciência, Arte, Filosofia e Religião permanece. Via de regra, as propostas interdisciplinares estão circunscritas ao conhecimento (dito) científico, buscando uma maior integração entre as suas disciplinas - Matemática, Português, Física, História, ... Ou seja, elas têm se gestado dentro dos domínios da Ciência, da razão, da lógica. Onde estão as emoções, os desejos, os movimentos?

O meu objeto de estudo é exatamente investigar a possibilidade de se romper este domínio de um tipo de inteligência (a lógico-matemática) sobre as demais, afinal, conforme a Teoria de Gardner, as pessoas desenvolvem de forma particular as suas habilidades, as quais se constituem como linguagens que permitem (ou não) a comunicação com o mundo, ponte de todo conhecimento que o Homem constrói sobre si e o universo .

Ser Homem exige de cada indivíduo o equilíbrio (nunca alcançável) das dimensões pessoal e social. Por um lado, essa é uma constante ameaça ao desenvolvimento daquela, por outro lado, não é possível que a primeira se constitua como tal sem a vida em sociedade . Toda aprendizagem têm esse duplo aspecto. Ao reconhecer e vivenciar o caráter dialógico da vida, ele amplia a sua capacidade de exploração do universo.

A célebre afirmação de Rousseau "O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe" , além de revelar apenas o caráter negativo da vida social, está fundamentada numa visão inatista do Homem, que acredita que ele nasce completo, sendo a vida social mais uma contingência do que uma necessidade, um imperativo para o desenvolvimento de cada indivíduo.

Piaget afirma que o desenvolvimento cognitivo do sujeito acontece através dos esquemas, operações que se realizam na mente dele, com o objetivo de se adaptar e organizar o meio. Por compreender que o equilíbrio alcançando pelo sujeito nunca é permanente, pois sempre haverá algo que o perturbará, ele denomina esse processo de equilibração sucessiva, que acontece através da assimilação e acomodação.

É, ainda, extremamente importante para o presente estudo a noção de egocentrismo, entendida como a dificuldade do sujeito de se colocar no lugar do outro, perceber o mundo com olhos outros que não os seus, de até mesmo admitir que existem outras leituras possíveis... Essa dificuldade de descentrar não se limita ao universo infantil, como poderia, inadvertidamente, se pensar!

O que adianta o sujeito possuir as estruturas mentais flexíveis, reversíveis, se ele percebe o diferente, o não-eu como algo que ameaça a sua existência? Nesse sentido, Rogers (1991: 255) confessa: "Julgo que uma das melhores maneiras, mas das mais difíceis, para mim de aprender é abandonar minhas defesas, pelo menos temporariamente, e tentar compreender como é que a outra pessoa encara e sente a sua própria experiência. (...) uma outra forma de aprender é confessar as minhas próprias dúvidas, procurar esclarecer os meus enigmas, a fim de compreender melhor o significado real da minha experiência."

Tais contribuições são enriquecidas pela teoria de Vygotsky (1991: 99), que realça a importância do meio social no desenvolvimento das estruturas psicológicas superiores: "(...) o aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daquelas que as cercam." Para ele, cada pessoa possui dois níveis de desenvolvimento mental: o real e o proximal, enquanto o primeiro revela as funções cognitivas que já amadureceram, caracterizando-o retrospectivamente, o segundo revela as funções que ainda não amadureceram, que estão em maturação, caracterizando-o prospectivamente (Vygotsky, 1991: 95/97). Numa metáfora, enquanto o primeiro é o fruto, a segunda é a flor do desenvolvimento mental.

Para uma abalizada análise da questão curricular, é necessário que sejam considerados os aspectos ideológicos, culturais e de poder que nela existem, buscando alcançar um dinâmica correlação desses na elaboração teórica, fundamento e ponto de chegada das práticas educacionais, quer os professores e alunos admitam ou não. A complexidade do desafio revela o quão urgente se deve enfrentá-lo, sob pena de se perpetuar ritos cada vez mais estéreis e opacos para os atores sociais envolvidos.

Felizmente, tem crescido no ambiente educacional a compreensão da necessidade de se valorizar as experiências, os valores e os conhecimentos trazidos pelos alunos, não tomando-as como verdades acabadas, mas como material básico (e indispensável) para novas elaborações, que não tem fim, tendo em vista o caráter transitório, parcial e inesgotável do conhecimento, bem como dos meios de produção, que têm se transformado de forma cada vez mais rápida, devido às mudanças tecnológicas.

Uma das características mais marcantes do Brasil é a diversidade cultural, afinal somos repletos de negros, índios, brancos; pobres, ricos; evangélicos, católicos, espiritas e ateus; ... Diante dessa diversidade, é possível se pensar numa proposta curricular que contemple todo o país, como é o caso dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's)?

Na abertura dos PCN's, os seus autores afirmam esses não devem ser vistos como um receituário, mas como um guia, que fornece variadas informações, cabendo ao viajante escolher as que mais combinam com ele. A despeito do alerta empreendido, Lopes alerta para o caráter homogeneizador daqueles documentos, os quais intentam mascarar as profundas diferenças existentes, frutos de uma estrutura social injusta. Outra crítica formulada contra os PCN's pertine à relação desses com os princípios curriculares enunciados por Ralph Tyler, há cerca de meio século, que priorizava no processo educacional o momento avaliativo, no sentido de mensurar a aprendizagem ocorrida, desprezando (por que será?) o caráter processual e histórico que a caracteriza, bem como por não polemizar sobre os motivos da escolha dos conteúdos ministrados.

 

A Via-láctea contém cerca de 400 bilhões de estrelas de todos os tipos movendo-se com uma graciosidade complexa e ordenada. De todas elas, os habitantes da terra conhecem de perto ou de longe somente uma. Cada sistema estelar é uma ilha no espaço, resguardada de seus vizinhos por anos-luz. Posso imaginar criaturas penetrando nos primeiros clarões do conhecimento em mundos incontáveis, cada um assumindo em primeiro lugar seu insignificante planeta e um punhado de sóis desprezíveis como sendo tudo o que existe. Crescemos no isolamento; somente aos poucos nos ensinamos sobre o Cosmos. (SAGAN, 1982: 10)

 

III. Despertando para um sonho - possibilidades pedagógicas

O viver é de improviso, faz sua própria lei...

Tão pós-moderna a eterna paixão

Nesse programa de navegação

Estou navegando numa tela multicor

(Belchior & Ricardo Bacelar)

 

Rejeitando as explicações plasmadas num esquema causa => efeito (conseqüência), que, por vezes, sequer se prestam a fenômenos da natureza, ao contrário do que sempre propagaram os positivistas, defendo que a escola desenvolva atividades que privilegiem a divulgação e a interpretação de diferentes manifestações sociais, conforme defende Chizzotti, dando a importância, assim, à convivência na construção do conhecimento, abandonando, assim, a ritos desprovidos de significado, que inumeráveis prejuízos trazem à espontaneidade e criatividade das crianças, adolescentes e adultos.

A interdisciplinaridade desenha-se, assim, não somente como uma nova forma de aprender (cognitivamente) saberes, compreendendo-os de forma relacional, mas (e principalmente!) como a possibilidade de apre(e)nder a realidade com a inteireza do ser-devir humano, afinal ele nunca atinge o seu potencial máximo, que se apresenta como um tesouro inesgotável, à espera de novas formas de aprendizagem e de avaliação, as quais devem ser pautadas pela riqueza do diálogo, movimento, curiosidade, diversidade, dúvida, atitudes experimentadas durante as atividades realizadas.

A busca de uma nova Educação, a partir de uma compreensão da importância da interdisciplinaridade, deve ter um compromisso resoluto com o resgate da dimensão corporal, tantas vezes esquecida e negligenciada, a qual deve ser compreendida num espectro mais amplo de subjetividade, aqui entendida como tudo aquilo que diz respeito ao indivíduo.

A complexidade da estrutura e do funcionamento do cérebro, aos poucos desvendada pelos cientistas, nos permite, convida e incita a conceber a vida de uma forma muita mais rica e diversa da que temos feito. As infinitas e rapidíssimas ligações entre os neurônios, que ininterruptamente se comunicam através das sinapses, trocando sensações e permitindo uma diversidade incrível de manifestações, esfacelam a lógica pautada num modelo linear, que acreditava na previsibilidade dos comportamentos, que tantos anos reinou soberanamente.

A interdisciplinaridade, tal como concebo, fundamenta-se na compreensão de que o fundamento primeiro (e último) da vida humana não é a razão, como tantos se cansaram de proclamar, mas precisamente a emoção, o desejo, a dimensão onírica. Essa convicção, porém, não instaura uma nova ditadura, mas esforça-se para estabelecer um fecundo e sequioso diálogo entre os diversos aspectos do ser-devir humano, objetivando ao alcance de uma harmonia, nunca plenamente alcançável, mas sempre buscada. É como afirma Fazenda (1993: 18): "O que caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca, da pesquisa: é a transformação da insegurança num exercício do pensar, num construir."

A escola, nesse sentido, sobressai-se como um valioso local em que as novas (e também as antigas) gerações podem aprender a conceder generosos espaços para as emoções, o desejo e o corpo, pois pesquisas têm revelado que eles possuem mais importância do que se costumava crer, tendo em vista que o comportamento humano, desde cedo, tem um forte componente motivacional, embora que seja dificilmente identificado.

Uma nova Educação deve criar condições para que o aluno desenvolva a noção de totalidade, a qual se manifesta de variadas formas: na relação entre parte e todo, singular e plural, figura e fundo. Ele deve ser instigado a perceber mudanças que ocorreram na sua percepção inicial e final dessas vinculações, possibilitando-lhe alargar a sua compreensão quanto ao caráter histórico, processual e parcial do conhecimento, bem como do relevo da interação social na sua construção.

Os sujeitos devem compartir as suas percepções quanto aos caminhos projetados e trilhados, permitindo a ampliação da compreensão individual e social da sua responsabilidade pessoal/coletiva com o projeto autônomo de conhecimento. Da mesma forma, devem ser partilhadas as dificuldades, no sentido de propiciar aos autores envolvidos a oportunidade de descentrar, de conhecer outras realidades, investigando-as, inquirindo-as, num esforço de ampliar a sua capacidade de interpretação do mundo-mistério.

Todo ânimo deve ser empenhado por cada pessoa na formação de uma unidade complexa, ciente que é das alternativas que permeiam o seu viver. Ela deve encontrar na escola atividades múltiplas que favoreçam a sua integração corporal, bem como a percepção e vivência do aprendizado dentro de uma perspectiva holística do ser humano, a qual se apresenta como condição indispensável para uma aprendizagem mais profícua e duradoura, superando, assim, a oposição das emoções e do corpo em relação à mente, à razão. O que está de acordo com a idéia de Ferreira (1993: 22): "Interdisciplinaridade é uma atitude, isto é, uma externalização de uma visão de mundo que, no caso, é holística."

 

A perda da inocência, da vivência una, foi o início da História e da razão. A recuperação da inocência, a purificação, a salvação, a recuperação da liberdade, da convivência, da felicidade, serão a consumação da existência... (Fontanella, 1995: 91)

 

 

 

 

 

 

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