Labirinto e Ideografia Dinâmica

por Eduardo Loureiro Jr.

A idéia deste texto surgiu a partir de uma única frase de Pierre Lévy: "Na rede do cenário interativo, o deslocamento dá-se um pouco como num labirinto. Com a ideografia dinâmica, em compensação, saímos do labirinto: desenhamos o plano." (1998: 64)

Logo este texto não tem a pretensão, a partir de uma única frase, de concordar ou discordar do pensamento de Pierre Lévy expresso em A ideografia dinâmica. Não sei se o presente texto se contrapõe ao dele, se o complementa ou se, apesar de algumas citações em comum, eles foram feitos para se encontrar nunca.

Tentarei desenvolver minha própria narrativa, sem me preocupar com a filiação ou não ao pensamento de Lévy, mas usando trechos do seu livro. Talvez a idéia de labirinto que Lévy utiliza em seu sentido pejorativo seja a mais precisa imagem da ideografia dinâmica se tomada em seu sentido positivo. Talvez não. "Devemos, por ora, nos contentar com indicações sugestivas, em vez de um paralelo sistemático" (Lévy, 1998: 79), "nossa intenção [é ...] propor ao leitor algumas experiências de pensamento." (Levy, 1998: 25-26). Apresentaremos "o raciocínio como texto ou mesmo como narrativa" (Lévy, 1998: 113).

Ou talvez isso tudo não passe de um rearranjo das frases de Lévy, tomando-as como módulos independentes na construção de um discurso possível e alternativo dele mesmo.

"Compreender uma proposição é imaginar a que o mundo se assemelharia se ela fosse verdadeira" (Lévy, 1998: 125). Compreender um labirinto é imaginar a que o mundo se assemelharia se fosse um labirinto. Um labirinto no qual não somos viajante ou arquiteto mas viajante e arquiteto. "A atividade intelectual é tecida por um permanente vaivém entre a generalização e a narrativa, entre o conceito e o encadeamento singular de fatos, entre a diacronia e a classificação, entre a dialética e o diagrama" (Lévy, 1998: 61). A ação de sair do labirinto não deve ser uma solução final, mas apenas uma alternância na ação contínua de entrar e sair do labirinto.

No mundo como labirinto, "o comportamento do todo não obedece a uma lei global válida em todo o tempo e lugar, mas compõe-se progressivamente a partir do comportamento autônomo das partes e da história sempre singular de suas interações" (Lévy, 1998: 144). "Os operadores constroem para si, minuto a minuto, visões parciais e deformadas do sistema que ocorre em sua ação" (Lévy, 1998: 193). "O que é 'conteúdo' em certa escala torna-se 'expressão' em outra" (Lévy, 1998: 169). Mesmo que estejamos "buscando o conteúdo, encontramos apenas a expressão" (Lévy, 1998: 169).

"Comunicar equivaleria então, essencialmente, a pôr em movimento a simulação de um modelo mental no espírito do interlocutor" (Lévy, 1998: 169). "O menor discurso, como o menor fantasma, conta uma micro-história. Seja de modo abstrato, seja figurado, é sempre em última análise uma narrativa com seus atores, seu enredo e seu desenlace, que encena o que, para os humanos, é dotado de sentido'" (Lévy, 1998: 195). "Todas as formas de ordem dentre as representações referem-se em última instância a narrativas organizadoras" (Lévy, 1998: 195).

Não é à toa que o mito do labirinto apresenta um fio. "No momento em que imagens se sucedem, o espírito humano (do espectador ou do diretor) não pode recusar um fio. Talvez ainda mais do que a imagem, a narrativa é um atrator cognitivo, uma das grandes formas dinâmicas constituintes de nossa vida psíquica" (Lévy, 1998: 196 a 197).

E as pessoas se relacionam, tecem uma trama comum com seus fios, que não são idênticos. "Rousseau sonhava com um meio de comunicação imediato, quase telepático, uma língua que dispensasse a mediação simbólica, que exprimisse diretamente pensamentos e sentimentos" (Lévy, 1998: 36). "A comunicação perfeita seria telepática, e ainda assim... Poderíamos transmitir pela telepatia, suspenso em uma representação mental, o imenso rizoma que depende da carne e da própria história do sujeito e de seu mundo, o hipertexto indefinido que nutre, propaga e difrata o sentido da mínima representação?" (Lévy, 1998: 134). "Se pudéssemos compartilhar diretamente com outros humanos nossas experiências, intenções, emoções e idéias (com o mesmo sentido que elas têm para nós), nossas subjetividades se confundiriam, e não somente os signos perderiam sua pertinência, mas a própria noção de comunicação" (Lévy, 1998: 33). A pluralidade é então condição da existência ou pelo menos da consciência da própria existência. "É claro que não podemos representar numa tela a interação simultânea de todos os objetos de um modelo, a menos que renunciemos à legibilidade" (Lévy, 1998: 191)

O mundo como labirinto não é um mundo único, mas uma coleção de tramas, de universos. "Um universo é um modelo visto do ângulo de sua ligação com um objeto-ator particular" (Lévy, 1998: 204). O próprio mito do labirinto têm múltiplas camadas de história dependendo do personagem escolhido para conduzir nossa visão da história. O labirinto de Dédalo não é o mesmo que o de Teseu ou de Ariadne, muito menos que o do Minotauro. E "têm vocação universal, porque representam não apenas um ponto de vista particular, mas um ponto de vista particular sobre o todo" (Lévy, 1998: 145).

Ao contrário do mito, entretanto, o mundo como labirinto tem bilhões de personagens. "Um campo de conhecimento pode ser representado por uma quantidade indefinida de modelos" (Lévy, 1998: 198 a 199). "Interações auto-organizadas de entidades autônomas e a insistência na fluidez dos conceitos" (Lévy, 1998: 213) seria a sua marca.

"Cada universo poderia assim se desdobrar em três mundos: um mundo factual, um mundo do possível e um mundo contra contrafactual" (Lévy, 1998: 205). O labirinto não é só o fato arquitetônico de uma prisão, é também o deserto possível como um labirinto que nos apresentou Borges, e ainda o contra-fato, o labirinto como expressão da liberdade, o perder-se como o encantar-se sem controle perante o mundo. "Certos modelos poderão bastar-se a si próprios porque serão fascinantes ou desconcertantes como sistemas metafísicos, ou emocionantes como poemas" (Lévy, 1998: 189). "Jamais perderemos de vista seu caráter hipotético" (Lévy, 1998: 154).

"A categorização, a elaboração de modelos mentais e os raciocínios humanos fazem-se na maior parte do tempo de modos fluídos, analógicos, metafóricos ou metonímicos e utilizam sempre em última instância intuições concretas extraídas da experiência sensório-motora, cinestésica, social e cultural. E, ainda, as características dos modelos mentais não refletem rigidamente, de maneira bijetora, propriedades de objetos do mundo, mas decorrem de decupagens ligadas à experiência, aos projetos, aos pontos de vista de indivíduos vivos empenhados em práticas" (Lévy, 1998: 214). O mundo como labirinto é um sistema de RPG, um sistema a mais do jogo de representação de papéis.

Outubro de 2000

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