Criança
desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não
te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te
graça por nunca te ter visto antes,
E
naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem
aqui vinhas.
Brinca
na poeira, brinca!
Aprecio
a tua presença só com os olhos.
Vale
mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque
conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E
nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O
modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão
sujas.
Brinca!
pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes
que te cabe na mão.
Qual
é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma,
e nenhuma pode vir brincar à minha porta.
Das crianças,
esses seres alados, sabemos muito pouco. Por mais que estudemos Piaget,
Vygotsky, Freinet ou criemos novas teorias sobre o desenvolvimento da criança,
mesmo assim, continuamos num saber pouco, muito pouco. As crianças não entendem
nossa língua. E, pelo que me parece, os adultos não querem aprender a linguagem
da infância. Muito pelo contrário. Nossa preocupação primeira é alfabetizar o
jardim da infância. Nossa preocupação inteira é fazer com que a criança deixe
de ser criança o quanto antes. Que ela veja o mundo não mais com seus olhos,
mas com os olhares de seus pais e de seus professores.
Para que tanta
pressa? Se a criança não anda com um ano de idade, compramos logo um “andajá” –
aquele saco com rodas. Se ela sai do jardim da infância sem conhecer as vogais
e o alfabeto, ficamos preocupados e contratamos uma professora de reforço escolar.
Compramos um caderno de caligrafia. Compramos cartilhas, mas não compramos
literatura. Mandamos fazer a tarefa escolar, mas não brincamos com ela.
Reclamamos de quase tudo que ela faz, mas não contamos histórias nem cantamos
acalanto. É triste, mas parece que criamos nossas crianças sem sentir a sua
infância. Olhamos para elas e só pensamos como pode ser sua vida adulta e
profissional. Matriculamos nossos
filhos no maternal já pensando na competição do vestibular. E as crianças?
Alguém já perguntou o que elas pensam disso tudo? Quem é doido de perguntar?
Quem é mais doido ainda de ouvi-las?
Então, é melhor
comprarmos presentes e mais presentes. E nada de jogos educativos ou brinquedos
artesanais. Compremos bonecas barbies, digimons, pokemons e outros mons.
Se não for assim, não terá graça quando ela for assistir TV ou mostrar seus
presentes para os amigos. Outro troço! Compramos os presentes das crianças não
apenas para se divertirem, mas para esbanjarem o preço e a etiqueta. Lembram
daquela propaganda que a Xuxa fazia? “Eu tenho e você não tem! Eu tenho e você
não tem!”.
Mas, espera aí.
Este texto está ficando muito amargo. Então, voltemos para o olhar da criança.
Olhemos para ela brincando na poeira com uma pedra que lhe cabe na mão. Vendo
as coisas sempre pela primeira vez. Sentindo o tato do mundo de pés descalços e
vendo as coisas ao redor com o olhar distraído. Cultivando as coisas
aparentemente insignificantes e miúdas. Um olhar despojado de qualquer esquema
codificado de ler o mundo. Apenas um olhar de criança que brinca e inventa. Que
ainda tem a capacidade de se admirar com as coisas do mundo. Que o vivencia não
como uma coisa absolutamente normal – como fazem a maioria dos adultos –, mas
como algo enigmático, perene e brincante.
No mais, não pense
só no brinquedo, pense também na brincadeira e na aventura. Ela pode ser do tamanho
de um universo e durar uma vida inteira. Pode ser uma coisa cara qual o quê.
Mas pode ser também uma coisa miúda como uma pedrinha engraçada ou cócegas no
ouvido. Pode ser um riso, um salto, uma corrida. Quem sabe um colo, um acalanto,
um sonho. Talvez, uma cambalhota, um abraço, um vagar. Sei lá! Um dedo de
criança apontando para as pedras como se cada pedra fosse todo um universo.
Fabiano dos
Santos
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