O QUE SABEMOS SOBRE AS CRIANÇAS?

 

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,

Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.

Acho-te graça por nunca te ter visto antes,

E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,

Nem aqui vinhas.

Brinca na poeira, brinca!

Aprecio a tua presença só com os olhos.

Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,

Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,

E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

 

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.

Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,

Sabes que te cabe na mão.

Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?

Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar à minha porta.

 

(Fernando Pessoa – poema de Alberto Caeiro)

 

 

Das crianças, esses seres alados, sabemos muito pouco. Por mais que estudemos Piaget, Vygotsky, Freinet ou criemos novas teorias sobre o desenvolvimento da criança, mesmo assim, continuamos num saber pouco, muito pouco. As crianças não entendem nossa língua. E, pelo que me parece, os adultos não querem aprender a linguagem da infância. Muito pelo contrário. Nossa preocupação primeira é alfabetizar o jardim da infância. Nossa preocupação inteira é fazer com que a criança deixe de ser criança o quanto antes. Que ela veja o mundo não mais com seus olhos, mas com os olhares de seus pais e de seus professores.

 

Para que tanta pressa? Se a criança não anda com um ano de idade, compramos logo um “andajá” – aquele saco com rodas. Se ela sai do jardim da infância sem conhecer as vogais e o alfabeto, ficamos preocupados e contratamos uma professora de reforço escolar. Compramos um caderno de caligrafia. Compramos cartilhas, mas não compramos literatura. Mandamos fazer a tarefa escolar, mas não brincamos com ela. Reclamamos de quase tudo que ela faz, mas não contamos histórias nem cantamos acalanto. É triste, mas parece que criamos nossas crianças sem sentir a sua infância. Olhamos para elas e só pensamos como pode ser sua vida adulta e profissional.  Matriculamos nossos filhos no maternal já pensando na competição do vestibular. E as crianças? Alguém já perguntou o que elas pensam disso tudo? Quem é doido de perguntar? Quem é mais doido ainda de ouvi-las?

 

Então, é melhor comprarmos presentes e mais presentes. E nada de jogos educativos ou brinquedos artesanais. Compremos bonecas barbies, digimons, pokemons e outros mons. Se não for assim, não terá graça quando ela for assistir TV ou mostrar seus presentes para os amigos. Outro troço! Compramos os presentes das crianças não apenas para se divertirem, mas para esbanjarem o preço e a etiqueta. Lembram daquela propaganda que a Xuxa fazia? “Eu tenho e você não tem! Eu tenho e você não tem!”.

 

Mas, espera aí. Este texto está ficando muito amargo. Então, voltemos para o olhar da criança. Olhemos para ela brincando na poeira com uma pedra que lhe cabe na mão. Vendo as coisas sempre pela primeira vez. Sentindo o tato do mundo de pés descalços e vendo as coisas ao redor com o olhar distraído. Cultivando as coisas aparentemente insignificantes e miúdas. Um olhar despojado de qualquer esquema codificado de ler o mundo. Apenas um olhar de criança que brinca e inventa. Que ainda tem a capacidade de se admirar com as coisas do mundo. Que o vivencia não como uma coisa absolutamente normal – como fazem a maioria dos adultos –, mas como algo enigmático, perene e brincante.

 

No mais, não pense só no brinquedo, pense também na brincadeira e na aventura. Ela pode ser do tamanho de um universo e durar uma vida inteira. Pode ser uma coisa cara qual o quê. Mas pode ser também uma coisa miúda como uma pedrinha engraçada ou cócegas no ouvido. Pode ser um riso, um salto, uma corrida. Quem sabe um colo, um acalanto, um sonho. Talvez, uma cambalhota, um abraço, um vagar. Sei lá! Um dedo de criança apontando para as pedras como se cada pedra fosse todo um universo.

 

Fabiano dos Santos

 

 

http://www.patio.com.br/labirinto