Alguém decorou a cor da cor de conhecer?
Eduardo Loureiro Jr.

O conhecimento é um encontro. Metáfora. O conhecimento é um encontro entre um sujeito e um objeto. Ou entre um sujeito que é eventualmente objeto e um objeto que é eventualmente sujeito. Metáforas são perigosas. Homem e mulher se encontram para se acasalarem e se fundirem ou homem e mulher foram desfundidos e procuram agora se encontrar? Nada de platões nem de platôs onde se enxerga longe. Curvas, curvas, curvas. Metáforas são ingênuas. Perigosos são os leitores de metáforas, os ouvintes, os intérpretes. O conhecimento é o encontro de dois seres ou devires que podem nunca ter se encontrado mas que já foram um só, indiferentes, indiferenciados. Se é difícil pensar na pedra e no mar como sujeitos, é fácil falar que todos são objetos, inclusive nós humanos — não objetos eventuais, mas objetos mesmo —, e que o mundo todo também é objeto, O objeto; sem sujeito, se ser objeto implica em não ser sujeito ao mesmo tempo. No princípio era a carne. E a carne se fez verbo, e conhecemos quem somos. Antes do princípio era o caos, ou seja, uma ordem absolutamente complicada. Era o nada, que é o mesmo que tudo. A percepção correspondendo à ação. A cada ação corresponde uma reação igual e contrária. O paraíso da lei de Newton. A cada complexificação, mais distância entre o percebido e o atuado, entre a intenção e o gesto. Um processo lento, lentíssimo, se pudéssemos subdividir um minuto em sessenta vezes sessenta vezes sessenta partes e acompanhar cada fragmento. O elo perdido é o sapatinho que a Cinderela deixou na escadaria do palácio. Atenção: metáfora a 100m. O sapatinho perdido na descida, e não na subida da escadaria, não na entrada do baile, mas em sua saída. Atenção: metáfora a 200m. Mas por que a complexificação se daria num só sentido? Por que a estrada da evolução vai do caos ao homem, passando pelo caldo inicial, algas, anfíbios, macacos? Somos mais flexíveis e complexos em relação aos animais, ou apenas nos vemos mais de perto, em zum, percebendo nuances? Os vasos por baixo da casca da árvore, a seiva, são descobertos ou são inventados? É uma árvore, outra árvore ou nenhuma árvore? Existe o ser? Existem possibilidades de ser? Existem possibilidades limitadas de ser? Existe uma cor em si, que faz do azul azul para todo o sempre assim seja? O remo entrando na água sofre refração se visto a partir do ar. Mas, visto a partir da água, não poderia ser sua entrada uma epifania do remo etérico, até então visto de maneira nebulosa? Mas há algo lá e aqui. Nem que seja invenção, obra do sonho de alguém. "Se pudéssemos dar um nome a tudo que acontece, as histórias não seriam mais necessárias. Tal como as coisas são, a vida costuma superar nosso vocabulário. Falta uma palavra, e então é necessário contar uma história". Conhecer é contar o que a gente poderia fazer se estivesse fazendo e não pensando. Pensar é separarmo-nos de nós mesmos. Um dia o pensamento sai voando. E eu quem sou: o que voa ou o que fica? Encontrar é manter o controle da distância. Conhecer é manter o controle do repouso. Meus poros sentem tudo e não podem nada. Pobres sentinelas que se comunicam com o cérebro, que organiza as informações, que procrastina o agir e deixa a ducha da memória, ora quente, ora fria, chover no molhado do nosso suor. Quem sabe faz a hora, mas não faz na hora. O casal que se encontra ou se funde ou se separa. Ou fode ou sente saudade. Ou perde o juízo ou ganha a lembrança. Conhecer, se encontrar, cansa, dá dores nas costas, dormência nos músculos, cãibra. Conhecer é estar descansado mas desperto. Estar dormindo é perder a diferença, é ser si mesmo sendo outro, "tudo pode qualquer coisa ser". O mundo, do qual fazemos parte e inteiro, é um cachorro de que se adivinha o nome chamando-o ora disso, ora daquilo até que ele atenda. Agora, saber por que ele atende... só muita ingenuidade para acreditar que é porque justamente esse é o nome dele.

[ texto produzido em 13.abril.2000 para a disciplina Correntes Modernas da Filosofia da Ciência ministrada pelo professor André Haguette ]

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto