Universidade Federal do Ceará

Programa De Pós-Graduação Em Educação Brasileira

Doutorado

Disciplina: Movimentos Sociais, Educação Popular e Escola I

Código: PDP869

Período: 2/2000

Professores: Eliane Dayse Furtado e Ribamar Furtado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SAIBA SE VOCÊ É UMA EDUCADORA LIBERTÁRIA

 

 

 

Andréa Havt & Fabiano dos Santos

 

 

 

 

 

Fortaleza-CE ¾ março/2001

 

 

 

 

 

 

 

 

Labirinto: me encontro nas coisas perdidas do mundo

SAIBA SE VOCÊ É UMA EDUCADORA LIBERTÁRIA

 

Atenção! Hoje vamos fazer um teste.

Se você sentiu um friozinho na espinha e uma dorzinha de barriga só de lembrar de escola, vestibular, concurso público ou qualquer outra prova de conteúdo, fique tranqüila, não passou de um susto. Educadora não é professora e o teste não vai lhe fazer decorar nada. Vai ser como dormir: fechar os olhos e olhar pra dentro.

            “Que tipo de educadora sou eu?” Essa é a pergunta que convidamos você a sonhar enquanto olha pra dentro. A proposta é fazer isso a partir de muitas das idéias da pedagogia libertária, que é a parte do socialismo libertário que pensa a educação. O que é o mesmo que dizer que libertária é a forma anarquista de educar.

            “Liberdade total com solidariedade total”. Qualquer pessoa que deseja a realização dessa frase de Errico Malatesta, já se pode declarar com alma anarquista. Os que tiveram uma passada por leituras marxistas já estarão com as vísceras igualmente entranhadas. É que Marx e os primeiros anarquistas, como Proudhon e Bakunin, eram, como se diz, unha e carne. Isso até descobrirem as diferenças, até os comunistas começarem a perseguir os anarquistas. De todo jeito, não é difícil supor que as semelhanças não desapareceram com a descoberta dessas diferenças. Então, se há algo de marxista na sua história, há algo de anarquista em você.

Contudo, pode ser que você não seja de ficar sonhando o tempo todo com futuros grandiosos para a humanidade, não quer mais reconhecer esse seu lado marxista, ou então já se deparou com frases do tipo “quem nega a Autoridade e luta contra ela é um anarquista”, de Sébastien Faure, e pensou consigo: “Bem, acho que não chego a tanto!”. Para esses casos e para você que tem vontade de refletir sobre o tipo de relação que mantém com outras pessoas, preparamos o questionário abaixo. Esperamos que você não seja uma anarquista que só lê panfleto comunista revolucionário, ou do tipo racionalista que desacreditaria um questionário inspirado em revistas adolescentes femininas que, mesmo que fossem feitas com assessoria acadêmica, não chegariam jamais a ser um manual científico com todo o rigor que a sua inspiração iluminista exigiria.

 

Observações:

1. o texto está no feminino porque nos dirigimos a você como uma pessoa, aproveitando a forma mais coloquial da nossa fala. Serve, portanto, aos vários gêneros.

2. após a soma dos resultados do seu teste, você poderá ler o resultado geral por categoria e o resultado por questões, com comentários específicos para cada opção.

 

 

TESTE

 

Marque apenas uma opção para cada item.

 

1.      Em uma eleição com voto obrigatório, como é o caso do Brasil, você:
a) Vota nulo.
b) Vota no candidato com idéias mais próximas da sua.
c) Faz campanha para o candidato do partido com idéias mais próximas da sua.

 

2.      Quando alguém deixa um par de sapatos largado no meio da sala da sua casa:
a) É você quem tem esse hábito.
b) Você pede ao dono que retire.
c) Você coloca no lugar certo.

 

3.      Se em algum grupo do qual você participa surge um impasse, a melhor solução pra você é:
a) Uma votação.
b) Pensar alternativas até que todos sejam contemplados.
c) A criação de uma comissão para facilitar o diálogo entre as partes.

 

4.      Se as pessoas não se interessam em refletir e conhecer sobre a realidade política, social e econômica que as envolve, você:
a) Atribui à desigualdade social e pensa numa forma das informações chegarem até elas: através de uma Ong, de manifestações...
b) Desconfia que você desconhece essa realidade mais do que elas.
c) Acha que são alienadas e se vendem por pouco.

 

5.      Se você é professora e um aluno seu descumpre uma das regras da escola, o melhor a fazer é:
a) Contornar a situação de modo a não repreender ou expor o aluno.
b) Conversar com a turma para lembrar as regras e mostrar como elas facilitam a convivência.
c) Propor a mudança da regra.

 

6.      A religião é importante como:
a) Expressão cultural e individual.
b) Aspecto espiritual do homem, transcendência.
c) Necessidade de fé para a vida.

 

7.      Se seu filho de 2 anos rabisca traços no papel e diz que é um elefante, você:
a) Diz que o elefante dele está lindo.
b) Mostra toda orgulhosa para a amiga e comenta: “Ele diz que é um elefante”.
c) Fica com vontade de desenhar com ele.

 

8.      As pessoas:
a) Serão livres quando forem educadas.
b) Serão educadas quando forem livres.
c) Nunca serão livres, mesmo que sejam educadas.

 

9.      Você faria uma pós-graduação para:
a) Crescimento pessoal e contribuição social.
b) Para falar com mais propriedade do tema com que trabalha.
c) Renovar-se.

 

10.  Se você encontra um material bibliográfico que considera importante para seu orientando de mestrado, você:
a) Mostra o material e fala da sua empolgação.
b) Argumenta que o material é indispensável e que é do gosto dos membros da banca.
c) Dá um tempo para a leitura e marca uma reunião para discussão do material.

 

11.  Se seu filho disser que não quer mais ir à escola, você:
a) Diz que “tudo bem” e pergunta o que ele pretende fazer.
b) Diz que ele vai ganhar aquele carro que ele tanto sonha quando terminar os estudos.
c) Diz que a gente não faz só o que quer e que tem de pensar no futuro.

 

12.  Se uma criança a quem você está dando comida se recusa a comer, você:
a) Argumenta que está muito gostoso porque foi feito com todo carinho.
b) Diz que tem muita gente que não tem nem o que comer e que não se deve desperdiçar comida.
c) Procura uma alternativa alimentar.

 

13.  Cargos de chefia são:
a) Um fardo que só é suportável se houver rodízio ou distribuição de funções.
b) Uma fonte de stress que não pode ser recusada porque pode dar uma folga nas finanças.
c) Um reconhecimento de bom trabalho e vêm como promoção.

 

14.  O valor dos velhos na sociedade é:
a) Sentimental: dever da família cuidar de quem já cuidou.
b) Histórico: são a memória da cultura que morre e enfraquece à medida que os velhos não são respeitados.
c) Pessoal: cada um deve ser respeitado como ser humano, com suas capacidades e características individuais.

 

15.  O educador deve:
a) Ao invés de dar o peixe, ensinar a pescar.
b) Deixar que se descubra como se pesca.
c) Ir pescar junto.

 

16.  Você acha que a escola pode ser importante se:
a) Formar o caráter da pessoa com disciplina, trabalho e moral.
b) For mais um espaço de convivência e troca de saberes.
c) Orientar para a vida em sociedade, considerando potencialidades individuais.

 

 

Marque os pontos por questão e some o total:

 

01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

11

12

13

14

15

16

a)

3

1

2

2

2

3

2

1

2

3

3

1

3

1

2

1

b)

1

3

3

3

1

2

1

3

1

2

1

2

2

2

1

3

c)

2

2

1

1

3

1

3

2

3

1

2

3

1

3

3

2

TOTAL: _____

 

 

RESULTADO GERAL

           

  1. De 16 a 26 pontos
    ”A pessoa certa, no lugar certo, na hora certa”

 

Pode se despreocupar, mesmo que você tenha sonhado com uma praia deserta, com toda a liberdade pra fazer o que quiser, você não é anarquista. Isso é um sonho de consumo, não um projeto de vida. Se for radical deve estar feliz e até se sentindo um bem para a humanidade por não ser um desses tipos que come criancinha ou sai matando gente em atos suicidas terroristas.

De um modo geral, você está muito bem adaptada ao que se costuma chamar de realidade atual: o mundo das oportunidades. É provável que batalhe pelo que quer e se dê sempre muito bem ou não desanime de todo diante de obstáculos. É um tipo ótimo para a vida social, sabendo sempre como lidar com as pessoas porque conhece razoavelmente a etiqueta. Cumprir as regras é importante para esse tipo de vida e favorece com que você seja chamada para a próxima festa.

Se a vida social é favorecida, as relações mais íntimas, no entanto, podem ser difíceis. Se tiver de conviver com pessoas do mesmo tipo, vai ser encontro de bicudos, que concordam que não adianta lutar contra o mundo, mas acabam não abrindo espaço para inevitáveis diferenças sobre o que seja o mundo. Se for viver com uma pessoa mais tolerante, corre o risco de sufocá-la.

 

  1. De 27 a 37 pontos

“Com o passarinho na mão”

 

Bemvindo ao clube dos confusos. Você deve ser do tipo aberta, mas fica indecisa na hora que a filha sai com o namorado, e tem de se esforçar para não interferir sem ser solicitada. Uma pessoa que conversa muito com filhos, alunos, amigos, pais... Você tem a vantagem de escapar das críticas feitas aos anarquistas que estariam sempre muito distantes da realidade. Mas talvez para os anarquistas isso não queira dizer muito porque liberdade, autonomia... se faz na ação e não pelo discurso. Se isso não deve ser um desestímulo ao diálogo, sempre fundamental para permitir o respeito às liberdades individuais, deve-se também manter a precaução para que liberdade, solidariedade, cooperação não passem de palavras de moda.

Sua vida é marcada pela dúvida entre soltar o passarinho e a segurança de mantê-lo em suas mãos. Suas idéias provavelmente já deram voltas pelo universo, mas seu corpo pode carregar o peso do mundo nessa oscilação entre educar um filho para se dar bem neste mundo ou para ter de brigar por espaço por ser uma pessoa diferente. Se você não se ilude na ignorância das dificuldades do mundo, pode cair fácil na ilusão de que pode mudar as outras pessoas, especialmente as mais próximas, no sentido de conscientizá-las sobre essa tal realidade.

 

  1. De 38 a 48 pontos

“Quanto mais eu ando, mais vejo estrada”

(verso da música O Plantador, de Hilton Acioli e Geraldo Vandré)

 

Se você não montou ainda sua sociedade alternativa trate logo de fazê-lo para não perder uns pontos e mudar de categoria. Nesse caso é difícil você estar se iludindo ou enganando os outros com palavras bonitas. Você pode parecer sonhadora aos outros, mas é tão pé no chão que desconfia da possibilidade de interferir na vida de uma outra pessoa sem que seja por escolha dela própria, ou por incapacidade de controlarmos tudo que nos acontece. Você sabe muito bem que o seu projeto é somente seu e de alguns poucos como você, mas nem por isso se intimida em revelá-lo e tentar implementá-lo. “Ao rejeitar as tentações de utopia, os anarquistas não caíram na negação.” (Woodcock, 1998: 55).

Considere, no entanto, que anarquistas há de vários tipos. “Hay sistemas completos de teoría política anarquista denominados federalismo, mutualismo, individualismo, sindicalismo, comunismo libertario, feminismo anarquista, situacionismo, etc.” (Ateneo Libertario). Que este resultado é menos um certificado que um lembrete de que o caminhar é sem fim. Tão sem fim que você pode se descobrir apaixonada por uma pessoa reacionária-autoritária que pensa que todo mundo tem um preço. Aqui é o mundo onde tudo é possível. Aqui é o mundo onde você pode até parar, cortar o fio, e se deixar devorar pelo Minotauro, como um bolinho da Tia Nastácia.

 

 

RESULTADO POR QUESTÃO

 

1.      Em uma eleição com voto obrigatório, como é o caso do Brasil, você:


a) Vota nulo.

 

O manifesto abaixo revela bem suas idéias, mesmo que não esteja no seu tom. Isso porque “mesmo havendo diferentes opiniões anarquistas, existe uma filosofia definida, assim como uma tendência anarquista reconhecida. Essa filosofia envolve três elementos: uma crítica à sociedade como ela é, uma visão de uma sociedade alternativa e um planejamento para pôr em prática esta transformação.”(Woodcock, 1998: 16).

Manifesto “Contra o Sistema”, da Direcção Central de Combate às Tradições Académicas (1996):

“Apresentamo-nos mais uma vez contra o sistema apenas para lembrar o que é óbvio...

Não nos dirigimos portanto às mais diversas putas que disputam na estrumeira mercantil o seu quinhão de  vida falsificada. Estes têm padrinhos mais abonados que nós. Dirigimo-nos aos que descobrem a grande mistificação na normalidade tecida pelos discursos e práticas dominantes. E o melhor instrumento para furar esse véu totalitário é a empatia.

Qual de vós não sente uma invencível repulsa ao topar um desses focinhos obscenos que se nos dirigem sem vida interior e nos estendem o seu discurso bem alinhado (e igualmente morto)? Queremos poesia e não slogans que nos tomam por imbecis.

Queremos viver plenamente e não apenas a garantia de um emprego para nos espartilhar a vida e nos ocupar no estrangulamento das crianças que teremos que educar ou na condução dos operários que terão de nos chamar senhor doutor engenheiro.

Não queremos viver gordurosamente a lubrificar uma máquina que se alimenta de humano e vomita miguéis esteves cardosos.

Aos que admiram a eficiência dos sistemas e vêem o caos onde existe subjectividade organizada, lembramos que a realidade mais rica é aquela que é mantida pela imaginação criadora de cada indivíduo.

Por isto, nos repugna o desfile de zeros a que chamam campanha eleitoral.

Por isto, celebramos o atrito e o descarrilamento e procuramos alargar a brecha no espaço-tempo alienado em que nos forçam a viver.

Somos nós os legítimos depositários do esforço evolutivo que fez emergir as estrelas de um universo indiferenciado, que animou a matéria que aquelas cozinharam para chegar aos primatas e que fez surgir o primeiro ser que estremeceu maravilhado ao contemplar esse percurso.

Notemos também que ao nosso lado existem os que têm queda para a política e uma sensibilidade verdadeiramente protozoária.

Companheiros desta aventura cósmica, salvaguardemos a nossa honra de ser humanos, escarrando vigorosamente na primeira cripto-amiba que nos vier pedir o voto.”

 

b) Vota no candidato com idéias mais próximas da sua.

 

Você faria a festa do Roberto DaMatta, um antropólogo que escreve para o Jornal da Tarde aos domingos e costuma repetir que o brasileiro personaliza tudo e mistura público com privado: “o que é bom para você é bom para o seu país”. Candidato bom é o que pode lhe beneficiar ou que mantém as coisas como estão, se você não for do tipo muito envolvida com política. Deixar de votar nem pensar, é um ato social importante e é uma competição irresistível, o que leva à tendência de votar também no candidato que estiver na frente das pesquisas para “não perder voto”. Mas não se iludam os discordantes, porque as pessoas desse tipo podem não ser tão ingênuas a ponto de recusar a idéia anarquista de administrar suas próprias vidas. O ponto aqui é outro: ao contrário dos anarquistas, essas pessoas pensam que é natural existir um governo tanto quanto ser seduzido pelo poder, desde que suas vidas “conquistadas”, por herança ou por esforço, sejam preservadas, tanto quanto a esperança de melhorá-las. Elas não são alienadas, são capitalistas em essência. Sabem muito bem que se alguém está por cima, outro tem de estar por baixo, mas compram esse jogo só pela possibilidade de um dia serem elas mesmas o poder. E isso, obviamente, é refletido em todos os ambientes: casa, escola, trabalho, cidade, país... Formas hierarquizadas de organização favorecem a competição e a possibilidade de “mudar de vida”, por isso são valorizadas.

     

c) Faz campanha para o candidato do partido com idéias mais próximas da sua.

 

O mundo pode estar ruim, mas é o mundo que você tem. Há uma forte possibilidade de transferir os males do mundo para os poderosos para, talvez, suportar ou espantar a idéia de que, no fundo, você faz parte na construção dessa realidade. Daí todo o seu engajamento no processo de transformação dos que estão no poder, mas dificilmente arriscaria acabar com a própria estrutura hierárquica a que está habituada. Uma vontade de mudar sem correr riscos lhe habita. Uma outra possibilidade é que você seja uma comunista ou socialista até bem ativa, que sonha e luta pelo governo dos desfavorecidos, mas ainda assim sonha com um governo e esbarra na crítica que os anarquistas fazem a Marx e seus simpatizantes, “porque o governo da maioria é uma forma de tirania e a eleição de representantes é na verdade uma forma de abdicação das responsabilidades individuais.” (citação de William Godwin, Woodcock, 1998: 33). Então, se você é do tipo que trabalha melhor sobre pressão, quando alguém lhe cobra prazos e produtividade, observe se você não está somente com medo de soltar o passarinho e ficar sem saber o que fazer com as mãos.

 

2.      Quando alguém deixa um par de sapatos largado no meio da sala da sua casa:


a) É você quem tem esse hábito.

 

Você deve pensar que anarquia é confusão, bagunça. O Aurélio não negaria. Poderia até argumentar que é bem anarquista ao “fazer o que quer”, mesmo não dispensando a desculpa de que chegou cansada do trabalho. Pode ir além, afirmando a sua individualidade, mas não demora muito e isso vira poder de dona da casa. A individualidade afirmada pelos anarquistas não é o mesmo individualismo que acha que o seu cansaço é maior que o dos outros, ou, pior ainda, que sua independência financeira e a dependência dos outros em relação a você lhe garante certas regalias. Sua liberdade compete com a dos outros e isso é bem provável que gere uma enorme bagunça, além de eternas brigas. “O anarquista não é um individualista no sentido estrito da palavra. Ele acredita apaixonadamente na liberdade, mas reconhece que ela só pode ser mantida pela disposição em cooperar e pela aceitação da realidade da comunidade.” (Woodcock, 1998: 15). Organização não-coercitiva é bem diferente de desorganização e carece de autodisciplina e cooperação voluntária. Você pode até ter a primeira, mas, descolada da segunda, muda bastante o sentido.

 

b) Você pede ao dono que retire.

 

Em boa parte dos sites sobre o assunto, uma das preocupações é desfazer a idéia de que anarquismo seja desordem. “Anarquia, do grego: an (=sem) e arché (=poder). Também podem ser chamados de ácratas, defensores da Acracia, do grego: an (=sem) e kratos (=governo). Os ácratas, ou anarquistas, querem uma sociedade em que ninguém governe ninguém.” (Libertarian Site). Melhor que isso, an (=sem) e arqué (=princípio, origem), significando que os anarquistas recusam um princípio único, uma verdade maior. Nada mais simples: alguém esqueceu acidentalmente os sapatos na sala, você lembra de tirá-los. A vida em comum sem um poder superior pressupõe acordos, conversas, questionamentos freqüentes. Pedir que se retire os sapatos, no seu caso, é um convite a uma sociedade organizada conversável, que pode e tem flexibilidade para ser mudada assim que surja um desconforto. Não se joga sujeira para debaixo do tapete, nem se deseja isso, porque aqui as liberdades não competem. “Se a ordem é natural e possível no universo, é porque o universo não é governado por nenhum sistema criado anteriormente e imposto por um poder supremo. (...) Mas a própria natureza não tem leis. Ela age inconscientemente, representando em si própria a infinita variedade dos fenômenos, que surgem e se repetem de acordo com a necessidade. Graças a esta inevitabilidade de ação que a ordem universal pode existir e de fato existe.” (Bakunin, 1998: 78).

 

c) Você coloca no lugar certo.

 

Você pode não estranhar ao ver no tópico de curiosidades do livro de citações do Roberto Duailibi (2000) a seguinte frase: “Haverá um encontro organizacional dos anarquistas terça-feira à noite.” Da mesma forma que você ri com o canto da boca quando imagina uma reunião anarquista, pensando ser uma incoerência, você desconfia que as pessoas possam realmente dirigir suas vidas sem serem manipuladas, ou mesmo orientadas, para usar um termo mais de acordo com seu espírito. Acaba perdendo a chance de se suspreender com as pessoas, acaba recolhendo o sapato e arrumando a casa. É importante descobrir se o seu gesto foi de uma autoridade dizendo como a casa deve ser ou de uma desesperançada que entende o que seja cooperação, tenta dar o exemplo, mas não vê possibilidade que seus familiares lhe entendam. Não é raro que pessoas desse tipo alimentem uma certa arrogância e se satisfaçam em se sentir superiores porque praticam determinados valores para a vida em comum. Corre o risco de ter um senso de organização que sutilmente tenta impor. Diferente dos anarquistas para quem a cooperação só faz sentido se for voluntária.

 

3.      Se em algum grupo do qual você participa surge um impasse, a melhor solução pra você é:


a) Uma votação.

 

Você deve sentir atração pela possibilidade de que todos sejam felizes e contemplados nos seus desejos, mas liberdade pra você é uma questão de limites: a sua termina quando a da outra começa. Isso leva a crer que “as idéias anarquistas são maravilhosas, mas irrealizáveis”. A primeira ilusão a ser desfeita é: fazer o que se quer não é garantia de felicidade. A segunda é: o fato de não ser garantia de felicidade não quer dizer que a autonomia possa ser reduzida a um risco inconseqüente. “Duas formas de equilíbrio têm muita importância na filosofia dos anarquistas. Uma delas é o equilíbrio entre destruição e construção, que domina suas táticas. A outra é o equilíbrio entre liberdade e ordem, que faz parte de sua visão de sociedade ideal.” (Woodcock, 1998: 12) Sua grande dificuldade talvez seja de querer ter as respostas antes de desembrulhar a pergunta, experimentar as alternativas que ela lhe oferece. Em meio a esse impasse, entre o gostar mas ter dificuldade de viver, você acaba escolhendo um meio termo que acredita garantir o poder de voz das pessoas. Nada mais democrático que uma votação: garante-se a participação de todos, mesmo que alguns saiam perdedores: são os limites da liberdade. É uma participação que acaba quando a da maioria começa. Uma representação com sérias possibilidades de ser um grande teatro.


b) Pensar alternativas até que todos sejam contemplados.

 

“No hay nada especialmente complicado en el anarquismo, excepto las terribles discusiones que conlleva, como por ejemplo, "imagínate el caos que habría si todo el mundo hiciera lo que quisiera.” (Ateneo Libertario). Pode parecer complicado aos outros entender que sua opção não se transforme em bagunça ou em uma reunião eterna. Mas você pensa, por outro lado, que não considerar as diferenças é a maior das violências.  Além disso, você tem uma fé, que muitos consideram ingênua, na capacidade humana de autogestão e preservação da liberdade como produtoras de uma ordem natural. “... a harmonia das forças naturais parece ser o único resultado do conflito, que é a condição da vida e do movimento. Na natureza e na sociedade, a ordem sem conflito é mortal.” (Bakunin, 1998: 78). Então, enquanto todos pensam que o conflito vai levar a brigas intermináveis, você acredita que, garantida a possibilidade de todos se manifestarem, vai haver um momento em que “Eles falam, argumentam e, de repente, a coisa fica clara. E está decidido.” (Freire, 1997: 290]. Daí, se alguém lhe pergunta sobre o que seria do mundo se cada um fizesse o que quer você provavelmente vai responder que só se descobrirá experimentando. E lembrará: “É tudo uma questão básica de respeito mútuo. Acima de a liberdade do próximo terminar onde começa a minha, a liberdade do próximo é uma extensão da NOSSA liberdade.” (Lima, 2001).


c) A criação de uma comissão para facilitar o diálogo entre as partes.

 

Você é do tipo que perguntaria: “O que seria do mundo se cada um fizesse o que tem vontade?” “Uma impossibilidade”, responderia sem pestanejar. Então, em situação de conflito, você apela logo para a autoridade, se ela não existir, que seja criada. Mas isso tem um sentido: tempo pra você é dinheiro. Não dá pra ficar indefinidamente discutindo sobre cada detalhe, você quer logo as soluções. Esse senso prático fascina a todos, mas pode ferir também, porque acaba passando por cima de diferenças significativas para as pessoas. O importante é que você está aqui no campo do jogo de interesses que, de preferência, deve garantir o bom andamento da sociedade e não fortalecer a autonomia para que a vida em grupo não seja uma imposição, como desejam os anarquistas. Não fazer sempre o que se quer é uma questão de bom senso. É o mesmo que acreditar que em um casamento sempre alguém tem de ceder para que a relação sobreviva, mesmo que as pessoas se sintam cada vez mais mortas. Mas engolir sapos faz parte do jogo, é como perder a batalha para vencer a guerra. Você corre o perigo, no entanto, de ser como aqueles jogadores viciados que esquecem que o jogo não depende só de você, que do outro lado tem uma adversária onde deveria haver uma companheira.

 

4.      Se as pessoas não se interessam em refletir e conhecer sobre a realidade política, social e econômica que as envolve, você:


a) Atribui à desigualdade social e pensa numa forma das informações chegarem até elas: através de uma Ong, de manifestações...

 

Pra você a sociedade se divide em dois grupos básicos: aqueles que continuam sonhando com o socialismo ou que reconhecem que foram devorados pelo capitalismo e que é preciso contaminá-lo com idéias de justiça e igualdade; e os capitalistas que dominam o mundo às custas do trabalho alheio. O restante, a maioria, são pessoas que sequer têm direito a um grupo e, por isso, precisam ser incluídas. Você, felizmente, é do primeiro grupo, mesmo que esteja suando a camisa no trabalho. E como uma pessoa justa, não se despreocupa dos que estão excluídos. Nesse caso, não desconsidere de todo a possibilidade dessas pessoas estarem simplesmente satisfeitas com a vida de bom trabalhador ou esperando a chance de ser um dominador reconhecido. Você mesma corre o risco de sentir essas coisas vez ou outra. Mas isso não elimina a possibilidade de você questionar essa realidade desigual. Muito pelo contrário. Até porque, isso a que se costumou chamar de papel social pode também fazer parte de sua realização pessoal e ser duplamente importante. De todo jeito, como para os dois outros tipos indicados neste teste, sua leitura da realidade é, mais do que aceitável, uma forte orientação da crítica social de muitos anarquistas. Então, cuidado apenas para, na sua preocupação de passar informações sobre a realidade, não supor que seja a única leitura possível e, mais importante, que alguém tenha o modelo certo de sociedade.


b) Desconfia que você desconhece essa realidade mais do que elas.

 

Você acredita que “o homem pode não ser naturalmente bom, mas é um ser naturalmente social. São as instituições autoritárias que deformam e atrofiam suas tendências cooperativas.” (Woodcock, 1998: 18). Portanto, “não se lhes pode censurar, no conjunto, por terem colocado a realidade entre parênteses e ignorado a função social do ensino. Eles estavam conscientes de que numa sociedade de classes, e uma sociedade hierárquica e autoritária, o ensino só podia ser um ensino de classe, hierarquizado e repressivo.” (Lipiansky, 11: 66). Assim, mais do que ignorar a realidade, você reconhece realidades e enxerga possibilidades, e não somente na área da educação. Nesse ponto uma contradição pulsa em seu pensamento: “será que as pessoas não exercem já essa autonomia e cooperativismo, mesmo que isso esteja resultando em relações desiguais?”; “será que o anarquismo, ao contrário do que pensamos, não está sendo progressivamente experimentado?”; “será que outras redes de relacionamento não estão acontecendo e nós não estamos percebendo?” Talvez seja daí que surjam suas idéias de permitir que as sociedades sejam criadas mais voluntariamente, a partir do reconhecimento de coisas comuns, que favoreçam a construção de uma identidade menos artificial, e com número menor de pessoas para que essa capacidade natural de comandar a própria vida se torne visível e plenamente realizável. “En primer lugar creemos que la sociedad necesita ser dividida en núcleos menores siempre que sea posible, para que puedan ser dirigidos por grupos pequeños de gente corriente. Es un rasgo notable en cuanto a teoría de la organización, así como un principio básico del anarquismo, que los grupos pequeños trabajan juntos de forma eficaz y son capaces de coordinarse con otros grupos parecidos, mientras que los grupos informes y a gran escala son fácilmente manipulables.” (Ateneo Libertario).


c) Acha que são alienadas e se vendem por pouco.

 

Pra você a sociedade se divide em dois grupos de seres humanos: aqueles que conhecem a realidade e por isso sobrevivem melhor a ela; e os que não a conhecem e ficam pegando as sobras. Você, felizmente, é do primeiro grupo, mesmo se estiver só pegando as sobras. Alguns anarquistas diriam que você pensa o indivíduo como instrumento e não como um ser integrado: “... de um lado temos a individualidade, a liberdade, a espontaneidade e a criatividade dos indivíduos e, do outro, a instrumentação da racionalidade do mercado, do Estado, do poder e da autoridade a agir e intervir sobre o comportamento do indivíduo de forma tutelar e hierarquizada.” (Freire, 1996: 12-3). Pra você, pode ser uma tranqüilidade estabelecer prioridades na vida. Uma conseqüência clara disso é que a educação deve concentrar esforços em promover o conhecimento daquilo que poderá garantir uma boa posição no mercado de trabalho, garantindo o sustento e a posição social. Talvez o equívoco, dentro da sua própria visão, seja a falta de perspectiva histórica, já que exigiria adivinhar o que seria garantia de trabalho e status ao final de uma formação. Equívoco no qual dificilmente um anarquista cairia porque “...se o anarquista se recusa a deixar-se guiar pela mão inerte do passado, também aceita as conseqüências dessa recusa. Não espera que o futuro seja determinado pelo presente e, por essa razão, é um erro identificar o anarquista com o utópico. (...) Os anarquistas sustentam que não podemos utilizar a experiência do presente para planejar o futuro, pois as condições poderão ser bem diferentes. Se exigirmos liberdade de escolha, devemos esperar a mesma exigência de nossos sucessores. Podemos apenas tentar eliminar as injustiças que conhecemos." (Woodcock, 1998: 15). Vale a sua fé de que o mundo não vá mudar tanto assim.

 

5.      Se você é professora e um aluno seu descumpre uma das regras da escola, o melhor a fazer é:


a) Contornar a situação de modo a não repreender ou expor o aluno.

 

Você é plenamente favorável ao respeito às individualidades, mas não com a naturalidade de um anarquista. “Para um homem sentir-se um anarquista ele precisa, em primeiro lugar, ser aquilo para que nasceu, precisa atingir sua originalidade única, genética e cultural, sem fazer concessões, sem submissões e sem qualquer sacrifício. Seu meio social deve apoiá- lo nisso, caso contrário ele deve se rebelar contra o meio. O anarquista é naturalmente autônomo e livre.” (Freire, 1996: 25-6). Dúvidas não lhe faltam, o que pode ser bom para relativizar certezas. Duro é que elas podem ser paralisantes. Você sabe bem da arbitrariedade das leis e das práticas diferenciadas que essa arbitrariedade acaba provocando. Mas oscila entre mantê-las ou questioná-las. Pode sentir-se cúmplice ou presa às regras. Pode pensar que elas são importantes para estabelecer limites que assegurem uma boa convivência social e, ao mesmo tempo, que a repreensão tem o caráter negativo de inibir a criatividade e a participação de quem não compartilha dessas regras. Independente de pender para um ou outro lado, você está acostumada à idéia de ter sempre uma pessoa ou um grupo mais capacitado para atribuir ou abrir mão desses limites: o professor, o chefe, os pais... Nesse caso em que é você o professor, é bem provável que se sinta sozinha para tomar a decisão e é irresistível aproveitar-se disso para “esquecer” o que aconteceu. Se ninguém perguntar ou cobrar uma atitude será um grande alívio.


b) Conversar com a turma para lembrar as regras e mostrar como elas facilitam a convivência.

 

Você não é uma ditadora. Longe disso, a vida lhe ensinou que “a caneta é mais forte que a espada”. Mas é preciso dar conta das diferenças culturais e pessoais sem que nobres valores universais, como a igualdade de direitos, seja ameaçada. Para isso você acredita na Constituição e na Declaração Universal dos Direitos Humanos: para garantir que todos tenham direitos e deveres. O bom andamento da sociedade depende do respeito às leis. É claro que você percebe que as leis nem sempre são respeitadas, mas isso faz parte do processo, você é bem compreensiva com a humanidade e entende, na própria pele, suas fraquezas. No fundo, elas são uma boa garantia para a sua dificuldade em lidar com conflitos. Despersonalizadas, as leis parecem sempre menos impositivas que uma ordem pessoal e lhe asseguram, em casos extremos, a possibilidade de mandar o aluno para a supervisão. Embora alimentadas por nobres valores, para os anarquistas, são apenas uma outra forma de imposição, pois sempre se cria algo maior que o indivíduo que garante o poder de quem o representa, seja a família, o governo, a empresa ou a escola. “Os anarquistas desejam não apenas criar um tipo de relacionamento vivo e individual entre os homens, mas eliminar a distância que a autoridade coloca entre eles e dar início a uma série de atividades sociais necessárias. Essa questão envolve dois conceitos básicos do anarquismo: a organização social, que é o princípio da descentralização, e a ação social, que pode ser resumida pela expressão ‘capacidade individual’.” (Woodcock, 1998: 20).


c) Propor a mudança da regra.

 

Se existe uma coisa que você louva neste mundo ocidental tão criticável é a idéia de indivíduo. Claro que numa visão muito própria, segundo uma ética anarquista que une “natureza gregária do ser humano” com o “respeito à individualidade”. “Sou o proprietário da minha potência e sou-o quando me sei Único. No Único, o possuidor regressa ao Nada criador de que saiu. Todo o Ser superior a Mim, quer seja Deus quer seja o Homem, enfraquece diante do sentimento da minha unicidade e empalidece ao sol desta consciência.” (Stirner). Mas, “De nada vale a liberdade individual para um homem, se não puder dividi-la com outras pessoas. O anarquista só sobrevive em meio e em troca com outros anarquistas. Ser anarquista não é apenas uma condição de ser, mas uma condição de troca dinâmica. Os princípios da solidariedade, da cumplicidade, da sinceridade e da autogestão levam seu amor a procurar companheiros, para se exercer de forma completa.” (Freire, 1996: 26). Ou seja: uma sociedade flexível construída pelas experiências de indivíduos autônomos. Uma escola segundo o princípio de Freinet: “Educar é construir junto”. (Elias, 1997: 40). Ou, segundo o exemplo de Tolstoi: “Sem punições ou recompensas, sem anotações, sem exames; a ordem deve ser nascer das próprias necessidades da criança e instaurar-se espontaneamente fora de toda coação. Em Iasnaia-Poliana, cada aluno é levado ao estudo pelos interesses que lhe são próprios; ele nunca é obrigado a ir à escola, nem de estudar se lá estiver (mas o professor tem o direito de não aceitá-lo)...” (Lipiansky, 1999: 30-31).

 

6.      A religião é importante como:


a) Expressão cultural e individual.

 

“Mas nós, que não acreditamos em Deus, na imortalidade da alma, nem no livre-arbítrio individual, afirmamos que a liberdade deve ser entendida no seu senso mais amplo e profundo como o destino do progresso histórico do homem. (...) Nós, que somos teoricamente materialistas, tendemos na prática a criar e fazer durar um idealismo nobre e racional.” (Bakunin, 1998: 77).

“O que nego é que se possa construir uma sociedade duradoura sem um caráter místico. (...) A religião nos seus últimos estágios, pode se tornar o ópio do povo, mas enquanto for vital é a única força capaz de unir as pessoas dando-lhes a autoridade natural para que lutem quando seus interesses entram em conflito. (...) Creio que a religião é uma autoridade natural, mas ela é geralmente vista como uma autoridade sobrenatural. Talvez seja natural em relação à morfologia da sociedade e sobrenatural em relação à morfologia do universo físico, mas em ambos os aspectos se opõe à autoridade artificial do Estado." (Read, 1998: 68 e 70).

É fácil ver como as duas citações acima são diferentes e você pode se identificar com qualquer uma delas. Mas, mesmo que você opte por aceitar esse lado místico, ele não chega a ser o reconhecimento de uma espiritualidade, mas uma forma da sociedade se manifestar e se expressar, como a arte, servindo, nesse caso, como regulador social. Talvez seja falando em religião que a inspiração iluminista dos anarquistas mais se manifeste, fazendo olhar para ela como um cientista dos mais racionalistas. Você fala e pratica uma educação integral que envolve não só a família e a escola, mas toda a comunidade; que une o pensar e o fazer; que quebra com a separação entre ensino e aprendizagem; que não privilegia conteúdos mas o interesse e a curiosidade; que considera os aspectos intelectual, físico e afetivo, mas não o espiritual. Corre o risco de confundir a inquisição, o pastor mercenário, o pai-de-santo charlatão com a fé das pessoas.


b) Aspecto espiritual do homem, transcendência.

 

Pode-se dizer que em matéria de religião você está melhor resolvida que os anarquistas. Apesar de manter certos cuidados baseados na história e nas coisas que você vê acontecendo “em nome de Deus”, já conseguiu identificar a espiritualidade como parte importante da experiência humana, integrada à arte, ciência e filosofia. Isso não quer dizer que você seja favorável ao ensino religioso na escola ou à convivência dos seus filhos com pessoas mais fanáticas. Sua confiança nos outros não chega a tanto. Leituras de livros exotéricos ao cheiro de um incenso, reuniões do grupo de jovens na igreja, usar roupas indianas por admiração às idéias de Gandhi, que aliás fazia suas próprias roupas... não tem grandes problemas, desde que não atrapalhe os estudos. Mas você não deixou de temer o fanatismo e a alienação, e ainda prefere conteúdos mais científicos na escola. Religião não cai no vestibular e não seria um grande prazer ter um filho padre ou pastor. Essas coisas acabam fazendo com que sua visão de homem integrado, muito próxima da idéia anarquista, acabe ficando só na idéia, sofrendo várias restrições para ser vivenciada. Como os próprios anarquistas, corre o risco de impedir que seu principal valor se manifeste: a liberdade.


c) Necessidade de fé para a vida.

 

Você é dessas que acreditam que o homem sem fé é um homem sem nada, que nunca vai alcançar com sucesso um objetivo na vida.  O que importa é que a fé remove montanhas e, graças a ela, tem seu emprego garantido e uma boa relação com os colegas de trabalho. Sem a fé, não teria sua casa, seu automóvel, seu casamento e, é claro, seu amante. Por isso, não esquece de agradecer a Deus por tudo que já conquistou. Nunca duvidou da existência do ser supremo nem colocou sua religiosidade em questão. Mas, no seu caso, religião e sociedade se confundem. O mundo é como Deus quer e seu esforço é no sentido de se adaptar a este mundo para viver bem. É nesse sentido que a educação e a escola devem seguir, independente da aula ser ou não de religião. Você foi batizada, fez primeira comunhão, crisma, casamento no religioso. Para fazer a social, participa todos os anos, junto com seu chefe, dos Encontros de Casais com Cristo das igrejas católica ou evangélica e, se preciso for, vai a um terreiro de candomblé. Assim, a religião acaba sendo vivida mais como regra e acontecimento social do que vivência de uma espiritualidade como uma dimensão importante para a vida. E como regra suprema, pode até perdoar o que a justiça humana não perdoa, principalmente quando é você a pecadora. Deus lhe entende e protege. Por tudo isso, nem lhe cabem questões como: a religião aliena ou expressa o espírito? Como conciliar religião e ciência? Existe mesmo o livre arbítrio?... Daí, pode cair no questionamento antigo de muitos anarquistas que acreditam que “os meios de propaganda e educação recebem o apoio e o controle do Estado, para perpetuar os objetivos deste. A religião é uma importantíssima ferramenta para os burgueses pois pacifica o trabalhador, levando-o a aceitar a miséria sem protestos, induzindo-o a desistir de sua liberdade e aceitar a dominação dos que ‘roubam’ o fruto de seu trabalho. As escolas são usadas para ensinar aos homens a obediência às instituições já formadas; homens são treinados para adorar o seu país, dispondo-se sempre a dar sua vida pelos interesses de seus exploradores.” (Prescivalle & Barata). Como vê, graças a Deus, você não é uma anarquista e, se Deus quiser, é uma boa burguesa.

 

7.      Se seu filho de 2 anos rabisca traços no papel e diz que é um elefante, você:


a) Diz que o elefante dele está lindo.

 

Esse é um dos pontos em que você concorda com os anarquistas. Para eles, “as crianças são, de qualquer modo, artistas. Tão inevitável como o fato de que caminham, cantam, falam e jogam, elas são artistas.”.(Read, 1998: 256). Mas você não vai além disso. É como aqueles pais que estão conversando ou fazendo uma tarefa doméstica e, quando o filho se aproxima para mostrar um desenho, uma historinha, um brinquedo, você apenas olha e diz “está lindo” ou “meu filho é um artista”. Ele sai fingindo que acredita no seu comentário para não magoá-la, pois sabe que você nem ligou para sua invenção. Não viajou, manteve-se distante. Achou bonito, importante, mas manteve-se distante. Até sabe que existe, no que seu filho mostrou, uma expressão de linguagem significativa, algo que vai além do pictórico para comunicar-se com o mundo. “Ensinamos as crianças a falar, mas não esperamos que todas se transformem em oradores; ensinamo-las a ler, mas não pretendemos que sejam todas poetas. Da mesma forma, ensinamo-las a desenhar, pintar e modelar sem qualquer expectativa de que a arte se tornará, necessariamente, a única vocação de suas vidas. (...) O que ensinamos às crianças é uma determinada maneira de expressão. Sons, palavras, linhas, cores ¾ tudo é matéria-prima com a qual a criança deve aprender a se comunicar com o mundo exterior.” (Read, 1998: 267). Ainda assim, dadas as dificuldades da vida, e talvez o medo que você tenha de que seu filho seja mesmo um artista e tenha de lidar com os preconceitos, a instabilidade ou com a superficialidade da fama, pode fazer com que você não se esforce muito em estimulá-lo. Como não teve isso na sua própria formação, não se disporá a aprender junto. Acaba esquecendo que a educação integral em que acredita, além de permitir “desenvolver as possibilidades da criança, tirar tudo que ela traz dentro de si, sem abandonar nenhum aspecto: mental ou físico, intelectual ou afetivo” (Herbert Read citado em Moriyón, 1989: 21/2), é permanente, e, portanto, não tem idade.


b) Mostra toda orgulhosa para a amiga e comenta: “Ele diz que é um elefante”.

 

Você só enxerga seu filho. Não consegue ver o elefante nem a arte. Como seu filho é muito importante para a sua vida, orgulha-se de tudo que ele faz. Mas considera o desenho apenas um rabisco infantil, sem nenhuma significação. Na certeza de que ele vai crescer e entrar na escola para aprender com os adultos não só como se desenha um elefante, mas letras e palavras com a perfeição de quem cobre as tarefas mimeografadas e os exercícios do livro didático. Pensando que um dia ele vai ser um renomado doutor, capaz de desenhar um elefante, não só por fora, mas por dentro também. Você sempre demonstra muito carinho e proteção com seu filho. O perigo é criar sua criança como uma boneca de porcelana. Com o cuidado de preservá-la apenas para ser “alguém muito importante na sociedade”. Muitas vezes sendo aquilo que você não pôde ser, projetando nela desejos que são seus. Sendo incapaz de perceber, com sensibilidade e intuição, qualquer expressão artística na criança. O que a difere do anarquista Herbert Read (1998/265), para quem, “assim como há uma arte selvagem e uma arte adulta, há também uma arte infantil. Nosso erro é presumir que essa atividade infantil, cuja existência seria impossível negar, é apenas uma tentativa ingênua e desajeitada de imitar a atividade adulta. Em toda a atividade infantil há sempre um elemento de imitação, mas o que a criança deseja não é imitar por imitar, e sim comunicar alguma coisa utilizando uma linguagem comum. O impulso sempre presente em todos os trabalhos infantis é uma necessidade subjetiva interna, não um reflexo semelhante ao do macaco, um ‘macaquear’, como dizemos, do comportamento adulto. ...dessa admissão dependerá a escolha entre ensinar as crianças a imitar os padrões adultos ou reconhecer que elas têm padrões próprios, compatíveis com seu nível etário e com suas necessidades de expressão, que gradualmente evoluem, para formar círculos cada vez maiores de experiências vividas.” Mas, pra que pensar nisso tudo se arte é só coisa de criança mesmo? A não ser que seu filho seja um Mozart, capaz de compor e tocar como um adulto aos quatro anos e seja logo descoberto por alguém que possa projetá-lo, melhor que sua arte não passe de uma gracinha para mostrar para as amigas.


c) Fica com vontade de desenhar com ele.

 

Seu olho vai além daquilo que enxerga. Um olhar que atravessa janelas. Se você sentiu vontade de desenhar com ele, é porque percebeu a comunicação e a expressão do desenho. Você é capaz de ler o mundo no desenho de seu filho. Um mundo aberto e inacabado para navegar e ser feito. Daí a sua vontade de ir junto, de estar junto, de fazer junto. Não para ensiná-lo a maneira correta, mas para compartilhar o que sabe com liberdade. No pensamento anarquista, “tanto para os pais quanto para os mestres, o desenho de uma criança pode transformar-se numa janela que se abre para a mente da criança.” (Read, 1998: 268). Ao mesmo tempo que percebe seu filho como um artista, você tem a consciência de que há muito mais a descobrir em sua linguagem e expressão com o mundo exterior. Seu filho não é um artista em miniatura. Para você, a criança é um ser integral. “Só a escolarização não resolve, é preciso que a educação integral se dê para todos.” (Moriyón, 1989: 22). Você é dessas que colocariam seu filho no Orfanato de Cempuis, experiência de pedagogia libertária criada por Paul Robin (1837-1912). Lá, as crianças, meninos e meninas, viviam a maior parte do tempo ao ar livre, nos jardins ou no campo. Praticando esportes, artes e oficinas manuais diversas. Não para transformá-las em adultos doutores. Não era essa a intenção. “Não temos a menor pretensão de fazer de nossos alunos doutos universais... Por esse termo de educação integral entendemos aquela que tende ao desenvolvimento progressivo e bem equilibrado do ser por inteiro; ela contém e reúne os três fatores habituais, a saber: a educação física, intelectual e moral. (...) Não deve esquecer que a educação física e intelectual ou instrução deve compreender a ciência e a arte, o ‘saber’ e o ‘fazer’. Um verdadeiro integral é ao mesmo tempo teórico e prático.” (Paul Robin. In Lipiansky, 1999: 36).

 

8.      As pessoas:

 

a) Serão livres quando forem educadas.

 

Você é bem decidida, quase não tem perguntas, só respostas e finalidades. Seu conceito de liberdade vem da idéia de independência: financeira, quando pode sustentar-se e decidir o que quer fazer do seu dinheiro; profissional, quando ocupa cargo com poder de decisão ou “é o seu próprio chefe”; acadêmica, quando, depois de vários títulos, você pode ser considerada uma autoridade no assunto e escrever o que lhe vier à cabeça. Tudo isso exige algum tipo de educação formal com alguns diplomas. O que se percebe é que essa liberdade é uma conquista, um prêmio, ao final de um longo percurso, e não uma experiência cotidiana como vivida pelos anarquistas. O grande impacto, a queda do cavalo, é chegar ao fim e ver que não é o fim, porque vai ter sempre alguém acima do seu patamar. Ou então, o fim mostra que você já poderia ter feito tudo que pensava, antes de chegar ao seu objetivo. Para evitar situações como essas, cabe refletir sobre o pensamento do anarquista William Godwin (1998: 253): “Uma das características inerentes à mente humana é a sua capacidade para crescer. E, no momento em que o indivíduo resolve manter-se fiel a determinados princípios, levado por razões que agora escapam mas que foram importantes no passado, ele está renunciando a uma das mais belas qualidades do homem. Pois o instante em que desiste de indagar é o instante em que morre intelectualmente.” Mas não são somente possibilidades frustrantes que lhe são abertas. Você pode ficar rica, abrir sua própria empresa ou virar doutora e nunca montar um cavalo.


b) Serão educadas quando forem livres.

 

“A propaganda do pensamento é uma quimera. As idéias são uma conseqüência da ação e não o contrário, e o povo não será livre quando for educado, mas educado quando for livre.” (Woodcock, 1998: 40, citação de Carlo Pisacane). “Oposto a toda autoridade, o anarquismo também o é a toda forma de dogmatismo; em conseqüência, ele nunca se constituiu como escola ou partido, com seus eleitos e excluídos. (...) Aqui o espírito conta mais do que a denominação...” (Lipiansky, 1999: 7-8). E o espírito da coisa é ser espontâneo. Muitos poderiam condenar e chamar espontaneísta a atitude anarquista de deixar a cada um a responsabilidade pela sua própria formação. Você perguntaria: "será que não estão confundindo espontaneidade com abandono?”. Sua liberdade para experimentar, e construir-se a partir disso, envolve a indeterminação ou imprevisibilidade do futuro e as inúmeras possibilidades do presente, não deixar as pessoas entregues à solidão. Pra você, “nenhum erro pode ser mais terrível do que aquele que nos ensina a considerar qualquer juízo como final.” William Godwin (1998: 253-4). “Por isso, os anarquistas abominam a formação de qualquer partido político pois estes acabam com a espontaneidade de ação, burocratizando-se e exercendo alguma forma de poder sobre o resto da população. Eles também temem as estruturas teóricas na medida em que estas podem se tornar autoritárias ou "sentenciosas.” (Prescivalle & Barata). No campo da educação, “o grande perigo de algumas alternativas pedagógicas fundamenta-se no fato de haverem substituído o dogmatismo religioso por um novo dogmatismo, seja este o da ciência ou o da revolução, tentando uma vez mais impor à criança idéias pré-estabelecidas, indoutrinando-a em vez de buscar o pleno desenvolvimento de todas as suas faculdades e possibilidades...” (Moriyón, 1989: 33).


c) Nunca serão livres, mesmo que sejam educadas.

 

Você faz lembrar aquelas pessoas que querem emagrecer comendo lasanha acompanhada de refrigerante diet. A liberdade pra você exige tanto sacrifício que se vai contentando com férias para suportar um ano de trabalho torturante. Você pode acreditar que ela seja coisa para loucos, sortudos ou cafajestes ¾ os desprendidos, os herdeiros e os que a compram. Educação, por seu lado, tem a ver com sobrevivência, com o jogo de cintura entre ser devorado e ir comendo pelas beiradas. Se tiver muita paciência, pode ser que acabe cavando um túnel para o paraíso, que vai dar lá na aposentadoria. O futuro não lhe parece tão certo quanto para as pessoas do primeiro grupo, transformando-o em preocupação ainda maior, diferente do que acontece para os anarquistas. Por isso corre o risco de se prender a fórmulas e princípios que lhe dêem alguma sensação de segurança e esperança de que vai conseguir uma vida mais ao seu modo. Se for assim, sua defesa pela democracia do ensino não é tanto por acreditar que ela proporcione a autonomia fundamental para o exercício da liberdade, mas uma forma de tornar-se consciente para não ter mais que arranhões e não ser de todo corrompida pelo que chama de poder. Você aprende a andar sobre um tapete de pregos, mas não se permite voar. Pode acabar agindo como aqueles que condena: “Talvez pretendam guardar e difundir todas as formas de conhecimento que possam trazer algum benefício à sociedade, mas esquecem que há muita coisa ainda por conhecer. (...) procuram impedir ativamente os vôos da imaginação e fixar na mente do homem crenças que já deveriam ter sido abandonadas.” (William Godwin, 1998: 252). Se for da turma que viu seu ideal de igualdade balançar mais ainda com a chegada dos filhos, pode ser atacada pela ânsia e a angústia de vê-los bem adaptados e em segurança numa sociedade que, apesar de repressora, é também fonte da sua identidade cultural. Daí não custa muito a adotar o grande teórico que, por toda força e contra uma guerra mundial, tentou afirmar essa identidade: “toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, sentir e agir, às quais esta não chegaria espontaneamente (...) Essa pressão de todos os instantes que a criança sofre, é a própria pressão do meio social que tende a modelá-la à sua imagem e cujos pais e mestres são apenas os intermediários. (...) Não existe educação liberal”. (Lipiansky, 1999: 65, citação de Émile Durkheim).

 

9.      Você faria uma pós-graduação para:


a) Crescimento pessoal e contribuição social.

 

Você já entendeu, por estar mais ligada a tudo que acontece, que a ciência tem seus fascínios, mas não é a única forma razoável de conhecer e lidar com o mundo. Contudo, pode se deixar levar pelo ambiente acadêmico onde ela ainda domina e acreditar que está evoluindo quando está se fechando. Tanto que é bem provável que vá sentir, em alguns momentos, uma vontade súbita de fazer coisas diferentes como ir ao cinema “para desopilar”. Por outro lado, pode passar por crises na sua pesquisa, sobre a sua real utilidade, e descobrir que ainda alimenta a vontade de salvar o mundo através dela. Vai, portanto, reconhecer os limites da ciência, mas conservará para ela um certo ar de superioridade. Seu discurso tende a conter sempre, mesmo que de forma sutil, essa ambivalência e você estará mais próxima de anarquistas mais fiéis à tradição iluminista: “A verdadeira ciência, que não ostenta soberanias, tomou resolutamente o caminho da experiência, fundamentando suas construções em fatos e leis comprovados e não em frágeis criações do pensamento tão dado ao extraordinário e ao maravilhoso. Naturalmente a razão é o instrumento necessário para traduzir, ordenar e metodizar os dados da experiência, e nada mais, e quando pretende ser algo mais, para cada acerto há cem erros.” (Mella, 1989: 73). Ou, seguindo os passos do mesmo Ricardo Mella (1989): como se deve ensinar: apresentação das teorias, dizendo o que se admite mais geralmente hoje. Não dizendo que esta é verdadeira. O que se deve ensinar: privilégio para as verdades conquistadas indiscutíveis; mas se deve explicar, pôr no círculo das exposições necessárias, tudo o que é opinável. Ater-se à substância das coisas, não às palavras que pretendem representá-la. O ensino não é propaganda. Explicar deixando o aluno meditar e decidir ¾ falar de coisas verdadeiras e falsas. Com isso, você acredita que as ciências não devam ser a única coisa a ser aprendida mas, sem dúvida, são indispensáveis e contêm a verdade.


b) Para falar com mais propriedade do tema com que trabalha.

 

Como alguns anarquistas, você tende a valorizar a ciência como lugar do conhecimento. E, nesse caso, conhecer pressupõe acumular determinadas formas de saber. Mas este acúmulo, por sua vez, diferencia as pessoas em níveis e capacidades, garantindo maior autoridade à medida que se ultrapassa cada nível. É claro que na hora do desespero vale tudo: uma oração, um parente influente, uma superstição... Mas isso não lhe faz deixar de reconhecer que a medicina, a física, a engenharia é que sejam marcas definitivas da evolução humana: a verdade está na ciência. Nesses desdobramentos, você se distancia dos anarquistas que têm uma visão mais relativa do poder e das possibilidades da ciência. William Godwin (1998: 252-3) dá um exemplo disso ao criticar o sistema único de ensino: “Observa-se que os conhecimentos ministrados nas universidades e em outros estabelecimentos dedicados ao ensino costumam estar com pelo menos um século de atraso em relação aos conhecimentos que existem entre os membros descompromissados que integram a mesma comunidade política. No momento em que qualquer forma de conduta ganha um caráter oficial, ela adquire uma característica que lhe é peculiar, a aversão a qualquer tipo de mudança. Um golpe mais violento poderá obrigar seus condutores a abandonar um velho sistema filosófico, trocando-o por outro menos obsoleto, mas logo se agarrarão a esta segunda doutrina com a mesma obstinação com que se agarravam à primeira. O verdadeiro crescimento intelectual exige que a mente atinja, tão rapidamente quanto for possível, o mesmo nível de conhecimento já existente entre os membros mais esclarecidos da comunidade e, a partir daí, parta em busca de novos conhecimentos. Mas o ensino público sempre gastou todas as suas energias na defesa dos preconceitos; ele ensina aos seus alunos não a coragem de examinar cada proposição com o objetivo de testar sua validade, mas a arte de justificar qualquer doutrina que venha a ser criada.”


c) Renovar-se.

 

A essa altura você já se deu conta de como é dada por ingênua em muitos assuntos. Um deles é a idéia anarquista de ciência e a de razão que a alimenta. Muitos dizem ser uma contradição defender a liberdade e, ao mesmo tempo, tomar a ciência mais racionalista/empirista/linear como grande verdade a ser conhecida por todos. Mas isso não a preocupa, tanto por achar que cada um pode ter as contradições que lhe convier, quanto pela improvável possibilidade da crítica lhe ser pertinente. Cientificismo, assim como práticas terroristas do início do século XX, passaram por questionamentos e revisões. Sua tendência é ser, pelo contrário, mais aberta e pacífica. “Racionalismo mais para ir contra a autoridade do dogma do que para afirmar uma razão.”  (Mella, 1989: 73). Você aposta mais em idéias como a de Ricardo Mella, que combate o que chama de “concepção equivocada da ciência que não se define por verdades absolutas, mas como algo aberto, baseado na experiência e na razão, chegando a hipóteses abertas à revisão ou hipóteses diferentes.”; e, a partir disso, se opõe à “Educação que se converte em simples proselitismo e propaganda, mas que não fomenta nem a liberdade de pensamento, nem a liberdade do indivíduo e nem sequer uma atitude científica.” (Moriyón, 1989: 33). Encontra-se mais em idéias como esta, retirada da “educação harmoniosa” de Fourier (Lipiansky, 1999: 11-2): “É preciso rejeitar toda opressão e antes de tudo aquela imposta pela razão, operar uma nova revolução copernicana fundada sobre a atração universal das paixões; é preciso aceitar as ‘ciências ditadas pela loucura’; só elas podem permitir tirar a máscara, estilhaçar a ilusão do progresso e da civilização...”

 

10.  Se você encontra um material bibliográfico que considera importante para seu orientando de mestrado, você:


a) Mostra o material e fala da sua empolgação.

 

“Toda a posição ideológica do anarquismo é completamente diferente de qualquer outro movimento socialista autoritário. Ela tolera variações e rejeita a idéia de gurus políticos ou religiosos. Não existe um profeta fundador a quem todos devam seguir. Os anarquistas respeitam seus mestres mas não os reverenciam (...) Pois o anarquismo apresenta apenas um aspecto da liberdade: a liberdade do homem entre os homens. Sua grande preocupação é a conquista da liberdade. O que essa liberdade poderá criar está dentro de cada um de nós...” (Woodcock, 1998: 54). O antidogmatismo anarquista serve aos próprios anarquistas, a idéias e teorias de qualquer tipo e a quem as possui. Seu único papel é estar disponível e ser espontânea, autêntica, o resto a natureza humana faz acontecer. Na educação, Tolstoi e Ricardo Mella são os que parecem melhor incorporar essa liberdade. Tolstoi “rejeita em matéria de ensino as teorias prontas, conquanto se apresentem como inovadoras: ‘A base de nossa atividade pedagógica é a convicção de que não apenas não sabemos, mas inclusive não podemos saber em que deve consistir a instrução do povo; a definição da pedagogia e de seu objetivo é impossível, inútil e nociva.’ (...) A pedagogia deve ser um perpétuo questionamento do saber, tanto o que é transmitido quanto aquele sobre o qual se funda a própria pedagogia.” (Lipiansky, 1999: 29-30). Mella (1989: 69-70) sugere: “A escola que queremos, sem denominação, é aquela que melhor suscite nos jovens o desejo de saber por si mesmos, de formar suas próprias idéias... Todo o resto, em maior ou menor grau, é repassar os caminhos trilhados, entrar na linha voluntariamente, mudar os caminhantes, mas não projetá-los.”


b) Argumenta que o material é indispensável e que é do gosto dos membros da banca.

 

Algumas idéias anarquistas lhe orientam: uma aproximação do aluno no sentido de conhecê-lo para respeitar seus ritmos e interesses; uma relação de parceria que os torne mais iguais. Outras lhe perturbam: “Será necessário que uma criança aprenda determinados fatos antes que possa ter idéia do seu valor? É provável que não exista nada suficientemente importante que mereça ser apreendido por uma criança.” (Godwin, 1998: 257). Outras você nem pensa pra espantar o medo: será necessário existir a figura do professor? Se acreditamos em relações entre iguais, que se construa no diálogo, qual a importância de existir um professor e um aluno, já que ensinar e aprender faz parte de toda relação? Será que, mais do que acreditar na necessidade do professor, não estou preso a essa relação de dependência? Essas questões refletem a sua dificuldade de negar a superioridade de determinados tipos de conhecimento que você mesma busca e, com isso, a dificuldade de negar a autoridade de quem os possui. É provável que se sinta enganando e enganada e atribua à realidade, aos diretores, aos pais, aos financiadores... o fracasso ou a impossibilidade para realizar a relação ideal igualitária entre as pessoas. De uma certa forma os anarquistas também fazem isso ao defender o fim do Estado ou outras formas de poder, mas em textos e manifestos mais recentes se nota uma preocupação muito maior em cada um viver a sua própria experiência de igualdade.


c) Dá um tempo para a leitura e marca uma reunião para discussão do material.

 

Nem passa pela sua cabeça que o material que você tem não vai servir ou agradar o seu orientando. São autores reconhecidos e você mesma aprecia muito. Não poderiam faltar em qualquer trabalho sobre o tema. Você acredita numa maioridade acadêmica que só acontece com a aprovação no doutorado. Até lá, não faz parte do seu repertório conversar sobre a possibilidade de alguém sair da linha. Isso poderia prejudicar a carreira do seu orientando e você se vê na obrigação de preveni-lo e protegê-lo disso. Sua relação com alunos tende a ser “maternal”, por isso, além da orientação convencional, você corre o risco de ultrapassar o sinal e “ensinar-lhe" coisas sobre as quais ele nem chegou a perguntar. É que você tem experiência, sabe como as coisas funcionam e pensa no bem dos seus educandos. “Um homem cujos membros foram atados desde o nascimento, mas que mesmo assim aprendeu a mancar, atribui a estas ataduras sua habilidade para se mover. Na verdade, elas diminuem e paralisam a energia muscular de seus membros. Se acrescentarmos ao efeito natural do hábito a educação dada pelo seu patrão, pelo padre, pelo professor, que ensinam que o patrão e o governo são necessários; se acrescentarmos o juiz e o policial para pressionar aqueles que pensam de outra forma, e tentam difundir suas opiniões, entenderemos como o preconceito da utilidade e da necessidade do patrão e do governo são estabelecidos. Suponho que um médico apresente uma teoria completa, com mil ilustrações inventadas, para persuadir o homem com membros atados que se libertar suas pernas não poderá caminhar, ou mesmo viver. O homem defenderia suas ataduras furiosamente e consideraria todos que tentassem tirá-las, inimigos.” (Malatesta, 1998: 59). Se seu orientando apreciar relações de dependência, você vai ser como uma muleta para um cego, se for alguém com espírito mais anarquista, vai ser como um travesseiro que se usa pra matar sufocado.

 

11.  Se seu filho disser que não quer mais ir à escola, você:


a) Diz que “tudo bem” e pergunta o que ele pretende fazer.

 

“Los anarquistas nos oponemos al castigo corporal y a todas las formas de obligación en la educación. La asistencia a clase debería ser voluntaria. La obligatoriedad destruye el entusiasmo natural por saber y comprender. La verdadera educación es lo contrario a la escuela obligatoria, donde se aprende principalmente a temer y respetar la autoridad. Necesitamos, en cambio, que nuestros hijos desarrollen una capacidad crítica para entender el mundo, para ver los cambios que es necesario hacer para crear un lugar mejor para todos, y ser capaces de llevar a cabo estos cambios”. (Ateneo Libertario). Você sempre põe em dúvida a finalidade da escola. Gosta de compará-la a uma prisão ao invés de um jardim de infância. Pensa que a escola rouba o tempo de brincar e descobrir das crianças e massacram nas tarefas para casa. Nela, não há espaço para o sonho, apenas a preocupação excessiva com um “real” que define o que a criança deve ser. Por isso, no início de cada ano letivo, você se faz a mesma pergunta: “por que haveria eu de colocar meu filho na escola?”. Então, se seu filho disser um dia que não quer mais ir à escola, você não vai entender a coisa como rebeldia, preguiça ou irresponsabilidade, numa atitude de quem lava as mãos, entrega os pontos e o abandona. Muito menos irá obrigá-lo a estudar sem vontade. Sua postura é a do diálogo e de valorização da autonomia. Conversar sobre o que ele pretende é atentar para sua autodeterminação e enxergar as habilidades e potencialidades, não no sentido de castrá-las, mas de ajudá-lo a desenvolvê-las. “Diferente do atual regime inflexível, nossa política educacional deveria permitir que os alunos abandonassem os cursos e facilitar seu retorno aos bancos escolares para que os jovens tivessem oportunidade e tempo de descobrir a si próprios, estudando apenas quando se sentissem prontos para isto. Esta é uma valiosa idéia de Erie Erickson sobre a necessidade de uma moratória também na vida, apoiada pela concepção antropológica de Stanley Diamond e outros de que a nossa sociedade negligencia as crises de crescimento de seus integrantes.” (Goodman, 1998: 263/4).


b) Diz que ele vai ganhar aquele carro que ele tanto sonha quando terminar os estudos.

 

Você sempre foi objetiva e pragmática com seu filho. É do tipo que o filho só ganhou a primeira bicicleta porque passou por média na 1ª Série, ganhou o video game porque tirou um 9,8 na prova de recuperação de matemática, só ganhava chocolate se almoçasse direitinho ou só depois de tomar banho, ganhou o skate e o computador porque o pai é um molenga e, por aí vai. Assim o filho vai crescendo. Sempre esperando algo em troca por qualquer coisa que faça: como comprar pão na padaria. E isso é importante para a sua educação, porque aprende cedo que as coisas não são fáceis, que se deve lutar para conseguir o que nem sabe que quer, mas que você sabe que é bom. O prazer e o talento dele podem estar na liberdade de pintar grafites e praticar esportes radicais. Sonha em montar uma oficina para a garotada do bairro e viajar mundo de bicicleta. Mas você acha tudo isso uma loucura, sonho de adolescente que “um dia passa” e ele vai poder agradecer a você por não ter deixado que perdesse o rumo, tornando-se um marginal. Você até senta para conversar, afinal, deve-se ter diálogo com os filhos. Mas sua conversa tende a cair em respostas prontas do tipo: “seu futuro, meu filho, depende da escola. Por isso estude, que além de dar gosto aos seus pais, isso lhe trará muitos benefícios”. Então, se seu filho argumentasse que “a educação deve ser voluntária e não obrigatória, pois não se conseguirá obter mais liberdade, a menos que haja uma motivação intrínseca. Sendo assim, as oportunidades educacionais devem ser variadas e diversificadas. É necessário diminuir e não expandir o atual sistema educacional monolítico.” (Goodman, 1998: 263). ou se ouvisse alguém sugerir que “façamos uma experiência, entregando o dinheiro para custear a educação diretamente aos adolescentes, para que eles o empregassem em qualquer projeto educacional plausível, desde viagens de estudos até iniciativas individuais. Isto provocaria também, naturalmente, uma proliferação de escolas experimentais” (idem: 263), você desconfiaria que essa pessoa não tem filhos e falaria para o seu: “um dia você vai ter filhos e vai entender que eu estou certa”.


c) Diz que a gente não faz só o que quer e que tem de pensar no futuro.

 

Dos três tipos de pessoas que consideramos aqui, você é a que esquece mais facilmente o que foi passar mais de 10 anos numa escola. Vários são os motivos pra você se apavorar com a possibilidade do seu filho parar de estudar: o que ele vai fazer durante esse tempo ocioso, o preconceito da sociedade, as incertezas do futuro... Principalmente, seu filho vai colocar em cheque uma das suas maiores certezas: a democratização do ensino é um dos fatores determinantes para a melhora da sociedade, para que as pessoas possam pensar criticamente sua realidade e mudar esse quadro de desigualdade que se vem estabelecendo ao longo da história. Acaba confundindo educação com ensino formal, ociosidade com fazer nada, professores com deuses, escola com lugar onde se adquire conhecimento, estudo com diploma... Essa confusão é mais um sinal da sua velha oscilação entre o certo e o duvidoso. Certo que você até sabe que nem é tão certo assim e, de vez em quando, faz passar pela sua cabeça a possibilidade de considerar a decisão de seu filho, vislumbrando com uma pontinha de felicidade a coragem do menino viver sua vida como melhor lhe aprouver. Duvidoso contra o qual você argumenta, por medo do desconhecido, mas que também a seduz. Da boca pra fora, sua oscilação sempre pende para o que considera mais seguro e acredita ser politicamente melhor, seu filho permanece na escola que você esqueceu que até hoje não cumpriu o seu desejo de ser o principal agente de transformação e formação. “O sistema de educação obrigatória tornou-se uma armadilha universal que não traz nenhum benefício. Muitos jovens, tanto da classe pobre quanto da média, viveriam melhor se ele simplesmente deixasse de existir, mesmo que então deixassem de receber qualquer espécie de ensino.” (Goodman, 1998: 259)

 

12.  Se uma criança a quem você está dando comida se recusa a comer, você:


a) Argumenta que está muito gostoso porque foi feito com todo carinho.

 

“Na vida familiar, três são as armas principais da pedagogia autoritária: primeiro, o pátrio poder (os filhos devem obedecer aos pais, por lei, até a maioridade), o que é um abuso e uma violência tornados legais; segundo, o amor, sentimento natural de beleza e gratidão que os pais transformam em instrumento de dominação e de posse sobre os filhos, fazendo com que se submetam às suas vontades chantagísticas, usadas para não sentirem a dor do remorso e a do abandono; terceiro, pela dependência dos filhos ao dinheiro dos pais e pela ameaça, também chantagística, de afastá-los de casa sem nenhum recurso financeiro.” (Freire, 1996: 5). É esse jogo que a pedagogia libertária combate. Sua forma de carinho parece enganar até você mesma, mas o seu gesto pode estar apenas travestido de amor, quando é um instrumento no jogo de dominação e posse sobre a criança. Como um coronel que troca boa vizinhança e favores por obediência irrestrita você pode estar ensinando a chantagem e não o carinho. Você tenta não usar a violência, sabe que é coisa do passado bater em crianças, mas acredita que se deve estabelecer limites e se fundamenta, para isso, em informações médicas sobre nutrição e, se o carinho não resolver, não será menos educativo dar umas palmadas pela saúde da criança. Além de ficar forte e sadia, vai servir pra mostrar quem está no domínio.


b) Diz que tem muita gente que não tem nem o que comer e que não se deve desperdiçar comida.

 

Você demonstra um juízo ético de valor muito aguçado. Diante disso, está sempre pensando nas normas que devem determinar o dever ser, no sentido de favorecer o bem estar social. Por isso, uma criança precisa desde cedo desenvolver uma consciência moral ética. Sua educação deve torná-la capaz de sensibilizar-se com as injustiças, criando assim, um senso crítico diante da realidade. Assim, todo desperdício é politicamente incorreto. O dinheiro com que paga a comida não tem o valor do excesso, do lucro, do status, mas do trabalho, da sobrevivência e da desigualdade social. “Dinheiro não dá em árvore”, é outra frase muito usada nessas situações. Sua preocupação em conscientizar as pessoas, no entanto, pode revelar a dificuldade para escutar e compreender as vontades ou as razões dos outros, além de, geralmente, não fazer com que você distribua o que tem. Por isso, corre o risco de todo seu esforço de conscientização não passar de discurso político vazio, ou de uma afirmação autoritária de quem sabe o que é bom para a sociedade, mas não faz nada para melhorá-la, a não ser impor deveres morais aos filhos ou a qualquer outra pessoa sobre quem exerce alguma forma de poder. Da mesma maneira que tem dificuldade em conciliar indivíduo e sociedade, oscila entre mandar e conscientizar. Como, “em todos os lugares, o anarquista vê a mão do poder estrangulando as potencialidades da vida e é impelido a rejeitá-la.” (Woodcock,  1998: 74-5), pode não reconhecer grande diferença entre impor ou aconselhar quando a relação não é de igualdade: “ser governado é ser cuidado, inspecionado, espionado, dirigido, legislado, regulamentado, identificado, doutrinado, aconselhado, controlado, avaliado, pesado, censurado, e mandado (educado?) por homens que não têm nem o direito, nem os conhecimentos, nem valor para fazê-lo." (Pierre-Joseph Proudhon. Em Woodcock,  1998: 13).


c) Procura uma alternativa alimentar.

 

Você está se saindo uma anarquista e tanto. Se não tivesse pavor de burocracia já teria recebido a carteirinha do clube. Você obviamente não vai largar uma criança com fome, mas também não vai tentar impor horários ou alimentos literalmente como leu em um manual médico. Além disso, você acredita que tudo se aprende pela experiência, seja o poder, seja a criatividade para buscar soluções que não se estabeleçam pela autoridade. Você poderia ter escrito a frase de Bakunin: “As crianças não são propriedade de ninguém: elas não são nem propriedade de seus pais, nem a propriedade da sociedade. Pertencem exclusivamente à sua futura liberdade.” (citado em Lipiansky, 1999: 56). É claro que é difícil ter de explorar possibilidades a todo momento, mas, de longe, é melhor que estimular a dependência. “Em verdade, tanto a pedagogia doméstica quanto a escolar, quando autoritárias, visam reprimir nas crianças e nos jovens o sentimento e a necessidade da liberdade como condição fundamental da existência. Sem esse sentimento e sem essa necessidade, desaparecem nas pessoas o espírito crítico e o desejo de participação ativa na sociedade. São os dependentes. Desgraçadamente, a maioria”. (Direcção Central de Combate às Tradições Académicas, 1996). Daí você resistir e não apelar para chantagens ou culpas em frases feitas. Não é fácil manter sua postura de diálogo como quem tenta desmontar, no dia-a-dia, as armas da pedagogia autoritária, seja em casa ou na escola. Armas tão sutis, que parecem invisíveis entre os móveis e as paredes da casa.

 

13.  Cargos de chefia são:


a) Um fardo que só é suportável se houver rodízio ou distribuição de funções.

 

“Pode haver, e realmente há, muitos tipos de anarquistas, mas todos têm uma característica comum que os distingue do resto da humanidade. O ponto de união é a negação do princípio da Autoridade nas organizações sociais e o ódio a tudo que origina instituições baseadas neste princípio.” (Faure, 1998: 58). Até mesmo as leis que são consideradas por muitos como base para garantir a cidadania podem ser formas de imposição de um modelo de organização que unifica e restringe a ação individual, quando qualquer tipo de organização deveria ser mais flexível para favorecê-la. Autogestão é um dos princípios éticos do anarquismo. Os outros são: autonomia, apoio mútuo, internacionalismo, viver a vida, individualismo, apartidarismo. (Anônimo. Relacionados em Princípios Éticos Anarquistas). Nada que favoreça posições de chefia. Outros tantos poderiam ainda ser sugeridos e bem aceitos, desde que favoreçam a liberdade contra qualquer forma de organização que posiciona umas pessoas acima de outras. Sendo assim, ainda que se estabeleça um rodízio ou um mandato curto, você vai sempre tentar propor formas menos hierarquizadas de organização. Porque você acredita que “dadas as condições que permitissem o livre desenvolvimento, todo homem é capaz de decidir diretamente sobre questões políticas e sociais. (sem intermediários ou representações). (Woodcock, 1998: 25).


b) Uma fonte de stress que não pode ser recusadao porque pode dar uma folga nas finanças.

 

Não é que você goste de mandar, mas do jeito que a vida anda difícil, não se pode perder uma boquinha, ainda mais uma promoção. Você pode até ficar meio envergonhada de comemorar enquanto a coisa que você mais reclama na situação atual é a falta de emprego e a diferença salarial. Além disso, bom mesmo é uma praia, uma lagoa, uma piscina pra nadar e comer um peixe frito. Mas, fazer o quê? O povo não tem nem emprego, vai falar em tempo livre? Só de pensar você já começa a se sentir cansada, mas não se pode dar ao luxo e não agarrar o que passa pela frente. Somando com o dinheiro dos “bicos”, um ou outro trabalho como free lancer, dá até pra sonhar com uma casa de praia no futuro, não como luxo, mas para mudar radicalmente de vida e escapar desse mundo de consumo e stress. Até lá, três turnos de trabalho e o mundo nas costas. Você pode estar tão emaranhada nisso tudo que nem tem tempo de pensar no seu papel de autoridade, nos tempos em que fazia parte do movimento estudantil e levantava bandeira contra o poder. Não vai gostar de ser chamada de chefe para estabelecer uma relação mais democrática no trabalho, mas vai ficar irritada se seu colega anarquista disser: “Todos aqueles que adquirem autoridade tiranizam os outros.” (Gerrard Winstanley, citado em Woodcock, 1998: 30)


c) Um reconhecimento de bom trabalho e vêm como promoção.

 

Você sempre foi batalhadora e não mediu esforços para cumprir sua missão de vencer na vida. As oportunidades estão aí, no mercado. Cabe aos mais competentes, astutos e eficientes assumirem a administração, ocupando os cargos de chefia. Um caminho natural para quem não perdeu um curso de capacitação, cuida do marketing pessoal e até suportou com paciência o chefe anterior que foi nomeado porque era parente de alguém com poder para tal. Depois desse esforço todo, é até uma crueldade pedir que você pense em outras formas de organização como a autogestão: “sem poder centralizado numa pessoa, sem liderança fixa, sem hierarquia, sem competição, baseado apenas na solidariedade...” (Freire, 1996: 19). Sua tendência, ao contrário, é viciar em trabalho, adorar burocracia e gostar de centralizar as tarefas. Reconhecimento de um bom trabalho significa ganhar poder para fazer da sua forma. Democracia direta e ativa, participação, diálogo, são termos que você aprendeu nos cursos a colocar em seus projetos, usar em seus discursos, para convencer a todos que você é mesmo a pessoa mais indicada para assumir a chefia. A seu favor, a história: “Os governos podem ter mudado, mas o padrão de autoridade não sofreu alterações básicas.” (Woodcock, 1998: 50). Contra você, a teimosia anarquista: “A liberdade não é algo que possa ser decretado e protegido por leis ou pelo estado. Cada indivíduo deve forjar sua própria liberdade e reparti-la com seus companheiros. (...) A autoridade impede os impulsos naturais dos homens e faz com que se tornem estranhos uns aos outros.” (Woodcock, 1998: 14). A despeito de tudo, você gosta de ver as coisas do alto.

 

14.  O valor dos velhos na sociedade é:


a) Sentimental: dever da família cuidar de quem já cuidou.

 

Você tem o perfil de quem já leu a fábula “O velho e seu neto” dos irmãos Grimm (1995: 102) e ficou muito tocada com a moral da história. Um velho bem velhinho que deixou de fazer as refeições diárias na mesa com a família porque os pais sentiam nojo. O velho passou, então, a comer sentado num canto atrás do fogão, numa tigela de barro. Quebrou a tigela e passou a comer numa gamela de madeira. Um dia, todos foram surpreendidos com o neto de quatro anos fazendo um cocho com uns pedaços de pau. Interrogados por seus pais, o menino falou que estava fazendo uma gamela, para os pais comerem no canto do fogão, quando ficassem velhos. No choro e no arrependimento, trouxeram o avô de volta para a mesa. Você tem senso de justiça e compreende que o lugar do velho é junto à família da qual ele já foi o responsável. Você conhece bem a realidade e tem medo que isso possa lhe acontecer no futuro. Na sua cabeça não pega bem largar um velho. Não porque ele seja o guardião da memória, um velho contador de histórias e um conselheiro nas horas decisivas. O velho, como a criança, não tem valor presente. Se ele não trabalha, não produz, não manda, nem tem vontades. Mas, como cuidou de você e até ajudou que você chegasse aonde chegou, tem direito a uma aposentadoria sentimental, pode sentar à mesa, mas que não faça como a criança que quer escolher o que comer.


b) Histórico: são a memória da cultura que morre e enfraquece à medida que os velhos não são respeitados.

 

Você sabe a dificuldade que é trabalhar dois turnos e ainda ter de dar conta de casa e filhos, mesmo que você não faça isso sozinha. Se ainda tiver de cuidar, dispensar alguma atenção ou ajudar financeiramente seus pais ou avós, não vai ser fácil. Mais stress e mais aperto nas contas. Por outro lado, você não esquece dos tempos em que sua avó contava histórias pra você e todos os primos, das férias em que vocês se reuniam e se divertiam muito e comiam aquelas coisas gostosas que só tem em casa de avó e brincavam de coisas que só avô ajuda a brincar, como empinar papagaio. Você se emociona só de lembrar desses tempos e de todo o apoio que seus pais lhe deram. Não será difícil ver você chorando comovida ao ver filmes que mostrem esse encontro de gerações. Principalmente, você sabe que essas coisas estão acabando, que muitas histórias que eles contam já não interessam mais ao mundo do video game; que as pessoas não são mais tão bem educadas e valorizam mais as coisas que as pessoas; que os velhos, como as crianças, não têm o mesmo valor para a sociedade por não estarem em idade produtiva, e se irrita profundamente com essa situação. A cultura está morrendo com os velhos e tudo que restará são coisas sem valor, que morrem a cada estação com suas novas tendências para a moda. Apesar de todo o seu esforço, cuidado e consideração, você deve estar atenta para não agir no sentido de tomar os velhos como incapazes de decidir suas vidas. Você tende a agir como se eles já tivessem perdido a razão que a criança ainda não descobriu e achar que pode orientar suas vidas melhor do que eles mesmos.


c) Pessoal: cada um deve ser respeitado como ser humano, com suas capacidades e características individuais.

 

“Deixemos a velha geração perecer, deixemos os velhos evasivos morrerem no deserto!... Jovem... tenha a coragem de juntar-se à causa da liberdade! Abandone seu velho egoísmo e mergulhe na crescente onda da igualdade popular. (...) E vocês, pobres vítimas de uma lei odiosa! Vocês, a quem este mundo zombeteiro rouba e ultraja!... Suas lágrimas estão contadas! Os pais semearam na aflição, as crianças colherão na alegria.” (Proudhon, 1998: 66). Você certamente não vai ser bem interpretada se sair por aí repetindo esse manifesto. Será mais um motivo para acusarem você de se ter rendido aos novos e destrutivos tempos, que não valoriza a tradição e, com isso, despreza os mais velhos. A questão é que tradição pra você não é sinônimo de poder. Não é porque uma coisa seja mais antiga, passando de geração em geração, que vai ser melhor ou pior do que algo novo. Você defende e exerce a liberdade de escolha e decisão e nega qualquer forma de poder, seja o que se vale da violência, seja aquele que se vale do tempo para se afirmar como mais legítimo. Por isso se sente à vontade para distinguir entre o que lhe é ou não interessante, venha isso da tradição ou da modernidade. Você não respeita a tradição por medo do novo, e considera que, independente do tempo, as pessoas podem se manifestar e se realizar naquilo que lhes for importante. É a diferença entre o medo de perder e a liberdade de ser. Daí também não aceitar que a vida dos velhos possam ser manipuladas a sua revelia. “... todas as instituições orientadas pelo poder são artificiais assim como restritivas, e no reconhecimento que a autoridade tem formas claras ou obscuras, difunde-se em nossas vidas em todos os níveis e estágios, da escola ao asilo de velhos.” (Read, 1998: 73).

 

15.  O educador deve:


a) Ao invés de dar o peixe, ensinar a pescar.

 

Até parece que você é educador em alguma Organização Não-Governamental (ONG) e trabalha em uma comunidade carente com um projeto educativo para capacitar os jovens para o mercado de trabalho e para exercer a cidadania. Ações como essas são louváveis, favorecem a experiência através da criação de centros culturais e educativos, administrados pela própria comunidade. “Uma criança... que incessantemente imagina, inventa e cria, só pode ser compreendida através de uma pedagogia e psicologia da construção e do movimento.” (Elias, 1997: 14). Mas, no geral, não é a comunidade que escolhe o que deseja aprender. Dessa maneira, “ensinar a pescar ao invés de dar o peixe” significa favorecer a experiência, mas na posição de quem define o que se deve experimentar. Muda-se o método, mas a postura do educador ainda é a do sujeito que determina o que se deve aprender.  É como o professor ou a escola que se declara construtivista, se orgulha de dar liberdade para que seus alunos construam seus próprios caminhos, mas já tem precisamente determinado onde esses caminhos irão dar. O aluno se esforça pra descobrir o que o professor já sabe. Às vezes, na pressa e na ansiedade de manter um financiamento e ter de usar um recurso em tempo predeterminado, ou no medo de perder a função social, acaba construindo um processo de mão única. Desconsiderando o movimento próprio dos alunos, seus interesses e as possibilidades das descobertas de suas habilidades. Contra esse “poder abstrato” Paul Goodman (1998: 85) afirma: “As atividades normais não necessitam de motivações extrínsecas, elas têm sua própria dinâmica e seus próprios objetivos intrínsecos; e as decisões são tomadas continuamente pelas próprias funções em ação, adaptando-se umas às outras e ao meio em que se inserem."


b) Deixar que se descubra como se pesca.

 

Você, como sempre, anda por dentro das coisas. Desde as tendências do mundo fashion, passando pelo mercado de trabalho até a educação. O que vale é a última moda. O que a revista Veja escreve como sendo o mais atual e eficiente método de ensino, já passa a ser o mais belo, bom e verdadeiro. Por isso, procura estar antenada com a pedagogia moderna. Se ela diz que o professor deve deixar que o aluno descubra como se pesca, é porque sabe o que está dizendo. Mas isso não é o mesmo que propor: “Removam os obstáculos que impedem o homem de perceber e perseguir os objetivos que são realmente proveitosos para ele, mas não tentem libertá-lo das atividades necessárias à busca destes objetivos. Só é possível dar o verdadeiro valor às coisas que eu mesmo consegui ganhar, àquilo que obtenho apenas porque desejo obter; tudo o que me for concedido sem que eu peça poderá fazer de mim um indolente, jamais um ser respeitável.” (Godwin, 1998: 254) A diferença pode parecer sutil nas palavras, mas, o que se pinta de pedagogia moderna, pode se transformar em abandono, quando se confunde liberdade do outro com ausência sua. É bem provável que a grande dificuldade seja largar mão da autoridade e da necessidade do professor no processo educacional do aluno. A decisão de como deve ser a educação ainda é dos adultos, mesmo quando se decide pelo abandono, o que é bem diferente de se optar pela liberdade da experiência, que envolve atenção, participação, flexibilidade. No estilo de Freinet (Elias, 1997), uma pedagogia do bom senso: prática sempre revista, abrindo possibilidades com as experiências dos outros. Pedagogia experimental: reinvenção e invenção de técnicas. Escola ativa: prática e cooperativa. Onde “ninguém tem a missão de ‘fazer’ os outros deste ou daquele modo, mas sim o dever de não impedir que cada um se faça a si mesmo como quiser.” (Mella, 1989: 71). “Rigorosamente falando, deixariam de existir até mesmo os personagens indispensáveis: aluno e mestre. Pois o aluno, tal como o mestre, estuda porque deseja fazê-lo, avançando segundo um plano por ele mesmo criado ou que passa a ser seu no momento em que o adota. Tudo revela a presença da independência e da igualdade. (Godwin, 1998: 257).


c) Ir pescar junto.

 

Você é dessas pessoas que não têm medo de tomar banho de chuva. Sabe que a educação se dá em todos os lugares e vai além da existência da escola e do educador. Se duvidar, já assistiu algumas aulas de Luiza de Teodoro, deixando dançar em mais que seus ouvidos os sentimentos das palavras: “educar é fazer cada um descobrir o que há de melhor em si”. Tão simples e tão belo. Basta sentir a vontade de fazer junto, ao invés de mandar; basta a vontade de brincar junto, ao invés de observar distante para não se sujar; basta duvidar junto, ao invés de fechar com respostas prontas; basta ouvir, ao invés de ser sempre matraca; basta despertar interesses, ao invés de condicionar conteúdos; basta criar formas de partir do aluno, ao invés de buscar resultados imediatos; basta deixar a liberdade fluir, ao invés da autoridade do educador; basta abrir possibilidades com as experiências dos outros, ao invés de armar-se com seu saber acumulado; bastam tantas coisas simples... É como se a figura explícita do mestre fosse desnecessária. É a educação como lugar de experimentação e de livre expressão. Sem o medo de errar. Você gostaria se fosse professora nas comunidades escolares de Hamburgo? “Para os professores dessas escolas, não se trata de aplicar um novo método, mas de aproveitar plenamente a liberdade de experimentação que lhes é dada. (...) São abolidas todas as características que definem a escola tradicional: programas, horários, divisão por matérias, repartição em classes; tendo abandonado todas as regras, pode-se deixar as comunidades desenvolverem suas próprias virtualidades.” (J. R. Schmid, citado em Lipiansky, 1999: 43).

 

16.  Você acha que a escola pode ser importante se:


a) Formar o caráter da pessoa com disciplina, trabalho e moral.

 

Essa foi, sem dúvida, a mais fácil de responder. Afinal, ela é a resposta-síntese de todas as suas escolhas. Aglutina tudo, per-fei-ta-men-te. Sem brechas para desvios ou dúvidas. Talvez, por isso, você seja capaz de criar seu filho como um adulto em miniatura. Sempre estudando em escolas que estimulam a competição como sua metodologia básica. Vive sonhando com o dia em que verá seus filhos espalhados em outdoors da cidade como os primeiros colocados nos vestibulares. Seria a confirmação de seus pensamentos filosóficos e pedagógicos: a escola formar o aluno para que ele seja uma pessoa bem adaptada à realidade atual. Capaz de saber aproveitar as oportunidades para obter sucesso e status na vida. “Las escuelas se ocupan principalmente de seleccionar y dividir a los niños en niveles para su futuro papel en una sociedad jerarquizada, y asegurarse de que internalizan la competitividad, la jerarquía y el respeto a la autoridad. Este sistema exige que la mayoría de los niños, y de los adultos, se sientan inferiores. Los anarquistas pensamos que las pruebas académicas son uma medida insignificante respecto al potencial de una persona para jugar un papel importante en la sociedad. El culto al experto profesional está diseñado para destruir nuestra auto-estima en nuestras posibilidades y en nuestra capacidad de juicio.”(Ateneo Libertario). Você vai dormir tranqüila pelo resto de sua vida. O que significa que vai deixar muitos anarquistas inquietos com sua falta de perspectiva temporal, ignorando mudanças e diferenças. Afinal, “basicamente, nenhuma educação é certa: o ideal é crescer num mundo onde valha a pena viver. E, na verdade, nossa atual e excessiva preocupação com os problemas da educação demonstra que os adultos de hoje não vivem neste mundo. (...) Uma educação decente tem como objetivo principal preparar o indivíduo para um futuro melhor, onde um espírito diferente anime a comunidade e onde seja possível criar novas ocupações que não sirvam apenas para obtenção de status e salários.” (Goodman, 1998: 261-262).


b) For mais um espaço de convivência e troca de saberes.

 

“Educar não é mais tirar a criança de si mesma como na concepção tradicional, mas, ao contrário, devolvê-la à sua natureza; não é adulterá-la (se é que podemos arriscar esse jogo de palavras), mas engendrá-la para a sua própria verdade”. (Lipiansky, 1999: 55). A escola deve ser, pra você, um lugar da experimentação. Não só para alunos, mas para todos que queiram participar neste espaço. Talvez nem seja preciso um lugar físico para aprender vivendo a independência, a liberdade de pensamento e expressão, a cooperação, conteúdos definidos pelo interesse, a criatividade... É possível que isso tudo dê no que já está aí, embora seja pouco provável, já que as queixas são muitas. Talvez essa possibilidade ainda a assuste e faça com que deseje uma formação crítica para transformar a realidade social e estimular pessoas de um ou outro tipo, mais engajadas social e politicamente. Mas não demora muito e você se dá conta que isso seria apenas mais uma maneira de dirigir interesses. Então você volta a assumir o descontrole e o seu mundo de possibilidades, que assusta muita gente e deixa outras tantas perdidas e desorientadas. Volta a fazer como Tolstoi (citado em Moriyón, 1989: 20): “deixar que a ordem surja espontaneamente dos interesses dos alunos.” Acreditando com ele que “o único critério da pedagogia é a liberdade; o único método, a experiência”. (Lipiansky, 1999: 30/1).


c) Orientar para a vida em sociedade, considerando potencialidades individuais.

 

Mesmo que você sempre tenha desconfiado das escolas particulares e defendido com unhas e dentes a obrigatoriedade do ensino gratuito, seus filhos sempre estudaram em escolas pagas. Escolas particulares tendem a fortalecer a competição e a convivência com crianças e adolescentes burgueses que só pensam em consumir, mas têm condições materiais de oferecer uma educação mais integral, fazendo supor também uma atenção mais personalizada. Além disso, você não suportaria ver seu filho morrendo de vergonha no elevador do condomínio por estar com um uniforme de uma escola pública. Embora você saiba que está na verdade pagando em prestações adiantadas a faculdade pública e gratuita do seu filho, ainda acredita que a universidade seja o melhor destino e o caminho mais rico e menos fútil para a participação na sociedade. Acaba não pensando muito sobre as suas desconfianças quando ele chega em casa dizendo que seu professor mágico descobriu antecipadamente o tema da redação do vestibular. Para completar, não dá, nessas cidades tão violentas, pra ficar tranqüila com seu filho numa escola pública onde tem todo tipo de gente. Essas constatações são dolorosas pra você que pode até ser uma socióloga que desenvolve trabalho na periferia da cidade onde mora, que acredita no potencial pedagógico de conviver com diferentes, mas não consegue pensar em outra forma de proteger seu filho.


BIBLIOGRAFIA CITADA

 

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Duailibi, Roberto. Duailibi das citações. São Paulo: Mandarim, 2000.

 

Elias, Marisa del Cioppo. Célestin Freinet: uma pedagogia de atividade e cooperação. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.

 

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Lima, Antônio (produtor). Tudo o que você queria saber sobre anarquia. Distribuição: Grupo Autonomia. Edições Profanas: 30/01/2001. E-book.

 

Lipiansky, Edmond-Marc. A Pedagogia Libertária. São Paulo: Editora Imaginário, Soma e Nu-Sol, 1999. Tradução: Plínio Augusto Coelho.

 

Malatesta, Errico. “Definição de Anarquia”. Em Woodcock, George (org.). Os Grandes Escritos Anarquistas. São Paulo: L&PM Editores, 1998. Tradução: Júlia Tettamanzi e Betina Becker. pp. 58-60.

 

Mella, Ricardo. “O problema do ensino”. Em Moriyón, F. G. (org.). Educação Libertária. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. Tradução: José Claudio de Almeida Abreu.

 

Moriyón, F. G. (org.). Educação Libertária. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989. Tradução: José Claudio de Almeida Abreu.

 

Prescivalle, Thales & Barata, Pedro Paulo. “Idéias e Movimentos Anarquistas:  Principais Idéias Anarquistas”. http://www.geocities.com/CapitolHill/Lobby/3526/

 

Princípios Éticos Anarquistas. (Anônimo). E-book

 

Proudhon, Pierre-Joseph. “O nascimento da anarquia: a morte da propriedade”. Em Woodcock, George (org.). Os Grandes Escritos Anarquistas. São Paulo: L&PM Editores, 1998. Tradução: Júlia Tettamanzi e Betina Becker. pp. 60-66.

 

Read, Herbert. “O anarquismo e o impulso religioso” & “Uma abordagem estética da educação”. Em Woodcock, George (org.). Os Grandes Escritos Anarquistas. São Paulo: L&PM Editores, 1998. Tradução: Júlia Tettamanzi e Betina Becker. pp. 68-73 & 264-271.

 

Stirner, Max. “O Egoísmo”. Em Excertos, texto extraído de «O Único e a sua Propriedade», 1843. Tradução: J. Carrapato. Digitalização: Ricardo Lobo e Cristina Claro. Página: Anarquismo Hoje.

http://www.terravista.pt/Enseada/1112/body_stirner.html

Woodcock, George (org.). Os Grandes Escritos Anarquistas. São Paulo: L&PM Editores, 1998. Tradução: Júlia Tettamanzi e Betina Becker.

 

 

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

 

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Anarquismo Hoje, O – Uma Reflexão sobre o Movimento Libertário. Fonte digital: Arquivo de História Social Edgar Rodrigues. Versão para Rocket Edition, eBooksBrasil.com, 2000.

http://www.ceca.org.br/edgar/anarkp.html

 

Callahan, Alfred. Fragments - everyday life nightmares. Quatro poemas. Tradução de Joaquim Martins. http://www.terravista.pt/Enseada/1112/tam1c.html

 

Hipernet: http://forte.hipernet.ufsc.br/hiperPastas/forunsHistoricos//autonomia/pedago

 

Informarte http://www.informarte.net/curso/index.htm

 

Internet Libre. http://csl.tao.ca/anarquia/index.html

 

Lima, Antônio. Anarquia é Bom!? Santos: Edições Profanas, 29/01/2000. E-book

 

Malatesta , Errico. “Amor y Anarquia”. Retirado do livro Socialismo y Anarquia. http://csl.tao.ca/anarquia/amorya.html

 

Pensadores Anarquistas e Militantes Libertários. Fonte digital: Arquivo de História Social Edgar Rodrigues. http://www.ceca.org.br/edgar/anarkp.html. Versão para Rocket Edition, eBooksBrasil.com, 2000. E-book

 

Revista Ágora - Coletivo Anarquista.

http://www.angelfire.com/ab/agora/Textosdiversos.html

 

Sem Bandeiras. Publicado em 1981.

http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/3471/anar1.htm

 

Vínculos. http://www.gold.com.br/~furtadom/linkse.html