LÉVY, Pierre e AUTHIER, Michel. As árvores do conhecimento. São Paulo: Ed. Escuta, 1995. 192 p.; 21 cm.

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Citações...
[início do prefácio de Michel Serres]

p. 14
"Quem é você, afinal? A interseção, flutuante pela duração, desta variedade, numerosa e bastante singular, de gêneros diversos. Você não pára de tecer e coser seu próprio manto de Arlequim, tão matizado ou confuso quanto a carteira de seus constrangimentos."

p. 15
"Quem, então, não veria ser bom, justo, razoável e salutar separar ainda indivíduo e categoria, pertinência e singularidade, perícia e hierarquia, e, para fazê-lo, substituir as peles de asno - pobres carteiras de identidade confinando à miséria lógica ou descritiva e ao desprezo hierárquico - por perfis mais ricos e variáveis no tempo, logo incomparáveis?"

p. 17
"o filme contínuo de suas aptidões, variáveis, que nomeia seu brasão certamente não se assemelha a nenhum outro, já que segue e descreve um perfil evolutivo de sua identidade singular ou individual, somente do ponto de vista pedagógico e sem pretender esgotá-lo, mas, sobretudo, distingue-o fortemente dos coletivos correspondentes a cada nível de perícia, contribuindo, então, para apagar o poder."
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"Felizmente, você jamais saberá verdadeiramente, apesar de tudo, sua efetiva identidade, por demais múltipla, confusa e flutuante. Você jamais a viu. Visível, no entanto, sua carteira de identidade não informa muita coisa."

p. 18
"Ao ignorar, no limite, nossa verdadeira identidade, eis-nos recobertos, sem recursos, pela sombra de nossas pertinências."

p. 19
"Mas quem nunca experimentou, pelo menos uma centena de vezes, que onze leões podem resultar em uma soma tão fraca quanto uma cabra, ou que quinze cabritinhos balindo acordassem juntos, uma manhã, vulcanicamente? Eis uma estranheza da pertinência. Não, não sabemos como se integravam juntas as inteligências ou as qualificações."

p. 21
"Como conectar, na verdade, o que você sabe ou pode fazer e o que nós podemos ou sabemos fazer juntos? Em outras palavras, como fecundar o coletivo perito pelas perícias individuais, ou identidade pela pertinência, como em uma corrente positiva? Desde que o mundo tem uma história, o conjunto das respostas a esta dupla questão se nomeia por cultivo e educação, instrução e pedagogia, formação e aprendizado."
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"Nunca vimos a evolução, em tempo real, do que sabe, do que pode, que faz uma coletividade; nunca pudemos regrar o que você deseja para si mesmo, em função destas tendências - ou contra elas, lógico, ou também sem nenhum olhar em direção a elas. Coisa ainda não feita, mas possível, à sua livre e espontânea vontade."

[fim do prefácio de Michel Serres]

p. 25
"O dispositivo das árvores de conhecimento é tão novo que muitos de nossos leitores não teriam podido associar-lhe imagens nem situações concretas se nos contentássemos com uma exposição puramente conceitual. É por isso que escolhemos começar este livro por algumas fábulas, historietas ou esquetes que devem permitir compreender a utilidade e o uso possível das árvores de conhecimentos em situações extremamente diversas. Seria necessário que pudéssemos entrar em nosso sistema pelo coração, imaginação, até mesmo humor, já que é também por aí que foi concebido."

p. 32
[logo no início, referência a "patentes fundamentais". Pode vir a ser objeto de crítica do Labirinto.]
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"Um pequeno computador gera o sistema, um programa desenha a árvore automaticamente a partir da ordem em que os alunos tiram suas patentes."

p. 34
"Eles distribuem a seus empregados uma carteirinha pessoal em que cada um pode registrar os sinais de suas competências, saberes e habilidades. Por um tratamento informático apropriado, as representações que obtêm a partir desses registros são chamadas brasões. Desta forma cada pessoa tem seu brasão."

p. 57
"O sistema pode ser aplicado a tudo justamente porque não comporta nenhum a priori quanto à classificação dos saberes, seu conteúdo, seu valor e seu modo de transmissão. Trata-se somente de um instrumento que permite a livre expressão dos saberes a qualquer comunidade humana. Seria perigoso somente se ele impusesse qualquer coisa; ora, ele nada impõe, nem mesmo sua própria presença. Ninguém é forçado a adotá-lo."

p. 65
"Há engenheiros cheios de diplomas que querem nos ensinar a fazer vidro e outros que esperam nos substituir por máquinas, mas o vidro nunca é exatamente a mesma coisa, a cada vez é diferente. No final, você sente essas coisas. Não se pode explicar." (um contramestre a Emmanuel Plinpoule)

p. 72
"o valor da patente diminui com a densidade. A boa estratégia consiste, então, quase sempre em depositar patentes nos novos territórios do saber, nas fronteiras."

p. 73
"Em vez de utilizar os computadores para ensinar, como se tentava fazer há vinte anos, eles nos servem para a validação dos conhecimentos. O trabalho nobre é deixado para os homens."

p. 74
"A criação de novos conhecimentos se desenvolve em um outro terreno, que talvez nunca consigamos cartografar. O jogo de que falamos esta noite consiste somente em tornar visível os efeitos da criação. Graças a este jogo, a coletividade pode contemplar sua alma mutante sobre o espelho das árvores."

p. 79
"precisamos é repensar totalmente o sistema de educação, inventar outra coisa em vez de reproduzir as instituições do Norte. Abandonemos a aproximação puramente quantitativa e o comportamento mimético! Ajamos com fineza, ao nível dos sistemas de regulação e de reconhecimento dos saberes. Devemos utilizar todas as nossas energias, todas as nossas qualidade, sem nenhum complexo."

p. 80
"é a própria sociedade que se encarregará da questão da educação e não mais uma instituição separada! A escola existirá sempre, mas como um componente entre outros da educação, do aprendizado e do ensino."

p. 93
"Nesse tempo, seu ídolo havia inflado desmesuradamente. Tornou-se terrivelmente pesado, imenso e labiríntico. Ninguém havia contemplado todas as suas faces e ninguém podia reconstruí-lo de memória. Ora, os escribas, com grandes esforços de comissões e conselhos, esgotavam-se redesenhando-a sempre mais rapidamente, maior e se despedaçaram em infinitas batalhas de classificações."

p. 99
"Talvez alguma informação, algum hábito esquecido, algum saber metido nas dobras do tempo poderia, na situação crítica em que me encontro, salvar-me."

p. 100
"Ninguém possui a mesma história, ninguém sabe as mesmas coisas. Haveria uma singularidade, uma identidade específica dos indivíduos que se definiria pelo que eles sabem, como uma impressão digital, um rosto trabalhado pela experiência, o timbre de uma voz, um nome, uma assinatura."

p. 101
"De todos os saberes, somente uma ínfima parcela é acompanhada por um reconhecimento oficial de títulos ou diplomas. Mas uma infinidade de conhecimentos, que todos podem possuir em um momento ou em outro, aqui e ali, sua pertinência econômica, lúdica, social, científica etc. circulam clandestinamente, crescem em silêncio, invisíveis, atuantes, prontas para servir."
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"O que nos ensina o filme acelerado da existência no momento do mais extremo perigo é que não importa que parcela de vida, com a experiência que a acompanha, pode encobrir um saber útil, salvador, e que é a priori impossível saber-se qual."

p. 102
"Pois o que ignoro é antes de tudo o que o outro sabe. Mais você me é dessemelhante, mais sua vida é diferente da minha, mais você possui conhecimentos que eu não tenho, mais poderá me ensinar."

p. 103 a 104
"Quando as técnicas e as habilidades se mantinham quase as mesmas durante a vida de um homem, o papel do saber permanecia despercebido, a capacidade de aprendizagem permanente dos indivíduos e dos grupos não aparecia como uma qualidade determinante. Contudo, hoje, os conhecimentos não apenas evoluem muito rapidamente, mas, sobretudo, comandam a transformação das outras esferas da vida coletiva; como conseqüência, o que ficava "invisível", porque era imóvel, passa bruscamente para o primeiro plano."

p. 105
"O objetivo desta obra é expor os conceitos e as técnicas que tornarão visível o espaço do saber e, ao mesmo tempo, a identidade de cada um nesse espaço. [parágrafo] As principais questões dessa visibilização são a dignidade desses a quem os saberes da vida são negados e a construção de uma nova civilidade fundada sobre as comunidades de aprendizagem e de conhecimento."

p. 106
"cada um sabe, nunca se sabe, todo o saber está na humanidade."
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"A escola, como instituição, define a priori (em função de suas tradições e da percepção da demanda social) os conhecimentos indispensáveis, corretos, válidos, quer seja para a cultura geral ou para os saberes especializados. Mas esses conhecimentos somente representam uma ínfima minoria do que "cada um sabe", do saber trazido pelo conjunto da humanidade, um saber que, além disso, se transforma e aumenta hoje em um ritmo tal que a escola tem, a cada dia que passa, mais dificuldade de acompanhar."

p. 106 a 107
"Temos, definitivamente, como resultado do sistema de reconhecimento de saber ainda hoje defendido pela escola e pela universidade: que alguns dentre nós são absolutamente ignorantes (ainda que cada um saiba); que se possuo um diploma, eu sei (ainda que nunca se saiba); que o saber somente é válido quando reconhecido pela instituição (ainda que todo saber esteja na humanidade)."

p. 107
"Não colocamos de forma alguma em questão a indispensável tarefa de instrução das crianças realizada na escola primária, nem o ensino dispensado pelos colégios e universidades. Propomos apenas um método de visibilização dos saberes e de reconhecimento das competências muito mais amplo e democrático do que o que vigora hoje."
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"Não se trata, de forma alguma, aqui, de um panfleto a mais "contra a escola", mas de um projeto positivo de que os educadores poderiam perfeitamente se apropriar no próprio exercício de sua profissão." [Pode vir a ser objeto de crítica do Labirinto.]

p. 109
"Houve a tatuagem no corpo de desejo, o nome no espaço da linguagem, o endereço no território ou o sinal exterior de riqueza no espaço econômico. Quanto à identidade cognitiva, que chamamos brasão, tornar-se-á a segunda "pele" do indivíduo no seio de espaço do saber."

p. 113 a 133
[para ter uma visão mais explicativa do que são as árvores de conhecimento e de como se dá sua aplicação]

p. 135
"As árvores de conhecimento são fundadas sobre princípios de auto-organização, de democracia e de livre troca na relação com o saber. Ao abandonar uma concepção feudal dos conhecimentos organizados em disciplinas, dominados pelos grandes conceitos, desenvolvem um espaço do saber produzido por todos, coextensivo à vida das coletividades humanas, sem muros nem fossos incontornáveis. A diversidade das competências e dos recursos cognitivos de qualquer comunidade pode, então, tornar-se visível. Um espaço de comunicação e de negociação entre todos ou atores implicados pelas relações com o saber é instituído. O mesmo instrumento pode ser manejado pelos indivíduos que oferecem competências, pelos empregadores que os procuram e pelos formadores que os transformam."

p. 155
"Em um espaço em que todos os saberes podem ser mascarados sem hierarquia e sem a priori, as diferenças se tornam uma fonte de enriquecimento das comunidades ao invés de serem um fator de violência."

p. 186
"a diversidade e o afluxo dos saberes hoje é tal que nenhum indivíduo, e principalmente nenhum grupo fechado, pode mais possuir o conjunto dos conhecimentos como ainda era possível nas sociedades arcaicas ou tradicionais. A inteligência, o pensamento, o conhecimento estão condenados à partilha, à abertura."

Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., abril de 2000

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto