BORGES, Jorge Luis. Obras completas vol. 3. São Paulo: Globo, 1999. 576 p.; 21,5 cm.
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Citações...
p. 12
"penetrou mais do que ninguém nos labirintos da alma eslava."
p. 13
" Como anda sua memória? / Compreendi que, para um moço
que não havia completado vinte anos, um homem de mais de setenta era
quase um morto. Respondi: / Costuma parecer-se com o esquecimento, mas
ainda encontra o que lhe pedem."
p. 16
"Meu relato será fiel à realidade ou, em todo caso, a minha
lembrança pessoal da realidade, o que é a mesma coisa."
p. 26
"os gratos labirintos [...] dos ilustres enciclopedistas franceses".
p. 31
"vermelho labirinto de Londres".
p. 39
"sonhei com uma gravura ao estilo de Piranesi, que nunca havia visto ou
que visto e esquecido e que representava o labirinto. Era um anfiteatro de pedra,
cercado de ciprestes e mais alto que a copa dos ciprestes. Não havia
portas nem janelas, mas sim uma fileira infinita de frestas verticais e estreitas.
Com uma lente de aumento, eu procurava ver o minotauro. Por fim, percebi-o.
Era o monstro dos monstros; tinha menos de touro que de bisão e, estendido
na terra o corpo humano, parecia dormir e sonhar. Sonhar com que ou com quem?"
p.40
"Para ver uma coisa é preciso compreendê-la. [...] Se vivêssemos
realmente o universo, talvez o entendêssemos."
p. 49
"Os anos passam e são tantas as vezes que contei a história
que não sei se a recordo de verdade ou se só recordo as palavras
com que a conto."
p. 54
"não é literal, mas é digna de fé."
p. 60
"Mas não falemos de fatos. Eles já não interessam
a ninguém. São meros pontos de partida para a invenção
e para o raciocínio."
p.62
"¾ Trata-se de uma citação? ¾ perguntei. /
¾ Certamente. Restam-nos apenas citações."
p.72
"Não tentava entender o que ia lendo".
p. 79 a 83
[Todo O Livro de Areia]
p. 94
"rubros labirintos de Londres".
/
"Viverei de esquecer."
p. 96
"Há uma fotografia que já pode ser de qualquer um."
/
"Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de erigir este
monumento".
p. 98
"ignora o humano tempo, / Cujo espelho espectral é a memória.
/ O tempo não o toca nem a história / De seu decurso errante,
sem intento."
p. 100
"verso, / Que é a única memória."
p. 102
"não há outra vingança que o olvido / nem há
outro perdão."
/
Sou o que, apesar de tão ilustres modos / De errar, não logrou
decifrar o labirinto / Singular e plural, árduo e distinto, / Do tempo,
que é de um e de todos."
p. 119
"Quero saber de quem é meu passado. / De qual dos que já
fui?"
/
Sou os que já não são. Inutilmente / Sou em meio à
tarde essa perdida gente.
p. 126
"Pode ser um espelho com meu rosto distinto, / Pode ser a crescente prisão
de um labirinto / Ou um jardim. O pesadelo sempre atento."
p. 129
"Leve criatura feita de uma certa memória / E de um pouco de olvido".
p. 137
"Elegia da lembrança impossível".
/
"Que não daria eu pela memória".
p. 146
"A deslembrança / E o acaso nos despojam."
p. 164
"A memória / E o olvido entretecem uma fábula".
p. 174
"Não és os outros e te vês agora / Centro do labirinto
que tramaram / Os teus passos."
p. 176
"Nesse puro labirinto está o teu reflexo. / Lancemos outra vez essa
moeda de ferro".
/
"Não exalta nem condena. Faz algo mais: esquece."
p. 183
"A ciência que decifra o solitário / Labirinto de Deus".
p. 185
"Gratos os finos labirintos da água / Entre os limoeiros".
p. 187
"O sonho se desfaz em outro sonho / E este, em outro e em outros, que entretecem
/ Ociosos um ocioso labirinto."
p. 192
"a lembrança / De ontem e um sonho são iguais."
p. 197
"grande memória côncava / que não é uma nostalgia."
p. 206
"Às vezes sinto medo da memória. / Em suas côncavas
grutas e palácios / (Disse Santo Agostinho) há tantas coisas."
p. 209
"Sabia que o presente não passa / de uma partícula fugaz
do passado / e que estamos feitos de esquecimento".
p. 212
"O frontispício do castelo advertia: / "Já estavas aqui
antes de entrar / e quando saíres não saberás que ficas"."
p. 214
"O passado me acossa com imagens. / Sou a brusca memória".
p. 217
"Os passos do errante labirinto. / A tela infinita de Penélope.
/ Dos estóicos o tempo circular."
/
"O eco do relógio na memória."
p. 228 a 229
"somos feitos para o esquecimento. Mas algo fica, e esse algo é
a história ou a poesia, que não são essencialmente distintas."
p. 230
"atualmente, quando se conta algo sobrenatural, isso é feito por
um escritor incrédulo que se dirige a leitores incrédulos e que
tem de preparar o sobrenatural."
p. 233
"apresentar um momento como cifra de uma vida."
p. 241
"amanhã, encontrarei coisas que não encontrei até
agora."
p. 242
"assombroso é o fato de, toda manhã, acordarmos lúcidos
- ou relativamente lúcidos, digamos -, depois de termos passado por essa
região de sombras, por esses labirintos de sonhos."
/
"nossa memória dos sonhos é mais pobre que a esplêndida
realidade."
p. 243
"passo de um livro a outro, minhas memórias são superiores
a meus pensamentos".
p. 247 a 248
"Tenho o pesadelo do labirinto, e isso se deve, em parte, a uma gravura
em aço que vi em um livro francês quando era pequeno. Nessa gravura
estavam as sete maravilhas do mundo e entre elas o labirinto de Creta. O labirinto
era um grande anfiteatro muito alto ( e isso se percebia porque ele era mais
alto que os ciprestes e que os homens a seu redor). Nessa construção
fechada, ominosamente fechada, havia frestas. Quando eu era pequeno, acreditava
(ou agora acredito ter acreditado) que, se tivesse uma lupa forte o bastante,
poderia ver, olhando por uma das frestas da gravura, o Minotauro no terrível
centro do labirinto."
p. 248
"bastam dois espelhos opostos para construir um labirinto."
p. 253
"no deserto sempre se está no centro".
p. 263
"Temos vontade de perder-nos em As Mil e Uma Noites; sabemos que ao entrarmos
nesse livro podemos esquecer nosso pobre destino humano; podemos entrar em um
mundo, e esse mundo é feito de umas tantas figuras arquetípicas
e também de indivíduos."
p. 267
"É uma invenção que os sonhos ou a memória
deram".
p. 268
"tão vasto que não é necessário tê-lo
lido, já que ele é parte prévia de nossa memória".
p. 279
"Há uma vontade que se encarna em cada um de nós e produz
essa representação que é o mundo. Encontramos isso em outros
filósofos, sob outro nome. Bergson fala do élan vital , do ímpeto
vital; Bernard Shaw, de the life force, a força vital, que é a
mesma coisa. Mas há uma diferença: para Bergson e para Shaw, o
élan vital são forças que devem impor-se, devemos continuar
sonhando o mundo, criando o mundo. Para Schopenhauer, para o sombrio Schopenhauer,
e para Buda, o mundo é um sonho, devemos deixar de sonhá-lo e
podemos chegar a isso por meio de longos exercícios."
p. 288
"ignorar es saber olvidar".
p. 289
"Sou quase incapaz de pensamentos abstratos, vocês devem ter notado
que estou continuamente me apoiando em citações e lembranças."
p. 292
"Cada homem tem seu rosto único e com ele morrem milhares de circunstâncias,
milhares de lembranças."
p. 297
"no Oriente, em geral, a literatura e a filosofia não são
estudadas historicamente. Daí o assombro de Deussen e Max Müller,
que não puderam fixar a cronologiados autores. Estuda-se a história
da filosofia como dizendo Aristóteles discute com Bergson, Platão
com Hume, tudo simultaneamente."
p. 301
"não queria atar-se a um texto. Queria que seu pensamento continuasse
vivendo e se ramificando".
p.313
"Meu pai, que era professor de psicologia, pedia algum livro de Bergson
ou de William James, seus autores preferidos".
p. 331
"um tênue rumor de água, que conjurava / memórias de
desertos."
p. 336
"aqui a memória do tempo e os labirintos do tempo".
p. 338
"Não posso executar um ato novo, / teço e torno a tecer a
mesma fábula, / repito um repetido decassílabo, / torno a dizer
o que outros me disseram, / as mesmas coisas sinto, sempre à mesma /
hora do dia ou da abstrata noite. / Noite após noite o mesmo pesadelo,
/ noite após noite o austero labirinto."
p. 340
"é mais terrível / que a pirâmide de Gizé ou
que o labirinto de Cnossos, / porque é também um sonho."
p. 341
"esse brinquedo, que abrange mais de um século e um continente,
um dia vai descobrir a arte divina de destecer o tempo ou, como disse Pietro
Damiano, de modificar o passado."
p. 344
"Agradeçamos os vermes e o esquecimento."
p. 345
"Todo o passado volta feito onda, / e essas antigas coisas reaparecem /
porque uma mulher te deu um beijo."
p. 349
"Os labirintos de marfim que urdem / As peças de xadrez no tabuleiro".
p. 357
"O esquecimento, que purifica. / A memória que escolhe e redescobre.
/ O hábito que nos ajuda a sentir que somos imortais. / A esfera e os
ponteiros que parcelam o inapreensível tempo."
/
"Acordar aquele que dorme / é impor a outro o interminável
/ cárcere do universo / de seu tempo sem ocaso nem aurora. / É
revelar-lhe que é alguém ou algo / que está sujeito a um
nome que o divulga / e a um cúmulo de ontens. / É inquietar sua
eternidade. / É saturá-lo de séculos e estrelas. / é
restituir ao tempo outro Lázaro / saturado de memória."
p. 368
"Chuang Tzu que sonhou que era uma borboleta e que não sabia, ao
acordar, se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que
agora sonhava ser um homem."
p. 370
[Todo]
p. 371
"Quando nos desalenta o infortúnio, / por instantes nos salvam /
as aventuras ínfimas / da atenção ou da memória".
p. 376
[Todo]
p. 381
"Imaginemos, numa biblioteca oriental, certa lâmina pintada há
séculos. Talvez seja árabe, e nos dizem que nela estão
figuradas todas as fábulas das Mil e Uma Noites; talvez seja chinesa,
e sabemos que ilustra algum romance com centenas ou milhares de personagens.
No tumulto de suas formas, alguma - uma árvore semelhante a um cone invertido,
mesquitas de cor avermelhada sobre uma muralha de ferro - desperta-nos a atenção,
e dessa passamos a outras. Declina o dia, fatiga-se a luz e, à medida
que nos internamos na gravura, compreendemos que não há coisa
na terra que não esteja aí. O que foi, o que é e o que
será, a história do passado e a do futuro, as coisas que tive
e as que terei, tudo isso nos espera em algum lugar desse labirinto tranqüilo...
Fantasiei uma obra mágica, uma lâmina que também fosse um
microcosmo; o poema de Dante é essa lâmina de âmbito universal."
p. 395
"No tempo real, na história, cada vez que se depara com diversas
alternativas, o homem deve optar por uma e elimina ou perde as outras; mas não
no ambíguo tempo da arte, que se parece ao da esperança e ao do
esquecimento."
p. 428
"Minhas boas intenções não haviam passado das primeiras
páginas; nas demais estavam os labirintos, as facas, o homem que se crê
uma imagem, o reflexo que se crê verdadeiro".
/
"Minhas palavras, que agora são o presente, serão apenas
a memória de um sonho."
p. 429
"¾ Ficará no fundo de sua memória, debaixo da maré
dos sonhos. Quando você o escrever, pensará estar urdindo um conto
fantástico."
p. 438
"impus-me o íntimo dever de pensar continuamente nas pedras, porque
sabia que o esquecimento só podia ser momentâneo e que redescobrir
meu tormento seria intolerável."
p. 442
"¾ Em que outro lugar estamos? Você acha que a divindade pode
criar um lugar que não seja o Paraíso? Acredita que a Queda não
é outra coisa senão ignorar que estamos no Paraíso?"
p. 446
"¾ Tenho, ainda, duas memórias. A minha pessoal e a daquele
Shakespeare que parcialmente sou. Ou melhor, duas memórias me têm.
Há uma zona em que se confundem."
p. 447
"¾ A memória já entrou em sua consciência, mas
é preciso descobri-la. Surgirá nos sonhos, na vigília,
ao virar as folhas de um livro ou ao dobrar a esquina. O senhor não se
impaciente, não invente lembranças. O acaso pode favorecê-lo
ou atrasá-lo, segundo seu misterioso modo. À medida que eu vá
esquecendo, o senhor recordará. Não lhe prometo um prazo."
/
"Eu havia postulado que as imagens da prodigiosa memória seriam,
antes de mais nada, visuais. Não foi o que aconteceu. Dias depois, ao
barbear-me, pronunciei ante o espelho algumas palavras que me surpreenderam".
p. 448
"De Quincey afirma que o cérebro do homem é um palimpsesto.
Cada nova escrita encobre a escrita anterior e é encoberta pela seguinte,
mas a todo-poderosa memória pode exumar qualquer impressão, por
mais momentânea que tenha sido, se lhe derem o suficiente estímulo."
p. 448 a 449
"Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada linha, cada
parágrafo, cada página e cada gravura; adquire a mera possibilidade
de conhecer algumas dessas coisas. Se isso acontece com um ente concreto e relativamente
simples, tendo em vista a ordem alfabética das partes, o que não
acontecerá com um ente abstrato e variável, ondoyant et divers,
como a mágica memória de um morto?"
p. 449
"A ninguém é dado abarcar em um único instante a plenitude
de seu passado."
/
"A memória do homem não é uma soma; é uma desordem
de possibilidades indefinidas."
/
"Santo Agostinho, se não me engano, fala dos palácios e cavernas
da memória. A segunda metáfora é a mais justa. Foi nessas
cavernas que entrei."
450
"a identidade pessoal baseia-se na memória".
/
"À medida que transcorrem os anos, todo homem é obrigado
a suportar o crescente peso de sua memória."
P. 451
"¾ Você quer a memória de Shakespeare?"
/
"Eu havia imaginado disciplinas para despertar a antiga memória;
tive de buscar outras para apagá-la."
p. 460
"Essas vastas sombras interpõem-se entre o muito que recordo e o
pouco que pude perceber em dois ou três dias povoados, como todos, de
circunstâncias."
p. 470
"não há felicidade ou dor que sejam tão-só-físicas,
sempre intervêm o passado, as circunstâncias, o assombro e outros
fatos da consciência."
p. 473
"Na memória tudo é grato, até a desventura."
p. 474
"Já são parte / dessa dócil argila, meu passado, /
que o tempo esfuma ou que maneja a arte / e que áugure algum tem decifrado."
/
"Das máscaras que fui já absolvido, / serei na morte meu
total olvido."
p. 488
[tudo]
p. 497
"Na memória, o duvidoso tempo da estada será só uma
imagem".
p. 503
"Nas muralhas e nas casas está o passado [...]. Não se requerem
datas nem nomes próprios; basta o que imediatamente sentimos, como se
se tratasse de uma música."
p. 504
"Aqui não estarei eu. Estarão meu cabelo e minhas unhas,
que não saberão que o resto morreu, e continuarão crescendo
e serão pó. / Aqui não estarei eu, que serei parte do esquecimento,
que é a tênue substância de que é feito o universo."
p. 511
"o que perde o esquecimento, e o que a memória transforma".
p. 515
"Deixou-nos esplêndidas metáforas / e uma doutrina do perdão
que pode / anular o passado."
p. 503
"Somos o tempo. Somos a famosa / parábola de Heráclito, o
Obscuro. / Somos a água, não o diamante duro, / a que se perde,
não a remansosa."
p. 525
"Tua será também a certeza de que o Tempo se esquece de seus
ontens e de que nada é irreparável, ou a contrária certeza
de que os dias nada podem apagar e de que não há um ato, ou sonho,
que não projete uma infinita sombra."
p. 528
"Perdeu-se o labirinto. E perderam-se / todos os eucaliptos ordenados,
/ os toldos do verão e a vigília / do incessante espelho, repetindo
/ cada expressão de cada rosto humano, / cada fugacidade."
p. 529
"[tudo]
p. 531
"Sonhou o ato da sombra. Sonhou as cem portas de Tebas. Sonhou os passos
do labirinto. Sonhou o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha.
Sonhou a vida dos espelhos."
/
"o caleidoscópio, grato aos ócios do enfermo e do menino".
p. 532
"Sonhará que o esquecimento e a memória podem ser atos voluntários,
não agressões ou dádivas do acaso."
p. 533
"alheio a essa outra arte, o esquecimento".
p. 534
"até um dia final em que o olvido, / que é a meta comum,
esqueça-nos de todo. / Antes que nos alcance, brinquemos com o lodo /
de ser durante um tempo, de ser e de ter sido."
p. 537
"Refletido / no espelho teu rosto é desconhecido, / e o dia é
um duvidoso labirinto."
/
"És nuvem, és oceano, és olvido. / E és também
o que terás perdido."
p. 540
[tudo]
p. 552
"Fiz com que cada / estrofe fosse um árduo labirinto / de entretecidas
vozes, um recinto / proibido ao vulgo, que é, apenas, nada."
p. 553
"A sábia história / das aulas não é menos ilusória
/ do que essa mitologia do nada. / O passado é argila que o presente
/ lavra à vontade. Interminavelmente."
p. 554
"Já cruzei tantas vezes essa esquina. / Nem consigo lembrá-las."