LABIRINTO: ME ENCONTRO NAS COISAS PERDIDAS DO MUNDO
PARTE COLETIVA

PROBLEMÁTICA

PAULO: Estamos aqui para conversar sobre as idéias que a gente quer socializar entre nós e, posteriormente, com a ajuda da academia, poder levar à frente.

ANDRÉA: É bom lembrar que essa conversa agora gravada, já é resultado de outras tantas, de anos até, sobre a prática da gente como professor e, no meu caso também, meio coordenadora e diretora. A idéia da conversa também pra mostrar como vai ser a dinâmica do nosso trabalho. Mesmo nos trabalhos de interesses mais pessoais - no meu caso de Antropologia; Fabiano, História; Eduardo meio Informática, meio Educação; e o Paulo, a questão da Educação - tudo vai ser conversado e compartilhado. Uma prática que a gente tem e quer materializar agora para as outras pessoas.

FABIANO: O bom da conversa é que ela já supõe o diálogo, que é um dos nossos objetivos com o doutorado, possibilitar experiências e, dessa forma, possibilitar encontros, seja a partir de textos ou de situações que possam ser criadas. Penso que é uma postura. Resgatar coisas antigas e ao mesmo tempo criar outras. Por que a conversa me lembra o quê? Lembra calçada, lembra fogueira, lembra lua.

ANDRÉA: Outra coisa muito boa é que a gente pode criar uma unidade, permitindo identificar onde é que a gente se afina, sem perder a história e a perspectiva de cada um.

PAULO: Então o que existe de comum nessas nossas reflexões, que faz esse grupo hoje estar junto, é uma preocupação ontológica: a questão do homem inserido nessa sociedade tecnológica. Os conhecimentos aumentam a cada instante pela possibilidade que se tem de interagir e pela pressão e pela demanda que existe socialmente para que a gente responda positivamente, com competência, a essa maior quantidade de informações. Junto com isso, a reflexão sobre a natureza do conhecer. Esse homem que conhece, conhece pra quê? EDUARDO: Além do pra que conhecer, tem o como, que é a questão central da gente. Isso não é uma coisa nova. Tem um livro do Capra, que é um físico conversando com dois teólogos, tentando construir alguma relação entre ciência e espiritualidade. Tem aquele livro do Agostinho. E já tem o exemplo da minha dissertação cuja parte mais analítica era de conversas com Luiza, Paulo e Fabiano. Você não pode dissociar forma de conteúdo. Tem certos conteúdos que pedem determinadas formas.

PAULO: E é engraçado porque, numa perspectiva anterior, a gente conversaria e depois produziria individualmente. O que a gente tá propondo é que além de pensar e produzir sozinho, o momento da troca seja também rico, que esse momento seja documentado.

FABIANO: Porque há um predomínio da escrita na nossa sociedade. A conversa, a fala, perdeu muita importância. Aí volta pra coisa da maneira, o gosto que pode ter na conversa. Minha avó gostava muito de contar historias porque a gente gostava de ouvir. E vice-versa.

ANDRÉA: Eu acho que a gente já começou a falar da problemática, pois o Paulo já falou da questão do conhecimento.

PAULO: Porque a conversa, o diálogo, o debate, no final das contas, é a nossa proposta metodológica, a nossa compreensão de como é possível ao homem conhecer.

FABIANO: Porque há uma idéia de que o acesso à cidadania passa necessariamente pelo acesso ao conhecimento. E que conhecimento é esse? O conhecimento padrão, o conhecimento escolar. Você tem que ter escolaridade para conquistar determinado status: "Se você quer ser alguém na vida, estude." Você deixa de brincar para estudar. Mas você poderia dizer: "Meu filho pegue uma bicicleta e vá conhecer o mundo, pessoas, lugares."

PAULO: A gente pode achar que vive linearmente, que a matéria é só matéria, e não é também movimento. Mas o que a turma está dizendo hoje é que a vida é não-linear. Toda tentativa de amarrar é uma construção, porque a gente constrói o mundo como a gente quer, o mundo interno. Então se a gente achar que as coisas têm causas, têm conseqüências, que é possível determiná-las. Se a pessoa se achar no direito de construir uma teoria na base da causa e da conseqüência, é um direito dela, ela vai exercer.

EDUARDO: Mas aí eu acho que é o que tem naquele texto da Schnitman & Fucks, para algumas coisas é necessário haver linearidade. Existem domínios de linearidade e de não-linearidade. E a gente tem apenas que perceber que, na medida em que as coisas são previsíveis, você tem que tender à linearidade, na medida que você está num ambiente de possibilidades ou de imprevisibilidades, você tem que partir para uma abordagem não-linear, que vai lhe permitir explorar essas possibilidades antes que você consiga estabelecer para aquela determinada coisa uma nova ordenação linear que vai facilitar o fluxo. A linearidade tem essa idéia positiva de fluxo. Você escreve bem um poema não é quando você está aprendendo a fazer um poema, explorando vários sistemas, mas quando você encontra seu estilo.

PAULO: Mas a vida não é linear. As sinapses: o que você tá aprendendo você não sabe, você não tem controle. Eu acho que a questão da linearidade é a tentativa de controle. No sentido de achar que se você fizer isso, isso e isso você vai ter esse resultado. E eu acho que o grande mérito de tudo que tá sendo dito na filosofia, nos filósofos da ciência, pela questão da tecnologia da informação, pela teoria das inteligências múltiplas do Gardner, é exatamente a impossibilidade de você entender, controlar o homem.

ANDRÉA: A questão da nossa problemática é centrar naquilo de que as coisas estão ditas: na Física, na Psicologia, na Educação, na Antropologia, na História... E essas coisas são tudo que a gente quer de Educação e tudo que a gente não quer. Se a gente percebeu que as coisas acontecem de forma mais complexa do que vinha sendo pensado, divulgado e feito, o que a gente quer fazer? Quer um espaço de realização onde as pessoas também possam sentir essa complexidade, onde seja possível a realização de uma metodologia não-linear.

EDUARDO: Juntando a isso... o mundo pode ser eventualmente não-linear, mas a apropriação sua, o seu crescimento, tem que ter uma certa linearidade. Então, é uma experiência ao mesmo tempo linear e não-linear.

FABIANO: Mas eu penso que a gente não está procurando uma resposta. Uma vez, na época da graduação, estava havendo um debate: "Nós estamos num tempo moderno ou nós estamos num tempo pós-moderno?" Eu lembro da resposta da Luiza de Teodoro: "Vivemos várias épocas ao mesmo tempo". Então a questão não é defender, mostrar ou provar que existe a não-linearidade em contraposição a uma coisa linear. Mas de experimentar coisas que eu acho que, no momento em que a gente estiver vivenciando e no momento em que a gente for passar isso pra comunicar com as pessoas, é que a gente vai perceber que talvez seja um conflito constante. Como perceber e sentir essa não-linearidade?

EDUARDO: Eu acho que é o que o Benjamin fala: aquela história do que relampeja num momento de perigo. A gente tem uma espécie de caminho que é na sua maior parte linear. Só que nos momentos de crise, a gente percebe várias possibilidades. E aí a gente tem que começar a exercitar uma atitude não-linear quando chega num momento de perigo, que é o momento atual. Ninguém está satisfeito com a educação: as pessoas colocam os filhos no 7 de Setembro, Batista, Geo, porque eles têm que passar no vestibular, mas se decepcionam porque não acreditam na educação que essas escolas dão. E essa crise faz pensar nas muitas possibilidades de como se aprende, do que se pode aprender, se é na escola ou não, se é na família, se é na comunidade, se é sozinho... isso traz a reflexão sobre não-linearidade.

ANDRÉA: E aí que é interessante porque a gente vê que a mesma dificuldade que as pessoas vivem de aplicar as idéias dentro de uma sala de aula está acontecendo de aplicar a idéia na internet. Aí é onde a gente entra com experimentação: vamos realizar essa não-linearidade. Você tem um espaço que é metafórico da não-linearidade, que não está sendo usado.

EDUARDO: E aí liga com a não-linearidade cerebral das sinapses, essa não-linearidade cerebral foi levada, ou aconteceu concomitante, não sei, com a não-linearidade informática da internet, e o nosso objetivo é levar isso ao corpo, pra que isso possa ser vivenciado, mesmo sem computador, em ambientes potencialmente educacionais. Mas o problema não é da linearidade, é da imposição da linearidade. Quer dizer, a linearidade que o indivíduo se coloca, a construção do seu sentido de vida, a tomada de consciência da sua realidade, que em certa medida é um processo linear, na mesma medida em que é não-linear, isso é altamente válido. Faz parte do se encontrar, do se perceber e do ganhar autonomia.

FABIANO: Quando a gente, nos nossos cursos, ao invés de mostrar conteúdo, através de textos ou de aula expositiva, cria a situação de vivenciar. Aí as pessoas lá no final vão perceber, porque também é um processo.

ANDRÉA: É uma situação nova para eles. Talvez seja uma questão cultural, de auto-estima, eles não se percebem como textos capazes de serem lidos. Ao mesmo tempo quando eles dizem: "Eu tô gostando", é um sinal de que as coisas convivem, que são possíveis.

PAULO: Eu digo mais: são textos que precisam ser relidos. Você precisa fazer e refazer sua história de vida. E nesse sentido, uma coisa que na teoria do Gardner é importante é a intuição, não no sentido do Piaget, a criança usando porque ainda não desenvolveu as funções mentais superiores, raciocínio lógico-matemático, não entendendo intuição dessa forma, mas como uma voz interna, uma confiança em si mesmo. Saber que no processo vai acontecer algo legal, que eu vou aprender algo que vai me fazer ser melhor pessoa, vou conseguir refazer minha história de vida em alguns sentidos e em novas perspectivas.

ANDRÉA: Tem uma coisa muito cruel aí. Quando se fala de pedagogia tradicional centrada no professor, a gente questiona muito o poder mas tem uma coisa de pressão aí. Nenhum professor sabia e ele sabia que não sabia... Então, quer dizer, foi um processo que deve ter sido doloroso, você ter que saber: "Tomara que eles não me perguntem nada além do livro didático." Eu não posso saber de tudo mas tenho que saber de tudo. Quando você sai dessa coisa do professor, você centra no aluno. Toda a questão da descoberta do aluno como sujeito, tudo muito maravilhoso. Aí entra a questão do medo, como é que vou lidar com 20, 30 sujeitos ao mesmo tempo? A idéia do labirinto é que você entra numa outra relação. É sujeito o aluno, é sujeito o professor, e são sujeitos que se encontram, a idéia da troca, e que
não importa você saber determinadas coisas, importa que aquilo que você sabe e aquilo que a outra pessoa sabe vai ser trocado e que dali vai sair alguma coisa que não é uma coisa só, dali pode sair uma série de coisas, quer dizer, o processo de transformação na troca, que é o que eu acho que traz a idéia do conhecimento em rede, quando o conhecimento em rede coloca que você não controla, que a coisa pode sair de qualquer ponto, que não tem um ponto inicial, e pode fazer conexão com qualquer coisa, então isso num primeiro momento pode dar uma angústia, "eu tô no caos, pra onde eu vou?" Mas ao mesmo tempo pode dar aquela coisa, "eu posso escolher agora", então vira a coisa da brincadeira. Como disse o Capra, agora a gente pode brincar.

FABIANO: A brincadeira pode ser entre professor e aluno ou entre pessoas que estão querendo construir algum conhecimento. A professora vai produzir texto a partir de um desenho e diz para os alunos como deve ser feito. Cada aluno vai fazer um desenho, colocar no centro da sala, pegar um desenho que não o seu e construir sua história. Ou seja, ao mesmo tempo em que ela teve uma intuição de fazer alguma coisa a partir dos alunos, tentando que eles percebam a potencialidade que há neles, ela se colocou distante. O que é que eu digo pra essas pessoas? Se vai desenhar, desenhe também, se vai fazer uma produção de texto, faça um texto também. Se botar os alunos pra sujar a bunda, suje a sua também. Porque às vezes a gente percebe que algumas coisas têm que mudar na maneira como dar aula, mas não experimenta, vai para o birô. Bom, "qual história poderia passar por mim? Qual desenho?" Aí perde justamente a coisa da troca, da vivência.

EDUARDO: Quer dizer, nós estamos dentro. Não estamos olhando de fora. Não somos observadores imparciais. É um dos novos paradigmas educacionais da Marylin Ferguson: o professor como um educando também.

FABIANO: Aí dá para fazer uma relação com o Capra. Ele vai falar das mudanças de paradigma na ciência: da parte para o todo, de estrutura para processo, de ciência objetiva para ciência epistêmica, de construção para rede como metáfora do conhecimento, de descrições verdadeiras para aproximadas.

ANDRÉA: A coisa está tão em construção que lá na escola apareceu um pessoal com a proposta de um livro construtivista. Uma mulher foi dar uma palestra para as professoras, mas ela escorregava tanto na defessa do livro. Umas coisas bem dentro do antigo paradigma. O maior perigo é ficar a meio caminho: a enganação de dizer que está com uma proposta nova e fazer a mesma coisa. Aí a proposta cai porque dizem que não deu certo.

FABIANO: Mas é escorregadio mesmo. A palavra é essa. A grande moda atual é o construtivismo. Alguns livros vêm com o nome construtivismo bem grande na capa. Aí as professoras, que estavam acostumadas a trabalhar de uma maneira tida como tradicional, ficam tontas: "Como é que eu vou fazer isso? Vou ter que fazer isso porque estão dizendo que é assim?" As professoras não têm que ser construtivistas, têm que ser elas mesmas. Por isso que a proposta do Labirinto não é de mostrar uma nova maneira de educar, mas que alguém nos dê atenção e de tentar o risco. Vamos enfrentar o risco para ver no que é que dá.

EDUARDO: Acho que essa é a deixa para falar dos paradigmas... O mais importante agora não é o novo paradigma. Quando você procura um novo paradigma você tá correndo o risco desse paradigma virar uma primazia que vai ter o mesmo problema daqui a algum tempo, porque segundo Kuhn essa é a estrutura das revoluções científicas . Aí o Pierre Levy entra para dizer que essa lógica de superação de modelos ou paradigmas está no domínio da escrita e da história . Então é uma coisa de 5000 mil anos para cá. A tendência da escrita é ser objetiva, é ser universal. Pra que as pessoas leiam aquilo e entendam, principalmente quando o tempo que passou é muito grande, você tem que ter os interpretadores da escrita, uma tradição hermenêutica que vai dizer como é que o texto que foi escrito há tantos anos deve ser lido. Então acontece a disputa da hegemonia sobre a interpretação do passado, gerando paradigmas. Se o pensamento pré-histórico, mitológico, é representado pelo círculo, na escrita existe uma linha que dá toda essa idéia de progresso. Atualmente, a imagem que está se criando é que o conhecimento seja uma teia, uma rede ou segmentos soltos. Vai chegar um momento em que se acabam os paradigmas, se acaba a superação de paradigmas e se chega à idéia de que várias coisas são possíveis ao mesmo tempo.

ANDRÉA: É o que o Capra fala: no conhecimento como rede não existe coisa fundamental.

EDUARDO: A internet foi criada justamente com essa intenção: criar um aparato militar sem um ponto fundamental vulnerável ao bombardeio inimigo.

FABIANO: Me permitam uma brincadeira nessa história do conhecimento como rede.

ANDRÉA: Dá vontade de deitar?

FABIANO: É, a metáfora da rede aí é mais uma teia. Talvez chegue o dia em que a gente vá deitar nessa rede e sonhar com o conhecimento.

REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

PAULO: Nosso referencial está baseado em duas questões interrelacionadas: a mitologia do labirinto como metáfora da construção e vivência do conhecimento e o trabalho coletivo como possibilidade metodológica de investigação e concretização dessa compreensão.

FABIANO: Nesse sentido podemos destacar trechos de alguns autores que permitem a simulação de um diálogo teórico sobre essas questões.

ARACY LOPES DA SILVA (1995: 327): Aparentemente ingênuos ou inconseqüentes (para olhos e ouvidos que não os sabem decifrar), os mitos são coisa séria. Como se constróem com imagens familiares, signos com os quais se entra em contato no dia-a-dia, os mitos têm muitas camadas de significação e, no contexto em que tem vigência, são repetidamente apresentados ao longo da vida dos indivíduos que, a medida que amadurecem social e intelectualmente, vão descobrindo novos e insuspeitos significados nas mesmas histórias de sempre, por debaixo das camadas já conhecidas e já compreendidas.

EDUARDO: Essas múltiplas camadas podem ser comparadas à leitura não-linear, aos vários links a partir de cada página da internet, à hipertextualidade e à hipermídia.

LUCIA LEÃO (1999: 10): Devido a características do meio digital, é possível realizar trabalhos com uma quantidade enorme de informações vinculadas, criando uma rede multidimensional de dados. Esta rede, que constitui o sistema hipermidiático propriamente dito, possibilita ao leitor diferentes percursos de leitura. O processo de desenvolvimento de um sistema hipermidiático envolve uma série de questões que se avolumam e fazem emergir uma complexidade. Nesse sentido, a metáfora do labirinto é extremamente forte, muito mais complexa e ampla do que o senso comum costuma definir. Em outras palavras, apesar de o termo labirinto estar, de um modo geral, associado à idéia de confusão, de estar perdido e de erro, quando é visto como metáfora da complexidade seu sentido se expande. Dentro desta perspectiva, o labirinto se revela um tema de discussão bastante vasto.

JOSEPH CAMPBELL (Mitologia Primitiva): A forma do labirinto - que é uma espiral elaborada - fornece um longo caminho indireto de fora de uma área para dentro, para um ponto chamado núcleo, geralmente próximo ao centro. Seu princípio parece ser prover um difícil acesso a um ponto importante. Duas idéias estão ali envolvidas: a idéia de defesa e exclusão, e a idéia de penetração, de forma adequada, nesta defesa.

JORGE LARROSA: O labirinto é a figura que serve como o lugar do estudo. Mas não se trata, aqui, do labor intus, circular e unívoca, aquele que não tem bifurcação - bivia - e que tem apenas um caminho que leva inevitavelmente ao centro, do centro ao último círculo, daí novamente ao centro e, assim, indefinidamente. O labirinto que acolhe o estudante não tem um ponto central que seja o lugar do sentido, da ordem, da claridade, da unidade, da apropriação e da reapropriação constante. O dédalo que o estudante percorre, multívoco, prolífico e indefinido, é um espaço de pluralização, uma máquina de desestabilização e dispersão, um aparelho que desencandeia um movimento infinito de sem-sentido, de desordem, de obscuridade, de expropriação. O estudante dispersa-se nos meandros de um labirinto e sem periferia, sem marcas, indefinido, potencialmente infinito.

ANDRÉA: A idéia é enfrentar o caos, conhecer sem caminho determinado; encontrar o Minotauro, resgatar a desordem aprisionada; e voltar usando o fio de Ariadne, a confirmação do próprio caminho e o reencontro com os outros.

IVANI FAZENDA (1993: 18): O projeto interdisciplinar surge às vezes de um (aquele que já possuía em si a atitude interdisciplinar) e se contamina para os outros e para o grupo. Num projeto interdisciplinar, comumente, encontramo-nos com múltiplas barreiras: de ordem, material, pessoal, institucional, gnoseológica. Entretanto, tais barreiras poderão ser transpostas pelo desejo de criar, de inovar, de ir além. O que caracteriza a atitude interdisciplinar é a ousadia da busca, da pesquisa: é a transformação da insegurança num exercício do pensar, num construir. A solidão dessa insegurança individual que caracteriza o pensar interdisciplinar pode diluir-se na troca, no diálogo, no aceitar o pensar do outro. Exige a passagem da subjetividade para a intersubjetividade.

ISMAEL ASSUMPÇÃO (1993: 24): A interdisciplinaridade mostra-se fundamentada na intersubjetividade, tornando-se presença através da linguagem como forma de comunicação e expressão humana. Nesta perspectiva, configura-se como possibilidade de um ir além a qual Joel Martins denomina de trans-disciplinaridade, onde - trans - pode ser visto como um movimento, um salto para fora, ultrapassando os limites que circundam a epistemé em ontologias regionais buscando a unidade do saber.

RUBEM ALVES (1989: 80): O ponto inicial de uma pesquisa não pode e não deve ser a metodologia mas antes a relevância do problema. E se uma única pessoa não tem condições e tempo para investigá-lo, poderíamos pensar na possibilidade de teses coletivas de mestrado ou doutoramento. Ah! Mas aqui aparece um problema que não tem nada a ver com a ciência: como avaliar individualmente o desempenho de uma pessoa, se o trabalho foi coletivo? Isto tem a ver com idéias individualistas e competitivas que têm as suas raízes em condições socioeconômicas. Assim, parece-me que a influência do rigor metodológico sobre a escolha de problemas insignificantes de investigação não se explica ao nível da própria ciência, mas nos conduz aos mecanismos institucionais dentro dos quais a nossa ciência é feita. O rigor metodológico pode, freqüentemente, deixar de ser um ideal científico válido e se transformar num artifício institucional pelo qual as instituições mais criativas são bloqueadas. É necessário que nos lembremos de que o rigor metodológico é apenas uma ferramenta provisória.

PIERRE LÉVY (1993: 108): A nova escrita hipertextual ou multimídia certamente estará mais próxima da montagem de um espetáculo do que da redação clássica, na qual o autor apenas se preocupava com a coerência de um texto linear e estático. Ela irá exigir equipes de autores, um verdadeiro trabalho coletivo.

LUCIA LEÃO (1999: 42): O conceito de autoria é bastante complicado quando se fala em hipermídia. Em geral, na elaboração de um aplicativo para CD-ROM costumam trabalhar equipes numerosas. Além disso, na hipermídia mais vivaz, a que se realiza em redes como Internet, temos um exemplo em que o termo 'autoria' só pode ser utilizado com respeito a sites específicos. Vale lembrar que na Web, em cada nó da rede estamos conectados com um ponto desenvolvido por uma equipe, e podemos no instante seguinte estar em outro ponto desenvolvido por uma outra equipe e assim consecutivamente. Alguns pensadores já chegam a afirmar que a hipermídia representa o fim da era da autoria individual.

OBJETIVOS

Experimentar a hipertextualidade na relação do homem com o conhecimento usando o labirinto como metáfora dessa relação.

Vivenciar situações de construção do conhecimento contemplando a autonomia, a não-lineariedade e a multiplicidade de inteligências, numa visão holística do homem.

Exercer um olhar transdisciplinar da relação homem/conhecimento considerando as formações diversas dos candidatos - Antropologia, Computação, Educação e História.

PROCEDIMENTOS

Como já foi dito, nossa proposta metodológica se define pelo trabalho em grupo e pela criação de espaços de experimentação de produção do conhecimento de forma não-linear de acordo com as descrições abaixo:

Site interativo na internet que simule um labirinto como metáfora do conhecimento humano e da educação. A entrada no site já traz um convite para o visitante: Escreva uma palavra que seja significativa para você neste momento. Através da escolha desta palavra-chave que atenda ao seu desejo, o visitante será levado a uma página que contém essa palavra. Partindo do seu interesse, ele pode seguir fazendo associações livres, ligando palavras que achar interessantes em cada página que for abrindo. A idéia é que a partir dessa página de entrada, se construa uma ramificação para outras páginas, que também poderão se ramificar em uma ou mais páginas, num contínuo indeterminado, com possibilidade, inclusive, do visitante criar novos links, além dos elaborados por nós. Cada página implicará, portanto, num aprofundamento de algo que estava na página anterior, ao mesmo tempo que poderá suscitar algo a ser aprofundado na página seguinte. Uma teia sem fim, como a própria internet, ainda que mais caótica por não ter links em destaque e pela grande possibilidade de interatividade. Além disso, em cada página, a pessoa que a produzir terá espaço para um pequeno diário contando como ela foi concebida. Haverá, ainda, a possibilidade de comentar sobre as páginas visitadas e sobre a visita em geral, através da disponibilização de e-mail. Um serviço de estatísticas será associado ao site para que possamos ter acesso às navegações efetuadas por cada visitante. O conteúdo do site, por ser pensado como metáfora de um conhecimento não-linear, o que envolve múltiplas camadas de significação, envolverá os quatro ramos básicos: arte, ciência, religião e filosofia. Construção de páginas, diários, comentários e navegação serão usados como fontes inspiradoras de estudos de acordo com interesses específicos de cada pesquisador.

Oficinas de produção não-linear de conhecimento. A idéia é criar espaços de realização, com a formação de 8 grupos com faixas etárias e níveis sócio-econômicos diferentes: crianças (em processo de alfabetização), adolescentes (alunos), adultos (professores) e idosos (aposentados). A diversidade etária e dos grupos permitirá que se identifiquem as múltiplas formas da produção/construção do conhecimento, percebendo semelhanças e diferenças intra e intergrupos. Cada oficina terá 8 encontros com sessões de 3 horas diárias e freqüência de 2 encontros por semana. O tema de cada oficina será definido pelo grupo, dado que queremos propiciar a vivência do conhecimento desde a determinação do que vai ser tratado, dos objetivos, do conteúdo, até a forma de avaliação. O material produzido será utilizado para o site, a instalação e a produção dos textos. Os participantes serão entrevistados antes e depois da realização das oficinas, com o propósito de perceber as transformações ocorridas no que se refere à percepção de si mesmos como sujeitos do conhecimento em interação com os outros na significação do mundo.

Instalação. Trazer para o corpo a metáfora do labirinto, explorando a percepção do espaço e do tempo através dos sentidos. Será uma construção com vários ambientes onde as pessoas poderão fazer percursos diversos, não havendo seqüência determinada. Esses ambientes serão referentes a situações cotidianas e experiências vivenciadas no site e nas oficinas. Os visitantes poderão criar e/ou modificar espaços e elementos da instalação.

Textos serão escritos durante todo o curso, a partir das disciplinas, do site, das oficinas e da instalação, com disponibilização on-line através de lista de discussão. Tais textos serão produzidos em diversos formatos e estilos. Poderão ser coletivos ou individuais, seguindo os objetivos gerais propostos ou atendendo ao interesse definido nas partes mais específicas dos projetos de cada candidato, nas áreas de Antropologia, História, Informática e Educação. Ao final do doutorado será organizado um volume com a produção dos 4 candidatos.

Para facilitar a visualização da execução do projeto como um todo, elaboramos um cronograma que facilitará também a organização deste trabalho que envolve várias produções:

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto