Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette
08.junho.2000

Como ler um texto
Eduardo Loureiro Jr.

Tomemos um texto qualquer - se é que o leitor acredita nisto...

"Quando alguma coisa no sonho tem o caráter de discurso direto, isto é, quando é dita ou ouvida e não simplesmente pensada (e é fácil, em geral estabelecer a distinção com segurança), então isso provém de algo realmente falado na vida de vigília - embora, por certo, esse algo seja tratado meramente como matéria-prima e possa ser cortado e ligeiramente alterado e, mais especialmente, desligado de seu contexto."

Este é um trecho de A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, e faz parte do tópico Material Recente e Irrelevante nos Sonhos, que compõe o capítulo O Material e as Fontes dos Sonhos.

Esta é uma forma de ler textos, situando-os numa totalidade sempre maior, contextualizando-o, isto é, tomando outros textos e lhes pondo ao lado, estabelecendo hierarquias, diálogos, oposições.

Mas se eu tomasse apenas o trecho seguinte...

"seja tratado meramente como matéria-prima e possa ser cortado e ligeiramente alterado e, mais especialmente, desligado de seu contexto."

... e não dissesse ao leitor a procedência do texto?

Não conhecendo o livro citado, ou mesmo conhecendo-o mas não se lembrando deste fragmento de frase específico, dificilmente o leitor poderia atribuí-lo com sucesso a um livro sobre a interpretação de sonhos. E, atribuindo-o a qualquer coisa que fosse, faria-o com ares de importância, não percebendo tratar-se de uma mera observação, de uma sentença adversativa colocada entre travessões. Liberta do contexto que a aprisionava, a frase ganha vulto, torna-se interessante. Os verbos 'seja' e 'possa', que trazem a idéia de possibilidade no trecho original, tornam-se imperativos no trecho fragmentado, ganham força, energia. Uma sentença longa, dispersa no meio do texto, se transforma em um aforismo, em uma máxima, torna-se onipotente. Esta é outra forma de ler textos.

Mas nem todo leitor gosta de prosa científica, seja sobre sonhos ou sobre travesseiros e colchões. Há quem goste de poesia. É justo. Tomemos outro texto, também um texto qualquer - se é que o leitor acredita nisto...

"De tudo, ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento. / Quero vivê-lo em cada vão momento /
E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento. /
E assim, quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama /
Eu possa dizer do meu amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure."

Este é o Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes, que não era tão fiel assim, como bem se sabe. E há quem leia seu poema também de modo infiel, como eu, assim:

"Dito dual, meu amor. / Sereia, tento antes. / E conta o Zé Elói sem preta: / Antro que mês mói, faz-se, doma Iore, em canto. / Disse-lhe em Kant: / mais meu pensamento, / que Rô vive, Elói. / Cá, davam mó, minto, icem, lôo, voei. / Dez pás, lar, meu canto. / E rímel, rissole, derme, arméu, prândio. / Ao seu pé, zás, ouse eu com tentamento..."

Se não continuo, não é com pena da paciência do leitor, mas porque leitura assim tão tresloucada é exaustiva e me cansa os neurônios, os dedos e as alternâncias de tela entre o Word e o Aurélio. Além do mais, é uma brincadeira que brinco comigo mesmo, e sempre acabo quando quero, e não vou posar de educado só porque o leitor está à frente.

E, tendo sempre que dizer alguma coisa a mais, como conclusão, remate ou acabamento, digo, como Buda, que há mais de seis bilhões de maneiras de ler um texto. E que regras, para pessoas saudáveis, só são naturais a cada vinte e oito dias. Para os homens, nem tanto. Engravidassem as mulheres e também não precisariam.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto