Da potência à autoridade à potência
Andréa Havt Bindá

A vingança é prato que se come frio. Duro é que nem sempre o vingado sabe que sua vítima está indo à forra. Ontem estava lendo “Visão e Conhecimento: disfunção de segunda ordem” de Heinz von Foerster e uma passagem do texto me fez lembrar meu primeiro ano de graduação na Universidade de Brasília, quando cursei a disciplina de Introdução à Filosofia. O professor, não lembro seu nome, pediu uma interpretação para a “alegoria da caverna” de Platão. Pensei que ele fosse comentar as leituras dos alunos, mas apenas devolveu os textos e apontou uma colega como a única a ter dado a interpretação correta. Saí da aula aliviada pensando: ainda bem que eu faço antropologia e não filosofia.

O que me fez lembrar o fato é que, no seu comentário sobre “os perigos da realidade”, Heinz von Foerster sugere a mesma interpretação que eu dei para a metáfora da caverna. Ela não tinha nada de absurdo ou absolutamente inovador e minha intenção aqui não é comparar leituras. Na época estava muito envolvida com a antropologia que, com sua crítica à tendência das culturas em discriminar ou marginalizar tudo que foge aos seus padrões, influenciou meu olhar sobre o texto. Mas, como von Foerster usa um provérbio conhecido que permite demonstrar as diferentes leituras, sem precisar repetir todo o diálogo que está n’A República, livro VII, de Platão, exemplifico a diferença: “Assim, pois, eu estou convencido de que o refrão ‘Em terra de cego o caolho é rei’ é uma metáfora totalmente equivocada. No país dos cegos, o caolho iria parar diretamente num hospital psiquiátrico, porque vê as coisas de modo diferente dos demais.”

A partir dessa lembrança, comecei a imaginar fases de desenvolvimento do pensamento. A primeira seria a do “ele não entende ainda”, famosa em frases como: “não adianta, ele não entende mesmo”, ou, “sai daqui, isso é conversa de adulto que criança não entende”. A segunda, quando começa uma aproximação maior com pessoas da mesma idade, correspondente ao período da alfabetização indo até a entrada na faculdade, seria a da tão criticada decoreba de fatos ou fórmulas. Um período longo onde se identificam variações de humor e envolvimento crescente com assuntos sexuais que, no entanto, não afetam a forma de pensar ou conhecer. Em seguida à fase da memorização, viria o desenvolvimento da visão crítica, que na verdade já começa na preparação para o vestibular quando se estimula a leitura de revistas e jornais. É quando se tem de esquecer tudo que aprendeu como dado e se deve interpretar os textos sugeridos. Essa na verdade é a fase em que se tem, a partir de idéias próprias, de adivinhar a interpretação certa. Finalmente, depois do doutorado, vem a fase da autoridade, em que você pode pedir dos outros tudo que solicitaram de você. Também tive uma professora que dizia que só se pode propor coisas diferentes depois do doutorado.

Poder-se-ia argumentar contra meu modelo dizendo que a educação formal não é o único ambiente de elaboração do pensamento, mas é importante lembrar que sou do tempo em que tudo que nos cabia era estudar e fazer uma faculdade para garantir um bom emprego.

Hoje em dia os termos são outros. O homem não é mais o resultado de um projeto comum bem sucedido. Von Foerster fala do homem como devir, da realidade não como certeza, mas como algo sempre em construção. Posso confessar que fui cega num país de cegos, apesar de ter conhecido situações e pessoas diferentes nesse percurso. Posso lembrar que todo modelo reduz as experiências sempre mais ricas e transformadoras. Tanto que hoje se seguem as etapas de desenvolvimento de Piaget, que já era conhecido na época, autorizando nossas construções diversas de realidade. Mas entre os termos e a ação costuma haver alguma distância e isso me faz pensar se não continuamos cegando nossos caolhos.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto