ignorâncias supérfluas à educação de agora
por Eduardo Loureiro Jr.
eduardo@patio.com.br

O presente texto é uma paródia (imitação cômica de uma composição literária, segundo o Aurélio) do livro "Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro", de Edgar Morin, tradução de Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaya, que é composto dos seguintes capítulos: 1) As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; 2) Os princípios do conhecimento pertinente; 3) Ensinar a condição humana; 4) Ensinar a identidade terrena; 5) Enfrentar as incertezas; 6) Ensinar a compreensão; 7) A ética do gênero humano.

Aviso de antemão que toda paródia é uma má interpretação do texto original. De todo modo, os críticos sempre culpam os tradutores quando querem dizer que o autor original não queria dizer o que ele, obviamente e na língua original, disse. Se preferirem, então, assumo a ousadia de afirmar que a composição literária é minha, e que a paródia quem fez foi o Edgard Morin.

Vamos lá, porque quem gosta de preliminares são a Bete e a Vilma. Eu prefiro um rolo de macarrão na cabeça e um bife no olho roxo.

...

1. As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão X Qualquer coisa é verdade e ilusão

"Não seria necessário tomar consciência de nossas possessões para poder dialogar com nossas idéias, controlá-las tanto quanto nos controlam e aplicar-lhes testes de verdade e de erro?" (Morin, 2000: 29)

A resposta é não. Isso equivaleria a escravizar as idéias e levá-las, daqui a alguns séculos ou milênios, a redigir a sua própria Declaração Universal dos Direitos das Idéias, reivindicando liberdade (a igualdade e a fraternidade elas deixariam de lado, pois faz parte da natureza inteligente das idéias perceber a incompatibilidade entre esses três conceitos).

Assim como não há seres humanos falsos ou verdadeiros, tampouco há idéias verdadeiras ou falsas. Todas existem apenas. O que chamamos de aplicação de testes é na verdade o exercício de um juízo moral preconceituoso em relação a uma espécie (a das idéias) dotada de menos carne que a nossa.

Nada de separar o joio do trigo então. Tudo é verdade e ilusão.

["Se o mundo fosse meu, nada era o que é, porque tudo era o que não é, também tudo que não é, seria, e por sua vez o que não fosse seria", Lewis Carroll]

2. Os princípios do conhecimento pertinente X Ninguém é de ninguém: nada é de nada

"Todo conhecimento deve contextualizar seu objeto, para ser pertinente." (Morin, 2000: 47)

Suponho que Morin esteja usando pertinente no sentido de importante, relevante, válido...

Os contextos se envolvem e se negam. Dessa forma o objeto nunca chega a ser contextualizado devidamente e o conhecimento nunca há de ser pertinente, válido, relevante, importante.

Inspirando-se em Pascal ("considero ser impossível conhecer as partes sem conhecer o todo"), Morin não percebeu que o ar inspirado estava ironicamente poluído: o que pode ser entendido como uma defesa da visão global, holística, também pode significar impossibilidade total de conhecer ou, pelo menos, de validar o conhecimento.

["... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau do Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade", do Ritual de Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal]

3. Ensinar a condição humana X O quebra-cabeças humano

"O humano continua esquartejado, partido como pedaços de um quebra-cabeça ao qual falta uma peça." (Morin, 2000: 47-48)

O baralhamento - esquartejamento é palavrão, e palavrão não pode, Morin! – é próprio da condição humana. Somos realmente um daqueles quebra-cabeças sem uma peça. É justamente essa ausência que nos permite movimentar as outras peças na tentativa de montar a imagem original que julgamos estar embaralhada.

O detalhe, muito irônico, aliás, é que os quebra-cabeças que somos estão misturados. O meu com o do Morin, por exemplo. Quando eu mexo uma peça atrapalho a jogada dele. Agora imagina isso multiplicado por seis bilhões de seres humanos, sem contar outros tantos bilhões de pequenos insetos e grandes elefantes.

Morin tenta contextualizar a condição humana na condição universal. Mas, como vimos, toda contextualização é tão verdadeira quanto ilusória. Dizer que nosso planeta agrupou-se a cinco bilhões de anos, por exemplo, é uma ficção que eu admiro por sua ousadia e megalomania, mas aplicar uma categoria tão humana como o tempo a uma coisa de tão outra espécie seria o mesmo que uma formiga-cientista dizer que o suco adocicado é um buraco laranja (o suco é de cajá) que suga todo ser (que vem a ser toda formiga) com uma força gravitacional irresistível. O mesmo vale para o espaço, ou seja, não vai além da nossa cerca, e já estou usando uma metáfora espacial, ou seja novamente, incorrendo em erro diante de uma possível verdade imaculada.

A condição humana se resume a não ter condição de contextualizar outras condições por não poder estabelecer nenhuma diferença entre verdade e ilusão, uma diferença que a própria condição humana estabeleceu. Tente resolver um mísero quebra-cabeças de vinte e cinco espaços com vinte e quatro peças e confira por si mesmo.

["Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...", Cecília Meireles]

4. Ensinar a identidade terrena X A Terra não está de bobeira

"Estamos comprometidos, na escala da humanidade planetária, na obra essencial da vida, que é resistir à morte. Civilizar e solidarizar a Terra, transformar a espécie humana em verdadeira humanidade torna-se o objetivo fundamental e global de toda educação que aspira não apenas ao progresso, mas à sobrevida da humanidade." (Morin, 2000: 78)

Que é isso, Morin? Assim você me mata de desgosto.

Primeiro, grande parte das tradições espirituais desta Terra acredita, pelo menos diz acreditar, eu pelo menos fui convencido disso, que a verdadeira vida não é esta mas a que vem depois. Mesmo que não seja...

Segundo, como somos um objeto dentro do contexto que é a Terra, o que deve estar em jogo não é a sobrevida da humanidade mas a sobrevida da Terra. Se tivermos que ser exterminados por uma catástrofe natural (uma prova de que a Terra também tem força de vontade), que sejamos, pelo bem desse contexto que tanto exploramos. A Terra não é o somatório de seres humanos que precisam de algumas espécies animais, vegetais e minerais para sobreviver. A Terra está viva, vivíssima.

["Ih, vai ter barulho e vai ter confusão porque o mundo não se acabou", Assis Valente]

5. Enfrentar as incertezas X Amar a incerteza

"A renúncia ao melhor dos mundos não é, de maneira alguma, a renúncia a um mundo melhor." (Morin, 2000: 92)

Muito me espanta esse blá blá blá pela paz e a insistência em certas palavras como lutar e enfrentar e batalhar e pugnar e por aí vai metendo a bolacha na cara de quem aparece, até de uma dama bonita, delicada e solícita como é a incerteza.

Se para o próprio Morin, "grande conquista da inteligência seria poder enfim se libertar da ilusão de prever o destino humano", vá entender o desejo dele de um mundo melhor que, até onde me permite a inteligência resistente à conquista, sempre se encontra no futuro.

E se não houver qualquer futuro? Se houver apenas o presente, dominado pela incerteza da bailarina no momento do passo?

Grande humildade da inteligência seria, Morin, poder se libertar da ilusão de negar o agora humano. Levar a vida como um saco plástico ao vento, como um clichê, ao invés de tentar sempre uma frase (teleguiada) de efeito (retardado e letal). Amar a incerteza como é incerto sair inteiro de dentro das pernas da namorada.

["Atirou no que viu, acertou o que não viu", adágio popular]

6. Ensinar a compreensão X Viver a consoltação

"A tolerância vale, com certeza, para as idéias, não para os insultos, agressões ou atos homicidas." (Morin, 2000: 102)

Isso é o que chamo de tolerância intolerante. Jesus Cristo, com aquela sua história de dar a outra face, não seria tolerante então? Não passaria de um ingênuo? E Gandhi, o que seria? Um magrelo frouxo? Francamente, Morin! Vou lhe dar uma segunda chance...

"O caminho da Compreensão entre as culturas, povos e nações passa pela generalização das sociedades democráticas abertas." (Morin, 2000: 104)

A emenda saiu pior do que o soneto. Desde quando a compreensão tem forma de governo?

Como Morin mesmo falou, a compreensão "inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projeção", ou seja, está fadada ao fracasso pelo não reconhecimento da diferença. Quanto maior a diferença, mais difícil a compreensão, ou seja, a apreensão de um pelo outro, o aprisionamento mútuo.

Seja qual for a pretensão de Morin, sua boa intenção só pode ser alcançada pela consoltação (acrescenta aí, Aurélio), e não pela compreensão. Temos que garantir ao outro não só o direito às suas idéias, mas também a seus insultos, agressões e atos homicidas. Aliás, não tem que nada, que coisa nenhuma, podemos também partir para cima do outro com pensamentos, atos e omissões. Nem que seja na marra a gente arranja um jeito de dançar separado. Não agüento mais é ficar nesse chove não molha demagógico e diplomático.

["Eu não posso impedir. Não estamos numa democracia. Ele faz o que quer", Alexandre Soares Silva]

7. Antropo-ética X Antro-poética

"A antropo-ética deve ser considerada como a ética da cadeia de três termos indivíduo/sociedade/espécie, de onde emerge nossa consciência e nosso espírito propriamente humano." (Morin, 2000: 106)

O maior defeito de todas as éticas é justamente esse das palavras vazias. A ética, que deveria orientar o comportamento, se transforma em palavras que todo mundo repete mas que ninguém faz questão de colocar em prática.

Antropo-ética, a ética do humano, é apenas mais uma dessas redundâncias vazias. Afinal, existe ética que não seja humana. Se fosse mesmo necessário inventar alguma expressão nova, que se inventasse a antro-poética, que não sei bem o que seria, mas que haveria de ser bem mais palpável e divertida.

A ética deveria servir como referencial e não como prescrição ou, pior, abstração. Por exemplo, ao invés da antiga máxima "não matarás" ou da conclamação contemporânea à melhoria das condições de vida de toda a população, seria bem mais simples dizer, numa antro-poética, que a renda per capita mundial é de 375 dólares por mês. Quem realmente não quiser matar ninguém de fome ou desejar sinceramente melhorar as condições de alimentação e saúde da humanidade vai ter algo em que pensar. Ou não, simplesmente pode continuar sua vida acumulativa sem peso na consciência porque não haverá nenhum mecanismo (taxação sobre a renda, por exemplo) que lhe iniba a ganância.

Na antro-poética somos todos livres para juntar dinheiro, adquirir poder e exercer a violência sem sermos molestados por um organismo regulador. A antro-poética apenas divulga a situação presente, o que cada ser humano pretende fazer é de pleno arbítrio seu. Num mundo em que se praticasse a antro-poética não torceríamos o nariz para nazistas nem mega-investidores, tampouco nos comoveríamos com Madre Tereza de Calcutá. Neste mundo, todas as cartas (humanas, é claro) estariam na mesa. O jogo seria de mexe-mexe, uma variante do quebra-cabeças sem uma peça. Não haveria blefe. Assumiríamos os nossos atos no ato. Pagaríamos e receberíamos à vista.

["Eu aprendi, a vida é um jogo, cada um por si e Deus contra todos", Titãs]

...

Pra finalizar, pois já doem as costas, minhas e do Morin, depois deste açoite, explico o título, a paródia do título.

Retirei o "sete" porque, se há número bom para os saberes, com certeza não os há para as ignorâncias. E ainda mais um número tão metido à perfeição como esse sete. Por questão de coerência, eu, como ignorante, ignoro o número de minhas ignorâncias.

Troquei "saberes" por "ignorâncias" simplesmente porque constava do texto original escrito pelo Morin. Ele me confessou que retirou depois, quando o livro já estava no prelo. Disse ele que não teve coragem. Como vocês podem ver, coragem é o que não me falta. Ademais, ele queria enfrentar as incertezas, e uns saberezinhos são sempre úteis. Da minha parte, para amar as incertezas, preferi me despir de tudo que não fosse ignorância.

A troca de "necessários" por "supérfluos" me parece óbvia, para não dizer supérflua, o que seria novamente óbvio e supérfluo. Mas talvez algum leitor considere necessário. Então, em nome da antro-poética, remã remã, vá até o Edgar Morin, dê um beijo nele e volte, senão ganha dois bolos.

Mantive "educação" só porque, em toda paródia, tem que haver algo que faça referência ao original e que possibilite ao leitor reconhecê-lo. Não estivesse eu comprometido com a paródia, teria escrito "vida" ao invés de "educação".

A substituição de "futuro" por "agora" é porque quem guarda com fome o gato vem e come. Eu já comi o meu. Tá na hora de tirar um cochilo...

 

Dezembro de 2000
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