Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette

Imagens reais
Andréa Havt

Os sonhos tomam os rumos mais variados... alguns são dados por impossíveis, ganham o nome de utopia e, como mortos na imaginação de crianças, viram estrelas distantes no céu. Outros vão caindo feito folhas secas, se dispersam com o vento até não haver lembrança de que foram sonhados. Outros, ainda, mudam com o sonhador e seguem sendo recriados infinitamente, deixando aquela sensação de que falta sempre só mais uma coisinha para serem realizados. Tantas direções quanto são os sonhos... que se podem transformar em grandes alegrias, frustrações traumáticas, obsessões ou, sem todo esse exagero, em projeto de vida.

Numa mistura dessas coisas todas que fazem parte da vida da gente como contingências, acasos, contextos, história pessoal e fantasias, Marisa sonhava em ter um apartamento. Queria um canto seu que permitisse viver com maior liberdade e mais reserva a independência que já praticava financeira e intimamente. Levou uns 15 anos entre o acordar do desejo e a realização de todo o ritual de procurar imobiliária, assinar contrato, receber chaves e montar apartamento. Sentia um tipo de alegria medrosa, daquelas que espera o que vem depois do "e foram felizes para sempre", temendo não haver mais o que fazer depois de concluído um plano. Mas o trabalho de arrumar tudo não deixava muito tempo para questionamentos e tratou mesmo de aproveitar sua nova vida.

O mais promissor de todos era o dia da faxina, marca da mudança definitiva e da noite de sono inaugural. Contratou uma diarista para o serviço pesado de limpar janelas e lavar banheiros, enquanto cuidava da arrumação de armários e da decoração de um modo geral. Passava distraidamente levando coisas de um lado a outro quando notou uma luz estranha no quarto em que a faxineira estava. Tomou por ilusão de cansaço e, na pressa do primeiro descanso, não foi logo ver o que causara a impressão. Mas a sensação se repetia e ela se permitiu uma pausa para ver realmente o que acontecia. Deslizou pela parede até ficar sentada como se estivesse em transe. Levantou atordoada somente quando a diarista fechou a janela e voltou a arrumar o apartamento sem coragem de comentar a cena assistida na tela em que se transformara sua janela.

Esperou o retorno da faxineira três dias depois para abrir novamente a janela que a inquietava desde o primeiro delírio, que a entristecia por ter a melhor vista do apartamento. Perguntou sem dar indicações se a faxineira não via nada de anormal naquela janela. Com a resposta negativa, continuou sofrendo sozinha a possibilidade da loucura. Mas por ter se mostrado uma visão inofensiva, começou a se perguntar dos motivos de ver aquelas imagens de pessoas conhecidas em situações tão cotidianas. Pensou que pudesse ser vidente e experimentou ligar para as pessoas que via, descobrindo estar vendo o que lhes acontecia no exato momento em que passavam na tela de sua janela.

Desentendo todo o delírio, era tomada por vezes de uma irritação quase desespero porque se sentia cada vez mais atraída pelas visões inúteis que nada antecipavam, que não mostravam nada de extraordinário, que ocupavam todo o tempo em que deveria estar aproveitando a realização de seu sonho e que a impediam de apreciar o parque cheio de verde que só aquela janela permitia ver. Apoiava-se no fato de poder sair para fazer suas vpróprias coisas cotidianas para não se tomar definitivamente por louca, mas continuava não conseguindo dividir com ninguém o que lhe acontecia. Nos momentos de maior calma, esperava o dia em que pararia de ver aquelas imagens reais mas sem sentido, que deveriam passar como passa uma febre depois de muitos calafrios. Mas os sonhos tomam rumos inesperados... abriu um dia a janela, respirou fundo como se visse o parque e se jogou no mundo.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto