Impressionismos
Andréa Havt Bindá

“Odeio meu violino, ele é o único obstáculo entre minha música e eu.” Não tenho a lembrança de quando ouvi essa frase, por isso não tenho as referências dessa entrevista dada por um provável famoso violinista. Guardei apenas essa idéia que me veio à cabeça quando conversamos em sala sobre o padrão das teses e dissertações, criticando a separação entre referenciais teóricos e a análise e descrição dos dados. A sensação de não me reconhecer no que escrevo talvez venha desse poder limitador do instrumento. A escrita ainda é um obstáculo entre o que vivo e sinto e o que realizo no papel. Mas, ao contrário do que essa afirmação leva a crer, não me faz parar de escrever e sim buscar momentos em que esse reconhecimento se dê.

Talvez isso aconteça de um modo geral no trabalho científico que sofre com o agravante de ter de convencer ao menos uma banca avaliadora. Esse convencimento não necessariamente se dá pelos resultados que a pesquisa apresenta. Ele pode surgir em estratégias de escrita, muitas delas já criticadas mas não descartadas dos trabalhos. Existe o tipo coerente, que elimina da apresentação final tudo que não ficou explicado ou que pode causar conflito de análise. Tem o tipo hermético, que convence pela dificuldade, com uma certa demonstração de erudição densa e truncada que deixa o leitor se sentindo incapaz de qualquer questionamento. E tem o tipo sedutor ou cúmplice, com textos que conduzem o leitor como se estivesse percorrendo todos os passos do pesquisador.

Poderia desfiar um rosário de dificuldades: Como colocar no papel a revoada de coisas que nos atravessa sem criar hierarquias? Como manter presentes todas as falas e gestos e silêncios, tão importantes quanto qualquer teoria que fundamenta o trabalho ou quanto qualquer outro dado registrado? Como organizar tudo isso com clareza? Como escapar dos modelos que nos distanciam do que vivemos? Como escrever sobre uma experiência que será submetida a uma avaliação? Como? Como? Como? “É melhor pensar depois de pronto”. Ou, é melhor nem pensar.

Experiências, ou vivências, não cabem em modelos. Penso que se deveria despreocupar de vez dessas coisas porque não há forma ideal, porque nossa própria realidade individual vivida em segundos é muito maior do que se possa descrever; porque Frazer, um antropólogo famoso do começo do século, escreveu O Ramo de Ouro em vários volumes para falar de magia e religião e acabou com o simples título de evolucionista; porque tem livro que a gente sofre horrores pra ler e ele traz um resumo muito claro no final de cada capítulo. E tantos outros porquês enumeráveis. O que vale então? Acredito que vale o próprio movimento de trocar experiências ? flutuação de saberes diversos. Vejo a ciência com os olhos da mulher de Adolfo Bioy Casares em uma de suas Histórias de Amor: “Lembro que pensei: ‘Não aprendo’. Como em outras vezes, por orgulho intelectual, tinha caído no erro de imaginar a vida, o mundo, inteiramente transparentes à razão, e, como em outras vezes, uma mulher me indicava que sempre há para cada coisa um farol de neblina, uma margem inexplicável.” Talvez a ciência seja feminina, mas a sua escrita seja masculina e tente apagar as nuvens, sem nem mesmo tentar brincar de lhes dar formas.

Vejo a ciência como uma obra impressionista. Uma realidade lindamente enevoada sem contornos definidos, que se formam pelas cores no olhar do espectador. A gente sabe e reconhece que é algo real que está pintado, mas é um real captado por um artista em determinado momento. O conteúdo importa como inspiração, a pintura importa como possibilidades de olhares. O Monet me faz pensar que pinto quadros quando olho coisas. O seu olhar provoca o meu.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto