PEYRONIE, André - "Labirinto". Em BRUNEL, Pierre (org.) - Dicionário de Mitos Literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998. 2a Edição.

Não faz muito sentido fazer uma síntese de um verbete de dicionário, ainda mais um dicionário de literatura, com um número enorme de obras. A idéia aqui é destacar as oposições que ele sugere para pensarmos o conhecimento. Fiz um texto para a disciplina do André - Cinco Sentidos - usando esta síntese. Ele sugeriu outros pares: o absoluto e o relativo; o verdadeiro e o falso; o social e o individual.

- 5 grandes períodos para métafora do labirinto como tensão fundamental à condição humana: 1) Antiguidade - o uno e o múltiplo; 2) Idade Média - a horizontalidade e a verticalidade; 3) Renascença(sec XIV a XVI) - o exterior e o interior; 4) Época clássica (sec. XVII e XVIII) - a realidade e a aparência; 5) Época moderna: o finito e o infinito. 556/1

1)
- O uno e o múltiplo: prova imposta a Teseu de uma escolha entre diversos caminhos para chegar até ao Minotauro, e depois para sair do labirinto. Sob os passos do herói grego abre-se de repente uma multiplicidade de caminhos, a pluralidade vertiginosa dos possíveis. ... Na ida e na volta, o fio ainda mágico de Ariadne indica o único caminho a percorrer. Noutras palavras, o mito levanta o problema da escolha, ao mesmo tempo que fornece o instrumento para resolvê-lo; faz entrever a pluralidade, mas, imediatamente após, oferece os meios de reduzi-la à unidade. 556/2

- No desfile evocado por Virgílio, o labirinto é labirinto em movimento, "em ato". É possível que tivesse por função preparar a alma do morto para não errar no caminho quando descesse aos infernos. 558/1

- Platão já antecipa usos futuros. Ele se opõe ao percurso protegido do mito, ou do rito, e assinala, para o pensamento que se aventura, o risco do retorno ao ponto de partida, o lugar da perambulação. Ao realizar a passagem do muthos ao logos, o pensamento filosófico retém essa possibilidade de escolher livremente o caminho que o mito havia apenas entreaberto, e faz de tal possibilidade o próprio princípio da razão moderna. Pensar é entrar no labirinto e arriscar-se a perder-se nele. O labirinto é também uma metáfora da aporia, e por isso se encontra na fonte do pensamento ocidental. 558/1

2)
- ... diz-se labirinto porque dentro é um sofrimento. ... O labirinto aparece como uma espécie de imensa armadilha que se abre aos passos dos imprudentes e que, depois de engoli-los, os retém para sempre. Como se vê, a imagem é fortemente ligada à idéia de queda no pecado e no inferno. Mas é ligada também à salvação possível: aquele que for até ao fim do caminho difícil chegará à cidade de Deus. .... O labirinto é o mundo do mal; e a forma mais bem acabada desse mundo é o inferno. (ameaçador, mas externo e alheio).558/2

- Quando Petrus Berchorius (Pierre Bersuire) interpreta a mitologia de Ovídio num sentido cristão, ele retoma fortemente a idéia de que o Minotauro representa o diabo, que Deus o expulsou do céu e o encerrou no labirinto do inferno, ou melhor, no labirinto deste nosso mundo, ... Mas, felizmente, Teseu-Cristo nos livra dele. ... O labirinto torna-se então a via da salvação, pois ele é o fio e como tal funciona para quem tem de atravessá-lo. Basta seguir simbolicamente a "légua de Jerusalém" representada no chão da igreja, para chegar até o centro, até a cidade celeste. ... Mas os riscos de fracasso são grandes. Um dos motivos que levam sem dúvida alguma ao inferno é a heresia. ... para os clérigos ele (labirinto) vai facilmente figurar o propósito ímpio, o raciocínio falacioso e condenável.559/1

3)
- ... ele entra na esfera do homem. Por uma espécie de revolução muito significativa, há poetas a quem ocorre pensar que o labirinto talvez esteja tanto dentro de nós como nós dentro dele; ou, ainda, que somos nós que o projetamos para fora. De objetivo ele se faz subjetivo, ou vice-versa; entre espaço interno e espaço externo há correspondência, como entre microcosmo e macrocosmo. Posso escapar a esse de fora que é também o meu de dentro? Estou de qualquer modo envolvido, e a figura se mostra como um embuste sedutor, ou um destino adverso a que é bem difícil escapar. 560/1

- Armadilha criada pelo próprio homem, o labirinto acha-se aqui inteiramente liberado do relato grego. A metamorfose em animal, que revela o homem a si mesmo, dá à figura uma função simbólica fecunda.

- Labirinto do amor ou "curral de porcos de vênus" de Boccaccio, o narrador se apaixona e é salvo pelo marido da amante que lhe conta seus defeitos: enleado pelas miragens do amor, acha-se reduzido a um estado bestial. 560/2

- Petrarca: assinala a implicação do indivíduo na história. Não mais se trata de um herói exemplar, agora é Petrarca pessoalmente quem passa pela experiência do labirinto. Este já não se acha sob o controle de um monstro mítico, mas sim de uma mortal. ... entrada do homem no tempo histórico. Do sagrado estamos passando ao profano. 560/2

- Em outros três textos retoma a forma ortodoxa de um percurso único. O labirinto é um local maravilhoso que permite a descoberta de uma verdade, e sua função é, ainda, em boa parte alegórica. Mas nesses textos vemos que se articula também uma verdadeira imaginação do labirinto. 561/1e2

- Em Orlando furioso de Ariosto... os personagens passam a vida em perambulações, esse palácio é um labirinto dentro de um labirinto, um turbilhão onde o desejo se abisma em perseguição de sua sombra, uma vertigem que se desdobra. É um dos pontos altos da subjetividade renascentista. 562/1

- Na França, a única a impor-se é a imagem do labirinto como prisão de amor. 562/1

4)
- O labirinto já não é apenas o efeito de um sortilégio momentâneo, ele tende a converter-se no próprio mundo, encarado em sua permanência enganadora. Já não é tanto a tensão entre interior e exterior que ele põe em foco, mas sim a problemática vizinha (apreendida como fundamental) da realidade e das aparências. Os feiticeiros deixam o primeiro plano, e a experiência do logro e da verdade é feita, agora, de outros ângulos: na representação teatral, em torno do motivo do disfarce; no romance, por meio do discurso didático, e depois da experiência iniciática; na expressão poética, por tentativas de representação formal do secreto. 563/2

- Dom Quixote. Se Sancho se deixa tomar pela dúvida, entra num labirinto de interrogações desconcertantes. Basta cessarmos de crer, para que a realidade se torne muito problemática. O romance inteiro nos põe à beira dessa vacilação e dessa vertigem. Se nos retirarmos do círculo da crença, entramos na série infinita das perguntas. 563/2-564/1

- O teatro... se mostra capaz de fazer ver o caráter quimérico e transitório de nosso mundo. ... travessia das aparências que deveria nos conscientizar de que o mundo não passa de um teatro de sombras. 564/1e2

- O romance do século XVII reata às vezes, de maneira curiosa, com o gosto medieval pela alegoria religiosa e moral. "Labirinto do mundo e paraíso do coração", de Komensky... aqui, a imagem do labirnto é essencialmente negativa. Corresponde à superfície movediça e desencaminhadora dos acontecimentos e dos comportamentos, opondo-se ao lugar dos valores profundos, do sentido verdadeiro das coisas e do repouso em Deus, ao "paraíso do coração". 565/1

- Da edificação virtuosa à iniciação libertina, a diferença reside na natureza do ensino e não na forma simbólica do percurso. Imagem dos enganos do mundo que se deve aprender a desfazer, o labirinto pode tornar-se o caminho simbólico de muitos outros conhecimentos. ... Mas o avesso do mundo é igualmente eloqüente e não há motivos para recear o que ele possa dizer. Se quisermos compreender toda a história, é preciso evocar também os caminhos obscuros e as vozes do mundo inferior (sobre As aventuras de Simplex, de Grimmelshausen). 566/1

- É dentro dessa perspectiva religiosa e mesmo mítica que vamos encontrar tentativas das mais interessantes no sentido de integrar a figura do labirinto à própria escrita poética. Essas tentativas são de dois tipos, que poderíamos chamar de caligramática e criptogramática (labirintos espirituais). Várias formas: escritos nos corredores de um labirinto materializado ou labirinto na própria estrutura; textos em muitas línguas, poemas-labirintos que levam a diversos centros, ou seja, às quatro fontes possíveis da graça. Ao permitir uma apreensão global da figura tanto quanto uma apreensão progressiva do texto, o labirinto espiritual dá ensejo assim a uma dupla abordagem do mistério. Experiências criptográficas (eu acho que aqui era caligrama) com várias formas de leitura: várias combinações de letras, palavras ou frases, sentidos de leitura, formas diversas. Um texto pode com isso esconder outro - ou uma infinidade de outros. Nele o segredo do Verbo acha-se inscrito e nos escapa. 566/2 e 567/1

5)
- A tensão que o labirinto permite ser representada com prioridade, nos séculos XIX e XX, será daí por diante aquela que opõe o finito e o infinito. Mas poderíamos talvez distinguir três momentos ou três aspectos sucessivos dessa oposição. Os novos temas que surgem no princípio do século XIX desembocam, antes de mais nada, na experiência romântica dos limites. Descobre-se que o infinito pode ser também um assustador confinamento. Mais do que a questão de ultrapassar os limites, o que é levantado em seguida, em termos de finito e de infinito, é a questão do sentido do mundo. Simbolizado até o século XVIII pelo centro do labirinto e sempre alcançável em princípio, o sentido se torna , no final do século XIX e ainda mais no século XX, inteiramente problemático. 567/2

- O primeiro dos temas do labirintismo romântico é certamente o castelo. Arquitetura gótica como armadilha insidiosa: livre para entrada mas com portas indispensáveis barradas, outras, ocultas, se abrem, o tirano tem o domínio exclusivo do espaço desorientador que forma o castelo (Castelo de Otranto de Horace Walpole). O palácio é um labirinto soberbo cujos meandros escondem uma ordem sábia (Ísis de Villiers de l'Isle-Adam). Entretanto, talvez mais ainda que no castelo, é no subterrâneo, seu prolongamento, que o labirinto encontra melhores condições para realizar-se. ... O subterrâneo no romance gótico exprime tudo o que há de oculto, de recalcado sob o castelo, ou sob a abadia. Ele metaforiza o espírito caviloso e as sombrias maquinações do Maligno. Sua ligação com o tema do labirinto é mais íntima que aquela da gruta ou da caverna, pois o subterrâneo é uma construção artificial, às vezes artificiosa. Ele abre para si um caminho no impenetrável e explora o proibido. ... sob a superfície conhecida das coisas há ainda todo um mundo latente. ... Mas o labirinto subterrâneo assumirá ainda em nossos dias múltiplas formas, quer seja ele artificial (esgotos, catacumbas, túneis, galerias cavadas pelas toupeiras, galerias do metrô...), quer seja natural (grutas, cavernas, búzios, intestinos...). 567/2 a 568/2

- Até o século XIX, o sonho é antes de mais nada um artifício de apresentação retórica. A visão é o pretexto convencionado para toda espécie de quadros simbólicos e de discursos conjeturais, não é a evocação das impressões do sonho de alguém. Quando se começa a sonhar na literatura e a querer evocar o espaço onírico, não tarda que apareça a imagem, ou, pelo menos, a experiência do labirinto. Exemplos da literatura gótica ou fantástica: vaguear sem encontrar uma porta; vê-se sempre no mesmo lugar - andar sem sair do lugar, o retorno obsessivo ao mesmo -; torre-labirinto de Baudelaire, autêntica Babel carcomida por uma lepra secreta e a ponto de desmoronar, mas da qual ele não consegue sair; Em paraísos artificiais, uma mulher conta como, sob efeito do haxixe, ela se imagina encerrada por trás das grades de uma gaiola suntuosa que se abre por todos os lados para o espaço; ... a experiência da droga vai desembocar, aliás, regular e infalivelmente, naquela do labirinto. Numa e noutra estão inscritos o desejo e as dificuldades de um conhecimento de outro tipo. Mas ao simples sonho romântico levava já, muitas vezes, a percursos iniciáticos com componentes labirínticas. ... sonhos que retém do labirinto sobretudo a sensação do estranhamento mágico (transpor mares, atravessar florestas, penetrar numa montanha). 568/2 a 569/2

- O recurso à imagem do labirinto nas descrições de cidade é um chavão muito comum nos textos modernos. Pode-se mesmo chegar à conclusão de que, com a revolução industrial, a cidade passou a ser o local onde mais comumente ocorre a experiência do labirinto e que doravante ela assume o papel que durante muito tempo coube à floresta. 569/2

- Toda viagem pode comportar, de um momento para outro, uma passagem labiríntica: arquitetura que desorienta, cidade desconhecida, paisagem que confunde... E pode também, enquanto percurso, ser comparada ou associada, como um todo, a um labirinto. Como o romantismo, multiplicam-se os relatos de viagem dos quais certos momentos mais fortes são vividos como abordagens labirínticas do mistério do mundo. 570/1
- Na "invenção" da narrativa policial por E. A. Poe, em 1842, vemos o sinal de um deslocamento da imagem do labirinto, da aventura existencial dos limites, para aquela, mais intelectual, do conhecimento. (labirinto lógico, labirintos como metáforas espaciais de um enigma). Reconstituído ou reconhecido, o labirinto se anula, o enigma se dissipa. Ao produzir um contra-labirinto, o detetive apaga o primeiro; ele dá a identidade do culpado e chega ao conhecimento e ao domínio da situação. ... Na medida em que representa uma conquista do sentido sobre a obscuridade ou o absurdo do mundo, é simbólico da era da busca e do inquérito, na qual a literatura do século XX nos faz entrar. 570/2-571/1

- Mas o romance de pesquisa e a poesia nem sempre são tão otimistas... Por meio do labirinto, figura do conhecimento, há os que fazem a experiência sobretudo da investigação, enquanto outros passam por aquela da errância, ou pela experiência de ambas o mais das vezes inextricavelmente imbricadas. 571/1

- Romances do artista. ... esforço para chegar a inteligência do real, para atravessar sua opacidade. É somente depois de uma estudiosa ascese e de longa paciência que o narrador se torna, por fim, aquele que confere o sentido. Trata-se, sem dúvida, de uma busca, de uma busca se surte efeito, ao término da qual a indagação incansável dos signos e a escrita minuciosa permitem estabelecer a reversibilidade do tempo psicológico, permitem descobrir o ouro do tempo. ... parece estar mais ligada à espiral do que ao labirinto; espiral que se desenvolve segundo uma imperiosa necessidade interna até o ponto final, que, uma vez colocado, suspende o movimento do processo na forma tal como a escrita o fixou finalmente. (Joyce). 572/1,2

- Mas o acesso ao centro não é sempre eufórico, nem a busca sempre feliz. Petersburgo, de A. Biely (1913) realiza um intenso questionamento da validez e das implicações do centro. ... O personagem kafkiano - é sabido - empurra portas, atravessa corredores, vale-se de intermediários, mas jamais alcança seus objetivos. Por mais que recomece as mesmas iniciativas, é trazido de volta ao ponto de partida e não consegue ir além do umbral. O que existe além desse umbral é algo que ele só conhece por ouvir dizer, e o único contato que terá com tal realidade, ou com tal verdade, será muito indireto. ... a errância do personagem induz e dá a reconhecer o caráter não decisório do sentido. ... '(essa) saída, de qualquer modo, é incapaz de me salvar; é mais provável que signifique minha perdição; mas é sempre um esperança e não consigo viver sem ela'. De modo que o labirinto, menos que um espaço a explorar, seria o que cavamos ou construímos com a nossa 'fronte', como faz o animal. 572/2-573/1,2

- Antes mesmo dos textos de Biely e de Kafka se poderia dizer que os relatos fantásticos do século XIX eram estruturados como labirintos, em que um centro pouco digno de confiança, ou francamente alarmante, punha em questão a imagem e o sentido ordinários do mundo. ... Uma outra verdade do mundo pode ser entrevista no labirinto fantástico. 573/2-574/2

- Nos romances de análise psicológica mais tradicionais, ou menos investidos pelo irracional, a figura do labirinto aparece por vezes, e entre as duas guerras se podia notar um aumento em sua utilização. Ele serve então para expressar o transtorno e a perda muito mais do que a confiança e a certeza. ... Diversamente dos romances da busca mística, ou metafísica, aqueles da errância psicológica põem ênfase, não na procura de um centro mas, de preferência, naquela de uma saída. Ainda que a saída freqüentemente desempenhe o papel de um centro - que abole o labirinto - a substituição de um termo por outro está longe de não ser significativa. ... Esse gosto pela auto-análise, essa tentação do descaminho, marcam uma acentuação do individualismo e do egocentrismo, ao mesmo tempo que um apagar do princípio garantidor e organizador do mundo. 574/2-575/1

- Na poesia, em compensação, parecem manter-se, na mesma época, a idéia do centro e a imagem positiva do labirinto; mas trata-se de um centro muito diferente... À procura do ponto de coincidência e de anulação dos contrários através da rede das analogias, os surrealistas vêem no labirinto um figura propícia... O sentido escapa mas há sentido e a poesia deve tentar fazer com que apareça. 575/1,2

- Por volta da Segunda Guerra Mundial, constatamos um forte impulso dado ao tema do labirinto, que prepara o modelo estrutural dos anos 50-60. O tema pode apresentar-se, de início, como metáfora da aventura coletiva, a imagem ajudando a pensar na aventura do homem na história. ... No final, contudo, a influência de Hesse vem em socorro daquela de Kafka, e a idéia de uma sabedoria inspirada no Orientese impõe. Em toda a literatura existencialista, por sinal (e particularmente em Sartre), o tema de uma "saída" que deve ser encontrada diante do absurdo do mundo aparece com muita insistência. 575/2-576/1

- Mas a metáfora do labirinto só se desenvolve verdadeiramente quando a estranheza do mundo pode voltar a ser o caminho emblemático e secreto da aventura. 576/1

- (Durrell) O relato já não evoca apenas a imagem do labirinto, reproduz-lhe também a estrutura, aspira a transmitir a íntima experiência do mesmo. Entramos na era dos labirintos da escrita. ... À procura de sua origem, o texto - obstinadamente e lançando mão de todos os seus recursos - tenta aproximar-se do ponto cego que gera seu desenvolvimento: esforça-se por cercar o mais perto possível o centro secreto de que ele brota e que comanda todo o seu labirinto. Mas, na medida mesmo em que dá o movimento, esse centro não tem como ser atingido, a origem não tem como ser expressa sem que o movimento cesse. O esforço para chegar a essa expressão, ao mesmo tempo que é o único resultado que interessa alcançar, é um esforço vão... Fadada a dizer ad infinitum o que faz com que ela diga, a obra literária, segundo M. Blanchot, está condenada ao suplício do centro, ao labirinto do inatingível, ao sacrifício perpétuo para que uma fala exista. 576/1-577/1

- Outra direção que pode tomar a experiência da literatura como labirinto é a do próprio livro. É sabida a importância desse tema em relação à Sagrada Escritura e também na utilização que dele foi feita pela literatura fantástica (como receituário mágico detentor de um saber ambíguo). A esses prestígios conhecidos, a literatura moderna acrescentou seus fascínios próprios. (Borges). ... Não há evidentemente uma versão que seja a "certa". O jogo pendular entre o "aqui" e o "lá fora" nos expõe à tensão do interior e do exterior, do subjetivo e do objetivo (de certo modo, como nas histórias de encantamentos), mas, acima de tudo, ele ajuda a chamar a atenção para o espaço romanesco como um labirinto de possibilidades. (Calvino) O que o jogo de bifurcações aqui interroga e traz à luz é o prazer narrativo fundado na combinação do revelado e do oculto, do oferecido e do recusado... 577/1-578/1

- Há, de qualquer modo, um último desenvolvimento do tema do livro...: o da biblioteca. 579/1,2

- Figura simbólica que permite pensar o conjunto dos postulados contraditórios, o labirinto tem a ver com o pensamento místico. ... De um modo geral, desde os gregos o esforço do pensamento moderno é apresentado como um esforço para arrancar-se do e romper com o pensamento mítico. A ruptura é progressiva e vivemos dentro dela, ou dentro dessa tensão. Não é certo, diga-se de passagem, que nos encaminhemos para uma separaçào definitiva, ou que é imprescindível que tal ruptura se consuma. ... Se tivéssemos que determinar os momentos em que esse pensamento moderno assinala mais significativamente um distanciamento em relação ao pensamento mítico, diríamos que, no que respeita à imaginação literária do labirinto, ele realiza isso na Renascença e no século XIX. Na Renascença, porque o labirinto cessa de ser uma realidade exterior e hostil de que o homem só consegue se salvar por misericórdia mágica ou divina. ... Eles (poetas) entram no labirinto, pondo-se na pele dos monstros e dos heróis, e consideram essa figura simbólica como o espaço em que lhes é necessário encontrar pessoalmente seu caminho. No século XIX, porque desaparece a convicção de que exista necessariamente um caminho que leve àquela meta, e porque, no espaço dessacralizado, começa a errância moderna. Os cavaleiros da Idade Média deambulavam na floresta sob o olhar de Deus. Os modernos buscadores de sentido acham-se, a todo instante, ameaçados de estar vagando indiferentemente e sem qualquer significação. O desmoronamento da imagem de um centro é, sem sombra de dúvida, a razão do prodigioso desenvolvimento do tema do labirinto. 579/1-580/2

Anotações por Andréa Havt

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto