Links misteriosos...
Paulo Meireles Barguil

"A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás;
mas só pode ser vivida olhando-se para a frente"

Sören Aabye Kierkegaard

A cultura é, realmente, algo fascinante. Ao mesmo tempo em que ela materializa conquistas de toda ordem (artística, científica, filosófica, religiosa), ela abre perspectivas, horizontes sequer imaginados por aqueles que freqüentam a festa de lançamento da novidade que, já se sabe, terá uma vida bastante efêmera, se comparada com a das suas antepassadas...

O que me intriga e fascina no avanço da informática não é somente a sua crescente presença na vida hodierna, mas a utilização de vocábulos eminentemente técnicos no nosso cotidiano que permitem a ampliação da nossa compreensão do mundo, extrapolando os domínios que popularizaram-nos. Por exemplo, o vocábulo link, que deve ser traduzido como conexão.

Questão de ordem 1: informo aos revolucionários xiitas de plantão que não vou enunciar um discurso xenófobo, conclamando os habitantes do solo tupiniquim a abolir todas as expressões estrangeiras, que foram incorporadas ao nosso cotidiano e pugnar o ensino do tupi nas nossas escolas (o que, admito, não é uma má idéia...).

Questão de ordem 2: informo, ainda, aos amantes das refeições McDonald's, das produções culturais Disney e dos tênis Reebok, que não sou adepto da corrente que defende, além da dolarização da economia, a mudança do idioma nacional para o inglês (embora reconheça o seu imenso senso prático!).

Prestados os esclarecimentos, creio que posso prosseguir...

Compreender o universo, com seus inesgotáveis mistérios, desde muito tem sido um dos passatempos preferidos da Humanidade (embora, por um lado, poucas vezes ela tenha consciência disso e, por outro, tantas vezes tenha excluído a maioria dos seus membros dos momentos mais fascinantes).

A complexificação dos argumentos utilizados durante esta aventura é algo que se percebe sem maior dificuldade. A explicação mítica, religiosa, muitas vezes desprovida de um caráter racional e de dados concretos (quando eles não a contradizia...), foi perdendo ao longo dos séculos a sua importância até receber o golpe de misericórdia no século XVI, com a divulgação da Teoria Heliocêntrica, através de Copérnico e Galileu, em oposição à explicação anterior que pugnava ser a Terra o centro do universo.

Desde então, durante cerca de três séculos, reinou de forma cada vez mais absoluta um modelo de Ciência (positivismo) que procurava explicar os fenômenos através do famoso esquema causa => efeito(conseqüência). Este olhar explicativo aplicava-se tanto aos acontecimentos do mundo material (da natureza) como do mundo espiritual (da cultura).

Porém, no século XIX, alguns filósofos começaram a questionar a utilização das matizes positivistas no entendimento do mundo humano, o qual, para eles, se revelava muito mais complexo do que o mundo físico. Dentre aqueles, destacam-se: i) Dilthey, que propôs o método (círculo) hermenêutico, baseado na importância da experiência, expressão e compreensão, pois, para ele, a existência humana não pode ser reduzida à dimensão explicativa, pois também contém uma compreensiva; ii) Husserl, que formulou o método fenomenológico, que, reformulando e ampliando a idéia de dúvida de Descartes (o qual defendia a dúvida a priori), declarava ser necessário o retorno às próprias coisas, denunciando e rejeitando, ao mesmo tempo, o caráter preconceituoso do conhecimento, entendido como aquele saber que não se renova, não investiga as suas raízes, mas que permanece estanque.

Essa ruptura colocou mais lenha e querosene na velha questão filosófica sobre a origem do conhecimento: sujeito ou objeto? O embate entre racionalistas e idealistas sobre a primazia de um daqueles elementos sobre o outro foi enriquecido com a afirmação, por muitos estudiosos, de que não é possível se falar em um sem a presença do outro. Para além do antagonismo, está, pois, a relação, o diálogo, a interação.

Mas, qual é a relação dessas digressões filosóficas com o início do texto? Não estou bem certo, confesso. Porém, conforta-me constatar que elas estão de acordo com as descobertas do funcionamento do cérebro bem como com a lógica da internet, onde a multiplicidade de links possíveis de se estabelecer é espantosa. Ademais, conforme já nos alertara aqueles filósofos do século passado, eles até que poderiam ser explicados, mas dificilmente compreendidos...

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto