Links misteriosos... - II
Paulo Meireles Barguil

"A ciência fez de nós deuses antes mesmo de merecermos ser homens"
Jean Rostand

Para muitas pessoas, saber é poder. Há que se esclarecer, por oportuno, que várias são as modalidades de saber e outras tantas as de poder. Inicialmente, creio ser necessário investigar a gênese (da possibilidade) de conhecer, que se constitui a sua marca diferenciadora em relação aos outros animais, afinal somente nós somos racionais...

Porém, mais importante do que enunciar, detalhar e explicar uma série de acontecimentos (biológicos, sociológicos, psicológicos, lingüísticos, sexuais, ...) que marcaram a nossa (dita) evolução, é compreender que eles aconteceram dentro de um contexto mais amplo, sendo quase impossível afirmar qual deles aconteceu antes ou depois.

Para erradicar com sucesso as estruturas do tradicional (e repetitivo) modelo causa => efeito(conseqüência), fartamente utilizado na explicação tanto dos fenômenos naturais como nos sociais, julgo de fundamental importância o pensamento de Max Weber, que entendia que a complexidade da vida não nos recomendava a adoção de esquema tão restrito, mecânico.

A solução proposta por ele foi um modelo que buscasse identificar vários fatores que contribuíram para que algo ocorresse, numa investigação multifatorial, que congrega elementos de diversas matizes. Deve ser ressaltado, ainda, a sua firmeza em refrear qualquer tentativa de hierarquização entre aqueles, que implicaria na existência de juízo de valor.

É, pois, dentro dessa compreensão da existência de várias raízes, que contribuem de forma diferenciada para o crescimento da árvore, que julgo ser prudente investigar a dinâmica dos episódios cotidianos, sejam banais ou não, relevantes ou não, científicos ou não. Da mesma forma, reputo como válido o esforço de se pensar que vários serão os caules, as folhas e os frutos oriundos daquelas porções inferiores.

Diante dos segredos do cosmos, o Homem tem aceitado o desafio de sondá-los, compreendê-los, objetivando, por um lado, à diminuição do sentimento de estranheza que caracteriza a sua existência no mundo, e, por outro, ao aumento da sensação de proteção e amparo. A Ciência caracteriza-se como uma das maneiras que ele elaborou para alcançar de forma cada vez mais satisfatória aqueles intentos.

A fúria desbravadora (por vezes, devastadora) da onda científica que surgiu no século XVI, disposta a tragar tudo que na sua frente aparecesse, vem, aos poucos, relevando a sua fraqueza, que se revela na incapacidade de responder às questões ontológicas que caracterizam o viver humano. Diante de tantas mazelas que ainda atingem os nossos semelhantes, será que podemos falar em evolução, progresso e coisas afim? É como afirma Albert Einstein: "A palavra progresso não fará sentido enquanto houver crianças infelizes."

A Filosofia permite que o Homem questione a sua vida, o seu cotidiano, que o cientista indague sobre a validade e relevância da sua pesquisa, que o músico ou o poeta divague sobre os rumos da arte, que o religioso questione os seus dogmas e princípios de fé, dentre outras coisas. O desafio posto diante deles é sempre o mesmo: construir uma existência caracterizada pela plenitude, satisfação, alegria, júbilo. O fato de saber que esse ideal nunca será alcançado de forma definitiva não deve ser motivo de desânimo, mas um fator motivador para que continuem a sua jornada, a qual se vislumbra prenha de possibilidades, sendo o futuro semelhante a um campo de girassóis.

Se variadas são as maneiras de saber, conhecer, interpretar, valorar, também inúmeras são as razões que fazem com que o Homem as busque (ou não), as utilize (ou não), as reverencie (ou não). Da mesma forma, o poder para uns é motivo para humilhar quem está sob as suas ordens, para outros, todavia, deve ser colocado a disposição dos seus pares, com o fito de permitir uma maior integração entre as pessoas.

O desafio atual, notadamente daqueles que têm maior acesso às diversas formas de conhecimento, é forjar um equilíbrio entre elas, superando a indesejável cisão que as afasta e as priva de um sentido mais integral, em virtude de elas estarem isoladas em seus mundos. Eivadas de dialogar com o diferente, elas perdem a noção tanto da sua beleza, do seu encanto, como deixa de usufruir dos charmes que estão para além dos seus muros.

[Texto produzido por Paulo Meireles Barguil, em 06 de abril de 2000, para a disciplina Correntes Modernas da Filosofia da Ciência, ministrada pelo professor André Haguette]

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto