BERGSON, Henri (1859-1941). Matéria e Memória. 2a ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 291p.; 18,5 cm.
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Citações...
p. 13
"É o cérebro que faz parte do mundo material, e não
o mundo material que faz parte do cérebro."
p. 14
"Meu corpo é portanto, no conjunto do mundo material, uma imagem
que atua como as outras imagens, recebendo e devolvendo movimento, com a única
diferença, talvez, de que meu corpo parece escolher, em uma certa medida,
a maneira de devolver o que recebe."
p. 15 a 16
"Os objetos que cercam meu corpo refletem a ação possível
de meu corpo sobre eles."
p. 20
"a ficção de um objeto material isolado não implicará
uma espécie de absurdo, já que esse objeto toma emprestado suas
propriedades físicas das relações que ele mantém
com todos os outros, e deve cada uma de suas determinações - sua
própria existência, conseqüentemente - ao lugar que ocupa
no conjunto do universo?"
/
"Há um sistema de imagens que chamo minha percepção
do universo, e que se conturba de alto a baixo por leves variações
de uma certa imagem privilegiada, meu corpo. essa imagem ocupa o centro; sobre
ela regulam-se todas as outras; a cada um de seus movimentos tudo muda, como
se girássemos um caleidoscópio. Há, por outro lado, as
mesmas imagens, mas relacionadas cada uma a si mesma, umas certamente influindo
sobre as outras, mas de maneira que o efeito permanece sempre proporcional à
causa: é o que chamo de universo."
p. 21
"Toda imagem é interior a certas imagens e exterior a outras; mas
do conjunto das imagens não é possível dizer que ele nos
seja interior ou que nos seja exterior, já que a interioridade e a exterioridade
não são mais que relações entre imagens."
p. 26
"O cérebro não deve portanto ser outra coisa, em nossa opinião,
que não uma espécie de central telefônica: seu papel é
"efetuar a comunicação", ou fazê-la aguardar.
Ele não acrescenta nada àquilo que recebe; mas, como todos os
órgãos perceptivos lhe enviam seus últimos prolongamentos,
e todos os mecanismos motores da medula e do bulbo raquidiano têm aí
seus representantes titulares, ele constitui efetivamente um centro, onde a
excitação periférica põe-se em contato com este
ou aquele mecanismo motor, escolhido e não mais imposto."
p. 27
"tanto nos centro superiores do córtex quanto na medula, os elementos
nervosos não trabalham com vistas ao conhecimento: apenas esboçam
de repente uma pluralidade de ações possíveis, ou organizam
uma delas."
p. 27 a 28
"não caberia pensar que a percepção [...] seja inteiramente
orientada para a ação, e não para o conhecimento puro?
E, com isso, a riqueza crescente dessa percepção não deveria
simbolizar simplesmente a parte crescente de indeterminação deixada
à escolha do ser vivo em sua conduta em face das coisas?"
p. 31
"a memória sob estas duas formas, enquanto recobre com uma camada
de lembranças um fundo de percepção imediata, e também
enquanto ela contrai uma multiplicidade de momentos, constitui a principal contribuição
da consciência individual na percepção."
p. 33
"O que a distingue, enquanto imagem presente, enquanto realidade objetiva,
de uma imagem representada é a necessidade em que se encontra de agir
por cada um de seus pontos sobre todos os pontos das outras imagens, de transmitir
a totalidade daquilo que recebe, de opor a cada ação uma reação
igual e contrária, de não ser, enfim, mais do que um caminho por
onde passam em todos os sentidos as modificações que se propagam
na imensidão do universo. Eu a converteria em representação
se pudesse isolá-la."
p. 34
"Ora, se os seres vivos constituem no universo "centros de indeterminação",
e se o grau dessa indeterminação é mediado pelo número
e pela elevação de suas funções, concebemos que
sua simples presença possa equivaler à supressão de todas
as partes dos objetos nas quais suas funções não estão
interessadas. Eles se deixarão atravessar, de certo modo, por aquelas
dentre as ações exteriores que lhes são indiferentes; as
outras, isoladas, tornar-se-ão "percepções" por
seu próprio isolamento. Tudo se passará então, para nós,
como se refletíssemos nas superfícies a luz que emana delas, luz
que, propagando-se sempre, jamais teria sido revelada. As imagens que nos cercam
parecerão voltar-se em direção a nosso corpo, mas desta
vez iluminada a face que o interessa; elas destacarão de sua substância
o que tivermos retido de passagem, o que somos capazes de influenciar. Indiferentes
umas às outras em razão do mecanismo radical que as vincula, elas
apresentam reciprocamente, umas às outras, todas as suas faces ao mesmo
tempo, o que equivale a dizer que elas agem e reagem entre si por todas as suas
partes elementares, e que, conseqüentemente, nenhuma delas é percebida
nem percebe conscientemente. E se, ao contrário, elas deparam em alguma
parte com uma certa espontaneidade de reação, sua ação
é diminuída na mesma proporção, e essa diminuição
de sua ação é justamente a representação
que temos dela. Nossa representação das coisas nasceria portanto,
em última análise, do fato de que ela vêm refletir-se contra
nossa liberdade."
p. 35
"A percepção assemelha-se [...] aos fenômenos de reflexão
que vêm de uma refração impedida; é como um efeito
de miragem."
p. 35 a 36
"há para as imagens um simples diferença de grau, e não
de natureza, entre ser e ser conscientemente percebidas. A realidade da matéria
consiste na totalidade de seus elementos e de suas ações de todo
tipo. Nossa representação da matéria é a medida
de nossa ação possível sobre os corpos; ela resulta da
eliminação daquilo que não interessa nossas necessidades
e, de maneira mais geral, nossas funções. Num certo sentido, poderíamos
dizer que a percepção de um ponto material inconsciente qualquer,
em sua instantaneidade, é infinitamente mais vasta e mais completa que
a nossa, já que esse ponto recolhe e transmite as ações
de todos os pontos do mundo material, enquanto nossa consciência só
atinge algumas partes por alguns lados. A consciência - no caso da percepção
exterior - consiste precisamente nessa escolha. Mas, nessa pobreza necessária
de nossa percepção consciente, há algo de positivo e que
já anuncia o espírito: é, no sentido etimológico
da palavra, o discernimento."
p. 38 a 39
"O que você tem a explicar, portanto, não é como a
percepção nasce, mas como ela se limita, já que ela seria,
de direito, a imagem do todo, e ela se reduz, de fato, àquilo que interessa
a você."
p. 39
"o cérebro é uma imagem como as outras, envolvida na massa
das outras imagens, e seria absurdo que o continente saísse do conteúdo."
p. 40
"ciência e consciência coincidiriam no instantâneo".
p. 41
"ao nos exprimirmos assim, estaremos apenas nos curvando às exigências
do método científico; não descreveremos em absoluto o processo
real."
p. 44
"a percepção, em seu conjunto, tem sua verdadeira razão
de ser na tendência do corpo a se mover."
p. 46
"nossa representação começa sendo impessoal. Só
pouco a pouco, e à força de induções, ela adota
nosso corpo por centro e torna-se nossa representação. O mecanismo
dessa operação, aliás, é fácil de compreender.
À medida que meu corpo se desloca no espaço, todas as outras imagens
variam; a de meu corpo, ao contrário, permanece invariável. Devo
portanto fazer dela um centro, ao qual relacionarei todas as outras imagens."
p. 47
"As coisas se esclarecem se vamos assim da periferia da representação
ao centro, como faz a criança, como nos convidam a fazê-lo a experiência
imediata e o senso comum. Tudo se obscurece, ao contrário, e os problemas
se multiplicam, se pretendemos ir do centro à periferia, como fazem os
teóricos."
/
"nessa idéia de que projetamos fora de nós estados puramente
internos há tantos mal-entendidos, tantas respostas defeituosas a questões
mal colocadas"
p. 48
"nossos sentidos terão igualmente necessidade de educação
- não, certamente, para se conciliarem com as coisas, mas para se porem
de acordo entre si"
p. 49
"Perceber todas as influências de todos os pontos de todos os corpos
seria descer ao estado de objeto material. Perceber conscientemente significa
escolher, e a consciência consiste antes de tudo nesse discernimento prático."
/
"As percepções diversas do mesmo objeto que oferecem meus
diversos sentidos não reconstituirão portanto, ao se reunirem,
a imagem completa do objeto; permanecerão separadas umas das outras por
intervalos que medem, de certo modo, muitos vazios em minhas necessidades: é
para preencher tais intervalos que uma educação dos sentidos é
necessária. Essa educação tem por finalidade harmonizar
meus sentidos entre si, restabelecer entre seus dados uma continuidade que foi
rompida pela própria descontinuidade das necessidades do meus corpo,
enfim, reconstruir aproximadamente a totalidade do objeto material."
p. 50
"um conhecimento cada vez mais aproximado da matéria é possível.
Bem longe de suprimir nela algo de percebido, devemos ao contrário reaproximar
todas as qualidades sensíveis, redescobrir seu parentesco, restabelecer
entre elas a continuidade que nossas necessidades romperam."
p. 54
"não há percepção que não possa, por
um crescimento da ação de seu objeto sobre nosso corpo, tornar-se
afecção e, mais particularmente, dor."
/
"o que seria uma dor separada do sujeito que a sente?"
p. 56
"por que esse momento e não outro? E qual a razão especial
que faz com que um fenômeno, de que eu era de início apenas o espectador
indiferente, adquira de repente um interesse vital para mim?"
p. 56 a 57
"Quando um corpo estranho toca um dos prolongamentos da ameba, esse prolongamento
se retrai; cada parte da massa protoplasmática é portanto igualmente
capaz de receber a excitação e de reagir contra ela; percepção
e movimento confundem-se aqui numa propriedade única que é a contratibilidade.
Mas, à medida que o organismo se complica, o trabalho se divide, as funções
se diferenciam, e os elementos anatômicos assim constituídos alienam
sua independência. Num organismo como o nosso, as fibras ditas sensitivas
são exclusivamente encarregadas de transmitir excitações
a uma região central de onde o estímulo se propagará por
elementos motores. Parece portanto que elas renunciaram à ação
individual para contribuir, na qualidade de sentinelas avançadas, às
evoluções de corpo inteiro. Mas ainda assim permanecem expostas,
isoladamente, às mesmas causas de destruição que ameaçam
o organismo em seu conjunto; e, enquanto esse organismo tem a faculdade de se
mover para escapar ao perigo ou para reparar suas perdas, o elemento sensitivo
conserva a imobilidade relativa à qual a divisão do trabalho o
condena. Assim nasce a dor, que não é, para nós, senão
um esforço do elemento lesado para repor as coisas no lugar - uma espécie
de tendência motora sobre um nervo sensitivo. Toda dor consiste portanto
num esforço, e num esforço impotente. Toda dor é um esforço
local, e esse próprio isolamento do esforço é a causa de
sua impotência, porque o organismo, em razão da solidariedade de
suas partes, já não é apto senão para os efeitos
de conjunto. É também por ser local que a dor é absolutamente
desproporcional ao perigo que corre o ser vivo: o perigo pode ser mortal e a
dor pequena; a dor pode ser insuportável (como uma dor de dentes) e o
perigo insignificante."
p. 58
"A percepção [...] mede nossa ação possível
sobre as coisas e por isso, inversamente, a ação possível
das coisas sobre nós. Quanto maior a capacidade de agir do corpo [...],
mais vasto o campo que a percepção abrange."
p. 59
"a superfície, limite comum do exterior e do interior, é
a única porção da extensão que é ao mesmo
tempo percebida e sentida."
p. 62
"a educação subsiste uma vez recebida, e os dados da memória,
mais úteis na vida prática, deslocam os da consciência imediata"
p. 63 a 64
"Minha percepção, em estado puro e isolado de minha memória,
não vai de meu corpo aos outros corpos: ela está no conjunto dos
corpos em primeiro lugar, depois aos poucos se limita, e adota meu corpo por
centro. E é levada a isso justamente pela experiência da dupla
faculdade que esse corpo possui de efetuar ações e experimentar
afecções, em uma palavra, pela experiência da capacidade
sensório-motora de uma certa imagem, privilegiada entre as demais. De
um lado, com efeito, essa imagem ocupa sempre o centro da representação,
de maneira que as outras imagens se dispões em torno dela na própria
ordem em que poderiam sofrer sua ação; de outro lado, percebo
o interior dessa imagem, o íntimo, através de sensações
que chamo afetivas, em vez de conhecer apenas, como nas outras imagens, sua
película superficial. Há portanto, no conjunto das imagens, uma
imagem favorecida, percebida em sua profundidade e não apenas em sua
superficialidade, sede de afecção ao mesmo tempo que fonte de
ação: é essa imagem particular que adoto por centro de
meu universo e por base física de minha personalidade."
p. 67 a 68
"ela [a percepção] exprime e mede a capacidade de agir do
ser vivo, a indeterminação do movimenta ou da ação
que seguirá o estímulo recolhido. Essa indeterminação
[...] se traduzirá por uma reflexão sobre si mesmas, ou melhor,
por uma divisão das imagens que cercam nosso corpo; e, como a cadeia
de elementos nervosos que recebe, retém e transmite movimentos é
justamente a sede e dá a medida dessa indeterminação, nossa
percepção acompanhará todo o detalhe e parecerá
exprimir todas as variações desses mesmos elementos nervosos.
Nossa percepção, em estado puro, faria portanto verdadeiramente
parte das coisas. E a sensação propriamente dita, longe de brotar
espontaneamente das profundezas da consciência para se estender, debilitando-se,
no espaço, coincide com as modificações necessárias
que sofre, em meio às imagens que a influenciam, esta imagem particular
que cada um de nós chama seu corpo."
p. 68
"se esses corpos têm por objeto receber excitações
para elaborá-las em reações imprevistas, também
a escolha se inspira, sem dúvida nenhuma, em experiências passadas,
e a reação não se faz sem um apelo à lembrança
que situações análogas foram capazes de deixar atrás
delas. A indeterminação dos atos a cumprir exige portanto, para
não se confundir com o puro capricho, a conservação das
imagens percebidas. Poderíamos dizer que não temos poder sobre
o futuro sem uma perspectiva igual e correspondente sobre o passado, que o impulso
de nossa atividade para diante cria atrás de si um vazio onde as lembranças
se precipitam, e que a memória é assim a repercussão, na
esfera do conhecimento, da indeterminação de nossa vontade."
p. 69
"Justamente porque a lembrança de intuições anteriores
análogas é mais útil que a própria intuição,
estando ligada em nossa memória a toda a série dos acontecimentos
subseqüentes e podendo por isso esclarecer melhor nossa decisão,
ela desloca a intuição real, cujo papel então não
é mais [...] que o de chamar a lembrança, dar-lhe um corpo, torná-la
ativa e conseqüentemente atual."
/
"perceber acaba não sendo mais do que uma ocasião de lembrar."
p. 72
"O que constitui o mundo material [...] são objetos, ou, se preferirem,
imagens, cujas partes agem e reagem todas através de movimentos umas
sobre as outras. E o que constitui nossa percepção pura é,
no seio mesmo dessas imagens, nossa ação nascente que se desenha.
A atualidade de nossa percepção consiste portanto em sua atividade,
nos movimentos que a prolongam, e não em sua maior intensidade: o passado
não é senão idéia, o presente é ideo-motor.
Mas eis aí o que se insiste em não ver, porque se toma a percepção
por uma espécie de contemplação, porque se lhe atribui
sempre uma finalidade puramente especulativa, porque se quer que ela vise a
não se sabe qual conhecimento desinteressado: como se, isolando-a da
ação, cortando assim seus vínculos com o real, ela não
se tornasse ao mesmo tempo inexplicável e inútil! A partir daí,
toda diferença é abolida entre a percepção e a lembrança,
já que o passado é por essência o que não atua mais,
e que ao se desconhecer esse caráter do passado se é incapaz de
distingui-lo realmente do presente, ou seja, do atuante."
p. 73
"Nossa percepção pura, com efeito, por mais rápida
que a suponhamos, ocupa uma certa espessura de duração, de sorte
que nossas percepções sucessivas não são jamais
momentos reais das coisas, como as supusemos até aqui, mas momentos de
nossa consciência. O papel teórico da consciência na percepção
exterior, dizíamos nós, seria o de ligar entre si, pelo fio contínuo
da memória, visões instantâneas do real. Mas, na verdade,
não há jamais instantâneo para nós. Naquilo que chamamos
por esse nome existe já um trabalho de nossa memória, e conseqüentemente
de nossa consciência, que prolonga uns nos outros, de maneira a captá-los
numa intuição relativamente simples, momentos tão numerosos
quanto os de um tempo indefinidamente divisível."
p. 75
"as questões relativas ao sujeito e ao objeto, à sua distinção
e à sua união, devem ser colocadas mais em função
do tempo que do espaço."
p. 77
"A memória, praticamente inseparável da percepção,
intercala o passado no presente, condensa também, numa intuição
única, momentos múltiplos da duração, e assim, por
sua dupla operação, faz com que de fato percebamos a matéria
em nós, enquanto de direito a percebemos nela."
p. 83
"Tudo deve se passar portanto como se uma memória independente juntasse
imagens ao longo do tempo à medida que elas se produzem, e como se nosso
corpo, com aquilo que o cerca, não fosse mais que uma dessas imagens,
a última que obtemos a todo momento praticando um corte instantâneo
no devir em geral. Nesse corte, nosso corpo ocupa o centro."
p. 84
"O reconhecimento de um objeto presente se faz por movimentos quando procede
do objeto, por representações quando emana do sujeito."
p. 87
"A lembrança de uma determinada leitura é um representação,
e não mais que um representação; diz respeito a uma intuição
do espírito que posso, a meu bel-prazer, alongar ou abreviar; eu lhe
atribuo uma duração arbitrária: nada me impede de abarcá-la
de uma só vez, como num quadro. Ao contrário, a lembrança
da lição aprendida, mesmo quando me limito a repetir essa lição
interiormente, exige um tempo bem determinado, o mesmo que é necessário
para desenvolver um a um, ainda que em imaginação, todos os movimentos
de articulação requeridos: portanto não se trata mais de
uma representação, trata-se de uma ação."
p. 89
"Dessas duas memórias, das quais uma imagina e a outra repete, a
segunda pode substituir a primeira e freqüentemente até dar a ilusão
dela."
p. 90
"Para evocar o passado em forma de imagem, é preciso poder abstrair-se
da ação presente, é preciso saber dar valor ao inútil,
é preciso querer sonhar. Talvez apenas o homem seja capaz de um esforço
desse tipo. Também o passado que remontamos deste modo é escorregadio,
sempre a ponto de nos escapar, como se essa memória regressiva fosse
contrariada pela outra memória, mais natural, cujo movimento para diante
nos leva a agir e a viver."
p. 91
"Nossa existência decorre em meio a objetos em número restrito,
que tornam a passar com maior ou menor freqüência diante de nós:
cada um deles, ao mesmo tempo que é percebido, provoca de nossa parte
movimentos pelo menos nascentes através dos quais nos adaptamos a eles.
Esses movimentos, ao se repetirem, criam um mecanismo, adquirem a condição
de hábito, e determinam em nós atitudes que acompanham automaticamente
nossa percepção das coisas."
p. 92
"ao mesmo tempo que se desenvolve esse processo de percepção
e adaptação que resulta no registro do passado sob forma de hábitos
motores, a consciência, como veremos, retém a imagem de situações
pelas quais passou sucessivamente, e as alinha na ordem em que elas sucederam.
Para que servirão essas imagens-lembranças? Ao se conservarem
na memória, ao se reproduzirem na consciência, não irão
elas desnaturar o caráter prático da vida, misturando o sonho
á realidade? Seria assim, certamente, se nossa consciência atual,
consciência que reflete justamente a exata adaptação de
nosso sistema nervoso à situação presente, não descartasse
todas aquelas imagens passadas que não são capazes de se coordenar
à percepção atual e de formar com ela um conjunto útil.
No máximo algumas lembranças confusas, sem relação
com a situação presente, ultrapassam as imagens utilmente associadas,
desenhando ao redor delas uma franja menos iluminada que irá se perder
numa imensa zona obscura."
p. 93
"Certamente são imagens de sonho; certamente costumam aparecer e
desaparecer independentemente de nossa vontade".
/
"deveremos constatar uma exaltação da memória espontânea
na maioria dos casos em que o equilíbrio sensório-motorn do sistema
nervoso for perturbado, e, ao contrário, uma inibição,
no estado normal, de todas as lembranças espontâneas incapazes
de consolidar utilmente o equilíbrio presente".
p. 96
"Essa lembrança espontânea, que se oculta certamente atrás
da lembrança adquirida, é capaz de revelar-se por clarões
repentinos: mas ela se esconde, ao menor movimento da memória voluntária."
p. 97
"o passado parece efetivamente armazenar-se, conforme havíamos previsto,
sob essas duas formas extremas, de um lado os mecanismos motores que o utilizam,
de outro as imagens-lembranças pessoais que desenham todos os acontecimentos
dele com seu contorno, sua cor e seu lugar no tempo. Dessas duas memórias,
a primeira é verdadeiramente orientada no sentido da natureza; a segunda,
entregue a si mesma, iria antes em sentido contrário. A primeira, conquistada
pelo esforço, permanece sob a dependência de nossa vontade; a segunda,
completamente espontânea, é tanto volúvel em reproduzir
quanto fiel em conservar. O único serviço regular e certo que
a segunda pode prestar à primeira é mostrar-lhe as imagens daquilo
que precedeu ou seguiu situações análogas à situação
presente, a fim de esclarecer sua escolha."
p. 100
"o sentimento do déjà vu viria de uma justaposição
ou de uma fusão entre a percepção e a lembrança".
p. 101
"a percepção de uma semelhança é antes um efeito
da associação do que sua causa."
p. 106
"exercemos em geral nosso reconhecimento antes de pensá-lo. Nossa
vida diária desenrola-se em meio a objetos cuja mera presença
nos convida a desempenhar um papel: nisso consiste seu aspecto de familiaridade.
As tendências motoras já seriam suficientes, portanto, para nos
dar o sentimento do reconhecimento."
p. 107 a 108
"Constantemente inibida pela consciência prática e útil
do momento presente, isto é, pelo equilíbrio sensório-motor
de um sistema estendido entre a percepção e a ação,
essa memória aguarda simplesmente que uma fissura se manifeste entre
a impressão atual e o movimento concomitante para fazer passar aí
suas imagens. Em geral, para remontar o curso de nosso passado e descobrir a
imagem-lembrança conhecida, localizada, pessoal, que se relacionaria
ao presente, um esforço é necessário, pelo qual nos liberamos
da ação a que nossa percepção nos inclina: esta
nos lançaria para o futuro; é preciso que retrocedamos no passado.
Nesse sentido, o movimento tenderia a afastar a imagem. Todavia, por um certo
lado, ele contribui para prepará-la. Pois, se o conjunto de nossas imagens
passadas nos permanece presente, também é preciso que a representação
análoga à percepção atual seja escolhida entre todas
as representações possíveis. Os movimentos efetuados ou
simplesmente nascentes preparam essa seleção, ou pelo menos delimitam
o campo das imagens onde iremos colher. Devido à constituição
de nosso sistema nervoso, somos seres no quais impressões presentes se
prolongam em movimentos apropriados: se antigas imagens vêm do mesmo modo
prolongar-se nesses movimentos, elas aproveitam a ocasião para se insinuarem
na percepção atual e fazerem-se adotar por ela. Com isso aparecem
de fato à nossa consciência, quando deveriam de direito permanecer
cobertas pelo estado presente. Poderíamos portanto dizer que os movimentos
que provocam o reconhecimento automático impedem por um lado, e por outro
favorecem, o reconhecimento por imagens. Em princípio, o presente desloca
o passado. Mas, justamente porque a supressão das antigas imagens resulta
de sua inibição pela atitude presente, aquelas cuja forma poderia
se enquadrar nessa atitude encontrarão um obstáculo menor que
as outras; e, se, a partir de então, alguma delas for capaz de superar
o obstáculo, é a imagem semelhante à percepção
presente que irá superá-lo."
p. 114 a 115
"a atenção implica uma volta para trás do espírito
que renuncia a perseguir o resultado útil da percepção
presente: haverá inicialmente uma inibição de movimento,
uma ação de detenção. Mas nessa atitude geral virão
em seguida introduzir-se movimentos mais sutis, alguns dos quais foram observados
e descritos, e que têm por função tornar a passar sobre
os contornos do objeto percebido. Com esses movimentos começa o trabalho
positivo, e não mais simplesmente negativo, da atenção.
Ele é continuado pelas lembranças. / Se a percepção
exterior, com efeito, provoca de nossa parte movimentos que a desenham em linhas
gerais, nossa memória dirige à percepção recebida
as antigas imagens que se assemelham a ela e cujo esboço já foi
traçado por nossos movimentos. Ela cria assim pela segunda vez a percepção
presente, ou melhor, duplica essa percepção ao lhe devolver, seja
sua própria imagem, seja uma imagem-lembrança do mesmo tipo. Se
a imagem retida ou rememorada não chega a cobrir todos os detalhes da
imagem percebida, um apelo é lançado às regiões
mais profundas e afastadas da memória, até que outros detalhes
conhecidos venham a se projetar sobre aqueles que se ignoram. E a operação
pode prosseguir indefinidamente, a memória fortalecendo e enriquecendo
a percepção, a qual, por sua vez, atrai para si um número
crescente de lembranças complementares."
p. 117
"toda imagem-lembrança capaz de interpretar nossa percepção
atual insinua-se nela, a ponto de não podermos mais discernir o que é
percepção e o que é lembrança."
/
"a leitura corrente é um verdadeiro trabalho de adivinhação,
nosso espírito colhendo aqui e ali alguns traços característicos
e preenchendo todo o intervalo com lembranças-imagens que, projetadas
sobre o papel, substituem-se aos caracteres realmente impressos e nos dão
sua ilusão. Assim, criamos ou reconstruímos a todo instante. Nossa
percepção distinta é verdadeiramente comparável
a um círculo fechado, onde a imagem-percepção dirigida
ao espírito e a imagem-lembrança lançada no espaço
correriam uma atrás da outra."
p. 118 a 119
"a percepção refletida [é] um circuito, onde todos
os elementos, inclusive o próprio objeto percebido, mantêm-se em
estado de tensão mútua como num circuito elétrico, de sorte
que nenhum estímulo partindo do objeto é capaz de deter sua marcha
nas profundezas do espírito: deve sempre retornar ao próprio objeto.
p. 119
"Que não se veja aqui uma simples questão de palavras."
p. 120
"o progresso da atenção tem por efeito criar de novo, não
apenas o objeto percebido, mas os sistemas cada vez mais vastos aos quais ele
pode se associar".
/
"as lembranças pessoais, exatamente localizadas, e cuja série
desenharia o curso de nossa existência passada, constituem, reunidas,
o último e maior invólucro de nossa memória. Essencialmente
fugazes, elas só se materializam por acaso, seja porque uma determinação
acidentalmente precisa de nossa atividade corporal as atraia, seja porque a
indeterminação mesma dessa atitude deixe o campo livre ao capricho
de sua manifestação."
p. 121
"As imagens passadas, reproduzidas tais e quais com todos os seus detalhes,
e inclusive com sua coloração afetiva, são as imagens do
devaneio ou do sonho; o que chamamos agir é precisamente fazer com que
essa memória se contraia ou, antes, se aguce cada vez mais, até
apresentar apenas o fio de sua lâmina à experiência onde
irá penetrar."
p. 127
"O progresso que resultará da repetição e do exercício
consistirá simplesmente em desembaraçar o que estava inicialmente
enredado, em dar a cada um dos movimentos elementares essa autonomia que garante
a precisão, embora conservando-lhe a solidariedade com os outros, sem
a qual se tornaria inútil. É correto afirmar que o hábito
se adquire pela repetição do esforço; mas para que serviria
o esforço repetido, se ele reproduzisse sempre a mesma coisa? A repetição
tem por verdadeiro efeito decompor em primeiro lugar, recompor em seguida, e
deste modo falar à inteligência do corpo."
/
"Posso perceber uma melodia, acompanhar seu desenho, fixá-la inclusive
em minha memória, e não saber cantá-la."
p. 128
"Uma coisa, com efeito, é compreender um movimento difícil,
outra é poder executá-lo. Para compreendê-lo, basta perceber
o essencial, o suficiente para distingui-lo dos outros movimentos possíveis.
Mas para saber executá-lo é preciso também que o corpo
tenha compreendido. Ora, a lógica do corpo não admite os subentendidos.
Ela exige que todas as partes constitutivas do movimento pedido sejam mostradas
uma a uma, e depois recompostas juntamente. Uma análise completa torna-se
aqui necessária, sem negligenciar nenhum detalhe, acompanhada de uma
síntese atual em que não se abrevia nada. O esquema imaginativo,
composto de algumas sensações musculares nascentes, era apenas
um esboço. As sensações musculares real e completamente
experimentadas dão-lhe o colorido e a vida."
p. 133
"O reconhecimento atento, dizíamos, é um verdadeiro circuito,
em que o objeto exterior nos entrega partes cada vez mais profundas de si mesmo
à medida que nossa memória, simetricamente colocada, adquire uma
tensão mais alta para projetar nele suas lembranças."
p. 134
"Acompanhar um cálculo é refazê-lo por conta própria.
Compreender a fala de outrem consistiria do mesmo modo em reconstituir inteligentemente,
isto é, partindo das idéias, a continuidade dos sons que o ouvido
percebe. E, de uma maneira mais geral, prestar atenção, reconhecer
com inteligência, interpretar, constituiriam uma única e mesma
operação pela qual o espírito, tendo fixado seu nível,
tendo escolhido em si mesmo, com relação às percepções
brutas, o ponto simétrico de sua causa mais ou menos próxima,
deixaria escoar para essas percepções as lembranças que
as irão encobrir."
p. 137
"os nomes próprios desaparecem em primeiro lugar, depois os nomes
comuns, e finalmente os verbos."
p. 138
"do paciente que havia esquecido a letra F, e a letra F apenas, perguntamo-nos
se é possível fazer abstração de uma letra determinada
onde quer que ela se encontre, desligá-la portanto das palavras faladas
ou escritas às quais está fortemente aderida, se primeiramente
não houve um reconhecimento implícito dessa letra."
p. 139
"as lembranças, para se atualizarem, têm necessidade de um
coadjuvante motor, e elas exigem, para serem chamadas à memória,
uma espécie de atitude mental inserida, ela própria, numa atitude
corporal. Com isso os verbos, cuja essência é exprimir ações
imitáveis, são precisamente as palavras que um esforço
corporal nos permitirá alcançar quando a função
da linguagem estiver prestes a se perder: ao contrário, os nomes próprios,
sendo de todas as palavras as mais afastadas dessas ações impessoais
que nosso corpo é capaz de esboçar, são aquelas que um
debilitamento da função atingiria em primeiro lugar."
p. 139 a 140
"não podendo pensar a palavra exata, ele pensou a ação
correspondente, e essa atitude determinou a direção geral de um
movimento de onde a frase saiu. É deste modo que nos acontece, tendo
retido a inicial de um nome esquecido, de reencontrar o nome à força
de pronunciar a inicial."
p. 140
"a invencível tendência que nos leva a pensar, em qualquer
ocasião, antes em coisas do que em progressos."
p. 141
"Mas o pensamento científico, ao analisar esta série ininterrupta
de mudanças e cedendo a uma irresistível necessidade de figuração
simbólica, detém e solidifica em coisas acabadas as principais
fases dessa evolução."
p. 142
"Também não é impunemente que se terá fixado
em termos distintos e independentes a continuidade de um progresso indiviso.
Esse modo de representação será suficiente talvez enquanto
estritamente limitado aos fatos que serviram para inventá-lo: mas cada
fato novo obrigará a complicar a figura, a intercalar ao longo do movimento
estações novas, sem que jamais essas estações justapostas
cheguem a reconstituir o próprio movimento."
p. 143
"Assim a teoria complica-se cada vez mais, sem conseguir no entanto abarcar
a complexidade do real."
p. 144
"Raciocinam como se uma frase se compusesse de nomes que vão evocar
imagens de coisas."
p. 145
"refinada ou grosseira, uma língua subentende muito mais coisas
do que é capaz de exprimir. Essencialmente descontínua, já
que procede por palavras justapostas, a fala limita-se a assinalar, a intervalos
regulares, as principais etapas do movimento do pensamento. Por isso compreenderei
sua fala se eu partir de um pensamento análogo ao seu para acompanhar-lhe
as sinuosidades com o auxílio de imagens verbais destinadas, à
maneira de letreiros, a mostrar-me de tempos em tempos o caminho. Mas não
a compreenderei jamais se partir das próprias imagens verbais, porque
entre duas imagens verbais consecutivas há um intervalo que nenhuma representação
concreta conseguiria preencher. As imagens, com efeito, serão sempre
coisas, e o pensamento é um movimento."
p. 146
"as idéias, as lembranças puras, chamadas do fundo da memória,
desenvolvem-se em lembranças-imagens cada vez mais capazes de se inserirem
no esquema motor. À medida que essas lembranças adquirem a forma
de uma representação mais completa, mais concreta e mais consciente,
elas tendem a se confundir com a percepção que as atrai ou cujo
quadro elas adotam. Portanto, não há nem pode haver no cérebro
uma região onde as lembranças se fixem e se acumulem. A pretensa
destruição das lembranças pelas lesões cerebrais
não é mais que uma interrupção do progresso contínuo
através do qual a lembrança se atualiza."
p. 149
"não é possível restar algo de um imagem na substância
cerebral, e não poderia haver também um centro de apercepção,
mas há simplesmente, nessa substância, órgãos de
percepção virtual, influenciados pela intenção da
lembrança, assim como na periferia há órgãos de
percepção real, influenciados pela ação do objeto."
p. 150
"Esse órgão [dos sentidos] é precisamente construído
de modo a permitir que uma pluralidade de excitações simultâneas
o impressionem de uma certa maneira e numa certa ordem, distribuindo-se, todas
ao mesmo tempo, sobre partes escolhidas de sua superfície. Trata-se portanto
de um imenso teclado de piano, sobre o qual o objeto exterior executa de uma
só vez seu acorde de milhares de notas, provocando assim, numa ordem
determinada e num único momento, uma quantidade enorme de sensações
elementares que correspondem a todos os pontos interessados do centro sensorial."
p. 151
"os centros onde nascem as sensações elementares podem ser
acionados, de certo modo, por dois lados diferentes, pela frente e por trás.
Pela frente eles recebem as impressões dos órgãos dos sentidos
e, conseqüentemente, de um objeto real; por trás eles sofrem, de
intermediário em intermediário, a influência de um objeto
virtual. Os centros de imagens, se existem, só podem ser órgãos
simétricos aos órgãos dos sentidos em relação
a esses centros sensoriais. Eles não são depositários das
lembranças puras, ou seja, dos objetos virtuais, assim como os órgãos
dos sentidos não são depositários dos objetos reais."
p. 152
"Quaisquer que sejam o número e a natureza dos termos interpostos,
não vamos da percepção à idéia, mas da idéia
à percepção, e o processo característico do reconhecimento
não é centrípeto, mas centrífugo."
/
"A lembrança pura, à medida que se atualiza, tende a provocar
no corpo todas as sensações correspondentes. Mas essas sensações
na verdade virtuais, para se tornarem reais, devem tender a fazer com que o
corpo aja, com que nele se imprimam os movimentos e atitudes dos quais elas
são o antecedente habitual."
p. 153
"O progresso pelo qual a imagem virtual se realiza não é
senão a série de etapas pelas quais essa imagem chega a obter
do corpo procedimentos úteis. A excitação dos centros ditos
sensoriais é a última dessas etapas; é o prelúdio
de uma reação motora, o começo de uma ação
no espaço. Em outras palavras, a imagem virtual evolui em direção
à sensação virtual, e a sensação virtual
evolui em direção ao movimento real: esse movimento, ao se realizar,
realiza ao mesmo tempo a sensação da qual ele seria o prolongamento
natural e a imagem que quis se incorporar à sensação."
p. 158
"Mas a verdade é que jamais atingiremos o passado se não
nos colocarmos nele de saída. Essencialmente virtual, o passado não
pode ser apreendido por nós como passado a menos que sigamos e adotemos
o movimento pelo qual ele se manifesta em imagem presente, emergindo das trevas
para a luz do dia. Em vão se buscaria seu vestígio em algo de
atual e já realizado: seria o mesmo que buscar a obscuridade sob a luz."
p. 160
"Meu presente é aquilo que me interessa, o que vive para mim e,
para dizer tudo, o que me impele à ação, enquanto meu passado
é essencialmente impotente."
p. 161 a 162
"O que é, para mim, o momento presente? É próprio
do tempo decorrer; o tempo já decorrido é o passado, e chamamos
presente o instante em que ele decorre. Mas não se trata aqui de um instante
matemático. Certamente há um presente ideal, puramente concebido,
limite indivisível que separaria o passado do futuro. Mas o presente
real, concreto, vivido, aquele a que me refiro quando falo de minha percepção
presente, este ocupa necessariamente uma duração. Onde portanto
se situa essa duração? Estará aquém, estará
além do ponto matemático que determino idealmente quando penso
no instante presente? Evidentemente está aquém e além ao
mesmo tempo, e o que chamo "meu presente" estende-se ao mesmo tempo
sobre meu passado e sobre meu futuro. Sobre meu passado em primeiro lugar, pois
"o momento em que falo já está distante de mim"; sobre
meu futuro a seguir, pois é sobre o futuro que esse momento está
inclinado, é para o futuro que eu tendo, e se eu pudesse fixar esse indivisível
presente, esse elemento infinitesimal da curva do tempo, é a direção
do futuro que ele mostraria. É preciso portanto que o estado psicológico
que chamo "meu presente" seja ao mesmo tempo uma percepção
do passado imediato e uma determinação do futuro imediato. Ora,
o passado imediato, enquanto percebido, é, como veremos, sensação,
já que toda sensação traduz uma sucessão muito longa
de estímulos elementares; e o futuro imediato, enquanto determinando-se,
é ação ou movimento. Meu presente portanto é sensação
e movimento ao mesmo tempo; e, já que meu presente forma um todo indiviso,
esse movimento deve estar ligado a essa sensação, deve prolongá-la
em ação. Donde concluo que meu presente consiste num sistema combinado
de sensações e movimentos. Meu presente é, por essência,
sensório-motor. / Equivale a dizer que meu presente consiste na consciência
que tenho de meu corpo. Estendido no espaço, meu corpo experimenta sensações
e ao mesmo tempo executa movimentos."
p. 162
"De maneira mais geral, nessa continuidade de devir que é a própria
realidade, o momento presente é constituído pelo corte quase instantâneo
que nossa percepção pratica na massa em vias de escoamento, e
esse corte é precisamente o que chamamos de mundo material, aquilo que
sentimos diretamente decorrer; em seu estado atual consiste a atualidade do
nosso presente. Se a matéria, enquanto extensão no espaço,
deve ser definida, em nossa opinião, como um presente que não
cessa de recomeçar, nosso presente, inversamente, é a própria
materialidade de nossa existência, ou seja, um conjunto de sensações
e de movimentos, nada mais."
p. 169 a 170
"E, se a realidade, enquanto extensão, nos parece ultrapassar ao
infinito nossa percepção, em nossa vida interior, ao contrário,
só nos parece real o que começa com o momento presente; o resto
é praticamente abolido. Então, quando uma lembrança reaparece
à consciência, ela nos dá a impressão de uma alma
do outro mundo cuja aparição misteriosa precisaria ser explicada
por causas especiais. Na realidade, a aderência dessa lembrança
a nosso estado presente é inteiramente comparável à dos
objetos não percebidos em relação aos que percebemos, e
o inconsciente desempenha nos dois casos um papel do mesmo tipo."
p. 170
"adquirimos o hábito de acentuar as diferenças, e por outro
lado de apagar as semelhanças, entre a série dos objetos simultaneamente
escalonados no espaço e a dos estados sucessivamente desenvolvidos no
tempo. Na primeira, os termos condicionam-se de uma maneira totalmente determinada,
de modo que o aparecimento de cada novo termo possa ser previsto. Assim, ao
sair de meu quarto, sei quais são as peças que irei atravessar.
Minhas lembranças, ao contrário, apresentam-se numa ordem aparentemente
caprichosa. A ordem das representações é portanto necessária
numa caso, contingente no outro; e é essa necessidade que hipostasio,
de certo modo, quando falo da existência dos objetos fora de toda consciência.
Se não vejo nenhum inconveniente em supor dada a totalidade dos objetos
que não percebo, é porque a ordem rigorosamente determinada desses
objetos lhes dá o aspecto de uma cadeia, da qual minha percepção
presente não seria mais que um elo: este elo comunica então sua
atualidade ao restante da cadeia. - mas, se examinarmos de perto, veremos que
nossas lembranças formam uma cadeia do mesmo tipo, e que nosso caráter,
sempre presente em todas as nossas decisões, é exatamente a síntese
atual de todos os nossos estados passados. Sob essa forma condensada, nossa
vida psicológica anterior existe inclusive mais, para nós, do
que o mundo externo, do qual nunca percebemos mais do que uma parte muito pequena,
enquanto ao contrário utilizamos a totalidade do nossa experiência
vivida. É verdade que a possuímos apenas como um resumo, e que
nossas antigas percepções, consideradas como individualidades
distintas, nos dão a impressão, ou de terem desaparecido totalmente,
ou de só reaparecerem ao sabor de seu capricho. Mas essa aparência
de destruição completa ou de ressurreição caprichosa
deve-se simplesmente ao fato de a consciência atual aceitar a cada instante
o útil e rejeitar momentaneamente o supérfluo. Sempre voltada
para a ação, ela só é capaz de materializar, de
nossas antigas percepções, aquelas que se organizam com a percepção
presente para concorrer à decisão final. Se é preciso,
para que a vontade se manifeste sobre um ponto dado do espaço, que minha
consciência ultrapasse um a um esses obstáculos ou essas mediações
cujo conjunto constitui o que chamamos a distância no espaço, em
compensação lhe é útil, para esclarecer esta ação,
saltar sobre o intervalo de tempo que separa a situação atual
de uma situação anterior análoga; e, como a consciência
assim se transporta de um salto, toda a parte intermediária do passado
escapa à suas influências. As mesmas razões que fazem com
que nossas percepções se disponham em continuidade rigorosa no
espaço fazem portanto com que nossas lembranças se iluminem de
maneira descontínua no tempo. Não estamos lidando, no que concerne
aos objetos não percebidos no espaço e às lembranças
inconsciente no tempo, com duas formas radicalmente diferentes da existência;
mas as exigências da ação são inversas, num caso,
do que elas são no outro."
p. 172
"a existência, no sentido empírico da palavra, implica sempre
ao mesmo tempo, mas em graus diferentes, a apreensão consciente [apresentação
à consciência] e a conexão regular [conexão lógica
ou causal daquilo que é assim representado com o que precede e o que
segue]."
p. 173
"Donde a impossibilidade de deixar aos objetos existentes mas não
percebidos a menos participação na consciência, e aos estados
interiores não conscientes a menor participação na existência.
Já mostramos [...] as conseqüências da primeira ilusão:
ela acaba deturpando nossa representação da matéria. A
segunda, complementar da primeira, vicia nossa concepção do espírito,
ao espalhar sobre a idéia do inconsciente uma obscuridade artificial.
Nossa vida psicológica passada inteira condiciona nosso estado presente,
sem determiná-lo de uma maneira necessária; também inteira
ela se revela em nosso caráter, embora nenhum dos estados passados se
manifeste no caráter explicitamente."
p. 173 a 174
"Mas estamos tão habituados a inverter, para a maior vantagem da
prática, a ordem real das coisas, padecemos a tal ponto a obsessão
das imagens obtidas do espaço, que não podemos nos impedir de
perguntar onde se conserva a lembrança. Concebemos que fenômenos
físico-químicos tenham lugar no cérebro, que o cérebro
esteja no corpo, o corpo no ar que o circunda, etc.; mas o passado uma vez realizado,
se ele se conserva, onde se encontra?"
p. 175
"Tal sobrevivência em si do passado impõe-se assim de uma
forma ou outra, e a dificuldade que temos de concebê-la resulta simplesmente
de atribuirmos à série das lembranças, no tempo, essa necessidade
de conter e de ser contido que só é verdadeira para o conjunto
dos corpos instantaneamente percebidos no espaço. A ilusão fundamental
consiste em transportar à própria duração, em vias
de decorrer, a forma dos cortes instantâneos que nela praticamos."
/
"a questão é precisamente saber se o passado deixou de existir,
ou se ele simplesmente deixou de ser útil. Você define arbitrariamente
o presente como o que é, quando o presente é simplesmente o que
se faz."
p. 175 a 176
"Na fração de segundo que dura a mais breve percepção
possível de luz, trilhões de vibrações tiveram lugar,
sendo que a primeira está separada da última por um intervalo
enormemente dividido. A sua percepção, por mais instantânea,
consiste portanto numa incalculável quantidade de elementos rememorados,
e, para falar a verdade, toda percepção é já memória.
Nós só percebemos, praticamente, o passado, o presente puro sendo
o inapreensível avanço do passado a roer o futuro."
p. 176
"Nossa repugnância em admitir a sobrevivência integral do passado
deve-se portanto à própria orientação de nossa vida
psicológica, verdadeiro desenrolar de estados em que nos interessa olhar
o que se desenrola, e não o que está inteiramente desenrolado."
p. 177
"a memória verdadeira. Coextensiva à consciência, ela
retém e alinha uns após outros todos os nossos estados à
medida que eles se produzem, dando a cada fato seu lugar e conseqüentemente
marcando-lhe a data, movendo-se efetivamente no passado definitivo, e não,
como a primeira [a memória-hábito], num presente que recomeça
a todo instante."
/
"nosso corpo não é nada mais que a parte invariavelmente
renascente de nossa representação, a parte sempre presente, ou
melhor, aquela que acaba a todo momento de passar. Sendo ele próprio
imagem, esse corpo não pode armazenar as imagens, já que faz parte
das imagens; por isso é quimérica a tentativa de querer localizar
as percepções passadas, ou mesmo presentes, no cérebro:
elas não estão nele; é ele que está nelas."
p. 177 a 178
"Se eu representar por um cone SAB a totalidade das lembranças acumuladas
em minha memória, a base AB, assentada no passado, permanece imóvel,
enquanto o vértice S, que figura a todo momento meu presente, avança
sem cessar, e sem cessar também toca o plano móvel P de minha
representação atual do universo. Em S concentra-se a imagem do
corpo; e, fazendo parte do plano P, essa imagem limita-se a receber e a devolver
as ações emanadas de todas as imagens de que se compõe
o plano."
p. 179
"Para que uma lembrança reapareça à consciência,
é preciso com efeito que ela desça das alturas da memória
pura até o ponto preciso onde se realiza a ação. Em outras
palavras, é do presente que parte o apelo ao qual a lembrança
responde, e é dos elementos sensório-motores da ação
presente que a lembrança retira o calor que lhe confere vida."
/
"Viver no presente puro, responder a uma excitação através
de uma reação imediata que a prolonga, é próprio
de um animal inferior: o homem que procede assim é um impulsivo. Mas
não está melhor adaptado à ação aquele que
vive no passado por mero prazer, e no qual as lembranças emergem à
luz da consciência sem proveito para a situação atual: este
não é mais um impulsivo, mas um sonhador. Entre esses dois extremos
situa-se a favorável disposição de uma memória bastante
dócil para seguir com precisão os contornos da situação
presente, mas bastante enérgica para resistir a qualquer outro apelo.
O bom senso, ou senso prático, não é na verdade outra coisa."
p. 180
"O desenvolvimento extraordinário da memória espontânea
na maior parte das crianças deve-se principalmente a que elas ainda não
solidarizaram sua memória com sua conduta. Seguem habitualmente a impressão
do momento, e, como a ação não se submete nelas à
indicações da lembrança, inversamente suas lembranças
não se limitam às necessidades da ação. Elas só
parecem reter com mais facilidade porque se lembram com menos discernimento.
A diminuição aparente da memória, à medida que a
inteligência se desenvolve, deve-se portanto à organização
crescente das lembranças com os atos. A memória consciente perde
assim em extensão o que ganha em força de penetração."
/
"Mas se nosso passado permanece quase inteiramente oculto para nós
porque é inibido pelas necessidades da ação presente, ele
irá recuperar a força de transpor o limite da consciência
sempre que nos desinteressarmos da ação eficaz para nos recolocarmos,
de algum modo, na vida do sonho. O sono, natural ou artificial, provoca justamente
um desinteresse desse tipo."
p. 181 a 182
"Um ser humano que sonhasse sua existência em vez de vivê-la
manteria certamente sob seu olhar, a todo momento, a multidão infinita
dos detalhes de sua história passada. E aquele que, ao contrário,
repudiasse essa memória com tudo o que ela engendra, encenaria sem cessar
sua existência em vez de representá-la verdadeiramente: autômato
consciente, seguiria a encosta dos hábitos úteis que prolongam
a excitação em reação apropriada. O primeiro não
sairia jamais do particular, e mesmo do individual. Dando a cada imagem sua
data no tempo e seu lugar no espaço, veria por onde ela difere das outras
e não por onde se assemelha. O outro, ao contrário, sempre conduzido
pelo hábito, só distinguiria numa situação o lado
por onde ela se assemelha praticamente a situações anteriores."
p. 183
"para generalizar é preciso primeiro abstrair, mas para abstrair
utilmente é preciso já saber generalizar."
p. 185
"A generalização só pode ser feita por uma extração
de qualidades comuns; mas as qualidades, para serem comuns, deverão já
ter sofrido um trabalho de generalização."
/
"parece claro que a distinção nítida dos objetos individuais
seja um luxo da percepção, do mesmo modo que a representação
clara das idéias gerais é um refinamento da inteligência."
p. 185 a 186
"Parece portanto que não começamos nem pela percepção
do indivíduo nem pela concepção do gênero, mas por
um conhecimento intermediário, por um sentimento confuso de qualidade
marcante ou de semelhança: este sentimento, igualmente afastado da generalidade
plenamente concebida e da individualidade claramente percebida, as engendra,
uma e outra, por meio da dissociação. A análise reflexiva
o depura em idéia geral; a memória discriminativa o solidifica
em percepção do individual."
p. 187
"do mineral à planta, da planta aos mais simples organismos conscientes,
do animal ao homem, acompanha-se o progresso da operação pela
qual as coisas e os organismos apreendem em seu ambiente o que os atrai, o que
os interessa praticamente, sem que haja necessidade de abstrair, simplesmente
porque o restante do ambiente permanece sem ação sobre eles: essa
identidade de reação a ações superficialmente diferentes
é o germe que a consciência humana desenvolve em idéias
gerais."
p. 187 a 188
"A sensação é instável; ela pode adquirir as
nuances mais variadas; o mecanismo motor ao contrário, uma vez montado,
funcionará invariavelmente da mesma maneira. Podem-se portanto supor
percepções as mais diferentes possíveis em seus detalhes
superficiais: se elas se prolongam pelas mesmas reações motoras,
se o organismo é capaz de extrair delas os mesmos efeitos úteis,
se elas imprimem ao corpo a mesma atitude, algo de comum irá resultar
daí, e deste modo a idéia geral terá sido sentida e experimentada
antes de ser representada."
p. 188
"a semelhança de que o espírito parte, quando abstrai de
início, não é a semelhança a que o espírito
chega quando, conscientemente, generaliza. Aquela de que ele parte é
uma semelhança sentida, vivida, ou, se quiserem, automaticamente desempenhada.
Aquela a que ele chega é uma semelhança inteligentemente percebida
ou pensada. E é precisamente ao longo desse progresso que se constróem,
através do duplo esforço do entendimento e da memória,
a percepção dos indivíduos e a concepção
dos gêneros - a memória introduzindo distinções nas
semelhanças espontaneamente abstraídas, o entendimento retirando
do hábito das semelhanças a idéia clara da generalidade.
Essa idéia de generalidade não era, na origem, senão nossa
consciência de uma identidade de atitude numa diversidade de situações;
era o próprio hábito, remontando da esfera dos movimentos à
do pensamento. Mas, dos gêneros assim esboçados mecanicamente pelo
hábito, passamos, por um esforço de reflexão efetuado sobre
essa própria operação, à idéia geral do gênero;
e, uma vez constituída essa idéia, construímos, agora voluntariamente,
um número ilimitado de noções gerais."
p. 192
"entre duas idéias quaisquer, escolhidas ao acaso, há sempre
semelhança e sempre, se quiserem, contigüidade, de sorte que, ao
descobrir uma relação de contigüidade ou de semelhança
entre duas representações que se sucedem, não se explica
em absoluto por que uma evoca a outra."
p. 193
"Na realidade, percebemos as semelhanças antes dos indivíduos
que se assemelham, e, num agregado de partes contíguas, o todo antes
das partes. Vamos da semelhança aos objetos semelhantes, bordando sobre
a semelhança, essa talagarça comum, a variedade das diferenças
individuais. E vamos também do todo às partes, por um trabalho
de decomposição cuja lei veremos mais adiante, e que consiste
em parcelar, para a maior comodidade da vida prática, a continuidade
do real. A associação não é, portanto, o fato primitivo;
é por uma dissociação que começamos, e a tendência
de toda lembrança a se agregar a outras explica-se por um retorno natural
do espírito à unidade indivisa da percepção."
p. 194 a 195
"a solidariedade dos fatos psicológicos, sempre dados juntos à
consciência imediata como um todo indiviso que somente a reflexão
separa em fragmentos distintos."
p. 196
"Uma consciência que, desligada da ação, mantivesse
sob o olhar a totalidade de seu passado, não teria nenhuma razão
para se fixar sobre uma parte desse passado em vez de uma outra."
p. 198
"Tudo se passa como se nossas lembranças fossem repetidas um número
indefinido de vezes nesses milhares e milhares de reduções possíveis
de nossa vida passada. Elas adquirem uma forma mais banal quando a memória
se contrai, mais pessoal que se dilata, e deste modo participam de uma quantidade
ilimitada de "sistematizações" diferentes. Uma palavra
de uma língua estrangeira, pronunciada a meu ouvido, pode fazer-me pensar
nessa língua em geral ou em uma voz que a pronunciava outrora de uma
certa maneira. Essas duas associações por semelhança não
se devem à chegada acidental de duas representações diferentes
que o acaso teria trazido sucessivamente à esfera de atração
da percepção atual. Elas respondem a duas disposições
mensais diversas, a dos graus distintos de tensão da memória,
aqui mais próxima à imagem pura, ali mais voltada à resposta
imediata, ou seja, à ação."
p. 200
"Há sempre algumas lembranças dominantes, verdadeiros pontos
brilhantes em torno dos quais os outros formam uma vaga nebulosidade. Esses
pontos brilhantes multiplicam-se à medida que se dilata nossa memória."
p. 202
"o espírito percorria sem cessar o intervalo compreendido entre
seus dois limites extremos, o plano da ação e o plano do sonho."
p. 203
"Nosso corpo, com as sensações que recebe de um lado e os
movimentos que é capaz de executar de outro, é portanto aquilo
que efetivamente fixa nosso espírito, o que lhe proporciona a base e
o equilíbrio. A atividade do espírito ultrapassa infinitamente
a massa das lembranças acumuladas, assim como essa massa de lembranças
ultrapassa infinitamente as sensações e os movimentos do momento
presente; mas essas sensações e movimentos condicionam o que se
poderia chamar de atenção à vida, e é por isso que
tudo depende de sua coesão no trabalho normal do espírito, como
numa pirâmide que se equilibrasse sobre sua ponta."
/
"Passemos os olhos, aliás, na fina estrutura do sistema nervoso,
tal como a revelaram descobertas recentes. Acreditaremos ver por toda parte
condutores, em nenhuma parte centros. Fios dispostos de uma ponta à outra
e cujas extremidades se aproximam certamente quando a corrente passa, eis tudo
o que se vê. E talvez seja tudo o que existe, se é verdade que
o corpo não é mais que um lugar de encontro entre as excitações
recebidas e os movimentos efetuados, tal como supusemos ao longo de todo o nosso
trabalho."
p. 204
"De sorte que o sonho seria sempre o estado de um espírito cuja
atenção não é fixada pelo equilíbrio sensório-motor
do corpo."
p. 208
"Todos os fatos e todas as analogias estão a favor de uma teoria
que veria no cérebro apenas um intermediário entre as sensações
e os movimentos, que faria desse conjunto de sensações e movimentos
a ponta extrema da vida mental, ponta incessantemente inserida no tecido dos
acontecimentos, e que, atribuindo assim ao corpo a única função
de orientar a memória para o real e ligá-la ao presente, consideraria
essa própria memória como absolutamente independente da matéria.
Neste sentido, o cérebro contribui para chamar de volta a lembrança
útil, porém mais ainda para afastar provisoriamente todas as outras.
Não vemos de que modo a memória se alojaria na matéria;
mas compreendemos bem - conforme a observação profunda de um filósofo
contemporâneo [Ravaisson] - que "a materialidade ponha em nós
o esquecimento"."
p. 209
"Uma conclusão geral decorre dos três primeiros capítulos
deste livro: a de que o corpo, sempre orientado para a ação, tem
por função essencial limitar, em vista da ação,
a vida do espírito. Com relação à representações,
ele é um instrumento de seleção, e de seleção
apenas. Não poderia nem engendrar nem ocasionar um estado intelectual.
No que diz respeito à percepção, nosso corpo, pelo lugar
que ocupa a todo instante no universo, marca as partes e os aspectos da matéria
sobre os quais teríamos ação: a percepção,
que mede justamente nossa ação virtual sobre as coisas, limita-se
assim aos objetos que influencima nossos órgãos e preparam nossos
movimentos. No que diz respeito à memória, o papel do corpo não
é armazenar as lembranças, mas simplesmente escoher, para trazê-la
à consciência distinta graças à eficácia real
que lhe confere, a lembrança útil, aquela que completará
e esclarecerá a situação presente em vista da ação
final."
p. 210
"Uma certa margem é portanto necessariamente deixada desta vez à
fantasia; e, se os animais não se aproveitam muito dela, cativos que
são da necessidade material, parece que o espírito humano, ao
contrário, lança-se a todo instante com a totalidade de sua memória
de encontro à porta que o corpo lhe irá entreabrir: daí
os jogos da fantasia e o trabalho da imaginação - liberdades que
o espírito toma com a natureza. É verdade que mesmo assim a orientação
de nossa consciência para a ação parece ser a lei fundamental
de nossa vida psicológica."
p. 212
"nossa percepção fazendo parte das coisas, as coisas participam
da natureza de nossa percepção."
p. 213
"Ora, onde está exatamente a diferença entre as qualidades
heterogêneas que se sucedem em nossa percepção concreta
e as mudanças homogêneas que a ciência coloca por trás
dessas percepções no espaço? As primeiras são descontínuas
e não podem ser deduzidas umas das outras; as segundas, ao contrário,
prestam-se ao cálculo. Mas, porque se prestam a isso, não há
necessidade de fazer delas quantidades puras: equivaleria a reduzi-las ao nada.
Basta que sua heterogeneidade seja suficientemente diluída, de certo
modo, para tornar-se, de nosso ponto de vista, praticamente negligenciável.
Ora, se toda percepção concreta, por mais breve que a suponhamos,
já é a síntese, pela memória, de uma infinidade
de "percepções puras" que se sucedem, não devemos
pensar que a heterogeneidade relativa das qualidades sensíveis tem a
ver com sua contração em nossa memória, e a homogeneidade
relativa das mudanças objetivas com seu relaxamento natural?"
p. 213 a 214
"O que chamamos ordinariamente um fato não é a realidade
tal como apareceria a uma intuição imediata, mas uma adaptação
do real aos interesses da prática e às exigências da vida
social."
p. 214
"A intuição pura, exterior ou interna, é a de uma
continuidade indivisa. Nós a fracionamos em elementos justapostos, que
correspondem, aqui a palavras distintas, ali a objetos independentes. Mas, justamente
porque rompemos assim a unidade de nossa intuição original, sentimo-nos
obrigados a estabelecer entre os termos disjuntos um vínculo, que já
não poderá ser senão exterior e justaposto. À unidade
viva, nascida da continuidade interior, substituímos a unidade factícia
de uma moldura vazia, inerte como os termos que ela mantém unidos."
/
"Justamente porque essa fragmentação do real se operou em
vista das exigências da vida prática, ela não acompanhou
as linhas interiores da estrutura das coisas".
p. 215
"se a metafísica não é mais que uma construção,
há várias metafísicas igualmente verossímeis, que
se refutam conseqüentemente umas às outras, e a última palavra
caberá a uma filosofia crítica que toma todo conhecimento por
relativo e o âmago das coisas por inacessível ao espírito."
/
"Tal é, com efeito, a marcha regular do pensamento filosófico:
partimos daquilo que acreditamos seja a experiência, procuramos diversos
arranjos possíveis entre os fragmentos que a compõem aparentemente,
e, diante da fragilidade reconhecida de todas as nossas construções,
acabamos por renunciar a construir.
- Mas haveria um último empreendimento a tentar. Seria ir buscar a experiência
em sua fonte, ou melhor, acima dessa virada decisiva em que ela, infletindo-se
no sentido de sua utilidade, torna-se propriamente experiência humana."
p. 216
"Esse método apresenta, na aplicação, dificuldades
consideráveis e que não cessam de renascer, porque ele exige,
para a solução de cada novo problema, um esforço inteiramente
novo. Renunciar a certos hábitos de pensar e mesmo de perceber já
é difícil: mas esta é só a parte negativa do trabalho
a ser feito; e, quando a fizemos, quando nos colocarmos naquilo que chamávamos
a virada da experiência, quando aproveitamos a nascente claridade que,
ao iluminar a passagem do imediato ao útil, dá início à
aurora de nossa experiência humana, resta ainda reconstituir, com os elementos
infinitamente pequenos que percebemos da curva real, a forma da própria
curva que se estende na obscuridade atrás deles."
p. 217
"Daí os dois pontos de vista opostos sobre a questão da liberdade:
para o determinismo, o ato é a resultante de uma composição
mecânica dos elementos entre si; para seus adversários, se estivessem
rigorosamente de acordo com seu princípio, a decisão livre deveria
ser um fiat arbitrário, uma verdadeira criação ex nihilo.
- Pensamos que haveria um terceiro partido a tomar. Seria colocarmo-nos na duração
pura, cujo decorrer é contínuo, e onde passamos, por gradações
insensíveis, de um estado a outro: continuidade realmente vivida, mas
artificialmente decomposta para a maior comodidade do conhecimento usual. Então
acreditamos ver a ação sair de seus antecedentes por uma evolução
sui generis, de tal sorte que encontramos nessa ação os antecedentes
que a explicam, e no entanto ela acrescenta aí algo de absolutamente
novo, estando em desenvolvimento neles como o fruto na flor."
p. 217 a 218
"A duração em que nos vemos agir, e em que é útil
que nos vejamos, é uma duração cujos elementos se dissociam
e se justapõem; mas a duração em que agimos é uma
duração na qual nossos estudos se fundem uns nos outros, e é
lá que devemos fazer um esforço para nos colocar pelo pensamento
no caso excepcional e único em que especulamos sobre a natureza íntima
da ação, ou seja, na teoria da liberdade."
p. 218 a 219
"A questão é saber se, nessa "diversidade dos fenômenos"
de que falou Kant, a massa confusa com tendência extensiva poderia ser
apreendida aquém do espaço homogêneo sobre o qual ela se
aplica e por intermédio do qual a subdividimos - do mesmo modo que nossa
vida interior é capaz de se desligar do tempo indefinido e vazio para
voltar a ser duração pura. Certamente, seria um empreendimento
quimérico querer libertar-se das condições fundamentais
da percepção exterior. Mas a questão é saber se
certas condições, que tomamos geralmente por fundamentais, não
concerniriam ao uso a fazer das coisas, à vantagem prática que
nos proporcionam, bem mais do que ao conhecimento puro que podemos ter delas.
Mais particularmente, no que se refere à extensão concreta, contínua,
diversificada e ao mesmo tempo organizada, pode-se contestar que ela seja solidária
ao espaço amorfo e inerte que a subentende, espaço que dividimos
indefinidamente, onde separamos figuras arbitrariamente, e onde o próprio
movimento, conforme dizíamos em outra parte, só pode aparecer
como uma multiplicidade de posições instantâneas, já
que nada poderia assegurar nele a coesão do passado e do presente. Seria
possível portanto, numa certa medida, libertar-se do espaço sem
sair da extensão, e haveria efetivamente aí um retorno imediato,
uma vez que percebemos de fato a extensão, enquanto não fazemos
mais que conceber o espaço à maneira de um esquema."
p. 219
"Mas que razões teríamos para duvidar de um conhecimento?"
/
"Todo movimento, enquanto passagem de um repouso a um repouso, é
absolutamente indivisível."
p. 220
"Quando vejo o móvel passar num ponto, concebo certamente que ele
possa se deter nele; e, ainda que não se detenha, tendo a considerar
sua passagem como um repouso infinitamente curto, porque necessito pelo menos
do tempo para pensar nele; mas é apenas minha imaginação
que repousa aqui, e o papel do móvel, ao contrário, é se
mover."
p. 221 a 222
"Você substitui o trajeto pela trajetória e, porque o trajeto
está subentendido pela trajetória, você acredita que ambos
coincidem. Mas de que modo um progresso coincidiria com uma coisa, um movimento
com uma imobilidade?"
p. 222
"A indivisibilidade do movimento implica portanto a impossibilidade do
instante."
p. 223 a 224
"Os argumentos de Zenão de Eléia não têm outra
origem senão a ilusão. Todos consistem em fazer coincidir o tempo
e o movimento com a linha que os subentende, em atribuir-lhes as mesmas subdivisões,
enfim, em tratá-los como linha. A essa confusão Zenão era
encorajado pelo senso comum, que transporta geralmente ao movimento as propriedade
de sua trajetória, e também pela linguagem, que traduz sempre
em espaço o movimento e a duração. Mas o senso comum e
a linguagem estão aqui em seu direito, e inclusive cumprem, de certo
modo, seu dever, pois, considerando sempre o devir como uma coisa utilizável,
eles não têm por que se inquietar mais com a organização
interior do movimento do que o operário com a estrutura molecular de
suas ferramentas. Ao tomar o movimento por divisível como sua trajetória,
o senso comum exprime apenas os dois fatos únicos que importam na vida
prática: 1) que todo movimento descreve um espaço; 2) que em cada
ponto desse espaço o móvel poderia se deter. Mas o filósofo
que reflete sobre a natureza íntima do movimento é obrigado a
restituir-lhe a mobilidade que é sua essência, e é isto
que Zenão não faz."
p. 224
"é impossível construir [...] o movimento com imobilidades".
p. 227
"Não há símbolo matemático capaz de exprimir
que é o móvel que se move e não os eixos ou os pontos aos
quais está relacionado. E é natural que seja assim, já
que esses símbolos, sempre destinados a medidas, só são
capazes de exprimir distâncias. Mas que haja um movimento real, ninguém
pode contestar seriamente: caso contrário, nada mudaria no universo,
e sobretudo não se percebe o que significaria a consciência que
temos de nossos próprios movimentos."
p. 227 a 228
"Quando estou sentado tranqüilo, e um outro, afastando-se mil passos
de mim, está exausto de fadiga, é efetivamente ele que se move
e sou eu que repouso." [H. Morus]
p. 228
"Não podemos portanto deixar de tomar todo lugar por relativo, nem
de crer num movimento absoluto."
p. 230
"já não se trataria de saber como se produzem, em tais partes
determinadas da matéria, mudanças de posição, mas
como se realiza, no todo, uma mudança de aspecto".
/
"Toda divisão da matéria em corpos independentes de contornos
absolutamente determinados é uma divisão artificial."
p. 231
"os dados da visão e do tato são os que se estendem mais
manifestamente no espaço, e o caráter essencial do espaço
é a continuidade. Há intervalos de silêncio entre os sons,
pois a audição nem sempre está ocupada; entre os odores
e os sabores existem vazios, como se o olfato e o gosto só funcionassem
acidentalmente: assim que abrimos os olhos, ao contrário, nosso campo
visual se colore por inteiro, e, uma vez que os sólidos são necessariamente
contíguos uns aos outros, nosso tato deve acompanhar a superfície
ou as arestas dos objetos sem jamais encontrar interrupção verdadeira."
/
"De que modo fragmentamos a continuidade primitiva percebida da extensão
material em tantos corpos, cada um dos quais com sua substância e individualidade?
Certamente essa continuidade muda de aspecto, de um momento a outro; mas por
que não constatamos pura e simplesmente que o conjunto mudou, como se
houvéssemos girado um caleidoscópio? Por que buscamos enfim, na
mobilidade do conjunto, pistas deixadas por corpos em movimento? Uma continuidade
movente nos é dada, em que tudo muda e permanece ao mesmo tempo: como
se explica que dissociemos esses dois termos, permanência e mudança,
para representar a permanência por corpos e a mudança por movimentos
homogêneos no espaço?
p. 232
"Ao lado da consciência e da ciência, existe a vida."
/
"Mas uma vez constituído e distinguido esse corpo, as necessidades
que ele experimenta o levam a distinguir e a constituir outros."
p. 233
"Nossas necessidades são portanto feixes luminosos que, visando
a continuidade das qualidades sensíveis, desenham aí corpos distintos.
Elas só podem satisfazer-se com a condição de se moldarem
nessa continuidade um corpo, e depois de delimitarem aí outros corpos
com os quais este entrará em relação como com pessoas.
Estabelecer essas relações muito particulares entre porções
assim recortadas da realidade sensível é justamente o que chamamos
viver."
p. 233 a 234
"como se obteria um conhecimento mais próximo das coisas levando
a divisão ainda mais longe? Deste modo prolongamos o movimento vital;
viramos as costas ao conhecimento verdadeiro. Por isso a operação
grosseira que consiste em decompor o corpo em partes da mesma natureza que ele
nos conduz a um impasse, incapazes que nos sentimos em seguida de conceber por
que motivo essa divisão se deteria e de que maneira ela se prolongaria
ao infinito. Tal operação representa, com efeito, uma forma usual
da ação útil, indevidamente transportada ao domínio
do conhecimento puro. Portanto não se explicará jamais através
de partículas, sejam quais forem, as propriedades simples da matéria:
quando muito se acompanharão até os corpúsculos, artificiais
como o próprio corpo, as ações e reações
desse corpo em face de todos os outros. Tal é precisamente o objeto da
química. Ela estuda menos a matéria do que os corpos; concebe-se
portanto que ela se detenha num átomo, dotado ainda das propriedades
gerais da matéria. Mas a materialidade do átomo dissolve-se cada
vez mais sob o olhar do físico. Não temos nenhum motivo, por exemplo,
para nos representarmos o átomo como sólido, em vez de líquido
ou gasoso, nem para nos figurarmos a ação recíproca dos
átomos através de choques e não de outra maneira. Por que
pensamos num átomo sólido, e por que em choques? Porque os sólidos,
sendo os corpos sobre os quais temos uma influência mais manifesta, são
aqueles que nos interessam mais em nossas relações com o mundo
exterior, e porque o contato parece ser o único meio de que dispomos
para fazer agir nosso corpo sobre os outros corpos. Mas experiências muito
simples mostram que não há jamais contato real entre dois corpos
que interagem; por outro lado, a solidez está longe de ser um estado
absolutamente definido da matéria. Solidez e choque obtêm portanto
sua aparente clareza dos hábitos e necessidades da vida prática;
- imagens desse tipo não lançam nenhuma luz sobre o âmago
das coisas."
p. 234 a 235
"Se há uma verdade, aliás, que a ciência colocou acima
de qualquer contestação, é a de uma ação
recíproca de todas as partes da matéria umas sobre as outras.
Entre à moléculas supostas dos corpos se exercem forças
atrativas e repulsivas. A influência da gravidade estende-se através
dos espaços interplanetários. Existe portanto alguma coisa entre
os átomos. Dir-se-á que já não é matéria,
mas força. Representar-se-ão, estendidos os átomos, fios
cada vez mais delgados, até que tenham se tornado invisíveis e
mesmo, pelo que se acredita, imateriais. Mas para que poderia servir essa imagem
grosseira? A conservação da vida exige certamente que distingamos,
em nossa experiência diária, coisas inertes e ações
exercidas por essas coisas no espaço. Como nos é útil fixar
o lugar da coisa no ponto preciso onde poderíamos tocá-la, seus
contornos palpáveis tornam-se para nós seu limite real, e vemos
então em sua ação um não-sei-quê que se separa
e difere dela. Mas já que uma teoria da matéria se propõe
justamente a recuperar a realidade sob essas imagens usuais, todas relativas
a nossas necessidades, é dessas imagens que ela deve se abstrair em primeiro
lugar. E, de fato, vemos força e matéria reaproximarem-se e reunirem-se
à medida que o físico aprofunda seus efeitos. Vemos a força
materializar-se, o átomo idealizar-se, esses dois termos convergirem
para um limite comum, e o universo recuperar assim sua continuidade."
p. 237
"O movimento real é antes o transporte de um estado que de uma coisa."
p. 238
"O movimento que a mecânica estuda não é mais que uma
abstração ou um símbolo, uma medida comum, um denominador
comum que permite comparar entre si todos os movimentos reais; mas esses movimentos,
considerados neles mesmos, são indivisíveis que ocupam duração,
supõem um antes e um depois, e ligam os momentos sucessivos do tempo
por um fio de qualidade variável que deve ter alguma analogia com a continuidade
de nossa própria consciência."
p. 239
"Ali onde o ritmo do movimento é bastante lento para se ajustar
aos hábitos de nossa consciência - como acontece para as notas
graves da escala musical, por exemplo -, não sentimos a qualidade percebida
decompor-se espontaneamente em estímulos repetidos e sucessivos, ligados
entre si por uma continuidade interior?"
p. 240
"Sua objetividade, ou seja, o que ela tem a mais do que oferece, consistirá
precisamente então, tal como já havíamos sugerido, na imensa
multiplicidade dos movimentos que ela executa, de certo modo, no interior de
sua crisálida. Ela se expõe, imóvel, na superfície;
mas ela vive e vibra em profundidade."
p. 241 a 242
"A duração vivida por nossa consciência é uma
duração de ritmo determinado, bem diferente desse tempo de que
fala o físico e que é capaz de armazenar, num intervalo dado,
uma quantidade de fenômenos tão grande quanto se queira. No espaço
de um segundo, a luz vermelha - aquela que tem o maior comprimento de onda e
cujas vibrações são portanto as menos freqüentes -
realiza 400 trilhões de vibrações sucessivas. Deseja-se
fazer uma idéia desse número? Será preciso afastar as vibrações
umas das outras o suficiente para que nossa consciência possa contá-las
ou pelo menos registrar explicitamente sua sucessão, e se verá
quantos dias, meses ou anos ocuparia tal sucessão. Ora, o menor intervalo
de tempo vazio de que temos consciência é igual, segundo Exner,
a dois milésimos de segundo; ainda assim é duvidoso que possamos
perceber um após outro vários intervalos tão curtos. Admitamos
no entanto que sejamos capazes disso indefinidamente. Imaginemos, em uma palavra,
uma consciência que assistisse ao desfile de 400 trilhões de vibrações,
todas instantâneas, e apenas separadas umas das outras pelos dois milésimos
de segundo necessários para distingui-las. Um cálculo muito simples
mostra que serão necessários 25 mil anos para concluir a operação.
Assim, essa sensação de luz vermelha experimentada por nós
durante um segundo corresponde, em si, a uma sucessão de fenômenos
que, desenrolados em nossa duração com a maior economia de tempo
possível, ocupariam mais de 250 séculos de nosso história.
p. 242
"O espaço aliás, no fundo, não é mais do que
o esquema da divisibilidade indefinida."
p. 243 a 244
"Esse pretenso tempo homogêneo, como tentamos demonstrar em outra
parte, é um ídolo da linguagem, uma ficção cuja
origem é fácil de encontrar. Em realidade, não há
um ritmo único da duração; é possível imaginar
muitos ritmos diferentes, os quais, mais lentos ou mais rápidos, mediriam
o grau de tensão ou de relaxamento das consciências, e deste modo
fixariam seus respectivos lugares na série dos seres. Essa representação
de durações com elasticidade desigual é talvez incômoda
para nosso espírito, que contraiu o hábito útil de substituir
a duração verdadeira, vivida pela consciência, por um tempo
homogêneo e independente; mas em primeiro lugar é fácil,
como dissemos, desmascarar a ilusão que torna uma tal representação
incômoda, e em segundo essa idéia conta, no fundo, com o consentimento
tácito de nossa consciência. Não nos acontece perceber em
nós mesmos, durante o sono, duas pessoas contemporâneas e distintas,
sendo que uma dorme alguns minutos enquanto o sonho da outra ocupa dias e semanas?
E a história inteira não caberia num tempo muito curto para uma
consciência mais tensa que a nossa, que assistisse ao desenvolvimento
da humanidade condensando-o, por assim dizer, nas grandes fases de sua evolução?
Perceber consiste portanto, em suma, em condensar períodos enormes de
uma existência infinitamente diluída em alguns momentos mais diferenciados
de uma vida mais intensa, e em resumir assim uma história muito longa.
Perceber significa imobilizar."
p. 244 a 246
"Mas, se você suprime minha consciência, o universo material
subsiste tal qual era: apenas, como foi feita abstração do ritmo
particular de duração que era a condição de minha
ação sobre as coisas, essas coisas retornam a si mesmas para se
separarem na infinidade de momentos que a ciência distingue, e as qualidades
sensíveis, sem desaparecerem, espalham-se e dissolvem-se numa duração
incomparavelmente mais dividida. A matéria converte-se assim em inumeráveis
estímulos, todos ligados numa continuidade ininterrupta, todos solidários
entre si, e que se propagam em todos os sentidos como tremores. - Volte a ligar
uns aos outros, em uma palavra, os objetos descontínuos de sua experiência
diária; faça fluir, em seguida, a continuidade imóvel de
suas qualidades como estímulos locais; adira a esses movimentos, desvencilhando-se
do espaço divisível que os subentende, para já não
considerar senão sua mobilidade, esse ato indiviso que sua consciência
capta nos movimentos que você mesmo executa: você irá obter
da matéria uma visão fatigante talvez para a imaginação,
no entanto pura, e desembaraçada daquilo que as exigências da vida
o obrigam a acrescentar na percepção exterior. - Restabeleça
agora minha consciência e, com ela, as exigências da vida: a longos
intervalos repetidos, e transpondo a cada vez enormes períodos da história
interior das coisas, visões quase instantâneas serão tomadas,
visões desta vez pitorescas, cujas cores mais definidas condensam uma
infinidade de repetições e de mudanças elementares. É
assim que os milhares de posições sucessivas de um corredor se
contraem numa única atitude simbólica, que nosso olho percebe,
que a arte reproduz, e que se torna, para todo o mundo, a imagem de um homem
que corre. O olhar que lançamos ao nosso redor, de momento a momento,
só percebe portanto os efeitos de uma infinidade de repetições
e evoluções interiores, efeitos por isso mesmo descontínuos,
e cuja continuidade é restabelecida pelos movimentos relativos que atribuímos
a "objetos" no espaço. A mudança encontra-se por toda
parte, mas em profundidade; nós a localizamos aqui e acolá, mas
na superfície; e constituímos assim corpos ao mesmo tempo estáveis
quanto a suas qualidades e móveis quanto a suas posições,
uma simples mudança de lugar condensando nele, a nossos olhos, a transformação
universal."
p. 246
"Que existem, num certo sentido, objetos múltiplos, que um homem
se distingue de outro homem, uma árvore de outra árvore, uma pedra
de outra pedra, é incontestável, uma vez que cada um desses seres,
cada uma dessas coisas tem propriedades características e obedece a uma
lei determinada de evolução. Mas a separação entre
a coisa e seu ambiente não pode ser absolutamente definida; passa-se,
por gradações insensíveis, de uma ao outro: a estrita solidariedade
que liga todos os objetos do universo material, a perpetuidade de suas ações
e reações recíprocas, demonstra suficientemente que eles
não têm os limites precisos que lhes atribuímos. Nossa percepção
desenha, de certo modo, a forma de seu resíduo; ela os delimita no ponto
em que se detém nossa ação possível sobre eles,
e em que eles cessam, conseqüentemente, de interessar nossas necessidades."
p. 246 a 247
"para dividir assim o real, devemos nos persuadir inicialmente de que o
real é arbitrariamente divisível. Devemos em conseqüência
estender abaixo da continuidade das qualidades sensíveis, que é
a extensão concreta, uma rede de malhas indefinidamente deformáveis
e indefinidamente decrescentes: tal substrato meramente concebido, tal esquema
inteiramente ideal de divisibilidade arbitrária e indefinida, é
o espaço homogêneo."
p. 247
"ao mesmo tempo que nossa percepção atual e, por assim dizer,
instantânea efetua essa divisão da matéria em objetos independentes,
nossa memória solidifica em qualidades sensíveis o escoamento
contínuo das coisas. Ela prolonga o passado no presente, porque nossa
ação irá dispor do futuro na medida exata em que nossa
percepção, aumentada pela memória, tiver condensado o passado.
Responder a uma ação sofrida por uma reação imediata
que se ajusta ao seu ritmo e se prolonga na mesma duração, estar
no presente, e num presente que recomeça a todo instante, eis a lei fundamental
da matéria: nisso consiste a necessidade."
/
"A independência de sua ação sobre a matéria
ambiental afirma-se cada vez melhor à medida que eles se libertam do
ritmo segundo o qual essa matéria escoa-se."
p. 247 a 248
"as qualidades sensíveis, tal como figuram em nossa percepção
acompanhada de memória, são efetivamente os momentos sucessivos
obtidos pela solidificação do real. Mas, para distinguir esses
momentos, e também para juntá-los através de um fio que
seja comum à nossa própria existência e à das coisas,
somos forçados a imaginar um esquema abstrato da sucessão em geral,
um meio homogêneo e indiferente que esteja para o escoamento da matéria,
no sentido do comprimento, assim como o espaço no sentido da largura:
nisto consiste o tempo homogêneo."
p. 248
"Espaço homogêneo e tempo homogêneo não são
portanto nem propriedades das coisas, nem condições essenciais
de nossa faculdade de conhecê-los: exprimem, de uma forma abstrata, o
duplo trabalho de solidificação e de divisão do real para
nela encontrarmos pontos de apoio, para nela fixarmos centros de operação,
para nela introduzirmos, enfim, mudanças verdadeiras; estes são
os esquemas de nossa ação sobre a matéria."
p. 249
"as concepções errôneas da qualidade sensível
e do espaço encontram-se tão profundamente enraizadas no espírito,
que não se poderiam atacá-las de uma só vez num grande
número de pontos."
p. 252
"como se o papel da memória não fosse justamente fazer sobreviver
a complexidade do efeito à simplificação da causa!"
/
"não é verdade que, na percepção visual de
um objeto, o cérebro, os nervos, a retina e o próprio objeto formam
um todo solidário, um processo contínuo do qual a imagem retiniana
não é mais que um episódio? Qual o direito de isolar essa
imagem para resumir toda a percepção nela?"
p. 254
"A verdade é que o espaço não está mais fora
de nós do que em nós, e que ele não pertence a um grupo
privilegiado de sensações. Todas as sensações participam
da extensão."
p. 255 a 256
"o espaço é de fato o símbolo da fixidez e da divisibilidade
ao infinito. A extensão concreta, ou seja, a diversidade das qualidades
sensíveis, não está nele; é ele que colocamos nela.
O espaço não é o suporte sobre o qual o movimento real
se põe; é o movimento real, ao contrário, que o põe
abaixo de si. Mas nossa imaginação, preocupada antes de tudo com
a comodidade de expressão e as exigências da vida material, prefere
inverter a ordem natural dos termos. Habituada a buscar seu ponto de apoio num
mundo de imagens inteiramente construídas, imóveis, cuja fixidez
aparente reflete sobretudo a invariabilidade de nossas necessidades inferiores,
ela não consegue deixar de ver o repouso como anterior à mobilidade,
de tomá-lo por ponto de referência, de instalar-se nele, e de não
perceber no movimento, enfim, senão uma variação de distância,
o espaço precedendo o movimento. Então, num espaço homogêneo
e indefinidamente divisível nossa imaginação desenhará
uma trajetória e fixará posições: aplicando a seguir
o movimento contra a trajetória, o fará divisível como
essa linha e, como ela, desprovido de qualidade. É de admirar que nosso
entendimento, exercendo-se desde então sobre essa idéia que representa
justamente a inversão do real, só descubra nela contradições?"
p. 256 a 257
"Relegado ao espaço, e ao espaço abstrato, onde não
há mais que um instante único e onde tudo recomeça sempre,
o movimento renuncia a essa solidariedade do presente e do passado que é
sua própria essência."
p. 257
"Nossa percepção, dizíamos, encontra-se originariamente
antes nas coisas do que no espírito, antes fora de nós do que
em nós. As percepções de diversos tipos assinalam algumas
das muitas direções verdadeiras da realidade. Mas essa percepção
que coincide com seu objeto, acrescentávamos, existe mais de direito
do que de fato: ela teria lugar no instantâneo. Na percepção
concreta intervém a memória, e a subjetividade das qualidades
sensíveis deve-se justamente ao fato de nossa consciência, que
desde o início não é senão memória, prolongar
uns nos outros, para condensá-los numa intuição única,
uma pluralidade de momentos."
p. 258
"A matéria extensa, considerada em seu conjunto, é como uma
consciência em que tudo se equilibra, se compensa e se neutraliza".
/
"E o espaço homogêneo, que se erguia entre os dois termos
[percepção e matéria] como uma barreira intransponível,
não tem mais outra realidade senão a de um esquema ou de um símbolo.
Ele diz respeito aos procedimentos de um ser que age sobre a matéria,
mas não ao trabalho de um espírito que especula sobre sua essência."
p. 259
"se existe passagem gradual da idéia à imagem e da imagem
à sensação, se, à medida que evolui nos sentido
da atualidade, ou seja, da ação, o estado da alma se aproxima
da extensão, se finalmente, essa extensão, uma vez atingida, permanece
indivisa e por isso não contraria de maneira alguma a unidade da alma,
compreende-se que o espírito possa colocar-se sobre a matéria
no to da percepção pura, conseqüentemente unindo-se a ela,
e que não obstante dela se distinga radicalmente. Ele se distingue na
medida em que condensa os momentos dessa matéria para servir-se dela
e para manifestar-se através de ações que são a
razão de ser de sua união com o corpo. Tínhamos portanto
razão ao afirmar, no início deste livro, que a distinção
do corpo e do espírito não deve ser estabelecida em função
do espaço, mas do tempo."
p. 260
"as dificuldades atenuam-se num dualismo que, partindo da percepção
pura em que sujeito e objeto coincidem, promova o desenvolvimento desses dois
termos em suas respectivas durações - a matéria, à
medida que se leva mais a fundo sua análise, tendendo a não ser
mais que uma sucessão de momentos infinitamente rápidos que se
deduzem uns dos outros e portanto se equivalem; o espírito sendo já
memória na percepção, e afirmando-se cada vez mais como
um prolongamento do passado no presente, um progresso, uma evolução
verdadeira."
p. 260 a 261
"Mas a relação entre corpo e espírito torna-se com
isso mais clara? Substituímos uma distinção espacial por
uma distinção temporal: os dois termos serão mais capazes
de se unir? Convém notar que a primeira distinção não
comporta graus: a matéria está no espaço, o espírito
está fora do espaço; não há transição
possível entre eles. Ao contrário, se o papel mais modesto do
espírito é ligar os momentos sucessivos da duração
das coisas, se é nessa operação que ele toma contato com
a matéria e também se distingue dela inicialmente, concebe-se
uma infinidade de graus entre a matéria e o espírito plenamente
desenvolvido, o espírito capaz de ação não apenas
indeterminada, mas racional e refletida. Cada um desses graus sucessivos, que
mede uma intensidade crescente de vida, corresponde uma tensão mais alta
de duração e se traduz exteriormente por um maior desenvolvimento
do sistema sensório-motor. O importante é então esse sistema
nervoso? Sua complexidade crescente parecerá deixar uma amplitude cada
vez maior à atividade do ser vivo, a capacidade de esperar antes de reagir,
e de colocar a excitação recebida em relação com
uma variedade cada vez mais rica de mecanismos motores. Mas isto é apenas
o exterior, e a organização mais complexa do sistema nervoso,
que parece assegurar uma maior independência do ser vivo em face da matéria,
não faz mais que simbolizar materialmente essa própria independência,
isto é, a força interior que permite ao ser vivo libertar-se do
ritmo do transcorrer das coisas, reter cada vez melhor o passado para influenciar
profundamente o futuro, ou seja, enfim, sua memória, no sentido especial
que damos a essa palavra. Assim, entre a matéria bruta e o espírito
mais capaz de reflexão há todas as intensidades possíveis
da memória, ou, o que vem a ser o mesmo, todos os graus da liberdade."
p. 262
"As dificuldades do dualismo vulgar não advêm de que os dois
termos [matéria e espírito] se distingam, mas de que não
se percebe como um deles se introduz no outro. Ora, mostramos que a percepção
pura, que seria o grau mais baixo do espírito - o espírito sem
a memória -, faria verdadeiramente parte da matéria tal como a
entendemos. Vamos mais longe: a memória não intervém como
uma função da qual a matéria não tivesse algum pressentimento
e que já não imitasse à sua maneira. Se a matéria
não se lembra do passado, é porque ela o repete sem cessar, porque,
submetida à necessidade, ela desenvolve uma série de momentos
em que cada um equivale ao precedente e pode deduzir-se dele: assim, seu passado
é verdadeiramente dado em seu presente. Mas um ser que evolui mais ou
menos livremente cria a todo instante algo de novo: é portanto em vão
que se buscaria ler seu passado em seu presente se o passado não se depositasse
nele na condição de lembrança. Assim, para retomar uma
metáfora que já apareceu várias vezes neste livro, é
preciso, por razões semelhantes, que o passado seja desempenhado pela
matéria, imaginado pelo espírito."
p. 267
"a memória de um ser vivo parece medir antes de tudo a capacidade
de sua ação sobre as coisas, e não ser mais do que a repercussão
intelectual disso."
p. 268
"se fossem reunidos todos os estados de consciência, passados, presentes
e possíveis, de todos os seres conscientes, só se abrangeria com
isso, a nosso ver, uma parte muito pequena da realidade material, porque as
imagens ultrapassam a percepção por todos os lados."
p. 269
"não há entre o "fenômeno" e a "coisa"
a relação da aparência à realidade, mas simplesmente
a da parte ao todo."
p. 271 a 272
"As mesmas necessidades, a mesma capacidade de agir, que recortaram nosso
corpo na matéria, irão delimitar corpos distintos no meio que
nos cerca. Tudo se passará como se deixássemos filtrar a ação
real das coisas exteriores para deter e reter delas a ação virtual:
essa ação virtual das coisas sobre nosso corpo e de nosso corpo
sobre as coisas é propriamente a nossa percepção. Mas,
como os estímulos que nosso corpo recebe dos corpos circundantes determinam
constantemente, em sua substância, reações nascentes, e
como os movimentos interiores da substância cerebral esboçam assim
a todo momento nossa ação possível sobre as coisas, o estado
cerebral corresponde exatamente à percepção. Não
é nem sua causa, nem seu efeito, nem, em nenhum sentido, sua duplicata:
ele simplesmente a prolonga, a percepção sendo nossa ação
virtual e o estado cerebral nossa ação começada."
p. 272 a 273
"Nossa percepção, dizíamos, desenha a ação
possível de nosso corpo sobre os outros corpos. Mas nosso corpo, sendo
extenso, é capaz de agir sobre si mesmo tanto quanto sobre os outros.
Em nossa percepção entrará portanto algo de nosso corpo.
Todavia, quando se trata dos corpos circundantes, eles são, por hipótese,
separados do nosso corpo por um espaço mais ou menos considerável,
que mede o afastamento de suas promessas ou de suas ameaças no tempo:
é por isso que nossa percepção desses corpos só
desenha ações possíveis. Ao contrário, quanto mais
a distância diminui entre esses corpos e o nosso, tanto mais a ação
possível tende a se transformar em ação real, a ação
tornando-se mais urgente à medida que a distância decresce. E,
quando essa distância é nula, ou seja, quando o corpo a perceber
está em nosso próprio corpo, é uma ação real,
e não mais virtual, que a percepção desenha. Tal é
precisamente a natureza da dor, esforço atual da parte lesada para recolocar
as coisas no lugar, esforço local, isolado, e por isso mesmo condenado
ao insucesso num organismo que já não é mais apto senão
aos efeitos de conjunto. A dor portanto está no local onde se produz,
como o objeto está no lugar onde é percebido. Entre a afecção
sentida e a imagem percebida existe a diferença de que a afecção
está em nosso corpo, a imagem fora de nosso corpo. E por isso a superfície
de nosso corpo, limite comum deste corpo e dos outros corpos, nos é dada
ao mesmo tempo na forma de sensação e na forma de imagem."
p. 274
"É portanto a percepção pura, isto é, a imagem,
que devemos nos dar em primeiro lugar. E as sensações, longe de
serem os materiais com que a imagem é fabricada, aparecerão como
a impureza que nela se mistura, sendo aquilo que projetamos de nosso corpo em
todos os outros."
p. 274 a 275
"o próprio universo material, definido como a totalidade das imagens,
é uma espécie de consciência, uma consciência em que
tudo se compensa e se neutraliza, uma consciência em que todas as partes
eventuais, equilibrando-se umas às outras através de reações
sempre iguais às ações, impedem-se mutuamente de se destacarem."
p. 276
"como nossa percepção do objeto presente era algo desse objeto
mesmo, nossa representação do objeto ausente será um fenômeno
completamente diferente da percepção, uma vez que entre a presença
e a ausência não há nenhum grau, nenhum meio-termo."
p. 278
"o reconhecimento não se fazia em absoluto por um despertar mecânico
de lembranças adormecidas no cérebro. Ele implica, ao contrário,
uma tensão mais ou menos alta da consciência, que vai buscar na
memória pura as lembranças puras, para materializá-las
progressivamente em contato com a percepção presente."
p. 280
"A verdade é que a memória não consiste, em absoluto,
numa regressão do presente ao passado, mas, pelo contrário, num
progresso do passado ao presente. É no passado que nos colocamos de saída.
Partimos de um "estado virtual", que conduzimos pouco a pouco, através
de uma série de planos de consciência diferentes, até o
termo em que ele se materializa numa percepção atual, isto é,
até o ponto em que ele se torna um estado presente e atuante, ou seja,
enfim, até esse plano extremo de nossa consciência em que se desenha
nosso corpo."
p. 280 281
"Mas a verdade é que nosso presente não deve se definir como
o que é mais intenso: ele é o que age sobre nós e o que
nos faz agir, ele é sensorial e motor; - nosso presente é antes
de tudo o estado de nosso corpo. Nosso passado, ao contrário, é
o que não age mais, mas poderia agir, o que agirá ao inserir-se
numa sensação presente da qual tomará emprestada a vitalidade.
É verdade que, no momento em que a lembrança se atualiza passando
assim a agir, ela deixa de ser lembrança, torna-se novamente percepção."
p. 281
"a lembrança não poderia resultar de um estado cerebral.
O estado cerebral prolonga a lembrança; faz com que ela atue sobre o
presente pela