HALBWACHS, Maurice (1877-1945). A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. 189 p.; 20 cm.

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Citações...
p. 25
"Fazemos apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para completar, o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma forma, embora muitas circunstâncias nos pareçam obscuras. Ora, a primeira testemunha, à qual podemos sempre apelar, é a nós próprios."
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"Se o que vemos hoje tivesse que tomar lugar dentro do quadro de nossas lembranças antigas, inversamente essas lembranças se adaptariam ao conjunto de nossas percepções atuais. Tudo se passa como se confrontássemos vários depoimentos."

p. 26
"Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distinguam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem."

p. 34
"Para que nossa memória se auxilie com a dos outros, não basta que eles nos tragam seus depoimentos: é necessário ainda que ela não tenha cessado de concordar com suas memórias e que haja bastante pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos recordam possa ser reconstruída sobre um fundamento comum."

p. 47
"Quantas vezes exprimimos então, com uma convicção que parece toda pessoal, reflexões tomadas de um jornal, de um livro, ou de uma conversa. Elas correspondem tão bem à nossa maneira de ver que nos espantaríamos descobrindo qual é o autor, e que não somos nós."
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"Toda a arte do orador consiste talvez em dar àqueles que o ouvem a ilusão de que as convicções e os sentimentos que ele desperta neles não lhes foram sugeridos de fora, que eles nasceram deles mesmo, que ele somente adivinhou o que se elaborava no segredo de suas consciências e não lhes emprestou mais que sua voz."
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"Quantos homens têm bastante espírito crítico para discernir, naquilo que pensam, a parte dos outros, e confessar a si mesmos que, no mais das vezes, nada acrescentam de seu?"
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"na medida em que cedemos sem resistência a uma sugestão de fora, acreditamos pensar e sentir livremente. É assim que a maioria das influências sociais que obedecemos com mais freqüência nos passam despercebidas."

p. 49
"as lembranças que nos são mais difíceis de evocar são aquelas que não concernem a não ser a nós, que constituem nosso bem mais exclusivo, como se elas não pudessem escapar aos outros senão na condição de escapar também a nós próprios."

p. 50
"Os atrativos desses atalhos pertencem aos dois caminhos e os conhecemos: mas é preciso alguma atenção, e talvez algum acaso, para que tornemos a encontrá-los; e podemos percorrer um grande número de vezes um e outro sem ter a idéia de procurá-los, sobretudo quando não podemos contar, para nos sinalizar, com os passantes que seguem algum desses caminhos, porque eles não se preocupam em ir a onde conduziriam os outros."

p. 51
"cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, [...] este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e [...] este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios."
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"Dessas combinações, algumas são extremamente complexas. É por isso que não depende de nós fazê-las reaparecer. É preciso confiar no acaso, aguardar que muitos sistemas de ondas, nos meios sociais onde nos deslocamos materialmente ou em pensamento, se cruzem de novo e façam vibrar da mesma maneira que outrora o aparelho registador que é nossa consciência individual."

p. 52
"a lembrança aparece pelo efeito de várias séries de pensamentos coletivos em emaranhadas, e [...] não podemos atribuí-la exclusivamente a nenhuma dentre elas."

p. 55
"memória autobiográfica e memória histórica. A primeira se apoiaria na segunda, pois toda história de nossa vida faz parte da história em geral. Mas a segunda seria, naturalmente, bem mais ampla do que a primeira. Por outra parte, ela não nos representaria o passado senão sob uma forma resumida e esquemática, enquanto que a memória de nossa vida nos apresentaria um quadro bem mais contínuo e denso."
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"a história, com efeito, assemelha-se a um cemitério onde o espaço é medido e onde é preciso, a cada instante, achar lugar para novas sepulturas."

p. 60
"Não é na história aprendia, é na história vivida que se apóia nossa memória."

p. 65
"Os avós se aproximam das crianças, talvez porque, por diversas razões, uns e outros se desinteressam dos acontecimentos contemporâneos sobre os quais se fixa a atenção dos pais."

p. 67
"A história não é todo o passado, mas também não é tudo aquilo que resta do passado. Ou, se o quisermos, ao lado de uma história escrita, há uma história viva que se perpetua ou se renova através do tempo e onde é possível encontrar um grande número dessas correntes antigas que haviam desaparecido somente na aparência."

p. 68
"costumes modernos repousam sobre antigas camadas que afloram em mais de um lugar."

p. 71
"a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada."

p. 72
"Não tenho nenhuma memória das épocas ou dos momentos que senti vivamente." (Stendhal, Vie de Henri Brulard)
/
"Á medida em que os acontecimentos se distanciam, temos o hábito de lembrá-los sob a forma de conjuntos, sobre os quais se destacam às vezes alguns entre eles, mas que abrangem muitos outros elementos, sem que possamos distinguir um do outro, nem jamais fazer deles uma enumeração completa."

p. 75
"Há muitos graus nesta ignorância ou nesta incompreensão, e num e noutro sentido, não atingimos jamais o limite da clareza total ou da sombra inteiramente impenetrável."

p. 77
"A imaginação [...] ocupou as lacunas de sua memória: em sua narrativa tudo parece merecer fé, uma mesma luz parece iluminar todas as paredes; mas as fissuras se revelam quando as consideramos sob um outro ângulo."

p. 80
"porque geralmente a história começa somente no ponto onde acaba a tradição, momento em que se apaga ou se decompõe a memória social. Enquanto uma lembrança subsiste, é inútil fixá-la por escrito, nem mesmo fixá-la, pura e simplesmente. Assim, a necessidade de escrever a história de um período, de uma sociedade, e mesmo de uma pessoa desperta somente quando eles já estão muito distantes no passado, para que se tivesse a oportunidade de encontrar por muito tempo ainda em torno de si muitas testemunhas que dela conservem alguma lembrança."

p. 85
"A história é uma e podemos dizer que não há senão uma história."
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"O mundo histórico é como um oceano onde afluem todas as histórias parciais. Não é de estranhar de que na origem da história, e mesmo em todas as épocas, se tenha sonhado escrever tantas histórias universais."

p. 90
"as divisões do tempo, a duração das partes assim fixadas, resultam de convenções e costumes, e [...] exprimem também a ordem, inelutável, segundo a qual se sucedem as diversas etapas da vida social."

p. 92
"outros tantos oásis, onde, precisamente, esquece-se o tempo, mas onde, em contapartida, nos encontramos."
/
"a sociedade, obrigando-nos a medir sem parar a vida à sua maneira, nos torna cada vez mais inaptos para fazê-lo da nossa."

p. 96
"não existe[m], na realidade, estados, porém movimentos, ou um pensamento incessantemente em devir."

p. 99
"O trágico da dor, que faz com que, levada até um certo ponto, crie em nós um sentimento desesperado de angústia e impotência, é que sobre um mal cuja causa está naquelas regiões de nós mesmos onde os outros não podem chegar, ninguém pode fazer nada já que nos confundimos com a dor e que a dor não pode destruir a si mesma."

p. 99 a 100
"Em nosso pensamento, na realidade, cruzam-se a cada momento ou em cada período de seu desenvolvimento, muitas correntes que vão de uma consciência a outra, e das quais ele é o lugar de encontro. Sem dúvida, a continuidade aparente daquilo que chamamos nossa vida interior resulta em parte de que ela segue, por algum tempo, o curso de uma dessas correntes."

p. 113
"há tantos grupos quantas são as origens dos diferentes tempos. Não há nenhum deles que se imponha a todos os grupos."

p. 118
"os acontecimentos dividem o tempo mas não o preenchem."

p. 123
"o que é impessoal é também o mais estável."

p. 125
"Na atividade mesma daqueles que executam uma construção, há sempre mais inquietude do que alegria."

p. 126
"o grupo familiar mais amplo[,] tem mais dificuldade em se isolar materialmente: oferece uma superfície maior aos olhares dos outros, uma abertura maior à opinião."

p. 126 a 127
"Para encontrar uma cidade antiga no labirinto das novas ruas que pouco a pouco circundaram e transformaram casas e monumentos, [...] não se recua do presente ao passado seguindo em sentido inverso e de modo contínuo a série dos trabalhos, demolições, traçados das ruas, etc., que modificaram progressivamente o aspecto dessa cidade. Mas para reencontrar caminhos e monumentos antigos, conservados, aliás, ou desaparecidos, guiamo-nos pela planta geral da cidade antiga, transportamo-nos em pensamento até lá, o que é sempre possível àqueles que ali viveram, antes que se tivesse ampliado e reconstruído os velhos quarteirões, e para quem esses muros ainda de pé, essas fachadas de outro século, esses trechos de ruas guardam sua significação de outrora."

p. 129
"o que caracteriza a memória é, pelo contrário, o fato de que ela nos obriga a nos determos, a nos afastarmos momentaneamente desses fluxos e, senão a percorrer a corrente, pelo menos a nos engajarmos numa direção oblíqua, como se ao longo dessa série contínua houvesse uma quantidade de pontos que originam bifurcações."

p. 130
"Sociedades religiosas, políticas, econômicas, familiares, grupos de amigos, relações, e mesmo reuniões efêmeras de salão, numa sala de espetáculos, na rua, todas imobilizam o tempo à sua maneira, ou impõem a seus membros a ilusão de que por uma certa duração, ao menos, num mundo que se transforma incessantemente, algumas zonas adquiriram uma estabilidade e um equilíbrio relativos, e que nada de essencial ali se transformou por um período mais ou menos longo."

p. 131
"Auguste Comte observou que o equilíbrio mental decorre em boa parte e, primeiro, pelo fato que os objetos materiais com os quais estamos em contato diário mudam pouco, e nos oferecem uma imagem de permanência e estabilidade."
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"quando algum acontecimento nos obriga também a nos transportamos para um novo entorno material, antes de a ele nos adaptarmos, atravessamos um período de incerteza, como se houvéssemos deixado para trás toda a nossa personalidade, tanto é verdade que as imagens habituais do mundo exterior são inseparáveis do nosso eu."

p. 132
"cada objeto encontrado, e o lugar que ocupa no conjunto, lembram-nos uma maneira de ser comum a muitos homens."

p. 133
"o lugar recebeu a marca do grupo, e vice-versa. Então, todas as ações do grupo podem se traduzir em termos espaciais.

p. 134
"Será o contraste entre a impassividade das pedras e o tumulto no qual se encontram que os persuade que apesar de tudo nada está perdido, já que as paredes e as casas permanecem em pé?"

p. 135
"os homens, presos às correntes que seguem as ruas, quer se apresentem como multidão, quer se dispersem e pareçam querer mutuamente fugir umas das outras e se evitar, assemelham-se a partes de matéria comprimidas umas contra as outras, ou em movimento, e que obedecem, em parte, às leis da natureza inerte. Assim se explica sua insensibilidade aparente, de que as acusamos injustamente, como à natureza sua indiferença, não obstante, para nos acalmar, põe-nos em equilíbrio, colocando-nos, por um instante, sob a influência do mundo e das forças físicas."

p. 136
"Quando um grupo humano vive muito tempo em lugar adaptado a seus hábitos, não somente os seus movimentos, mas também seus pensamentos se regulam pela sucessão das imagens que lhe representam os objetos exteriores."

p. 155
"para os santos, tudo é santo" [provérbio?]

p. 159
"há tantas maneiras de representar o espaço quantos sejam os grupos."

p. 160
"cada sociedade recorta o espaço a seu modo [...] de modo a constituir um quadro fixo onde encerra e localiza suas lembranças."
/
"Não é certo então, que para lembrar-se, seja necessário se transportar em pensamento para fora do espaço, pois pelo contrário é somente a imagem do espaço que, em razão de sua estabilidade, dá-nos a ilusão de não mudar através do tempo e de encontrar o passado no presente; mas é assim que podemos definir a memória; e o espaço só é suficientemente estável para poder durar sem envelhecer, nem perder nenhuma de suas partes."

p. 161
"A lembrança de uma palavra se distingue da lembrança de um som qualquer, natural ou musical, nisto que ao primeiro corresponde sempre um modelo ou um esquema exterior, determinado seja pelos hábitos fonéticos do grupo [...] seja sob a forma impressa [...], enquanto a maioria dos homens, quando ouvem sons que não são palavras, podem dificilmente compará-los a modelos puramente auditivos, porque estes lhes faltam."

p. 162
"Berlioz contou em suas memórias que uma noite compôs mentalmente uma sinfonia que lhe parecia admirável. Ia anotá-la, quando pensou que para executá-la[,] seria necessário perder tempo demais e dinheiro em diligências, quando decidiu renunciar a isto e nada anotou."

p. 163
"Os sons musicais não se fixaram na memória sob a forma de lembranças auditivas, mas aprendemos a reproduzir um seqüência de movimentos vocais."

p. 165
"É porque os sinais e combinações musicais simples subsistem no cérebro, que é inútil que ali se conservem tantas combinações complexas, e basta que as últimas estejam assinaladas em folhas de papel. A partitura desempenha então aqui, o papel de substituto material do cérebro."

p. 169
"quando um homem esteve no seio de um grupo, ali aprendeu a pronunciar certas palavras, numa certa ordem, pode sair do grupo e dele se distanciar. Enquanto ainda usar essa linguagem, podemos dizer que a ação do grupo se exerce sobre ele."

p. 170
"As palavras também são mais numerosas do que as letras, e as combinações de palavras são mais numerosas do que as próprias palavras. O que há de novo em cada página, não são as palavras, nem mesmo os membros da frase: tudo isto reteríamos bem depressa. O que é preciso reter agora ou compreender, aquilo sobre o que a atenção deve se concentrar, é a combinação dos temas elementares, das combinações de notas ou de palavras já conhecidas. Assim se encontra reduzida e simplificada a tarefa da memória."

p. 172
"para aprender uma linguagem qualquer, é preciso submeter-se a um adestramento difícil, que substitua nossas reações naturais e instintivas por uma série de mecanismos dos quais encontramos o modelo totalmente fora de nós, na sociedade."

p. 174
"O ritmo é um produto da vida em sociedade. O indivíduo sozinho não saberia inventá-lo."

p. 177
"se a arte imita assim a natureza, é porque dela retira uma parte de seus efeitos."

p. 177 a 178
"O leigo isola a melodia da sonata. Inversamente, o músico separa a canção das outras canções, ou numa mesma canção separa a melodia das palavras, e mesmo alguns compassos de melodia inteira. Assim separada, despojada, desfalcada de parte de sua substância, a melodia vai ser agora levada para [a] sociedade dos músicos, e logo se apresentará sob novo aspecto. Associada a outras seqüências de sons, fundida talvez a um outro conjunto, seu valor, o valor de suas partes, será determinado por suas relações com esses elementos musicais que lhe eram estranhos até então."

p. 179
"[A música é] uma operação de aritmética oculta feita por um espírito que ignora que conta." (Leibniz, sem referência de obra)

p. 180
"Quer se leia, quer se execute, não basta compreender os sinais: um artista os interpreta à sua maneira, inspirando-se em suas disposições afetivas do momento, ou de sempre."
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"as regras não substituem o gênio".

p. 181
"não é necessário ser iniciado nas regras dessa arte, ser capaz de ler à primeira vista as notas, para sentir prazer num concerto."
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"não pensa em nada, [...] lhe basta ouvir, [...] está perpetuamente no presente, e [...] todo o esforço de pensamento o distrairia daquilo que importa somente, isto é, a música.
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"a melhor música é aquela que posso ouvir pensando naquilo que me faz mais feliz. (Stendhal, Lettres à ses amis)
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"quando uma música me alça a pensamentos elevados sobre o assunto que me ocupa, qualquer que seja, essa música é excelente para mim. Toda música que me permite pensar na música é medíocre para mim." (Stendhal, Lettres à ses amis)

p. 181 a 182
"qualquer que seja nossa disposição interior, parece que toda música, em certos momentos, pode mantê-la, aprofundá-la, aumentando sua intensidade. Tudo se passa como se a sucessão dos sons nos apresentasse uma espécie de matéria plástica que não tem significação definida, mas que está prestes a receber aquela que nosso espírito estivesse disposto a dar-lhe."

p. 183
"Haveria então dois modos de ouvir música, a atenção se concentrando nos sons e suas combinações, isto é, sobre os aspectos e objetos musicais, propriamente ditos, ou o ritmo e a sucessão de notas sendo apenas um acompanhamento de nossos pensamentos que arrastam em seu movimento."
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"Nós nos enganamos certamente se acreditamos que os compositores pegam sua pena e o papel com a modesta intenção de expressar isto ou aquilo, descrever, pintar. Mas, não façam pouco caso das influências contingentes e das impressões exteriores."

p. 184
"para um escultor, todo ator se torna uma escultura imóvel, para um pintor todo poema é um quadro, e o músico transmuda todo quadro em sons." (Robert Schumann, Gesammele Schriften über Musik und Musiker)

p. 187
"não é possível reter uma massa de lembranças em todas as suas sutilezas e nos mais precisos detalhes, a não ser com a condição de colocar em ação todos os recursos da memória coletiva."

Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., março de 2000

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto