BOSI, Ecléa. Memória e sociedade - lembranças de velhos. 3ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994. 484p.; 23 cm.
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Citações...
p. 37
"A veracidade do narrador não nos preocupou: com certeza seus erros
e lapsos são menos graves em suas conseqüências que as omissões
da história oficial."
p. 39
"Se as lembranças às vezes afloram ou emergem, quase sempre
são uma tarefa, uma paciente reconstituição."
/
"Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito."
p. 55
"Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer,
reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências
do passado. A memória não é sonho, é trabalho. Se
assim é, deve-se duvidar da sobrevivência do passado, "tal
como foi", e que se daria no inconsciente de cada sujeito. A lembrança
é uma imagem construída pelo materiais que estão, agora,
à nossa disposição, no conjunto de representações
que povoam nossa consciência atual. Por mais nítida que nos pareça
a lembrança de um fato antigo, ela não é a mesma imagem
que experimentamos na infância, porque nós não somos os
mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e,
com ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor.
O simples fato de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre
as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos
de ponto de vista."
p. 56
"é no sonho que o espírito está mais afastado da sociedade."
(Halbwachs)
p. 57
"esse convívio de lembrança e crítica altera profundamente
a qualidade da segunda leitura. A qual, só por essa razão, já
não "revive", mas "re-faz" a experiência da
primeira."
p. 58
"Quanto mais o adulto está empenhado na vida prática, tanto
mais aguda é a distinção que faz entre fantasia e realidade,
e tanto mais esta é valorizada em detrimento daquela."
/
"Para sentir o espírito de um tempo que já não existe,
para fazer-se contemporâneo dos homens de outrora [...] a dificuldade
não está tanto no que é preciso saber do que no que é
preciso não saber mais. Se nós quisermos verdadeiramente viver
no século XV, quantas coisas devemos esquecer: ciências, métodos,
todas as conquistas que fazem de nós modernos!" (Anatole France)
p. 59
"no interior da lembrança, no cerne da imagem evocada, trabalham
noções gerais, veiculadas pela linguagem, logo, de filiação
institucional. É graças ao caráter objetivo, transubjetivo,
dessas noções gerais que as imagens resistem e se transformam
em lembranças."
p. 66
"[Bartlett] considerou o tratamento que cada imagem nova sofre na memória
do indivíduo análogo à modelagem que uma dada forma cultural
civilizada recebe ao ser transferida para um grupo indígena. O nativo
pode: 1) simplesmente incorporar a forma cultural estranha, por assimilação;
2) ou despojá-la de alguns aspectos e algumas conotações
estranhas à sua prática social (simplificação);
3) ou apreender um aspecto em si desimportante no contexto-fonte, e dar-lhe
uma relevância especial (retenção parcial com hipertrofia
do detalhe); 4) ou, finalmente, construir uma "outra" forma simbólica
que resultaria das interações do próprio grupo receptor,
capaz portanto de transformar a matéria recebida e incutir-lhe o sentido
de uma prática social específica."
/
"sempre "fica" o que significa. E fica não do mesmo modo:
às vezes quase intacto, às vezes profundamente alterado. A transformação
seria tanto mais radical quanto mais operasse sobre a matéria recebida
a mão-de-obra do grupo receptor. Assim, novos significados alteram o
conteúdo e o valor da situação de base evocada. No outro
extremo, se a vida social ou individual estagnou, ou reproduziu-se quase que
só fisiologicamente, é provável que os fatos lembrados
tendam a conservar o significado que tinham para os sujeitos no momento em que
os viveram."
p. 67
"quando o sujeito os evoca, não vem o reforço, o apoio contínuo
dos outros: é como se ele estivesse sonhando ou imaginando. E não
por acaso duvidamos, hesitamos, quando não nos confundimos, sempre que
devemos falar de um fato que só foi presenciado por nós, ou que
sabemos "por ouvir dizer"."
p. 68
"A memória poderá ser conservação ou elaboração
do passado, mesmo porque o seu lugar na vida do homem acha-se a meio caminho
entre o instinto, que se repete sempre, e a inteligência, que é
capaz de inovar."
/
"A função da lembrança é conservar o passado
do indivíduo na forma que é mais apropriada a ele. O material
indiferente é descartado, o desagradável, alterado, o pouco claro
ou confuso simplifica-se por uma delimitação nítida, o
trivial é elevado à hierarquia do insólito; e no fim formou-se
um quadro total, novo, sem o menor desejo consciente de falsificá-lo."
(William Stern)
/
"qual a forma predominante de memória de um dado indivíduo?
O único modo correto de sabê-lo é levar o sujeito a fazer
sua autobiografia. A narração da própria vida é
o testemunho mais eloqüente dos modos que a pessoa tem de lembrar."
p. 73
"O que poderá mudar enquanto a criança escuta na sala discursos
igualitários e observa na cozinha o sacrifício constante dos empregados?
A verdadeira mudança dá-se a perceber no interior, no concreto,
no cotidiano, no miúdo; os abalos exteriores não modificam o essencial."
p. 74
"O que é um ambiente acolhedor? Será ele construído
por um gosto refinado na decoração ou será uma reminiscência
das regiões de nossa casa ou de nossa infância banhadas por uma
luz de outro tempo? O quarto dos avós, a casa dos avós, regiões
em que não havia a preocupação de socializar, punir, sancionar
nossos atos, mas onde tudo era tolerância e aceitação."
/
"Os feitos abstratos, as palavras dos homens importantes só se revestem
de significado para o velho e para a criança quando traduzidos por alguma
grandeza na vida cotidiana."
p. 75
"Ao lado da história escrita, das datas, da descrição
de períodos, há correntes do passado que só desapareceram
na aparência. E que podem reviver numa rua, numa sala, em certas pessoas,
como ilhas efêmeras de um estilo, de uma maneira de pensar, sentir, falar,
que são resquícios de outras épocas."
/
"dia virá em que as pessoas que pensam como nós irão
se ausentando, até que poucas, bem poucas, ficarão para testemunhar
nosso estilo de vida e pensamento. Os jovens nos olharão com estranheza,
curiosidade; nossos valores mais caros lhes parecerão dissonantes e eles
encontrarão em nós aquele olhar desgarrado com que, às
vezes, os velhos olham sem ver, buscando amparo em coisas distantes e ausentes."
p. 76
"Nos melhores aprendizes a gratidão acompanha o sentimento da própria
superioridade em relação ao velho. Mas o comum dos aprendizes,
quando a fonte doadora esgotou seus benefícios, volta-lhe as costas e
busca outras fontes. Isto é humano, dirão, é a lei da superação
da geração mais velha pela mais jovem. Ou será desumano,
próprio de uma sociedade competidora, onde já se perdeu o gosto
inefável da individualidade de cada pessoa?"
p. 77
"Quando as mudanças históricas se aceleram e a sociedade
extrai sua energia da divisão de classes, criando uma série de
rupturas nas relações entre os homens e na relação
dos homens com a natureza, todo sentimento de continuidade é arrancado
de nosso trabalho. Destruirão amanhã o que construirmos hoje."
p. 78
"Quantas relações humanas são pobres e banais porque
deixamos que o outro se expresse de modo repetitivo e porque nos desviamos das
áreas de atrito, dos pontos vitais, de tudo o que em nosso confronto
pudesse causar o crescimento e a dor!"
p. 83
"A criança sofre, o adolescente sofre. De onde nos vêm, então,
a saudade e a ternura pelos anos juvenis? Talvez porque nossa fraqueza fosse
uma força latente e em nós houvesse o germe de uma plenitude a
se realizar. Não havia ainda o constrangimento dos limites, nosso diálogo
com os seres era aberto, infinito. A percepção era uma aventura;
como um animal descuidado, brincávamos fora da jaula do estereótipo.
E assim foi o primeiro encontro da criança com o mar, com o girassol,
com a asa na luz. Ficou no adulto a nostalgia dos sentidos novos."
p. 86
"A informação pretende ser diferente das narrações
dos antigos: atribui-se foros de verdade quando é tão inverificável
quanto a lenda. Ela não toca no maravilhoso, se quer plausível.
A arte de narrar vai decaindo com o triunfo da informação. Ingurgitada
de explicações, não permite que o receptor tire dela alguma
lição. Os nexos psicológicos entre os eventos que a narração
omite ficam por conta do ouvinte, que poderá reproduzi-la à sua
vontade; daí o narrado possuir uma amplitude de vibrações
que falta à informação."
p. 87
"A informação só nos interessa enquanto novidade e
só tem valor no instante que surge. Ela se esgota no instante em que
se dá e se deteriora. Que diferente a narração! Não
se consuma, pois sua força está concentrada em limites como a
da semente e se expandirá por tempo indefinido."
/
"O receptor da comunicação de massa é um ser desmemoriado.
Recebe um excesso de informações que saturam sua fome de conhecer,
incham sem nutrir, pois não há lenta mastigação
e assimilação. A comunicação em mosaico reúne
contrastes, episódios díspares sem síntese, é a-histórica,
por isso é que seu espectador perde o sentido da história."
p. 88
"os tempos em que o tempo não contava, em que o artesão ia
entalhando, esculpindo como se imitasse a paciente obra da natureza, obtendo
tonalidades novas com uma série de camadas sutis e transparentes."
p. 89
"Qual a função da memória? Não reconstrói
o tempo, não o anula tampouco. Ao fazer cair a barreira que separa o
presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além,
ao qual retorna tudo o que deixou à luz do sol. Realiza uma evocação:
o apelo dos vivos, a vinda à luz do dia, por um momento, de um defunto.
É também a viagem que o oráculo pode fazer, descendo, ser
vivo, ao país dos mortos pára aprender a ver o que quer saber."
p. 90
"a impossibilidade de separar a memória do conselho e da profecia."
/
"A memória é a faculdade épica por excelência.
Não se pode perder, no deserto dos tempos, uma só gota da água
irisada que, nômades, passamos do côncavo de uma para outra mão,
a história deve reproduzir-se de geração a geração,
gerar muitas outras, cujos fios se cruzem, prolongando o original, puxados por
outros dedos."
/
""Eu não sabia", diz uma criança a um escultor,
"que dentro daquele bloco de pedra estava esse cavalo que você tirou."
p. 91
"O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister:
ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento
de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu
da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até
o fim, sem medo. Uma atmosfera sagrada circunda o narrador."
[Pulei o capítulo 3 que contém transcrições das lembranças de velhos]
p. 406
"um objeto vai ganhando concreção à medida que outras
pessoas dele têm conhecimento e se comunicam com a criança, reafirmando
sua presença."
p. 407
"Somos, de nossas recordações, apenas uma testemunha, que
às vezes não crê em seus próprios olhos e faz apelo
constante ao outro para que confirme a nossa visão."
/
"De uma vibração em uníssono com as idéias
de um meio passamos a ter, por elaboração nossa, certos valores
que derivaram naturalmente de uma práxis coletiva. E reflexões,
que escutamos e que calharam bem com nosso estado de alma, estão a um
passo da assimilação, e do esquecimento da verdadeira fonte."
p. 408
"Existem valores e diretrizes para a ação que às vezes
não puderam desabrochar no meio primitivo em que os vimos formulados.
É possível que limitações daquele grupo o fizessem
guardar essa substância valorativa em estado virtual. Um de seus membros,
depositário de sua substância implícita, pode vir a realizá-la
em outro grupo onde encontrou solo favorável. Mas, é possível
também que esqueça as raízes distantes de sua ação
atual. Seria preciso que os membros do antigo grupo ainda estivessem perto dele,
reavivando-lhe a memória."
p. 412
"E admirava o autor de seu livro de geografia, Reclus, que era anarquista,
e só comia pão porque era o que a humanidade pobre podia comer."
p. 413
"cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória
coletiva. Nossos deslocamentos alteram esse ponto de vista: pertencer a novos
grupos nos faz evocar lembranças significativas para este presente e
sob a luz explicativa que convém à ação atual. O
que nos parece unidade é múltiplo. Para localizar uma lembrança
não basta um fio de Ariadne; é preciso desenrolar fios de meadas
diversas, pois ela é um ponto de encontro de vários caminhos,
é um ponto complexo de convergência dos muitos planos do nosso
passado."
p. 414
"O grupo é suporte da memória se nos identificamos com ele
e fazemos nosso seu passado."
/
'é preciso estar sempre confrontando, comunicando e recebendo impressões
para que nossas lembranças ganhem consistência."
p. 415
"A infância é larga, quase sem margens, como um chão
que cede a nossos pés e nos dá a sensação de que
nossos passos afundam. Difícil transpor a infância e chegar à
juventude."
/
"Pode às vezes a pessoa fixar-se no ponto de vista de um certo ano
de sua vida."
/
"A partir da idade madura, a pobreza dos acontecimentos, a monótona
sucessão das horas, a estagnação da narrativa no sempre
igual pode fazer-nos pensar num remanso da correnteza. Mas, não: é
o tempo que se precipita, que gira sobre si mesmo em círculos iguais
e cada vez mais rápidos sobre o sorvedouro."
/
"a sucessão de etapas na memória é toda dividida por
marcos, pontos onde a significação da vida se concentra."
p. 416
"Um dia inteiro pode dividir-se em antes e depois de uma visita esperada."
/
"Mais que os astros, pode o tempo social, que recobre a passagem dos anos
e das estações. À medida que o tempo social se empobrece
de acontecimentos, se afina e esgarça, vai pondo a nu aquele tempo vazio,
sem aparas, como um chão infinito, escorregadio, em que os passos deslizam."
/
"Tempo que vence e muda os seres mais resistentes."
/
"o tempo não passa, o tempo é estático, o tempo é,
nós é que estamos passando pelo tempo." (Abel Ribas)
p. 417
"O primeiro dia de aula, a perda de uma pessoa amada, a formatura, o começo
da vida profissional, o casamento dividem nossa história em períodos.
Nem sempre conseguimos fixar tais divisões na data de um tempo exterior.
Quando as marés de nossa memória já roeram as vigas, o
fato deriva ao sabor das correntezas."
/
"O operário mergulha na vertigem do tempo vazio em que sua vida
se decompõe para que o objeto da indústria se integre e se componha."
p. 419
"Conhecemos a tendência da mente em remodelar toda experiência
em categorias nítidas, cheias de sentido e úteis para o presente.
Mal termina a percepção, as lembranças já começam
a modificá-la: experiências, hábitos, afetos, convenções
vão trabalhar a matéria da memória. Um desejo de explicação
atua sobre o presente e sobre o passado, integrando suas experiências
nos esquemas pelos quais norteia sua vida."
/
"em sua busca de significado os sujeitos agregam o material numa configuração
mais simples e de conteúdo mais claro. A elaboração com
aumento de complexidade é rara: em geral se esquematiza mais do que se
elabora. Pode, no entanto, um aspecto original acentuar-se, em detrimento de
outros que se apagam, seguindo a linha dos interesses, preconceitos e preferências
dos indivíduos."
/
"[Bartlett] verificou nas sucessivas versões o mesmo tipo de mudança
que a memória individual operava, porém em grau mais acelerado.
No caso em que o sujeito viu, houve sempre um encontro face a face com o objeto
original. Quando ele ouviu falar, a desfiguração é mais
rápida, porque se um membro da série cai num erro de identificação,
este se acentua à medida que se difunde."
p. 420
"Será a memória individual mais fiel que a social? Sim, enquanto
a percepção original obrigar o sujeito a conter as distorções
em certos limites porque ele viu o fenômeno. Mas o quando, o como, entram
na órbita de outras motivações. Se a memória grupal
pode sofrer os preconceitos e tendências do grupo, sempre é possível
um confronto e uma correção dos relatos individuais e a história
salva-se de espelhar apenas os interesses e distorções de cada
um."
p. 421
"Curiosa é a expressão meu tempo usada pelos que recordam.
Qual é o meu tempo, se ainda estou vivo e não tomei emprestada
minha época a ninguém, pois ela me pertence tanto quanto a outros,
meus coetâneos?"
/
"O tempo que o homem considera como seu é aquele onde ele concebe
e executa suas empresas... A época pertence aos homens mais jovens que
nela se realizam por suas atividades, que animam com seus projetos."
p. 422
"a apreensão do tempo dependente da ação passada e
da presente, diversa em cada pessoa. Um tempo que fosse abstrato e a-social
nunca poderia abarcar lembranças e não constituiria a natureza
humana."
p. 423
"Quem penetra um grupo familiar, através do matrimônio, por
exemplo, encontrará uma atmosfera à qual deve adaptar-se; uma
unidade e coesão que se defende o quanto pode da mudança. Essa
atmosfera própria, essa força de coesão lhe vem do fato
de que ela representa uma mediação entre a criança e o
mundo. todos os acontecimentos de fora chegam até a criança filtrados
e interpretados pelos parentes. Hoje se impõem como mediações
também os meios de comunicação."
p. 424
"Há episódios antigos que todos gostam de repetir, pois a
atuação de um parente parece definir a natureza íntima
da família, fica sendo uma atitude-símbolo. Reconstituir o episódio
é transmitir a moral do grupo e inspirar os menores."
p. 425
"De onde vem, ao grupo familiar, tal força de coesão? Em
nenhum outro espaço social o lugar do indivíduo é tão
fortemente destinado. Um homem pode mudar de país; se brasileiro, naturalizar-se
finlandês; se leigo, pode tornar-se padre; se solteiro, tornar-se casado;
se filho, tornar-se pai; se patrão, tornar-se criado. Mas o vínculo
que o ata à sua família é irreversível; será
sempre o filho da Antônia, o João do Pedro, o "meu Francisco"
para a mãe. Apesar dessa fixidez de destino nas relações
de parentesco, não há lugar onde a personalidade tenha maior relevo.
Se, como dizem, a comunidade diferencia o indivíduo, nenhuma comunidade
consegue como a família valorizar tanto a diferença de pessoa
a pessoa."
p. 425 - 426
"Examinamos criticamente, longamente, nossos parentes. Vai-se formando
de cada um, em nós, uma imagem complexa e rica de nuanças, capaz
de abranger mudanças de comportamento que parecem inexplicáveis
aos de fora. Segundo Halbwachs, em nenhum outro lugar da vida social a convenção
importa menos. Julgamos um parente pelo que ele é na vida diária
e não por seu status, dinheiro, prestígio. A face que ele mostra
a outros grupos não é a mesma que se expõe ao julgamento
concreto dos seus."
p. 427
"Se nossos mortos recuam, se a distância se alonga entre nós,
a culpa não é do tempo, mas da dispersão do grupo onde
viveram e que sentia necessidade de nomeá-los, de chamá-los de
vez em quando."
p. 428
"Eu dizia a minhas irmãs: 'Deus me livre do amor materno das outras
mães'. Porque elas para defenderem as filhas não têm caridade
com as filhas dos outros." (D. Jovina)
/
"A figura materna é alvo de uma apreensão de traços
espirituais, não físicos, também, como acontece com a figura
materna."
p. 429
"Sobre irmãos é preciso notar que na maioria das vezes são
fixados na infância e que depois sua figura empalidece e apenas sobrevive
no menino ou menina que foram. Sua personalidade se delineia na infância
e permanece assim."
p. 435
"Para enxergar as coisas nas suas antigas proporções, como
posso tornar-me de novo criança?"
/
"Quando queremos nos recordar do que nos aconteceu nos primeiros tempos
de nossa infância, confundimos seguidamente o que escutamos dos outros
com nossas próprias lembranças." (Goethe)
p. 436
"mudar é perder uma parte de si mesmo; é deixar para trás
lembranças que precisam desse ambiente para sobreviver."
p. 441
"Mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos
dão um assentimento à nossa posição no mundo, à
nossa identidade."
p. 442
"As coisas nos falam, sim, e por que exigir palavras de uma união
tão perfeita?"
p. 443
"O espaço que encerrou os membros de uma família durante
anos comuns há de contar-nos algo do que foram essas pessoas. Porque
as coisas que modelamos durante anos resistiram a nós com sua alteridade
e tomaram algo do que fomos."
/
"Apenas um momento do passado? Muito mais, talvez: alguma coisa que, comum
ao passado e ao presente, é mais essencial do que ambos." (Proust)
p. 445
"Os rádios não migram para o Sul no inverno, as escavadoras
não hibernam e os transportes não dormem à noite."
(M. Schaffer)
p. 464
"Há um modo de viver os fatos da história, um modo de sofrê-los
na carne que os torna indeléveis e os mistura com o cotidiano, a tal
ponto que já não seria fácil distinguir a memória
histórica da memória familiar e pessoal."
p. 467
"Memória povoada de nomes. São pessoas, e não conceitos
abstratos de "direita" e "esquerda", que têm peso
e significam."
p. 468
"Parece ser próprio do animal simbólico valer-se de uma só
parte do seu organismo para exercer funções diversíssimas.
A mão sirva de exemplo." (Alfredo Bosi)
p. 472
"Seria trabalho perdido procurar alguma palavra de revolta nessas memórias
de sacrifício e exploração. D. Alice vê o trabalho
com uma atividade natural, como o comer e dormir. É uma necessidade."
p. 474
"A recordação é tão viva, tão presente,
que se transforma no desejo de repetir o gesto e ensinar a arte a quem o escuta."
p. 480
"Quem diria que um dia eu ia abrir o livro da minha vida e contar tudo?"
(D. Alice)
/
"O fazer do adulto ativo inibia o lembrar, mesmo porque o "lembrar"
da memória-hábito bergsoniana é uma operação
já plenamente integrada e absorvida pelos gestos e mecanismos da profissão.
Na velhice, quando já não há mais lugar para aquele "fazer",
é o lembrar que passa a substituir e assimilar o fazer. Lembrar agora
é fazer. É por isso que o velho tende a sobrestimar aquele fazer
que já não se faz."
p. 481
"um movimento peculiar à memória do velho que tende a adquirir,
na hora da transmissão aos mais jovens, a forma de ensino, de conselho,
de sabedoria."
Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., abril de 2000