BACHELARD, Gaston. O novo espírito científico. 2a. Ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995. 151p.; 18 cm.
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Citações...
p. 11
"todo homem, em seu esforço de cultura científica, apóia-se
não sobre uma, mas antes sobre duas metafísicas e [...] estas
duas metafísicas naturais e convincentes, implícitas e tenazes,
são contraditórias."
p. 13
"Toda aplicação é transcendência."
p. 14
"Na proporção em que esta hipótese esteve ligada à
experiência, ela deve ser tida por tão real quanto a experiência."
/
"a hipótese é síntese."
p. 15
"o verdadeiro pensamento científico é metafisicamente indutivo;
[...] ele lê o complexo no simples, diz a lei a propósito do fato,
a regra a propósito do exemplo."
/
"Como diz Nietzsche: tudo que é decisivo só nasce apesar
de. Isso é tão verdade no mundo do pensamento como no mundo da
ação. Toda verdade nova nasce apesar da evidência, toda
experiência nova nasce apesar da experiência imediata."
p. 16
"E esta novidade é profunda, porque não é a novidade
de um achado, mas a novidade de um método."
/
"uma experiência bem feita é sempre positiva."
p. 17
"as relações entre a teoria e a experiência são
tão estreitas que nenhum método, seja experimental seja racional,
não está seguro de manter seu valor. Pode-se mesmo ir mais longe:
um método excelente acaba por perder sua fecundidade se não se
renova seu objeto."
/
"a ciência simplifica o real e complica a razão."
p. 18
"Acima do sujeito, além do objeto imediato, a ciência moderna
se funda sobre o projeto."
/
"Não se pode chegar à objetividade senão expondo de
uma maneira discursiva e detalhada um método de objetivação."
p. 19
"A razão taumaturga traça seus quadros sobre o esquema de
seus milagres."
/
"Após ter formado, nos primeiros esforços do espírito
científico, uma razão à imagem do mundo, a atividade espiritual
da ciência moderna dedica-se a construir um mundo à imagem da razão."
p. 21
"os caracteres complementares devem ser inscritos na essência do
ser, em ruptura com a tática crença de que o ser é sempre
o signo da unidade."
p. 26
"antes de chegar ao período de discórdia, lembremos primeiro
a longa unidade."
/
"o realismo prematuro é um desconhecimento profundo da natureza
do problema."
p. 27
"Seu método ultrapassa levemente o alcance de um raciocínio
por absurdo."
p. 27 a 28
"Então a simplicidade não será mais [...] a qualidade
intrínseca de uma noção, mas somente uma propriedade extrínseca
e relativa, contemporânea da aplicação, apreendida numa
relação particular."
p. 28
"De um modo geral, o que se reconhece verdadeiramente igual nas aplicações
mais diversas, eis o que pode servir de fundo para a definição
da realidade material."
p. 29
"deseja provar o movimento, avançando."
/
"Pois que não se chega a demonstrar diretamente a proposição
[...], tomemo-la como uma verdade a estabelecer por absurdo. Substituamos pois
esta proposição pela proposição contrária.
Tiremos conclusões do quadro dos postulados assim modificado. Estas conclusões
não podem deixar de ser contraditórias. Por conseguinte, já
que o raciocínio é bom, é a proposição tomada
como base que está errada. É preciso, pois, restabelecer completamente
a proposição [...], que assim é validada."
p. 30
"Os euclidianos acreditaram que se negava sua geometria, enquanto que não
se fazia mais do que generalizá-la." [Houel]
p. 31
"diga-me como te transformas, que te direi quem és."
p. 31 a 32
"É enquanto relações que elas têm uma realidade
e não por referência a um objeto, a uma experiência, a uma
imagem da intuição. [...] de um lado, a desconcretização
das noções de base e, do outro lado, a concretização
das relações entre estas noções descoloridas."
p. 32
"a independência dos postulados encarregados de ligar os objetos
deve ser absoluta e todo postulado deve poder ser substituído pelo postulado
contrário."
p. 33
"se um monte de relações manifesta uma coerência, este
pensamento de coerência vai pouco a pouco duplicar-se de uma necessidade
de complemento que determinará acréscimos."
/
"o que é a crença na realidade, qual é a função
metafísica primordial do real? É essencialmente a convicção
de que uma entidade ultrapassa seu dado imediato, ou, para falar mais claramente,
é a convicção de que se encontrará mais no real
oculto do que no dado evidente."
/
"todas estas belas formas, suprimamô-las de nossa lembrança,
as coisas não são mais do que letras!"
/
"todas estas claras relações não são senão
sílabas que se associam de uma maneira estritamente abracadabrante!"
/
"as sílabas associadas formam uma palavra, uma verdadeira palavra,
que fala à Razão e encontra, na Realidade, uma coisa a evocar."
/
"Este súbito valor semântico é de essência totalitária;
aparece com a frase acabada, não com a raiz."
/
"no momento em que a noção se apresenta como uma totalidade,
desempenha o papel de uma realidade."
p. 33 a 34
"Lendo algumas páginas do formulário de Peano, Poincaré
se queixava de não compreender o peaniano. Isso é porque ele o
tomava ao pé da letra, no descozido das convenções, como
um vocabulário, sem querer empregá-lo realmente. Basta aplicar
as fórmulas de Peano para sentir que elas duplicam o pensamento, que
elas o exercitam, regularizando-o, sem que se saiba bem onde reside a força
do treino psicológico, pois que a dialética da forma e da matéria
atua mais profundamente do que se crê em todos os nossos pensamentos."
p. 34
"construindo uma axiomática, procura-se não parecer utilizar
o que a ciência que se funda já ensinou, mas verdadeiramente não
é senão a propósito de coisas conhecidas que se estabelece
uma axiomática." [Juvet]
/
"E aí está um jogo inteiramente novo; necessita planos de
consciência diversos, um inconsciente afetado, mas atuante."
p. 35
"Vemos imediatamente que dois deslocamentos sucessivos podem ser substituídos
por um só que é chamado o produto dos dois primeiros. Naturalmente,
uma série qualquer de deslocamentos quaisquer pode ser substituída
por um único deslocamento. Aí está a simples razão
que faz com que os deslocamentos formem um grupo."
/
"Aí está uma verdade experimental ou uma verdade racional?"
p. 36
"No fluxo torrencial dos fenômenos, na realidade incessantemente
móvel, o físico discerne permanências; para delas fornecer
uma descrição, seu espírito constrói geometrias,
cinemáticas, modelos mecânicos, cuja axiomatização
tem por objetivo precisar... o que, na falta de um termo melhor, chamaremos
ainda a compreensão útil dos diversos conceitos cuja experiência
ou observação sugeriram a construção. Se a axiomática
assim edificada é a representação de um grupo cujos invariantes
admitem por traduções, na realidade, as permanências que
a experiência descobriu, a teoria física está isenta de
contradições e é uma imagem da realidade." [Juvet]
p. 38
"mas é um rodeio inútil, até mesmo arriscado, pois
que não se chega a imaginar claramente esta contração do
cheio."
p. 39
"Não se trata de duas linguagens ou de duas imagens, menos ainda
de duas realidades espaciais; o que está em jogo, são dois planos
de pensamento abstrato, dois sistemas diferentes de racionalidade, dois métodos
de pesquisa."
p. 43
"um tipo maravilhosamente transparente de pensamento fechado; dele não
se podia sair a não ser por arrombamento."
p. 44
"Não se vai do primeiro ao segundo acumulando conhecimentos, redobrando
os cuidados nas medidas, retificando ligeiramente os princípios. É
preciso, ao contrário, um esforço de novidade total. Segue-se,
pois, uma indução transcendente e não uma indução
amplificante, indo do pensamento clássico ao pensamento relativista."
/
"Ela [a Relatividade] nasceu de uma reflexão sobre os conceitos
iniciais, de uma colocação em dúvida das idéias
evidentes, de um desdobramento funcional das idéias simples."
p. 45
"o Relativista nos obriga a incorporar nossa experiência em nossa
conceptualização. Ele nos lembra que nossa conceptualização
é uma experiência."
/
"Descobrimos então que a noção de tempo absoluto,
ou mais exatamente a noção da medida única do tempo, isto
é, de uma simultaneidade independente do sistema de referência,
não deve sua aparência de simplicidade e de imediata realidade
que a um defeito de análise." [Brunschvicg]
p. 46
"a procura de um objeto minúsculo é uma experiência
delicada e [...] esta experiência, desde que seja precisa, desloca o objeto,
desde que ele seja miúdo. A experiência faz corpo pois com a definição
do Ser. Toda definição é uma experiência".
p. 47
"Mas é a possibilidade deste artifício e desta composição
que é instrutiva."
p. 49
"Vê-se claramente que alguma coisa se move, mas não se sabe
bem o que."
p. 50
"acharemos, após tudo, que não é fácil evitar
uma tal ambigüidade." [Darrow]
/
"é o real e não o conhecimento que traz a marca da ambigüidade."
p. 51
"o pensamento se modifica em sua forma se se modifica em seu objeto."
/
"É no momento em que um conceito muda de sentido que ele tem mais
sentido."
/
"Esclarece ainda de maneira estranha e nova o que passava por claro em
si."
p. 53
"Antes da era matemática, durante a época do sólido,
era preciso que o Real designasse ao físico, numa prodigalidade de exemplos,
a idéia a generalizar: o pensamento era então um resumo de experiências
completas. Na nova ciência relativista, um único símbolo
matemático cuja significação é prolixa designa os
mil traços de uma realidade oculta: o pensamento é um programa
de experiências a realizar."
p. 54
"Pensa-se nisso como em alguma coisa que poderia ter sido; com razão,
porque é preciso nunca negligenciar, em idéia, nenhuma das possibilidades
que voam em torno de uma figura, elas pertencem ao original, mesmo contra a
verossimilhança." [Mallarmé]
/
"O possível é homogêneo ao Ser."
/
"estes termos ilusórios que se introduzem, como figurantes, para
completar formalmente pensamentos e que desaparecerão sem deixar vestígios,
eliminados nas verificações finais."
/
"o espírito científico não pode se contentar com pensar
a experiência presente em seus traços marcantes, é preciso
que ele pense todas as possibilidades experimentais."
p. 55
"permite apoiar-se sobre experiências possíveis. Basta que
elas sejam possíveis."
/
"Encontra-se o real como um caso particular do possível."
/
"não há desenvolvimento das antigas doutrinas para as novas
mas antes pelo contrário envolvimento dos antigos pensamentos pelos novos.
As gerações espirituais procedem por encaixes sucessivos. Do pensamento
não-newtoniano ao pensamento newtoniano, não há tampouco
contradição, há somente contração."
p. 59
"o materialismo tende ainda a limitar a matéria: recusando-lhes
qualidades a distância pela proibição de agir onde ela não
está."
p. 60
"o enigma metafísico mais obscuro reside na intersecção
das propriedades espaciais e das propriedades temporais. Este enigma é
difícil de enunciar, precisamente porque nossa linguagem é materialista,
porque se crê poder, por exemplo, enraizar a natureza de uma substância
numa matéria plácida, indiferente à duração."
/
"Enunciemos o problema sob uma forma tão polêmica quanto possível."
/
"Wurtz funda o atomismo sobre este antigo argumento que não se pode
'imaginar movimento sem alguma coisa que se move'. A este argumento, a microfísica
estaria tentada a responder pela recíproca: 'não se pode imaginar
uma coisa sem colocar alguma ação desta coisa'."
p. 61
"quanto menor é o objeto, melhor ele realiza o complexo espaço-tempo,
que é a própria essência do fenômeno."
/
"é a noção de energia que forma o traço de
união mais fecundo entre a coisa e o movimento; é por intermédio
da energia que se mede a eficacidade de uma coisa em movimento, é por
este intermédio que se pode ver como um movimento torna-se uma coisa."
p. 62
"o bastão que espanca Scapin não prova a existência
do mundo exterior. Este bastão não existe. Não existe senão
sua energia cinética." [Ostwald]
/
"a matéria é o imaterial em movimento." [Karl Pearson]
p. 63
"a matéria é energia e [...] reciprocamente a energia é
matéria."
/
"Esta substituição do verbo ser ao verbo ter, voltaremos
a encontrar em muitos pontos da nova ciência."
p. 64
"Estudando as flutuações da quantidade, teremos meios para
definir o caráter indefinível das qualidades particulares."
/
"os laços substantivos foram afrouxados e [...] não há
mais do que os laços da linguagem que nos ligam ao realismo imediato.
A imensa abóbada do céu parece-nos azulada, mas todo esse azul
não é mais para nós uma verdadeira propriedade substancial.
O azul do céu tem tão pouca existência quanto a abóbada
do céu."
/
"é porque um átomo recebe ou abandona energia que ele muda
de forma; não é porque ele muda de forma que ele perde ou ganha
energia."
/
"Sejamos pois tão pouco realistas quanto possível."
/
"Virá um momento em que poderemos falar de uma configuração
abstrata, de uma configuração sem figura; após ter elevado
a imaginação"
p. 65
"Enquanto que a matéria se apresenta à intuição
ingênua em seu aspecto localizado, como desenhada, como encerrada, como
encerrada num volume bem limitado, a energia permanece sem figuras; não
se lhe dá uma configuração senão indiretamente,
ligando-a ao número. A energia pode, aliás, sob forma potencial,
ocupar um volume sem limite preciso; ela pode atualizar-se em pontos particulares.
Maravilhoso conceito considerado como um intermediário numérico
entre o potencial e o atual, entre o espaço e o tempo! Por seu desenvolvimento
energético, o átomo é devir tanto como ser, é movimento
tanto como coisa."
p. 66
"É o movimento sem suporte que não somente se apóia
sobre um suporte material encontrado por acaso, mas que cria subitamente seu
suporte. E ele o cria em tais condições de solidão, inanidade,
ausência de todas as coisas, que bem se pode dizer que se assiste à
criação da matéria a partir da irradiação,
da coisa a partir do movimento."
p. 67
"as idéias simples têm necessidade de serem complicadas para
poder explicar os microfenômenos."
/
"A experiência usual do espelho é, de saída, tão
simples, tão distinta, tão geométrica, que ela poderia
ser colocada na base da conduta científica."
p. 69
"uma descoberta muito importante permanecia encoberta pela própria
explicação."
/
"a molécula reage acrescentando à irradiação
recebida suas características irradiantes próprias. A vibração
que vem tocar a molécula não ricocheteará como um objeto
inerte, nem tampouco como um eco mais ou menos abafado; ela terá um outro
timbre, pois que vibrações múltiplas virão aí
se acrescentar."
p. 70
"um tal encontro não é um choque mecânico, não
é tampouco uma reflexão óptica, inteligível pela
conduta do espelho. É um acontecimento ainda mal elucidado"
p. 70 a 71
"Que poeta nos dará as metáforas desta nova linguagem? Como
chegaremos a imaginar a associação do temporal e do espacial?
Que idéia suprema sobre a harmonia permitir-nos-á conciliar a
repetição no tempo com a simetria no espaço?"
p. 71
"nossas intuições temporais são ainda muito pobres,
resumidas em nossas intuições de começo absoluto e de duração
contínua."
/
"Este tempo sem estrutura parece à primeira vista apto a receber
livremente todos os ritmos; mas esta facilidade é ilusória, põe
a realidade do tempo na conta do contínuo, na conta do simples, enquanto
que todas as ações maravilhosas do tempo neste novo domínio
da microfísica relevam evidentemente do descontínuo. Aqui o tempo
opera mais pela repetição do que pela duração."
/
"como se as estruturas não pudessem ser modificadas senão
por ritmos."
p. 72
"ontologia estatística das substâncias."
p. 73 a 74
"é a exclusão sistemática do mesmo, é o apelo
ao outro. No interior de todo sistema, ou melhor, para que elementos componham
um sistema, é preciso uma diversidade matemática essencial entre
os componentes. Não poderão ser idênticas senão substâncias
químicas sem reação, indiferentes umas às outras
como mundos fechados."
p. 74
"Bastaria ser exigente na definição ultraprecisa de uma reação
expressada em todo seu detalhe energético para que a substância
se desvaneça como a esperança de um jogador num jogo demasiado
arriscado. Sem dúvida, há razões de estabilidade, mas é
preciso procurá-las na lei dos grandes números; sem dúvida,
há conhecimentos empíricos sólidos, mas é preciso
procurá-los num nível de imprecisão suficientemente tolerante."
p. 79
"quão mal instruídos somos pela experiência imediata,
a que ponto somos vítimas do caráter unilateral de nossa experiência
mecânica inicial."
/
"Temos tanto a aprender dos fluidos como dos sólidos."
p. 80
"recebe-se de saída - excelente higiene intelectual - o choque dos
paradoxos"
/
"Elas não são mais noções simples, imediatas,
claras e distintas. Elas não são mais explicativas."
/
"como um elemento complexo, como um elemento construído pela síntese
e não mais isolado pela análise."
p. 81
"a existência do corpúsculo tem uma raiz em todo o espaço."
/
"não se concebe mais o ponto material como uma entidade estática
não interessando senão uma região ínfima do espaço,
mas como o centro de um fenômeno periódico inteiramente espalhado
à sua volta." [Louis de Broglie]
/
"Como também atribuir-se-ia uma velocidade estritamente definida
ao corpúsculo já que não se pode mais falar de sua identidade
no tempo? Todas as imagens da mecânica do ponto atrapalham-se umas às
outras: já que não se pode mais reconhecer o corpúsculo,
não se pode mais reencontrá-lo, não se pode mais segui-lo
pelo rasto. Ele já não deixa, portanto, mais rasto. Seu movimento
não se traduz, propriamente falando, sobre uma trajetória. Sua
matéria escapa totalmente ao princípio de identidade, ao princípio
de conservação mais fundamental. Considerado como soma dos fenômenos
vibratórios, é antes reconstruído que conservado."
/
"Tornar indireto o que era direto, encontrar o mediato no imediato, o complexo
no simples."
p. 82
"Saltar este domínio proibido, não é percorrê-lo;
é ao contrário romper com os princípios da medida contínua."
/
"o irracional [pode] dissolver-se em formas racionais apropriadas. O irracional
não é, pois, um absoluto. Quanto mais solto é o espírito,
menos compacto é o irracional."
p. 83
"os hábitos psicológicos antigos roubam a flexibilidade necessária
a um pensamento em acordo absoluto com a ciência contemporânea."
p. 84
"Toda experiência de medida não pode fornecer mais que o valor
médio da amplitude numa região do espaço e num intervalo
de tempo que não podem ser reduzidos a um ponto e a um instante."
p. 85
"Elas são claras senão se estão isoladas. Elas devem
em suma permanecer imagens e não pretender representar realidades profundas.
Estas imagens serão entretanto instrutivas se soubermos tomá-las
como duas fontes de analogias, se nos exercemos em pensar uma pela outra tanto
quanto em limitar uma pela outra."
/
"Precisamos de bem outra coisa ao invés de simples princípios
fundamentais: devemos, em particular, adquirir formas de pensamento que nos
permitam prever fenômenos muito complicados para que se possa tratá-los
mecanicamente de um modo completo. Creio que para forjar estas novas formas
de pensamento, deveríamos levar em conta o fato de que o espírito
humano é dotado de uma inércia muito grande, e também,
poderíamos dizer, de uma grande viscosidade: desloca-se sempre muito
preguiçosamente de uma posição de equilíbrio para
outra... Se desejamos alcançar mais rapidamente o equilíbrio,
deveremos aplicar durante um tempo muito breve uma força bem superior
à que é estritamente necessária para realizá-lo."
[C. G. Darwin]
p. 87
"é preciso convencer-se de que se deve falar antes de realização
que de realidade."
/
"Com efeito, por que se procuraria uma espécie de ligação
causal entre o corpúsculo e a onda se se trata unicamente de duas imagens,
de dois pontos de vista tomados sobre um fenômeno complexo?"
p. 88
"o espaço comum, que não deve mais ser tomado, no novo pensamento,
senão como um meio de ilustração, um lugar propício
para nossas imagens, sem nunca poder ser a entretela adequada das relações
completas."
p. 89
"a onde é um quadro de jogos, o corpúsculo é uma chance."
p. 93
"Se alguma coisa é fatal em nossa vida, é porque uma estrela
nos domina e nos arrasta."
p. 94
"o fenômeno terrestre tem uma diversidade e uma mobilidade imediatas
demasiado manifestas para que se possa nelas encontrar, sem preparo psicológico,
uma doutrina do Objetivo e do Determinismo. O Determinismo desceu do Céu
à Terra.
p. 96
"O determinismo vai de nó em nó, de uma causa bem definida
a um efeito bem definido. Basta considerar o entrenó para ver processos
particulares dos quais tacitamente se postulou a ineficacidade."
/
"Não há portanto determinismo sem uma escolha, sem um afastamento
dos fenômenos perturbantes ou insignificantes. Muito freqüentemente,
aliás, um fenômeno é insignificante porque se negligencia
interrogá-lo. No fundo, o espírito científico não
consiste tanto em observar o determinismo dos fenômenos como em determinar
os fenômenos, como em tomar as precauções para que o fenômeno
definido previamente se produza sem excessivas deformações."
p. 98
"O determinismo científico se prova nos fenômenos simplificados
e solidificados: o causalismo é solidário do coisismo."
p. 100
"A prova será tanto mais convincente quanto o fenômeno for
descrito com maior exatidão. Mas esta exatidão tem limites. É
então que se será obrigado a confessar uma ligeira ignorância,
uma ligeira flutuação na predição."
/
"Se a menor dúvida se manifesta, é a tais exageros que se
recorrerá para recobrar fé."
/
"Mas reconhecer não é conhecer. Reconhece-se facilmente o
que não se conhece."
/
"Apenas o determinismo niilista termina a polêmica interminável
da prova positiva. A comunhão dos espíritos se realiza na negação.
A união objetiva perfeita se funda sobre uma espécie de não-objeto."
p. 103
"uma qualidade que não pertence aos componentes pertence, contudo,
ao composto."
/
"o objeto individual é indeterminado, a classe determinada."
p. 104
"se supomos a indeterminação de um fenômeno, supomos
igualmente sua independência."
/
"O homo faber prejudica o homo aleator; o realismo prejudica a especulação."
p. 105
"Apesar de suas bases incertas, a fenomenologia probabilitária já
realizou construções notáveis."
/
"Não seria preciso crer que probabilidade e ignorância sejam
sinônimas do fato de que a probabilidade se apoie sobre a ignorância
das causas."
p. 106
"O tempo se encarrega de realizar o provável."
p. 108
"pode haver convergência da experiência para o determinismo,
mas definir o determinismo de outro modo que como uma perspectiva convergente
de probabilidade é cometer um erro insigne."
/
"Nada prova a priori [...] que a probabilidade de qualquer espécie
de fenômeno tenha necessariamente uma convergência para a unidade."
p. 109
"não há, portanto, método de observação
sem ação dos processos do método sobre o objeto observado.
Há, portanto, uma interferência essencial do método e do
objeto."
p. 112
"as qualidades geométricas não têm nenhum direito a
serem chamadas qualidades primeiras. Não há mais do que qualidades
segundas, pois que toda qualidade e solidária de uma relação."
/
"Devemos lembrar-nos de que a linguagem humana permite formar proposições,
de que não podemos tirar nenhuma conseqüência, que são,
por assim dizer, completamente vazias de substância, ainda que elas produzam
em nossa imaginação uma espécie de imagem."
p. 113
"eles podem ser átomos de hidrogênio ou homens, mas não
este átomo de hidrogênio ou este homem. Eles não se distinguem
senão dos objetos exteriores a seu grupo, eles não se distinguem
dos objetos interiores."
/
"é preciso substituir ao artigo definido o artigo indefinido e limitar-se
a uma compreensão finita no objeto elementar, em relação
precisamente a sua extensão bem definida. Atingi-se de ora em diante
o real por sua pertinência a uma classe. É ao nível da classe
que será preciso procurar as propriedades do real."
p. 114
"é preciso renunciar à noção de objeto, de
coisa, pelo menos num estudo do mundo atômico. A individualidade é
um apanágio da complexidade, e um corpúsculo isolado é
demasiado simples para ser dotado de individualidade."
p. 116
"É preciso não esquecer que imaginamos com nossa retina e
não com a ajuda de uma faculdade misteriosa e toda poderosa."
/
"Não somos capazes de descer pela imaginação mais
baixo do que pela sensação. Em vão, liga-se um número
à imagem de um objeto para marcar a pequenez deste objeto: a imaginação
não segue a inclinação matemática. Não podemos
pensar senão matematicamente; do próprio fato do enfraquecimento
da imaginação sensível, passamos portanto ao plano do pensamento
puro onde os objetos não têm realidade senão em suas relações.
Eis aqui portanto um limite humano do real imaginado, noutras palavras, um limite
à determinação figurada do real."
p. 117
"há lugar para um pensamento não realista, para um pensamento
apoiando-se em seu próprio movimento."
/
"Instante efêmero, dir-se-á, que mal pode contar quando se
compara aos períodos de ciência adquirida, assentada, explicada,
ensinada. É contudo, aí, neste breve instante da descoberta, que
se deve apreender a inflexão decisiva do pensamento científico.
É restituindo estes instantes no ensino que se constitui o espírito
científico em seu dinamismo e sua dialética."
p. 121
"negar a perenidade dos melhores métodos."
/
"não há método de pesquisa que não acabe por
perder sua fecundidade inicial."
/
"Chega sempre uma hora em que não se tem mais interesse em procurar
o novo sob os traços do antigo, em que o espírito científico
não pode progredir senão criando novos métodos."
/
"Todo conceito acaba por perder sua utilidade, sua própria significação,
quando nos afastamos pouco a pouco das condições experimentais
em que ele foi formulado." [Jean Perrin]
/
"Os conceitos e os métodos, tudo é função do
domínio da experiência; todo o pensamento científico deve
mudar ante uma experiência nova; um discurso sobre o método científico
será sempre um discurso de circunstância, não descreverá
uma constituição definitiva do espírito científico."
/
"É preciso não confiar nada nos hábitos quando se
observa."
p. 122
"uma verdade demonstrada permanece constantemente sustentada não
sobre sua própria evidência, mas sobre sua demonstração."
[Dupréel]
/
"chegamos então a nos perguntar se a psicologia do espírito
científico não é pura e simplesmente uma metodologia consciente.
A verdadeira psicologia do espírito científico estaria assim bem
perto de ser uma psicologia normativa, uma pedagogia em ruptura com o conhecimento
usual."
/
"À medida que os conhecimentos se acumulam, ocupam menos lugar,
pois que se trata verdadeiramente de conhecimento científico e não
de erudição empírica."
p. 122 a 123
"a assimilação do irracional pela razão não
se dá sem uma reorganização recíproca do domínio
racional."
p. 123
"o método cartesiano que acerta tão bem em explicar o Mundo,
não chega a complicar a experiência, o que é a verdadeira
função da pesquisa objetiva."
/
"Diga-me como te procuramos, dir-te-emos que és."
p. 124
"o simples é sempre o simplificado; não poderia ser pensado
corretamente a não ser como o produto de um processo de simplificação."
/
"o pensamento científico contemporâneo procura ler o complexo
real sob a aparência simples fornecida por fenômenos compensados;
ele se esforça em encontrar o pluralismo sob a identidade, em imaginar
ocasiões de romper a identidade além da experiência imediata
demasiado cedo resumida num aspecto de conjunto."
/
"Quanto menor é o grão de matéria, mais realidade
substancial apresenta; diminuindo de volume, a matéria se aprofunda."
p. 125
"É preciso restituir ao fenômeno todas as suas solidariedades
e primeiramente romper com nosso conceito de repouso."
/
"não é clara por seus elementos, não é clara
senão em seu acabamento, por uma espécie de consciência
de seu valor sintético."
/
"toda intuição procederá de uma escolha."
p. 126
"Vemo-los completos porque os vemos separados."
/
"Assim como a idéia clara e distinta é totalmente desprendida
da dúvida, a natureza do objeto simples é totalmente separada
das relações com outros objetos."
/
"a construção não permanece clara a não ser
que ela se acompanhe de uma espécie de consciência da destruição."
p. 127
"substitui à clareza em si uma espécie de clareza operatória.
Longe de ser o ser a ilustrar a relação, é a relação
que ilumina o ser."
/
"o não-cartesianismo da epistemologia contemporânea não
poderia fazer-nos ignorar a importância do pensamento cartesiano, assim
como o não-euclidismo não pode fazer-nos desconhecer a organização
do pensamento euclidiano."
/
"É preciso, sem cessar, tomar consciência do caráter
completo do conhecimento, espreitar as oportunidades de extensão, prosseguir
todas as dialéticas."
p. 128
"A clareza de uma intuição é obtida de uma maneira
discursiva, por um esclarecimento progressivo, fazendo funcionar as noções,
variando os exemplos."
/
"regras e conselhos guardam, sem dúvida, um valor pedagógico."
p. 129
"Opiniões tão simples afastariam qualquer recurso aos paradoxos
tão úteis em suscitar."
p. 130
"É muito difícil de aí manter um jovem espírito
bastante tempo para que ele lhe penetre o valor."
/
"Na realidade, não há fenômenos simples; o fenômeno
é um tecido de relações."
/
"uma mina quase inesgotável de paradoxos epistemológicos."
/
"um átomo que possui vários elétrons é, em
certos aspectos, mais simples do que um átomo que apenas possui um só,
pois que a totalidade é mais orgânica numa organização
mais complexa."
p. 132
"Que importam as nuanças, os detalhes, as flutuações?
Não basta, para os 'compreender' a partir da lei, de rejeitá-los
à margem da lei?"
/
"Assim, o vento estira por muito tempo sem extirpar o animal fabuloso desenhado
na nuvem por uma intuição primeira, mas basta que nosso devaneio
se interrompa para que a forma entrevista fique irreconhecível."
p. 133
"Tirar-se-á disto esta conseqüência paradoxal que o caráter
hidrogenóide deverá ser estudado inicialmente num corpo que não
é o hidrogênio para ser bem compreendido no caso do próprio
hidrogênio."
p. 135
"Aliás, os traços mais aparentes não são sempre
os traços mais característicos; é preciso resistir a um
positivismo de primeiro exame. Se faltamos a esta prudência, arriscamos
de tomar uma degenerescência por uma essência."
p. 136
"Para aliviar este fracasso, lançar-se-á mão da idéia
de uma complexidade inextricável, de uma irracionalidade fundamental
do real?"
/
"Do lado experimental, de onde viria a clareza? Da estrutura hipermiúda."
/
"A estrutura hipermiúda, como a estrutura miúda, seriam portanto,
não uma exceção, mas a regra."
/
"Não se deverá falar mais de leis simples que seriam perturbadas,
mas de leis complexas e orgânicas às vezes tocadas de certas viscosidades,
de certos apagamentos. A antiga lei simples torna-se um simples exemplo, uma
verdade mutilada, uma imagem esboçada, um bosquejo copiado sobre um quadro."
p. 136 a 137
"Certamente voltamos a exemplos simplificados, mas é sempre apara
fins pedagógicos, por razões de explicação menor,
pois que o plano histórico permanece educativo, sugestivo, arrebatador."
p. 137
"Mas pagamos caro esta facilidade, como toda facilidade, esta confiança
no adquirido, este repouso nos sistemas. Arriscamos de tomar os andaimes pelo
arcabouço."
/
"a dualidade estática do racional e do irracional é suplantada
pelas dialéticas da racionalização ativa. O pensamento
acaba a experiência."
p. 138
"Como se vê, é sempre o mesmo problema: como contar com um
contador de esferas incompleto, como ler a lei dos grandes números em
pequenos números, como reconhecer a regra com todas suas exceções
num único exemplo que com toda evidência é uma exceção.
De uma maneira mais geral, em que o simples pode ilustrar o completo?"
/
"Em que sentido é preciso desenredar a meada? Por que não
completar o nó esgotando o poder de composição? Será
que as funções não se tornam mais claras em seu funcionamento
variado? Conhecer-se-á tanto melhor os laços do real quanto deles
se fizer um tecido mais cerrado, quanto se multiplicar as relações,
as funções, as interações."
p. 139
"Não há originalidade substancial - tampouco como originalidade
psicológica - que resiste a uma associação. É em
vão, pois, procurar o conhecimento do simples em si, do ser em si, pois
que é o composto e a relação que suscitam as propriedades,
é a atribuição que esclarece o atributo."
/
"A tese que defendemos é aliás perigosa, no sentido de que
ela contradiz a maneira habitual de designar dogmaticamente as noções
de base. Mas, por outro lado, a própria idéia de noção
de base pode parecer contraditória."
/
"A epistemologia não-cartesiana é, pois, por essência,
e não por acidente, em estado de crise."
p. 140
"Qual será, finalmente, a noção de base? Naturalmente
é prematuro responder a esta questão."
p. 141
"a explicação científica tende a acolher, em sua base,
elementos complexos e a não edificar senão sobre elementos condicionais,
não concedendo senão a título provisório, para funções
bem especificadas, o brevet de simplicidade. Esta preocupação
de manter aberto o corpo de explicação é característico
de uma psicologia científica receptiva."
/
"Manter uma espécie de dúvida recorrente aberta sobre o passado
de conhecimentos certos, eis ainda uma atitude que ultrapassa, prolonga, amplifica
a prudência cartesiana e que merece ser chamada não-cartesiana,
sempre no mesmo sentido em que o não-cartesianismo é cartesianismo
completado."
p. 142
"Mas um método puramente mecânico, que não exige ao
espírito de invenção nenhum esforço, não
pode ser realmente fecundo."
/
"não é mais nem a um acaso feliz nem a uma longa paciência
que devemos pedir a solução de um problema, mas a um conhecimento
aprofundado dos fatos matemáticos e de suas relações íntimas."
/
"um método de invenção mais do que um método
de resolução."
p. 143
"Ao primeiro fracasso, duvidou-se de tudo."
p. 144
"eu mudo com minha sensação que é, no momento em que
eu a penso, todo meu pensamento, porque sentir é pensar."
/
"Por que é o mesmo ser que sente a cera dura e a cera mole, enquanto
que não é a mesma cera que é sentida nas duas experiências
diferentes?"
/
"A cera escolhida é, pois, de algum modo, um momento preciso do
método de objetivação. Ela não reteve nada do odor
das flores de que foi recolhida, mas traz a prova dos cuidados que a depuraram.
Ela é, por assim dizer, realizada pela experiência artificial.
Sem a experiência artificial, uma tal cera - sob sua forma pura que não
é sua forma natural - não viria à existência."
p. 147
"Com efeito, a história humana bem pode, em suas paixões,
em seus preconceitos, em tudo que releva dos impulsos imediatos, ser um eterno
recomeço; mas há pensamentos que não recomeçam;
são os pensamentos que foram retificados, alargados, completados. Eles
não voltam a sua área restrita ou cambaleante. Ora, o espírito
científico é essencialmente uma retificação do saber,
um alargamento dos quadros do conhecimento. Julga seu passado histórico,
condenando-o. Sua estrutura é a consciência de suas faltas históricas.
Cientificamente, pensa-se o verdadeiro como retificação histórica
de um longo erro."
p. 148
"Não falta senão um pouco de vida social, um pouco de simpatia
humana."
p. 148 a 149
"É na surpresa criada por uma nova imagem ou por uma nova associação
de imagens, que é preciso ver o mais importante elemento do progresso."
[Juvet]
p. 149
"é o espanto que excita a lógica, sempre demasiado fria,
e que a obriga a estabelecer novas coordenações."
/
"Esta crise é, portanto, uma crise de crescimento normal."
p. 150
"Serã que uma razão geral e imutável chegará
a assimilar todos estes pensamentos espantosos? Poderá ela pô-los
não somente em ordem, mas sob sua ordem?"
/
"a persistência dos modos de pensamento através dos séculos,
reencontrando, mesmo nos espíritos modernos, traços duráveis
do pensamento por participação dos primitivos."
/
"Uma idéia que evolui é um centro orgânico que se aglomera."
/
"as idéias mais ousadas e mais fecundas são devidas a cientistas
muito jovens." [cf. Juvet]
p. 151
"elas reclamam tantos esforços que não parecem nada naturais.
Mas a natureza naturalmente está em ação até em
nossas almas."
/
"Esta felicidade intelectual é a marca principal do progresso."
/
"a pessoa mais evoluída sempre será, pela maior extensão
de seu horizonte, capaz de compreender as que lhe são inferiores,...
enquanto que o contrário não é possível." [Jean
Hering]
Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., junho de 2000