Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette
05.maio.2000

Os dez mandamentos - prescrição e referência
Eduardo Loureiro Jr.

Mesmo tendo esquecido de falar dos dez mandamentos do chato e ainda estupefato com os dez mandamentos da saúde da boca da gestante, farei um esforço de autodisciplina e seguirei adiante no meu propósito: fazer um remix dos dez mandamentos, adaptando-os ao tempo presente, o que não é nenhuma heresia já que o próprio Jesus Cristo já fez uma atualização, com cortes inclusive, há dois mil anos.

Jesus Em Verdade Vos Digo Cristo tinha um objetivo: revitalizar os antigos mandamentos, já que havia muita gente mandando e pouca gente tendo juízo. A gota d'água foi a alegação de que ele não poderia curar um doente em dia de sábado porque estaria contrariando o terceiro mandamento, que diz para santificar, não trabalhar, no dia do Senhor.

Os dez mandamentos haviam ficado obsoletos após alguns milhares de anos de uso. "Em todas as artes, e em todas as descobertas, a experiência sempre precedeu os preceitos" (Goldoni). Os dez mandamentos eram uma regra de proceder, uma norma, e novas formas de proceder começaram a pressionar os dez mandamentos - se é que a água mole não batia há muito tempo nessa pedra dura. Novas experiências pediam novos preceitos.

Os dez mandamentos, para Cristo, pareciam velhos em dois pontos: eram excessivamente prescritivos, indicavam ações específicas; e abordavam freqüentemente a ação do ponto de vista negativo (não pronunciarás o nome de Deus em vão, não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não prestarás falso testemunho, não cobiçarás a mulher do próximo, não cobiçarás coisa alguma do próximo).

Jesus resolveu simplificar as coisas e criar apenas dois mandamentos, um relativo a Deus e outro relativo aos homens.

Amar a Deus sobre todas as coisas substituiria o original "não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás" (Êxodo 20, 3-5). Era uma tentativa de transformar a ordem em um princípio.

Mas a grande jogada foi o segundo, amar ao próximo como a si mesmo. Era uma tentativa de se chegar a um princípio fundamental da relação entre os homens, acreditando que o que um homem quer para si mesmo ele também deveria querer para o outro. Faz lembrar Pierre Weil explicando o que é o amor: "É querer o bem, não do próximo, mas de todas as criaturas, inclusive bichos e plantas". Mas Jesus Cristo não era ecológico, e não quero colocar ibamas e greenpeaces na boca dele.

Se os mandamentos de Moisés - tudo bem, vá lá!, de Deus - duraram três mil anos antes de cair na obsolescência, era de se esperar que os dois mandamentos de Cristo, bem mais gerais e, por isso mesmo, bem mais maleáveis, durassem um pouco mais. No entanto, aqui estou eu diante das tábuas, quer dizer, do monitor de 15 polegadas da lei, tentando fazer uma versão remix dos mandamentos.

O que Jesus não desconfiava, ou talvez desconfiasse mas também tivesse alguma limitação de prazo do editor, é que ele havia retirado os mandamentos do domínio social. Tudo bem, o homem devia amar a Deus e amar ao próximo, mas o que deveria fazer com o gado, com o vinho e, por que não, com a mulher ou com o homem alheio?

Essa obra-prima de síntese que são os dois mandamentos, pau-para-toda-obra da ética, havia se livrado da prescrição, da imposição da ordem, da lei que vem de outrem, da heteronomia, mas deixava o campo aberto para a hipocrisia (afetação duma virtude, dum sentimento louvável que não se tem), para a impostura, o fingimento, a simulação, a falsidade, a falsa devoção enfim.

De onde a necessidade de uma versão remix dos mandamentos, que continue livre das prescrições mas que dê referências sociais para a ação autônoma. Ainda não foi desta vez que o espaço me deixou terminar. Quem sabe na próxima. Amai-vos.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto