Paisagens Urbanas (vídeo)
Nelson Brissac Peixoto

Falas da filósofa Olgária Matos

"Há pelo menos duas maneiras de nós abordarmos uma cidade. Existe a cidade superficial, racionalista, aquela onde triunfa a linha reta, onde o caminho que nós tomamos para chegar a uma determinada finalidade é o caminho da rotina, da repetição, do mesmo. Existe uma outra abordagem da mesma cidade, que não é a abordagem da cidade superficial, mas é aquela cidade subterrânea, a cidade da memória e é a cidade labiríntica."

"O caminhar pela cidade, ele pode nos surpreender a qualquer momento, desde que nós estejamos distraídos, desde que esse caminhar possa estar aberto para o inesperado. Esses lugares que têm o dom da profecia, ou seja, são capazes de nos fazer prever a nossa própria vida no instante mesmo em que nós nos deparamos com ele, depende apenas do acaso que nós o encontremos ou nunca o encontremos."

"A memória labiríntica é aquela que nos permite o acesso à cidade subterrânea que há em cada um de nós. Cada um de nós se assemelha mimeticamente à cidade na qual ele vive. Mas nós só temos acesso a essa cidade, a nossa própria história, através de uma memória involuntária, pois é uma memória inintencional e o inesperado de um detalhe do espaço ou de um acontecimento no tempo que podem transformar inteiramente o acesso a nossa própria história. Reabrir, por exemplo, o nosso passado."

"A rua é o único campo válido da experiência moderna. Porque uma rua, ela não é um espaço abstrato. Uma rua, ela concentra memórias e sentimentos. Uma rua é um lugar onde uma guerra aconteceu, um amor acabou, algo se passou. E a rua também, ela é testemunha dos grandes acontecimentos históricos. Por isso que a rua lateja fora e dentro daquele que vai mapeá-la, que vai atravessá-la."

"... os olhos se transformaram em dispositivo de segurança."

"Diz-se das cidades modernas que elas são heraclitianas: nós não passamos duas vezes na mesma rua sem que ela tenha mudado. Portanto, sem os suportes objetivos da memória, com o desaparecimento de ruas, monumentos, objetos que eram referenciais de nossa história, apenas a memória infantil é capaz de manter na subjetividade, na forma do segredo, esse contato e esse pacto interno com a cidade que não é mas a cidade visível, mas é a cidade invisível da sua própria memória. A criança desconhece o tempo de decadência. P ara uma criança uma cidade nunca é decadente. Porque o objeto mais recente da produção em série, como o objeto mais antigo, digamos, do tempo dos faraós, tanto um quanto o outro é visto pela criança pela primeira vez. Uma cidade, ela não se faz e não fica com aquilo que nós gostaríamos que ela tivesse e com aquilo que nós gostaríamos que nela ficasse. A cidade, ela não se faz com espaço. O arquiteto normalmente trabalha com o espaço, mas ele deveria trabalhar com o tempo. Portanto a cidade não é a ordem espacial, a cidade é a desordem das lembranças."

"As grandes galerias construídas no século XIX em ferro e vidro, elas são ao mesmo tempo o interior e o exterior. Porque o vidro, na sua transparência, torna possível essa indefinição entre o que é interno e o que é externo. Isso significa que também na nossa própria vida nós não temos mais a possibilidade de detectarmos com clareza o que é externo a nós e o que é interno. Assim, as ruínas da cidade, aquilo que entrou em estado de decomposição, que ruiu antes de envelhecer, porque a modernidade se caracteriza pela impossibilidade do envelhecimento, essas ruínas nas grandes cidades são nossas ruínas internas."

"O fisionomista é aquele que percorre a cidade para reconhecer no exterior o interior. Ou seja, para ele o interior e o exterior são inseparáveis. O mundo está todo dentro e ele se encontra todo fora de si. Ou seja, assim como certos espaços citadinos são uma extensão da sua própria vida interior, esses objetos também participam da sua subjetividade. Então, percorrer as cidades como um fisionomista é captar uma espécie de circulação sangüínea tanto nas ruas, quanto nos monumentos, quanto nos sinais que essa cidade apresenta, porque de alguma maneira estes objetos lhe contam alguma história."

"A fotografia reproduz em série a mesma cena, a mesma personagem, mas ela possui também a aura de uma inesperada presença. O que é a aura de um determinado objeto? A aura é esse sentimento de que nós olhamos o objeto e que ele nos devolve o olhar. Então, uma foto nossa, mesmo que ela seja uma foto preparada, ela nos devolve aspectos desconhecidos nossos. Então ela é fonte de auto-conhecimento."

Transcrito por Andréa Havt em outubro de 2000

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto