Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette

Pão com pão
Andréa Havt

Todo carro tem ao menos um ponto cego. Não importa se é 1000 ou 2.0, nacional ou importado, mas existem situações em que olhamos, olhamos, não vemos nada, arriscamos uma ultrapassagem e levamos uma sonora buzina no ouvido ecoando a frase "tá vendo não, é?". Pois assim como são as criações, são as criaturas. Enxergamos porque existem células na retina - os cones e os bastonetes - que transformam a luz das imagens em sinais nervosos que são transmitidos ao cérebro pelo nervo ótico. Mas se essa energia luminosa chega aos nossos olhos na posição de onde sai o nervo ótico, onde não existem cones ou bastonetes, não vemos a imagem que se forma.

O mundo é uma construção da nossa mente, nisso acreditam inúmeras pessoas envolvidas ou não com alguma corrente de pensamento. Peter Krieg, em O Olhar do Observador, dialoga com psico-historiadores e construtivistas radicais para mostrar que essa construção se torna realidade porque a nossa psique, individual ou coletiva, tem um ponto cego. Ou seja, a realidade existe porque, nem que seja por um breve momento, não vemos o observador que a criou. Esse observador pode ser a própria pessoa ou alguém que fala do real. O principal é que ele é colocado fora para que o mundo possa ser dito real. Um faz-de-conta inconsciente que elimina do nosso campo existencial a presença do sujeito criador. Por que a gente precisa fazer toda essa manobra? Ou: por que a gente precisa dizer que algo é real? São perguntas equivalentes a: por que a gente conhece? Ele não diz a motivação, mas dá um palpite do como: é preciso cegar para enxergar a realidade.

Mas o ponto cego não é tão cego assim. Ainda que para afirmar isso seja necessário sair da psique e retornar ao processo da visão. É o que mostra Taciana Paloma B. F. Leite em uma experiência feita no Laboratório de Percepção Visual da Universidade Federal de Recife. Ela usou fotografias de rostos que eram colocadas de forma que o nariz, parte central, coincidisse com o ponto cego das 14 pessoas que participaram da experiência. Como resultado, a maioria falou de desaparecimentos de partes dos rostos. Mas o interesse da pesquisadora era no fenômeno chamado de muitas-faces, que apareceu em metade das narrativas. Reproduzo a que ela mesma destacou como exemplo: "Quando o fenômeno de muitas-faces é narrado geralmente é acompanhado de uma marcante reação emocional como um sorriso, uma interjeição, uma gargalhada, uma reação de surpresa. Por exemplo, um sujeito de 26 anos diz entre risos: '... Ela primeiro pareceu ... com uma mulher do cabelo grande, uma mulher bonita! ... comigo! (risos)... com Nêda! (risos)... essa eu não conheço não!...São muitas faces! Estou vendo muitos rostos bonitos!'.

Isso me fez lembrar uma cena do filme Patch Adams - O Amor é Contagioso em que o ator principal, internado por opção em uma clínica psiquiátrica, conhece outro interno, irritado porque ninguém respondia certo quando ele levantava a mão perguntando quantos dedos havia. Um dia Patch Adams entendeu e respondeu ser o dobro do que ele mostrava. Desfocou a visão e viu além. Depois disso, formou-se médico e construiu seu próprio hospital, aproveitando toda a sua experiência de interno que curava, sem a impessoalidade dos hospitais comuns, onde todos - médicos e pacientes - se envolviam nos processos de cura.

Lembrei também de um filósofo que perambulava pelas quadras de Brasília. Quando ele comia pão, partia em dois pedaços e dizia que não gostava de pão seco, preferia comer pão com pão.

Os rostos na experiência das muitas-faces eram bastante conhecidos das 14 pessoas, como são os dedos das mãos, como é o pão. O que me faz pensar que quanto mais próximo de nós, mais precisamos cegar para enxergarmos possibilidades. Agora vou ali, comer um pão com gosto de lasanha quatro-queijos.

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto