RAMIL, Victor. Pequod. Porto Alegre: L&PM, 1999. 126 p.; 21,5 cm.

Convenções:
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/ - simples separação antes de outra citação, sem ligação de sentido, na mesma página
[...] supressão de palavras ou frases para reduzir a citação sem perder o sentido
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Citações...
p. 1
Deicatória: "Para Andréa, esta viagem do Pequod pelo fio e pela simetria. Abraço, Vitor Ramil, 27 jan 00, Fortaleza"

p. 7
"La memoria, esa forma del olvido" (Jorge Luis Borges, El Ciego)

p. 14
"Estranhamente, se pareciam. Como se Ahab observasse imóvel, diante do espelho, sua própria imagem em movimento."

p. 16
"Um dia labirintos de flores de madeira saltariam aos nossos olhos nas portas brilhantes daquele guarda-roupa;"

p. 26
"linguagem exata que nos impunha seu pensamento, mas fugia à nossa compreensão."

p. 28
""Por que não sair pela porta?", eu pergunto. Ele segura a mala pela alça e me diz: "Na solidão do meu pai não existem portas"."

p. 29
"atraindo a mãe pelo olhar, como se ela e todo o resto fossem apenas parte de seu próprio corpo."

p. 30
""Há ninhos de aranha curvos, com duas aberturas, garantindo as retiradas nos momentos de perigo; outros, ramificados, com duas ou três câmaras internas, separados do corredor de acesso por outras tantas portas, que se abrem de fora para dentro, ao contrário da porta principal."" (C. de Mello-Leitão, A vida maravilhosa dos animais)

p. 32
"Minha avó olha demoradamente o retrato que o pequeno Ahab lhe ordenara tirar da parede. Seus olhos, que já não choram, vêem retratada ali a totalidade do tempo vivido até então; vêem a totalidade do que haviam tido e amado"

p. 40
"Eu lutei contra o passado, eu tenho lutado contra o passado."
/
"Diz para Andrés que estoy viajando, que está tudo se repetindo, que estou me repetindo; que perdi tudo e não quis mais nada, mas que agora estou saindo do porto outra vez, que está tudo se repetindo, que estou livre, o som do navio, que..."

p. 47
"Quando aquela água toda escoasse, restaria uma grande e única sujeira. [...] Quanto mais sujeira ficasse, mais limpo eu me sentiria."

p. 49
"também eu me entusiasmei com a casualidade de encontrar o envelope pardo, que tanto me intrigava, naquela sala de costura reservada, naquela hora propícia, acreditando que ali estaria uma surpreendente revelação, e depois sofri um grande desapontamento ao ver que o que ele continha era um mistério ainda maior, cuja revelação, agora mais difícil, ficava adiada."
/
"Tendo percorrido muitas vezes aquela coluna de números, tendo buscado sentido em todos os sentidos, experimentado combinações, cogitado cálculos, medidas, não fui capaz de inferir coisa alguma."

p. 50
"E cada vez mais os momentos em que o olhar o arrastava através das coisas se repetiam e custavam a terminar."

p. 58
"O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. [...] O espanhol era então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo."

p. 58 e 59
"Reduziria tudo, agora, ao que por única vez lhe perguntei e ao que me respondeu. Mas tratava-se do tempo. Reduzir o tempo? Desejá-lo reduzido e senti-lo de acordo com meu desejo? Desejar o que não era meu? Eu era apenas um satélite. Não só estava com Ahab: estava ligado a ele. Tratava-se do tempo de Ahab. E tudo à nossa volta estava ligado a ele também. A praia era uma feição do tempo. A areia fina, meus pés nela e nos meus pés a umidade era o tempo manifesto. Tudo sendo e indo. Irredutível. Ahab. Mais que nunca, no país que falava o idioma do seu silêncio, eu dependia dele. E embora eu estivesse perto, dentro dele, no seu idioma ou no meu, continuava sem entender uma palavra do que não dizia."

p. 59
"tanto rigor consigo mesmo em relação a respeitar a sinalização e as leis de trânsito - o mesmo para qualquer outra lei -, que as placas na beira da estrada pareciam redundantes quando ele passava"

p. 60
"Tu padre tenía uma memoria fabulosa. Se acordaba de todo. Nada se le escapaba. Pero yo pienso que si eso era uma bendición, era malo también, ¿no te parece? ¡Acordarse de todo!

p. 61
"parte móvel de sua intrincada estrutura [...] cada canto, cada nuance nas colunas, cada porta sua nos observava."
/
"Este não é um lugar para ser encontrado. Como terá chegado aqui? O que será que procura?

p. 62
"Para entrar ou sair de Ahab, as coisas passavam antes por uma seleção dura - isso sim, aquilo não -, sempre. Perde-se muita coisa de valor dizendo sempre que isso sim, que aquilo não. E em lugares onde tudo é rigorosamente selecionado e está minuciosa e permanentemente acomodado, qualquer pequeno descuido pode ser intolerável, qualquer mínima desacomodação pode configurar um excesso."

p. 65
"Mira: es um pequeño mueble extraño. Son estas siete hileras de siete cajoncitos, com este cajón encima. El detalle es que este cajón sólo se abre com uma combinación de aberturas entre los cuarenta y nueve cajoncitos. Divertido, ¿no? Y aquí atrás hay um soporte para colocar um espejo que subdivide la imagen de quien lo mira em siete y em cuarenta y nueve fragmentos. Pero el espejo fue apenas um proyecto. Yo lo intenté, no com poco esfuerzo, y nunca logré abrir este cajón."

p. 68
"É só a ilusão da hora [...] Ele ainda está lá. Apenas não o vemos."

p. 69
""Por que não gostas que eu te chame de pai?". Ele pára, me olha e diz: "Porque eu não quero que haja distância entre nós"."

p. 74
"Eu não queria dizer o que eu sabia. Eu não queria que soubessem que eu estivera no casarão do Dr. Fiss. Eu não queria que eu estivera lá. Eu não queria o que eu sabia. [...] E eu tinha vontade de lhe pedir perdão pelo que sabia."

p. 75
"Riscar um fósforo na escuridão da peça seria riscar, simultaneamente, fósforos sobre mim e ao redor; atirá-lo longe, de susto, seria atirar todos os outros de forma igual: eu invadira um quarto de espelhos."

p. 76
"O velho relógio precisava dele. Um dia sem aquele ritual e o tempo logo começava a deixá-lo para trás."
/
"entregando-nos, e ao velho relógio, à mastigação das horas, à devoração do tempo."

p. 77
"Eis aqui minha lição: deve-se sempre partir do pressuposto que o inimigo é melhor do que nós."

p. 78
"Não há aborrecimento. Continua uma criança como qualquer outra. Criança vive fora de si, não tem nunca por que se aborrecer. Não fosse assim a cabecinha fumegaria antes dos doze anos, dos dez, não é mesmo? A espécie sabe se preservar. A natureza está do seu lado!"
/
"eu que não só vivo em mim, como qualquer adulto, mas que detesto sair de mim. Quando me deixo levar pelos ardis da felicidade, procuro minha imagem nele e logo estou de volta, como o pródigo, à casa da condição humana, ao meu lugar. Só um espelho torto reflete a realidade."

p. 79
"Mantendo controle sobre a impossibilidade de controlar a vida."
/
"Talvez não seja bem um poema. Afinal, poemas são escritos para serem lidos. Vamos chamá-lo quase-poema ou poema escrito para não ser lido, para ser inviabilizado, poema escrito para ser fragmentado, espalhado."

p. 79 a 81 [método de fragmentação de poemas, definição minha J]
"Concentrando-se, recortou cuidadosamente cada palavra. Em seguida, arranjou-as, na ordem do poema, soltas sobre a escrivaninha. [...] indo em direção à estante dos livros. Voltou trazendo uma Bíblia. "[...] Peguei este livro ao acaso [...] Agora vou abri-lo, também ao acaso, porque preciso de uma página sua. [...] Vou lê-la atrás de uma palavra que exista também no poema recortado. [...] Vamos nos deter nesta palavra aqui: vida. Ela está bem no final do poema de Ahab." [...] largou a Bíblia aberta sobre a escrivaninha, abriu o tubo de cola e pegou o recorte com a palavra. "Um pingo de cola no verso. E colo a palavra vida de Ahab sobre a palavra vida da Bíblia. Pronto. Agora anoto, em forma de rascunho, a fileira onde o livro é guardado, sua posição nesta fileira, o número da página escolhida, o número da frase dentro da página, o número da palavra dentro da frase. Chato de pegar? Estou decepcionando? O próximo passo seria repetir a operação com as outras palavras do poema, colocando-as em livros diferentes. [...] Termino a colagem, passo a limpo o rascunho nesta máquina de escrever, e tenho um código caprichado. [...] A primeira linha é a primeira palavra do poema, e assim por diante até a última palavra, que é a linha final."

p. 81
"de um modo geral, os livros se parecem. Como nós..."
/
"Sabe qual é a condição para que a dignidade de um prisioneiro seja respeitada? Que ele esteja preso."

p. 82
"O relógio esperava por ele. Mas Ahab parecia ter desistido do tempo dos relógios."
/
"No começo eram rigorosos poemas científicos, pequenos e inspirados verbetes de enciclopédia. Patas descritas minuciosamente, hábitos dissecados. Com o tempo foram ficando maiores, para corresponder à gula e preparo da memória de Ahab, e a análise foi cedendo lugar a abstrações sobre aranhas até chegar em um curioso estilo confessional, onde o poeta parecia falar de si próprio, embora, falando sempre na terceira pessoa, nada indicasse que houvesse se afastado das aranhas."

p. 83
"aranhas transportavam-se pelo ar com o auxílio de sua teia antes que inventássemos uma maneira de voar; [...] usavam outros animais para se locomover antes que tivéssemos a brilhante idéia de montar um cavalo. [...] passara a vida vendo nas aranhas características essencialmente humanas, e [...] hoje esforçava-se para ver nos homens características essenciais das aranhas."
/
"Obsessão e observação, talvez menos esta do que aquela, levaram Ahab a acreditar que na vida das solitárias aranhas nada é impreciso, nada é imprevisível. Acha que tornaram-se capazes de antecipar-se a qualquer coisa, boa ou má, que possa lhes suceder. Acha que evoluíram a ponto de desconhecer o acaso."

p. 83 a 84
"O que o espião Fora de Si pensa do fato de ele ter restringido sua vida a um mínimo, reduzindo-se a funcionário público, guardando todo o seu conhecimento para si e destinando sua poesia à tesoura? Ahab desapareceu no cotidiano como as aranhas ficam verdes entre as folhagens ou coloridas entre as flores. E por quê? Porque rebelou-se contra um mundo que lhe exigia o que não poderia dar sem se sentir irremediavelmente lesado; um mundo raptor daquilo que, em sua essência, acreditava existir para levá-lo ao topo de si mesmo. Enigmático, não? Pois não me pergunte como adquiriu esta visão torta. Isso não sei. Fique na superfície: que rebeldia é essa se o que ele fez foi aninhar-se no centro do inimigo, fechar-se no coração pequeno da vida em sociedade, anular-se em um dia-a-dia medíocre e repetitivo? Bote essa mente infantil para funcionar. Imagine Ahab diminuindo, como Alice e seu leque, até uma vidinha onde a totalidade de suas obrigações não excederia a meia dúzia de itens e o tempo ocioso, claro, seria uma enormidade. Imagine agora que nessa vidinha havia uma portinha. Com seu novo tamanho, Ahab poderia atravessá-la; com tempo disponível, poderia ocupar-se com o que havia depois dela. E o que havia lá? Uma ambicionada amplidão onde o pensamento dançaria um tango de pureza com a memória!"

p. 84
"sabia que a linguagem das teias seria sempre inacessível para o homem. Mas acreditava que se encontrasse um método que correspondesse ao método da aranha, à forma como construía sua teia, organizar um universo similar ao dela poderia não ser uma idéia disparatada, uma empresa sem sentido. Então pensou na poesia. Mas não pensou em meramente escrever poemas, por mais rigorosos e precisos que fossem; em registrar impressões das quais lhe bastasse dizer: 'Oh, que irrefutável maneira de ver o mundo e estar nele!' Ahab pensou na poesia como um ponto de partida. Sua idéia: escrever poemas, submetê-los a um desmonte, e construir uma estrutura com suas palavras distribuídas e coladas sobre as páginas dos livros encadernados. Veja só que serviço para essa pobre mente humana: [...] ligar as palavras espichando um fio imaginário entre elas e, com isso, visualizar os poemas e o texto de cada um dos mil e quatrocentos livros da estante, mantendo-os acesos na memória. Esta operação devia se repetir incessantemente, começando sempre pelo primeiro poema desmontado e avançando até o último adicionado ao esquema. [...] Uma memória-teia feita de linguagem [...] A cada trecho percorrido, um mundo concebido reencontrado e um mundo novo concebido!"

p. 85
"Nossa memória é o repositório de um mundo complexo e imperfeito, criado coletivamente, que não compreendemos e do qual não podemos dar conta. Nela, muito do que gostaríamos de preservar se perdeu; de muito do que preservamos não sabemos a origem, nem queremos preservar. É um emaranhado de coisas obscuras e fugidias fechando algumas poucas clareiras a que nos apegamos. Nela entra o que nos interessa e o que não. É um ambiente sujo de muitas e profundíssimas camadas de sujeira. Quem se move com desprendimento em um lugar como este? De onde nos vêm certas lembranças? O que são? O que há logo ali? O que há no começo da nossa memória? Quem sabe?

p. 85 a 86
"em sua memória-teia [...] estaria sempre no começo, indo e vindo da primeira palavra no primeiro ponto; bem como em toda a sua extensão, indo e vindo de todos os pontos de todas as palavras. Nada lhe escaparia."

p. 86
"O relógio desistira do tempo de Ahab. Embora não houvesse possibilidade de desistirmos, a imobilidade dos ponteiros repetia-se em cada um de nós. Estávamos parados em algum lugar onde não havia sequer a espera."

p. 87
"Mire o alvo, jogue seu dardo: ele não deixará jamais de voar; aproxime-se do precipício, jogue sua pedra: ela não deixará jamais de cair."
/
"Não suporta não poder dispor plenamente de si mesmo; de achar-se vago em cada gesto, derrotado em cada triunfo; de sentir-se um indivíduo fora de foco, diluído e adulterado por tudo que o cerca."

p. 87 a 88
" destino são as vidas dos outros: é o suco amargo e insosso da coletividade que alimenta e mantém vivos os indivíduos separadamente; é a conjunção de todos os atos que determina os atos de cada um; é da soma do vazio de todas as convicções que se forma a grande mancha ilegível de uma lei que a cada homem fundamenta e conduz. Os outros, e só os outros, responderão sempre pela nossa impossibilidade de controlar a vida."

p. 88
"Permanecer sozinho no meio dos milhões da terra povoada, sem deuses nem homens por vizinhos, é vida de fato?"
/
"Uma só resposta serve a estas perguntas: trata-se de uma teia de palavras."

p. 88 a 89
"Por mais seletiva que seja sua origem, por mais rigorosa que seja a assepsia a que está submetida, por mais permanente e eficaz que seja o controle de Ahab sobre ela, não pode representar um isolamento perfeito. Nela jamais Ahab estará verdadeiramente só. Do outro lado da portinha - onde talvez se encontre neste momento -, percorrendo essa teia de palavras, unicamente de palavras, como eu disse, Ahab estará percorrendo uma teia de linguagem e literatura humanas, uma teia de pensamento que transcende e abarca sua individualidade, levando sempre até ele, mesmo que com o poder de um abraço em um sonho, o abraço sufocante da coletividade."

p. 89
"Estando vivo, para a manutenção de si próprio e da teia, Ahab dependerá sempre da vida real, o mínimo que seja. Satisfazer-se com a teia, mantê-la como um mundo paralelo, um paliativo da realidade, é coisa que não faria. Não seria de seu feitio construir um lugar onde ocultar-se eventualmente, como quem enche a cara nos finais de semana para esquecer o dia que passou ou forjar ilusões para a noite que chega. Ele tampouco consideraria isso rebeldia."

p. 89 a 90
"só retornando ao instante de pureza anterior ao surgimento do primeiro homem o suicida poderia estar certo de sua morte como resultado de uma deliberação própria [...] se adoecesse e morresse antes disso, esta morte já estaria determinada na lei ilegível dos homens, naturalmente conspirada pelo mundo a seu redor."

p. 90 a 91
"Não diga que estou tonto! Estou apenas dando o que você veio buscar e merece. É a Noite das Oportunidades, já esqueceu?"

p. 91
"Se existe de fato um mundo raptor, Ahab caiu em sua mais engenhosa armadilha."
"A obsessão de um homem de evoluir à imagem e semelhança das aranhas - deixar sua espécie por outra! - revela uma obsessão de morrer."

p. 92
"a construção de uma teia dessas é tarefa que suplanta o tempo de vida de qualquer pessoa."
/
"Passaria a perder o sentido das palavras, como nos acontece quando as repetimos muitas vezes seguidas."

p. 93
"acreditamos em coisas tão diferentes que não poderia haver conflito entre nós."
/
"Estética da Superfície" [ES]
/
"[ES] um casaco justo não com dois, mas com diversos braços; uma calça larga de uma perna só, onde enfiou suas duas com dificuldade; e um capuz preto com três buracos, que lhe cobriu cabeça e pescoço, deixando de fora apenas as orelhas e a boca. "Este capuz mandei fazer por não acreditar que o conjunto ficaria bom. Decidi nunca vê-lo, apenas senti-lo. Tenho as pernas coladas, posso variar o lugar dos braços. Agrada?""
/
"algo infantil, algo fora de si"

p. 94
"[ES] Pela cabeça desceu um vestido curto, sem mangas, que mal lhe chegou à barriga. Em cada perna colocou um vestidinho cujas golas fechavam-se nas coxas e as barras volteavam na metade das canelas. Com vestidinhos ainda menores cobriu igualmente cada braço até os punhos. Na cabeça enterrou um chapéu de aba larga com uma cabeça de boneca sem olhos sobre a copa. Nos pés calçou duas enormes cabeças de boneca carecas, e guardou as mãos dentro de outras duas, estas com longos e bem cuidados cabelos amarelos."
/
"[ES] Examine este belo vestido rodado. Aqui estão penduradas mais de quinhentas escovas de dentes sujas, que colecionei através dos anos."

p. 96
"E vestiu um saco de malha branco, muito justo, que o cobriu da cabeça aos pés. De fora, por dois furos, o nariz e o pau."
/
"Este som não terá sido o de uma desastrada tentativa de fuga pela minha estrada secreta e traiçoeira? Mas a chave está aqui comigo. Era só pedir!"

p. 97
"Existe criança capaz de guardar segredo?"
/
"Ahab engendrou a verdade da qual é dono. Queria apenas que houvesse coerência entre ela e sua vida. O que pode ser mais merecedor de respeito em um homem?"

p. 98
"E se foi, pronto e maduro para seu destino, antes que percebêssemos que se tinha ido."

p. 105
"Ali sonhei que decidia voar e que voava e era capaz de controlar meu próprio vôo. Seria sonho dentro de sonho mais uma vez?"

p. 106
"No fundo da poltrona, sob o relógio, eu estava no meu tempo. Tratava-se do meu tempo."

p. 109
"Um instante cualquiera es más profundo y diverso que el mar" (Jorge Luis Borges, poema 1964)

p. 115
"É um velho, e sua expressão é a ameaça de uma conversa que não acabará nos próximos quilômetros."

p. 116
"Fosse o mundo uma planície interminável, não haveria esperança na viagem." (Herman Melville, Moby Dick) ?
/
"Não quero chegar a definições desse livro, não quero ter que exprimir minha visão de leitor. Aliás, fui exatamente leitor da narrativa de Ismael? Persegui Moby Dick obstinadamente como Ahab, e, como ele, submergi no oceano inexorável preso ao cachalote branco pelas cordas, entre os arpões enferrujados que atravessam o mundo cravados em sua carne. Isso me parece mais certo do que tê-lo lido."
/
"Aparentemente separadas por grande distância de tempo, as duas cenas aconteciam em seqüência, no sem-tempo de uma mesma memória, pois estavam na voz de uma mesma criança. A primeira cena apontava o que havia de simbólico na realidade da segunda; a segunda, o que havia de real no simbolismo da primeira."

p. 116 a 117
"o que, no fluxo das minhas recordações, depõe mais precisamente sobre o que foi a minha vida até agora, o vivido ou o imaginado? O que foi vivido? O que é imaginado? O que há de imaginação no que julgo vivido e de vivência no que acredito imaginado?

p. 117
"Uma narrativa longa feita de pequenas narrativas articuladas sob a forma da memória começava então a surgir."
/
"O nome era de importância fundamental para a trama; primeiro, porque sua significação deveria dizer sobre o personagem tudo o que a vaguidade e a concisão do livro não diriam"
/
"Comecei deixando lacunas onde o nome deveria estar, até que, sem me dar para pensar mais que o instante de levar a caneta ao papel, escrevi:"

p. 118
"que também, na quietude e no isolamento de muitas longas noites de vigia nas mais remotas águas, sob constelações nunca vistas ao norte, tenha sido levado a pensar de modo não-tradicional e independente;" (Herman Melville, Moby Dick)

p. 119
"E o que é a vida afinal, senão uma viagem só de ida?"
/
"já não estava resistindo mesmo ao reescrever implacável"

p. 120
"sentindo-se um tanto à deriva, sem uma cronologia a que se apegar, transitando em um universo vago, de imagens e instantes fugazes, de vazios, [...] com o narrador na corrente de suas recordações; ou, ao fragmentar a narrativa e dispor as partes de cada cena distantes entre si, [...] operasse mentalmente [...] para apreender a história como um todo."
/
"A idealizada forma da memória, com sua superfície e suas regiões profundas, sua capacidade de proporcionar prazer e infundir terror, suas zonas de luz e de mais absoluta escuridão, assemelhava-se à forma do mar."
/
"desenvolvimento lento [...] a preparar um desfecho trágico e fulminante"
/
"Muitas eram as conexões entre os dois textos; nenhuma, fruto de qualquer planejamento.

p. 121
"cuja forma já exigiria do leitor uma boa concentração e a disposição de unir a profusão desordenada de instantes de uma memória para tecer a história"
/
"Minha ficção tinha muito da minha vida."
/
"Com mais algumas frases de Melville [...] inseridas sem destaque entre as minhas e um que outro jogo de espelho, a teia estaria completa. No mais, deixaria que à sua sombra, no decorrer da escritura, a teia produzida pela seda finíssima da minha imaginação impregnada de Moby-Dick continuasse surgindo involuntariamente."
/
"Rendi-me ao desamparo do tempo e do lugar" (Herman Melville, Moby Dick)

p. 122
"o que ousei, eu o quis; e aquilo que eu quis, eu o farei" (Herman Melville, Moby Dick)
/
"As coisas se apagam ou se transformam muito rapidamente. A teia finíssima revela-se interminável."
/
"Relendo trechos do livro [...], observo que, se não me recordo de certos episódios ou de muitos personagens, trago na memória, por todos esses anos, uma porção de coisas que nunca foram escritas. Zonas imensas, extremamente delicadas e obscuras da teia devem estar à espera do leitor e, naturalmente, de mim mesmo."

p. 123
"Eu tinha o hábito de copiar trechos dos livros que lia, ou para não esquecê-los ou para voltar a localizá-los."
/
"Recordo apenas, sem a certeza de não estar imaginando, de que lia e não anotava nada porque estava convicto de que nenhuma palavra me escaparia.
/
"fanatizando-me com ele, aceitando seu desafio de conquistar este pedaço simbólico"

p. 124
"Pois estes homens de tantos credos, raças e nascimentos, selvagens ou civilizados poderão ver ainda muito mais. Se a humanidade toda passasse agora em frente ao mastro, esses signos não parariam de se revelar!"

Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., fevereiro de 2000

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto