RAMIL, Victor. Pequod. Porto Alegre: L&PM, 1999. 126 p.; 21,5 cm.
Convenções:
p. - número da página
( ) - referência de citações de outros autores
/ - simples separação antes de outra citação, sem
ligação de sentido, na mesma página
[...] supressão de palavras ou frases para reduzir a citação
sem perder o sentido
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Citações...
p. 1
Deicatória: "Para Andréa, esta viagem do Pequod pelo fio
e pela simetria. Abraço, Vitor Ramil, 27 jan 00, Fortaleza"
p. 7
"La memoria, esa forma del olvido" (Jorge Luis Borges, El Ciego)
p. 14
"Estranhamente, se pareciam. Como se Ahab observasse imóvel, diante
do espelho, sua própria imagem em movimento."
p. 16
"Um dia labirintos de flores de madeira saltariam aos nossos olhos nas
portas brilhantes daquele guarda-roupa;"
p. 26
"linguagem exata que nos impunha seu pensamento, mas fugia à nossa
compreensão."
p. 28
""Por que não sair pela porta?", eu pergunto. Ele segura
a mala pela alça e me diz: "Na solidão do meu pai não
existem portas"."
p. 29
"atraindo a mãe pelo olhar, como se ela e todo o resto fossem apenas
parte de seu próprio corpo."
p. 30
""Há ninhos de aranha curvos, com duas aberturas, garantindo
as retiradas nos momentos de perigo; outros, ramificados, com duas ou três
câmaras internas, separados do corredor de acesso por outras tantas portas,
que se abrem de fora para dentro, ao contrário da porta principal.""
(C. de Mello-Leitão, A vida maravilhosa dos animais)
p. 32
"Minha avó olha demoradamente o retrato que o pequeno Ahab lhe ordenara
tirar da parede. Seus olhos, que já não choram, vêem retratada
ali a totalidade do tempo vivido até então; vêem a totalidade
do que haviam tido e amado"
p. 40
"Eu lutei contra o passado, eu tenho lutado contra o passado."
/
"Diz para Andrés que estoy viajando, que está tudo se repetindo,
que estou me repetindo; que perdi tudo e não quis mais nada, mas que
agora estou saindo do porto outra vez, que está tudo se repetindo, que
estou livre, o som do navio, que..."
p. 47
"Quando aquela água toda escoasse, restaria uma grande e única
sujeira. [...] Quanto mais sujeira ficasse, mais limpo eu me sentiria."
p. 49
"também eu me entusiasmei com a casualidade de encontrar o envelope
pardo, que tanto me intrigava, naquela sala de costura reservada, naquela hora
propícia, acreditando que ali estaria uma surpreendente revelação,
e depois sofri um grande desapontamento ao ver que o que ele continha era um
mistério ainda maior, cuja revelação, agora mais difícil,
ficava adiada."
/
"Tendo percorrido muitas vezes aquela coluna de números, tendo buscado
sentido em todos os sentidos, experimentado combinações, cogitado
cálculos, medidas, não fui capaz de inferir coisa alguma."
p. 50
"E cada vez mais os momentos em que o olhar o arrastava através
das coisas se repetiam e custavam a terminar."
p. 58
"O espanhol era então o idioma da sabedoria e da obscuridade. O
espanhol era o idioma do silêncio. Ouvir Ahab falando espanhol era escutá-lo
por dentro. Eu não precisava observar seus lábios, suas inflexões
de rosto e voz. Não precisava escutá-lo. [...] O espanhol era
então o idioma do pensamento e do tempo. Eu estava no fundo do tempo."
p. 58 e 59
"Reduziria tudo, agora, ao que por única vez lhe perguntei e ao
que me respondeu. Mas tratava-se do tempo. Reduzir o tempo? Desejá-lo
reduzido e senti-lo de acordo com meu desejo? Desejar o que não era meu?
Eu era apenas um satélite. Não só estava com Ahab: estava
ligado a ele. Tratava-se do tempo de Ahab. E tudo à nossa volta estava
ligado a ele também. A praia era uma feição do tempo. A
areia fina, meus pés nela e nos meus pés a umidade era o tempo
manifesto. Tudo sendo e indo. Irredutível. Ahab. Mais que nunca, no país
que falava o idioma do seu silêncio, eu dependia dele. E embora eu estivesse
perto, dentro dele, no seu idioma ou no meu, continuava sem entender uma palavra
do que não dizia."
p. 59
"tanto rigor consigo mesmo em relação a respeitar a sinalização
e as leis de trânsito - o mesmo para qualquer outra lei -, que as placas
na beira da estrada pareciam redundantes quando ele passava"
p. 60
"Tu padre tenía uma memoria fabulosa. Se acordaba de todo. Nada
se le escapaba. Pero yo pienso que si eso era uma bendición, era malo
también, ¿no te parece? ¡Acordarse de todo!
p. 61
"parte móvel de sua intrincada estrutura [...] cada canto, cada
nuance nas colunas, cada porta sua nos observava."
/
"Este não é um lugar para ser encontrado. Como terá
chegado aqui? O que será que procura?
p. 62
"Para entrar ou sair de Ahab, as coisas passavam antes por uma seleção
dura - isso sim, aquilo não -, sempre. Perde-se muita coisa de valor
dizendo sempre que isso sim, que aquilo não. E em lugares onde tudo é
rigorosamente selecionado e está minuciosa e permanentemente acomodado,
qualquer pequeno descuido pode ser intolerável, qualquer mínima
desacomodação pode configurar um excesso."
p. 65
"Mira: es um pequeño mueble extraño. Son estas siete hileras
de siete cajoncitos, com este cajón encima. El detalle es que este cajón
sólo se abre com uma combinación de aberturas entre los cuarenta
y nueve cajoncitos. Divertido, ¿no? Y aquí atrás hay um
soporte para colocar um espejo que subdivide la imagen de quien lo mira em siete
y em cuarenta y nueve fragmentos. Pero el espejo fue apenas um proyecto. Yo
lo intenté, no com poco esfuerzo, y nunca logré abrir este cajón."
p. 68
"É só a ilusão da hora [...] Ele ainda está
lá. Apenas não o vemos."
p. 69
""Por que não gostas que eu te chame de pai?". Ele pára,
me olha e diz: "Porque eu não quero que haja distância entre
nós"."
p. 74
"Eu não queria dizer o que eu sabia. Eu não queria que soubessem
que eu estivera no casarão do Dr. Fiss. Eu não queria que eu estivera
lá. Eu não queria o que eu sabia. [...] E eu tinha vontade de
lhe pedir perdão pelo que sabia."
p. 75
"Riscar um fósforo na escuridão da peça seria riscar,
simultaneamente, fósforos sobre mim e ao redor; atirá-lo longe,
de susto, seria atirar todos os outros de forma igual: eu invadira um quarto
de espelhos."
p. 76
"O velho relógio precisava dele. Um dia sem aquele ritual e o tempo
logo começava a deixá-lo para trás."
/
"entregando-nos, e ao velho relógio, à mastigação
das horas, à devoração do tempo."
p. 77
"Eis aqui minha lição: deve-se sempre partir do pressuposto
que o inimigo é melhor do que nós."
p. 78
"Não há aborrecimento. Continua uma criança como qualquer
outra. Criança vive fora de si, não tem nunca por que se aborrecer.
Não fosse assim a cabecinha fumegaria antes dos doze anos, dos dez, não
é mesmo? A espécie sabe se preservar. A natureza está do
seu lado!"
/
"eu que não só vivo em mim, como qualquer adulto, mas que
detesto sair de mim. Quando me deixo levar pelos ardis da felicidade, procuro
minha imagem nele e logo estou de volta, como o pródigo, à casa
da condição humana, ao meu lugar. Só um espelho torto reflete
a realidade."
p. 79
"Mantendo controle sobre a impossibilidade de controlar a vida."
/
"Talvez não seja bem um poema. Afinal, poemas são escritos
para serem lidos. Vamos chamá-lo quase-poema ou poema escrito para não
ser lido, para ser inviabilizado, poema escrito para ser fragmentado, espalhado."
p. 79 a 81 [método de fragmentação de poemas, definição
minha J]
"Concentrando-se, recortou cuidadosamente cada palavra. Em seguida, arranjou-as,
na ordem do poema, soltas sobre a escrivaninha. [...] indo em direção
à estante dos livros. Voltou trazendo uma Bíblia. "[...]
Peguei este livro ao acaso [...] Agora vou abri-lo, também ao acaso,
porque preciso de uma página sua. [...] Vou lê-la atrás
de uma palavra que exista também no poema recortado. [...] Vamos nos
deter nesta palavra aqui: vida. Ela está bem no final do poema de Ahab."
[...] largou a Bíblia aberta sobre a escrivaninha, abriu o tubo de cola
e pegou o recorte com a palavra. "Um pingo de cola no verso. E colo a palavra
vida de Ahab sobre a palavra vida da Bíblia. Pronto. Agora anoto, em
forma de rascunho, a fileira onde o livro é guardado, sua posição
nesta fileira, o número da página escolhida, o número da
frase dentro da página, o número da palavra dentro da frase. Chato
de pegar? Estou decepcionando? O próximo passo seria repetir a operação
com as outras palavras do poema, colocando-as em livros diferentes. [...] Termino
a colagem, passo a limpo o rascunho nesta máquina de escrever, e tenho
um código caprichado. [...] A primeira linha é a primeira palavra
do poema, e assim por diante até a última palavra, que é
a linha final."
p. 81
"de um modo geral, os livros se parecem. Como nós..."
/
"Sabe qual é a condição para que a dignidade de um
prisioneiro seja respeitada? Que ele esteja preso."
p. 82
"O relógio esperava por ele. Mas Ahab parecia ter desistido do tempo
dos relógios."
/
"No começo eram rigorosos poemas científicos, pequenos e
inspirados verbetes de enciclopédia. Patas descritas minuciosamente,
hábitos dissecados. Com o tempo foram ficando maiores, para corresponder
à gula e preparo da memória de Ahab, e a análise foi cedendo
lugar a abstrações sobre aranhas até chegar em um curioso
estilo confessional, onde o poeta parecia falar de si próprio, embora,
falando sempre na terceira pessoa, nada indicasse que houvesse se afastado das
aranhas."
p. 83
"aranhas transportavam-se pelo ar com o auxílio de sua teia antes
que inventássemos uma maneira de voar; [...] usavam outros animais para
se locomover antes que tivéssemos a brilhante idéia de montar
um cavalo. [...] passara a vida vendo nas aranhas características essencialmente
humanas, e [...] hoje esforçava-se para ver nos homens características
essenciais das aranhas."
/
"Obsessão e observação, talvez menos esta do que aquela,
levaram Ahab a acreditar que na vida das solitárias aranhas nada é
impreciso, nada é imprevisível. Acha que tornaram-se capazes de
antecipar-se a qualquer coisa, boa ou má, que possa lhes suceder. Acha
que evoluíram a ponto de desconhecer o acaso."
p. 83 a 84
"O que o espião Fora de Si pensa do fato de ele ter restringido
sua vida a um mínimo, reduzindo-se a funcionário público,
guardando todo o seu conhecimento para si e destinando sua poesia à tesoura?
Ahab desapareceu no cotidiano como as aranhas ficam verdes entre as folhagens
ou coloridas entre as flores. E por quê? Porque rebelou-se contra um mundo
que lhe exigia o que não poderia dar sem se sentir irremediavelmente
lesado; um mundo raptor daquilo que, em sua essência, acreditava existir
para levá-lo ao topo de si mesmo. Enigmático, não? Pois
não me pergunte como adquiriu esta visão torta. Isso não
sei. Fique na superfície: que rebeldia é essa se o que ele fez
foi aninhar-se no centro do inimigo, fechar-se no coração pequeno
da vida em sociedade, anular-se em um dia-a-dia medíocre e repetitivo?
Bote essa mente infantil para funcionar. Imagine Ahab diminuindo, como Alice
e seu leque, até uma vidinha onde a totalidade de suas obrigações
não excederia a meia dúzia de itens e o tempo ocioso, claro, seria
uma enormidade. Imagine agora que nessa vidinha havia uma portinha. Com seu
novo tamanho, Ahab poderia atravessá-la; com tempo disponível,
poderia ocupar-se com o que havia depois dela. E o que havia lá? Uma
ambicionada amplidão onde o pensamento dançaria um tango de pureza
com a memória!"
p. 84
"sabia que a linguagem das teias seria sempre inacessível para o
homem. Mas acreditava que se encontrasse um método que correspondesse
ao método da aranha, à forma como construía sua teia, organizar
um universo similar ao dela poderia não ser uma idéia disparatada,
uma empresa sem sentido. Então pensou na poesia. Mas não pensou
em meramente escrever poemas, por mais rigorosos e precisos que fossem; em registrar
impressões das quais lhe bastasse dizer: 'Oh, que irrefutável
maneira de ver o mundo e estar nele!' Ahab pensou na poesia como um ponto de
partida. Sua idéia: escrever poemas, submetê-los a um desmonte,
e construir uma estrutura com suas palavras distribuídas e coladas sobre
as páginas dos livros encadernados. Veja só que serviço
para essa pobre mente humana: [...] ligar as palavras espichando um fio imaginário
entre elas e, com isso, visualizar os poemas e o texto de cada um dos mil e
quatrocentos livros da estante, mantendo-os acesos na memória. Esta operação
devia se repetir incessantemente, começando sempre pelo primeiro poema
desmontado e avançando até o último adicionado ao esquema.
[...] Uma memória-teia feita de linguagem [...] A cada trecho percorrido,
um mundo concebido reencontrado e um mundo novo concebido!"
p. 85
"Nossa memória é o repositório de um mundo complexo
e imperfeito, criado coletivamente, que não compreendemos e do qual não
podemos dar conta. Nela, muito do que gostaríamos de preservar se perdeu;
de muito do que preservamos não sabemos a origem, nem queremos preservar.
É um emaranhado de coisas obscuras e fugidias fechando algumas poucas
clareiras a que nos apegamos. Nela entra o que nos interessa e o que não.
É um ambiente sujo de muitas e profundíssimas camadas de sujeira.
Quem se move com desprendimento em um lugar como este? De onde nos vêm
certas lembranças? O que são? O que há logo ali? O que
há no começo da nossa memória? Quem sabe?
p. 85 a 86
"em sua memória-teia [...] estaria sempre no começo, indo
e vindo da primeira palavra no primeiro ponto; bem como em toda a sua extensão,
indo e vindo de todos os pontos de todas as palavras. Nada lhe escaparia."
p. 86
"O relógio desistira do tempo de Ahab. Embora não houvesse
possibilidade de desistirmos, a imobilidade dos ponteiros repetia-se em cada
um de nós. Estávamos parados em algum lugar onde não havia
sequer a espera."
p. 87
"Mire o alvo, jogue seu dardo: ele não deixará jamais de
voar; aproxime-se do precipício, jogue sua pedra: ela não deixará
jamais de cair."
/
"Não suporta não poder dispor plenamente de si mesmo; de
achar-se vago em cada gesto, derrotado em cada triunfo; de sentir-se um indivíduo
fora de foco, diluído e adulterado por tudo que o cerca."
p. 87 a 88
" destino são as vidas dos outros: é o suco amargo e insosso
da coletividade que alimenta e mantém vivos os indivíduos separadamente;
é a conjunção de todos os atos que determina os atos de
cada um; é da soma do vazio de todas as convicções que
se forma a grande mancha ilegível de uma lei que a cada homem fundamenta
e conduz. Os outros, e só os outros, responderão sempre pela nossa
impossibilidade de controlar a vida."
p. 88
"Permanecer sozinho no meio dos milhões da terra povoada, sem deuses
nem homens por vizinhos, é vida de fato?"
/
"Uma só resposta serve a estas perguntas: trata-se de uma teia de
palavras."
p. 88 a 89
"Por mais seletiva que seja sua origem, por mais rigorosa que seja a assepsia
a que está submetida, por mais permanente e eficaz que seja o controle
de Ahab sobre ela, não pode representar um isolamento perfeito. Nela
jamais Ahab estará verdadeiramente só. Do outro lado da portinha
- onde talvez se encontre neste momento -, percorrendo essa teia de palavras,
unicamente de palavras, como eu disse, Ahab estará percorrendo uma teia
de linguagem e literatura humanas, uma teia de pensamento que transcende e abarca
sua individualidade, levando sempre até ele, mesmo que com o poder de
um abraço em um sonho, o abraço sufocante da coletividade."
p. 89
"Estando vivo, para a manutenção de si próprio e da
teia, Ahab dependerá sempre da vida real, o mínimo que seja. Satisfazer-se
com a teia, mantê-la como um mundo paralelo, um paliativo da realidade,
é coisa que não faria. Não seria de seu feitio construir
um lugar onde ocultar-se eventualmente, como quem enche a cara nos finais de
semana para esquecer o dia que passou ou forjar ilusões para a noite
que chega. Ele tampouco consideraria isso rebeldia."
p. 89 a 90
"só retornando ao instante de pureza anterior ao surgimento do primeiro
homem o suicida poderia estar certo de sua morte como resultado de uma deliberação
própria [...] se adoecesse e morresse antes disso, esta morte já
estaria determinada na lei ilegível dos homens, naturalmente conspirada
pelo mundo a seu redor."
p. 90 a 91
"Não diga que estou tonto! Estou apenas dando o que você veio
buscar e merece. É a Noite das Oportunidades, já esqueceu?"
p. 91
"Se existe de fato um mundo raptor, Ahab caiu em sua mais engenhosa armadilha."
"A obsessão de um homem de evoluir à imagem e semelhança
das aranhas - deixar sua espécie por outra! - revela uma obsessão
de morrer."
p. 92
"a construção de uma teia dessas é tarefa que suplanta
o tempo de vida de qualquer pessoa."
/
"Passaria a perder o sentido das palavras, como nos acontece quando as
repetimos muitas vezes seguidas."
p. 93
"acreditamos em coisas tão diferentes que não poderia haver
conflito entre nós."
/
"Estética da Superfície" [ES]
/
"[ES] um casaco justo não com dois, mas com diversos braços;
uma calça larga de uma perna só, onde enfiou suas duas com dificuldade;
e um capuz preto com três buracos, que lhe cobriu cabeça e pescoço,
deixando de fora apenas as orelhas e a boca. "Este capuz mandei fazer por
não acreditar que o conjunto ficaria bom. Decidi nunca vê-lo, apenas
senti-lo. Tenho as pernas coladas, posso variar o lugar dos braços. Agrada?""
/
"algo infantil, algo fora de si"
p. 94
"[ES] Pela cabeça desceu um vestido curto, sem mangas, que mal lhe
chegou à barriga. Em cada perna colocou um vestidinho cujas golas fechavam-se
nas coxas e as barras volteavam na metade das canelas. Com vestidinhos ainda
menores cobriu igualmente cada braço até os punhos. Na cabeça
enterrou um chapéu de aba larga com uma cabeça de boneca sem olhos
sobre a copa. Nos pés calçou duas enormes cabeças de boneca
carecas, e guardou as mãos dentro de outras duas, estas com longos e
bem cuidados cabelos amarelos."
/
"[ES] Examine este belo vestido rodado. Aqui estão penduradas mais
de quinhentas escovas de dentes sujas, que colecionei através dos anos."
p. 96
"E vestiu um saco de malha branco, muito justo, que o cobriu da cabeça
aos pés. De fora, por dois furos, o nariz e o pau."
/
"Este som não terá sido o de uma desastrada tentativa de
fuga pela minha estrada secreta e traiçoeira? Mas a chave está
aqui comigo. Era só pedir!"
p. 97
"Existe criança capaz de guardar segredo?"
/
"Ahab engendrou a verdade da qual é dono. Queria apenas que houvesse
coerência entre ela e sua vida. O que pode ser mais merecedor de respeito
em um homem?"
p. 98
"E se foi, pronto e maduro para seu destino, antes que percebêssemos
que se tinha ido."
p. 105
"Ali sonhei que decidia voar e que voava e era capaz de controlar meu próprio
vôo. Seria sonho dentro de sonho mais uma vez?"
p. 106
"No fundo da poltrona, sob o relógio, eu estava no meu tempo. Tratava-se
do meu tempo."
p. 109
"Um instante cualquiera es más profundo y diverso que el mar"
(Jorge Luis Borges, poema 1964)
p. 115
"É um velho, e sua expressão é a ameaça de
uma conversa que não acabará nos próximos quilômetros."
p. 116
"Fosse o mundo uma planície interminável, não haveria
esperança na viagem." (Herman Melville, Moby Dick) ?
/
"Não quero chegar a definições desse livro, não
quero ter que exprimir minha visão de leitor. Aliás, fui exatamente
leitor da narrativa de Ismael? Persegui Moby Dick obstinadamente como Ahab,
e, como ele, submergi no oceano inexorável preso ao cachalote branco
pelas cordas, entre os arpões enferrujados que atravessam o mundo cravados
em sua carne. Isso me parece mais certo do que tê-lo lido."
/
"Aparentemente separadas por grande distância de tempo, as duas cenas
aconteciam em seqüência, no sem-tempo de uma mesma memória,
pois estavam na voz de uma mesma criança. A primeira cena apontava o
que havia de simbólico na realidade da segunda; a segunda, o que havia
de real no simbolismo da primeira."
p. 116 a 117
"o que, no fluxo das minhas recordações, depõe mais
precisamente sobre o que foi a minha vida até agora, o vivido ou o imaginado?
O que foi vivido? O que é imaginado? O que há de imaginação
no que julgo vivido e de vivência no que acredito imaginado?
p. 117
"Uma narrativa longa feita de pequenas narrativas articuladas sob a forma
da memória começava então a surgir."
/
"O nome era de importância fundamental para a trama; primeiro, porque
sua significação deveria dizer sobre o personagem tudo o que a
vaguidade e a concisão do livro não diriam"
/
"Comecei deixando lacunas onde o nome deveria estar, até que, sem
me dar para pensar mais que o instante de levar a caneta ao papel, escrevi:"
p. 118
"que também, na quietude e no isolamento de muitas longas noites
de vigia nas mais remotas águas, sob constelações nunca
vistas ao norte, tenha sido levado a pensar de modo não-tradicional e
independente;" (Herman Melville, Moby Dick)
p. 119
"E o que é a vida afinal, senão uma viagem só de ida?"
/
"já não estava resistindo mesmo ao reescrever implacável"
p. 120
"sentindo-se um tanto à deriva, sem uma cronologia a que se apegar,
transitando em um universo vago, de imagens e instantes fugazes, de vazios,
[...] com o narrador na corrente de suas recordações; ou, ao fragmentar
a narrativa e dispor as partes de cada cena distantes entre si, [...] operasse
mentalmente [...] para apreender a história como um todo."
/
"A idealizada forma da memória, com sua superfície e suas
regiões profundas, sua capacidade de proporcionar prazer e infundir terror,
suas zonas de luz e de mais absoluta escuridão, assemelhava-se à
forma do mar."
/
"desenvolvimento lento [...] a preparar um desfecho trágico e fulminante"
/
"Muitas eram as conexões entre os dois textos; nenhuma, fruto de
qualquer planejamento.
p. 121
"cuja forma já exigiria do leitor uma boa concentração
e a disposição de unir a profusão desordenada de instantes
de uma memória para tecer a história"
/
"Minha ficção tinha muito da minha vida."
/
"Com mais algumas frases de Melville [...] inseridas sem destaque entre
as minhas e um que outro jogo de espelho, a teia estaria completa. No mais,
deixaria que à sua sombra, no decorrer da escritura, a teia produzida
pela seda finíssima da minha imaginação impregnada de Moby-Dick
continuasse surgindo involuntariamente."
/
"Rendi-me ao desamparo do tempo e do lugar" (Herman Melville, Moby
Dick)
p. 122
"o que ousei, eu o quis; e aquilo que eu quis, eu o farei" (Herman
Melville, Moby Dick)
/
"As coisas se apagam ou se transformam muito rapidamente. A teia finíssima
revela-se interminável."
/
"Relendo trechos do livro [...], observo que, se não me recordo
de certos episódios ou de muitos personagens, trago na memória,
por todos esses anos, uma porção de coisas que nunca foram escritas.
Zonas imensas, extremamente delicadas e obscuras da teia devem estar à
espera do leitor e, naturalmente, de mim mesmo."
p. 123
"Eu tinha o hábito de copiar trechos dos livros que lia, ou para
não esquecê-los ou para voltar a localizá-los."
/
"Recordo apenas, sem a certeza de não estar imaginando, de que lia
e não anotava nada porque estava convicto de que nenhuma palavra me escaparia.
/
"fanatizando-me com ele, aceitando seu desafio de conquistar este pedaço
simbólico"
p. 124
"Pois estes homens de tantos credos, raças e nascimentos, selvagens
ou civilizados poderão ver ainda muito mais. Se a humanidade toda passasse
agora em frente ao mastro, esses signos não parariam de se revelar!"
Seleção de citações: Eduardo Loureiro Jr., fevereiro de 2000