Pierre LÚvy Zen
Eduardo Loureiro Jr.

"pequenas totalidades,
mas sem nenhuma pretensão ao universal."
(Pierre Lévy)

Na alma absolutamente livre
de pensamentos e emoções,
Até mesmo um tigre não encontra espaço
para cravar as garras.
(Poema Zen)

Compositores e pintores podem se homenagear com adaptações e imitações sem serem acusados de plágio. Diretores de cinema também podem repetir o trabalho de ídolos e mestres e chamar de homenagem. Já os escritores não têm a mesma liberdade.
(Luis Fernando Verissimo)


Introdução

O presente ensaio, artigo, esboço ou colagem procura evidenciar a proximidade entre o pensamento de Pierre Lévy e a tradição do Zen. Seu conteúdo e sua forma são inspirados nos módulos e fractais da cultura ocidental e nos koans (enigma) e mondos (controvérsia) da cultura oriental.

Travessia

Tudo no universo vem do Nada.
Nada - o inominado é o princípio.

Poder-se-ia dizer que uma cultura, isto é, aquilo que permite produzir e assegurar o sentido, repousa em última instância no vazio. Essa ausência de fundamento é perfeitamente lógica, pois parece impossível dar um sentido determinado a esse universal de onde emergem todos os sistemas de símbolos particulares e, pois, todos os eventos de sentido que se dão entre eles.

Os conhecimentos se tornam obsoletos cada vez mais rapidamente. O saber-estoque é substituído por um saber fluxo em aceleração constante, que os sistemas tradicionais de ensino não sabem mais transmitir.

O ensinamento que conduz à iluminação é "não dependente da palavra escrita", é a "experiência imediata". Não há orientador a quem perguntar, nem a oportunidade de ser esclarecido. Não há nada a ensinar.

um novo tipo de interação que poderíamos chamar de Todos e Todos [em contraposição a Um e Todo e Um e Um].

no seio do espaço cibernético qualquer elemento tem a possibilidade de interação com qualquer outro elemento presente.

as pessoas não vão estar separadas entre si e ligadas todas em relação ao centro, mas serão multiplicadas as conexões transversais entre elas.

O sistema de correspondência global que constitui a WEB não pode ser formulado por ninguém, precisamente porque ele o é para todo o mundo.

Você não pode descrevê-lo,
você não pode desenhá-lo.
Você não pode admirá-lo,
Você não pode senti-lo.
Trata-se do seu eu verdadeiro,
que não tem onde se esconder.
Quando o mundo for destruído,
ele não será destruído.

A decisão não pode mais, assim, apoiar-se em um saber prévio, e ainda menos sobre informações, mas antes sobre um saber que não se sabe, sobre um saber de que nossos critérios últimos repousam sobre o vazio, e a informação completa que buscamos é inatingível.

Não procure seguir as pegadas dos mestres; procure o que eles procuraram.

Sem saber quão próxima está a Verdade,
As pessoas a procuram longe - que pena!
Agem como aquele que, no meio da água,
Clama desesperado de sede.

Só se pode determinar um sentido particular no interior de um sistema simbólico.

a gente vê surgir novas formas de conhecimento por simulação que é muito diferente do estilo teórico hermenêutico que se apóia no estático, na verdade universal e em critérios de objetividade. Os novos critérios têm, ao contrário, a capacidade de mudar em função do contexto local.

Fa-yen [Hogen] vivia sozinho num pequeno templo do interior. Um dia, entreouviu quatro monges em viagem discutindo sobre subjetividade e objetividade. Juntando-se a eles, indagou:
- Imaginem uma pedra bem grande. Conseguem vê-la dentro ou fora de sua mente? Um dos monges replicou:
- Do ponto de vista budista, tudo é uma objetivação da mente, portanto eu diria que a pedra está dentro da minha mente.
- Sua cabeça deve estar muito pesada, então - observou Fa-yen -, se você anda com uma pedra dessas na mente.

Mas nos resta alguma coisa de comum e de universal para inspirar nossas decisões, e que é precisamente a interconexão universal. Sucedendo ao contato das culturas, essa cultura do contato e do envolvimento recíproco nos incita a olhar o mais longe possível no tempo, no espaço e no pensamento, ela nos convida a sermos conscientes de todas as conexões de nossos atos.

No que diz respeito à natureza de Buda, não existe diferença entre um homem iluminado e um ignorante. O que faz a diferença é que, enquanto um compreende isso, o outro o ignora.

O homem perfeito utiliza a mente como um espelho. Não retém nada; não recusa nada. Recebe, mas não guarda.

Acredito que o texto não vai desaparecer de forma alguma com a informatização. O que vai desaparecer é a noção de página, porque na etimologia a página se refere a um campo e um campo com proprietário, com fronteiras delimitadas. Esta página com o campo circunscrito está desaparecendo, uma vez que os elementos que a compõem navegam nos fluxos.

Como a informação é fluxo é como se o coletivo novamente fosse portador do conhecimento.

Uma pessoa pode parecer tola e ainda assim não sê-lo.
Pode apenas estar guardando sua sabedoria com muito cuidado.

No budismo, desde os tempos muito antigos, a iluminação tem sido chamada de característica fundamental, natureza de Buda ou a Mente. No Zen ela tem sido chamada de não-existência ou nulidade, a mão ou a face do indivíduo. As designações podem até ser diferentes, mas o conteúdo é inteiramente o mesmo.

a correspondência de tudo com tudo, figura emblemática da cultura do porvir que podemos talvez reconhecer como aquilo que resta de sagrado, à medida que este só perdeu seu nome.

O que parecia formar a base inquebrantável de nosso universo se fende, se fragmenta, se recompõe.

Antes de uma pessoa estudar o Zen, as montanhas são montanhas e as águas são águas; depois de um primeiro contato com a verdade Zen, as montanhas não são mais montanhas e as águas não são águas; mas, após a iluminação, as montanhas voltam a ser montanhas e as águas a ser águas.

Tudo é o mesmo e ao mesmo tempo não é o mesmo.
É diferente e não é diferente.

deveríamos nos abrir para uma nova maneira de produzir sentido, mais incerta e mais livre

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

Aquilo a partir do qual um sistema se constrói, aquilo que é, assim, anterior, posterior, exterior ao sistema simbólico, e que talvez o sustente do começo ao fim, não pode encontrar sentido em um sistema simbólico, a não ser para designá-lo por palavras que são furos de linguagem, a não ser para significá-lo por imagens ou rituais que se limitam a apontar aquilo que aponta e que, se ele se volta, só encontra vazio.

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

o sentido não é outra coisa senão uma colocação em correspondência

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

todas as fontes do sentido e da identidade são e serão cada vez mais, no futuro, carregadas em um processo de mutação do qual ninguém conhece o sentido e a finalidade global.

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

não conhecemos em absoluto a extensão indeterminada, e talvez infinita, dos sistemas viáveis que ainda não foram experimentados pela humanidade. E seria muito bem possível que a humanidade não esteja senão bem no começo de sua experimentação daquilo que pode fazer sentido de maneira viável.

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

a situação contemporânea exige de nós um esforço para compreender o que está acontecendo, para além de nossos preconceitos, para além dos limites, que nos são impostos pela cultura particular no seio da qual estruturamos nossas maneiras de fazer sentido.

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

Essa experimentação, essa exploração de tudo o que pode permitir fazer sentido é fractal.

Qual é o som de uma só mão batendo palmas?

A coerência ou o sentido não podem mais ser estabelecidos a priori e excluir, ignorar ou reduzir aquilo que não entra em seus esquemas.

Se você escolhe um koan [enigma] e o analisa sem parar, os pensamentos cessam e as cobranças do ego são destruídas. É como se um imenso abismo se abrisse a sua frente, sem nenhum lugar onde apoiar as mãos e os pés. Você vê a morte de frente e sente-se como se o coração ardesse em chamas. Então, subitamente, você se funde com o koan e o corpo e a alma se libertam...

a inteligência coletiva, à qual somos cada vez mais convidados a participar, não suprime, de maneira alguma, a responsabilidade e, mesmo, a solidão essencial que caracteriza toda orientação que envolve seus próprios critérios. Não podemos mais escapar do fato de que cada uma de nossas decisões [...] implica uma certa escolha de humanidade, uma escolha impossível de fundamentar.

O velho reflexo de denunciar culpados e de denunciar os "outros" dá lugar a um sentido mais agudo da responsabilidade.

Um discípulo indagou a Seng-ts'an [Sosan]:
- Como se faz para se libertar?
- Alguém está prendendo você? - quis saber Seng-ts'an.
- Ninguém está me prendendo.
Seng-ts'an replicou:
- Então por que você deveria procurar a libertação?

O ignorante evita os fenômenos mas não o pensamento;
o sábio evita o pensamento mas não os fenômenos.

nós somos estrangeiros, radicalmente, mesmo ficando em casa, porque tudo muda ao nosso redor.

não é mais o leitor que vai se deslocar diante do texto, mas é o texto que, como um caleidoscópio, vai se dobrar e se desdobrar diferentemente diante de cada leitor.

Sem ir a lugar algum, pode-se conhecer o mundo inteiro.
Sem nem mesmo abrir a janela, pode-se conhecer os caminhos do Paraíso.
Entenda: quanto mais longe se vai, menos se conhece...

Êxodo

A junção de letras para compor palavras inexistentes se chama, na melhor das hipóteses, neologismo; na pior, incorreção, erro.
A articulação de palavras para formar textos é, se bem sucedida, literatura, ciência, criação; se mal sucedida, clichê, senso comum, lugar-comum.
O agrupamento de outros textos a um texto original é citação; o agrupamento de um texto original a outros textos seria plágio?
E o mero rearranjo de textos, o que seria?

EDUARDO LOUREIRO JR.
Educador. Doutorando em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

Referências Bibliográficas

BALDOCK, John (org.). O pequeno livro da sabedoria Zen. São Paulo: Avatar, 1998.
LÉVY, Pierre. "A Emergência do Cyberespace e as mutações culturais". In: PELLANDA, Nize M. C. e PELLANDA, Eduardo C. (org.). Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.
LÉVY, Pierre. "A internet e a crise do sentido". In: PELLANDA, Nize M. C. e PELLANDA, Eduardo C. (org.). Ciberespaço: um hipertexto com Pierre Lévy. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2000.

 

[texto produzido em 18-19.setembro.2000 para a disciplina
Estudos Orientados II,
ministrada pelo professor Hermínio Borges Neto]

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto