LABIRINTO: ME ENCONTRO NAS COISAS PERDIDAS DO MUNDO
PARTE INDIVIDUAL

EDUARDO LOUREIRO JR. - EDUCAÇÃO E NÃO-LINEARIDADE

PROBLEMÁTICA

Tempo, Tempo, mano velho, falta um tanto ainda, eu sei, pra você correr macio.
(Pato Fu)

Demorei a perceber que meu problema é o tempo. O Fabiano disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo: "Sua problemática é o tempo". E, apesar da sabedoria de meu amigo, devo admitir que só aceitei a definição depois de lembrar dos meus dez anos de idade e da minha antiga paixão pela prima de quinze. Isso é que é problemática! Cinco anos de diferença!

Mas deixemos a prima e fiquemos com o Fabiano. Em 1990 a gente estava sentado num banco do pátio interno da Área 2 do Centro de Humanidades, desesperados com uma disciplina de Teoria e Metodologia da História, com um autor chamado Walter Benjamin e com duas frases: Explodir o continuum da História e tempo vazio e homogêneo. Eu estava impressionado era com o cara, judeu, ter se suicidado porque não havia conseguido fugir da Alemanha nazista. Morte, explosão e vazio quando tudo em que eu conseguia pensar era vida, amor e poesia. Eu achava que estava a todo vapor no trem da História, rumo a um futuro glorioso. E o tempo maior que eu pensava era quando Luiza dizia: "Vivemos várias épocas ao mesmo tempo".

Frases como essa me fizeram desejar ensinar, e o ensino, com seus entraves à criatividade e à mudança, me fez descobrir o tempo vazio e homogêneo e a necessidade de explodir o continuum da História. O que mais me angustiava enquanto professor era o controle do tempo de aprendizagem: as unidades do programa teriam que ser seguidas à risca porque havia um dia pré-determinado para as avaliações, e estas seriam elaboradas por apenas um dos professores de cada série; não importava se o professor e os alunos tivessem maior interesse por um ou outro assunto, o tempo dedicado a cada tópico era sempre o mesmo, sem encurtamentos, sem distensões, sem omissões e sem inclusões. A revolta, em tom meio profético, viria em minha dissertação: "a escola vai se acabar, vai chegar um tempo em que não vai mais haver escola" . A escola que não me dava tempo, eu a amaldiçoava com o fim, com a extinção.

Num acesso de loucura e de não-linearidade, depois da defesa da dissertação e desempregado, propus a Andréa viajarmos a esmo durante algum tempo. Naquela viagem, reencontrei o Rui, que me havia ensinado o bê-a-bá da editoração eletrônica no Word e que desta vez nos mostrou a constelação de Escorpião no céu de Redonda, Icapuí. Na volta da viagem, com menos de trezentos reais na conta bancária, liga o Rui: "Eduardo, traz teu currículo que a Secretaria de Educação está com um projeto na área de Informática Educativa".

A proposta era tentadora. Um projeto envolvendo 10 escolas públicas com acesso à internet, cada uma com um bolsista graduado, outro graduando e um terceiro secundarista, além de dois professores-monitores recém-treinados. Mas lá estava meu amigo tempo mais uma vez: a conexão à internet era limitada a uma hora por dia, as turmas de 5a a 8a série tinham dificuldades de horário devido à transmissão das tele-aulas, a informática era usada como uma aula a mais e não como uma possibilidade de transformação das disciplinas já existentes. Ao invés de ser encarada como uma possibilidade "de 'dar voz aos vencidos', de se traçar caminhos alternativos, de se escolher e pesquisar o assunto de interesse do aluno, de se ter acesso a posições conflitantes sobre os mais variados assuntos, de se tornar co-autor e transformar o discurso unilateral em hypertexto", a informática e a internet eram cooptadas para um ensino tradicional, baseado na segmentação dos conteúdos, na rigidez dos horários e nos limites de conhecimento previamente determinados pelo professor, pelo livro didático, pelo sistema de tele-ensino ou pelos currículos oficiais.

Quando, com a informática e, principalmente, com a internet, se abre a possibilidade de um currículo que alguns chamam de pós-moderno, currículo que não se baseia numa seqüência lógica predeterminada, mas flui de acordo com as decisões tomadas pelos alunos, currículo construído coletivamente, não-linear, não-seqüencial e sem início e fim, vê-se os computadores sendo usados como propaganda, seja da tentativa de melhora do ensino por parte do poder público, seja do grau de excelência de escolas particulares.

Mesmo com a utilização de computadores, a escola continua "fundamentada apenas no discurso oral e na escrita, centrada em procedimentos dedutivos e lineares, praticamente desconhecendo o universo audiovisual que domina o mundo contemporâneo".

A pergunta, então, é quase óbvia: Não seria a escola, em seus moldes atuais, ocupando um turno do dia do aluno, um local não-apropriado para tarefa tão delicada e gigantesca como é educar nossas crianças e adolescentes? A pergunta é meramente retórica, desculpem, e tem por objetivo preparar caminho para a convicção de Gardner: A Educação é um processo apenas tangencialmente ligado à instituição escola. No momento em que se descobrem outras inteligências além da lógico-matemática e da lingüística, seria favorável se criar outros espaços e outros tempos de educação.

Seria a hora de tratar a informática não como mais uma onda tecnológica, mas como uma metáfora inspiradora de novas relações entre professores, alunos, conhecimento, espaço e tempo de aprendizagem. A informática e a internet em si não são garantia de novas relações de educação que permitam "a manifestação do sujeito, não como agente passivo do processo de aprendizado, mas como colaborador da aquisição do seu próprio conhecimento e dos demais, formando, corpo docente e discente em conjunto, um enorme 'hypertexto educacional'.". Mesmo na internet existem formas mais e menos interativas de utilização. Os hipertextos podem ser exploratórios (oferecem recursos de navegação que ajudam ao usuário a localizar e a coletar informação facilitando a exploração do espaço informacional) ou construtivos (o leitor/usuário pode escolher ativamente os links que formam o seu texto, ao invés de simplesmente seguir links predeterminados, criando assim novos hipertextos).

Daí surgiu a idéia de criar construtos/situações (um site internet, oficinas, instalação) que pudessem ser explorados, experimentados e reconstruídos por sujeitos de diferentes faixas etárias e níveis sócio-econômicos em situações de aprendizagem escolares ou não.

Resumindo a problemática: quais as implicações da internet, da linguagem hipertextual e do conceito de não-linearidade na Educação, no que se refere à utilização de computadores em sala de aula, à seriação do ensino escolar e às formas de aprendizagem não-escolares?

REFERENCIAIS TEÓRICO-METODOLÓGICOS

Antes de mais nada, é melhor dizer referenciais, no plural, já que uma proposta de não-linearidade não pode se basear em um único referencial, exigindo múltiplos focos de iluminação do que se pretende realizar. Além disso, a utilização de idéias e princípios de alguns pensadores ou escolas não indica uma vinculação doutrinária em relação ao pensamento original, mas apenas o utiliza como argumento, inspiração ou ligação para reflexões próprias que serão construídas no contato com os materiais da experiência. As teorias abaixo relacionadas não funcionarão como um fio condutor, ao contrário, formarão uma colcha de retalhos, múltipla. A idéia é não centrar esse projeto-aprendizagem nesses pensadores-professores, mas tomá-los como mediadores do meu processo de construção do conhecimento em interação com os outros pesquisadores do Labirinto e seus respectivos referenciais teórico-metodológicos.

Abaixo estão os referenciais iniciais, organizados não como elos de uma corrente, dentro de uma estrutura causal e/ou hierárquica, mas como pigmentos numa pintura abstrata, como estrelas no céu, como retalhos na colcha, como sinapses no cérebro, como sardas na pele...

A Epistemologia Genética de Piaget. Foco na estrutura cognitiva do sujeito. Níveis diferentes de desenvolvimento cognitivo. Desenvolvimento facilitado pela oferta de atividades e situações desafiadoras. Interação social e troca entre indivíduos funcionam como estímulo ao processo de aquisição de conhecimento.

Teoria Construtivista de Bruner. Aprendiz é participante ativo no processo de aquisição de conhecimento. Instrução relacionada a contextos e experiências pessoais. Determinação de seqüências mais efetivas de apresentação de material.

Teoria contemporânea: criar comunidades de aprendizagem mais próximas da prática colaborativa do mundo real.

Teoria Sócio-Cultural de Vygotsky. Noção de zona de desenvolvimento proximal: "distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes" . Desenvolvimento cognitivo requer interação social.

Teoria da Flexibilidade Cognitiva. Reestruturação de conhecimento como resposta a demandas situacionais. Revisita ao material instrucional. Atividades devem conter múltiplas representações do conteúdo. Fontes de conhecimento interconectadas e compartimentadas.

Cognição Situada. Aprendizagem ocorre em função da atividade, contexto e cultura e ambiente social na qual está inserida. Interação social e colaboração são componentes críticos para aprendizagem (comunidade de prática).

Não custa repetir. As teorias acima mencionadas não serão utilizadas como modelos de interpretação da realidade, mas como produtos de pensadores que refletiram sobre suas próprias experiências e que podem ser úteis na medida em que tangenciam minhas preocupações no exercício da metáfora do labirinto através do site, das oficinas e da instalação.

OBJETIVOS

Mapear, através de um site baseado na metáfora do Labirinto, as potencialidades exploratórias e construtivas do hipertexto em um universo não-delimitado de internautas.

Experimentar, através de oficinas de construção do conhecimento, mediadas ou não por computador, as aproximações e resistências à não-linearidade de aprendizagem em um universo delimitado de crianças, adolescentes, professores e idosos.

Criar, a partir das reflexões em torno do site e das oficinas, um espaço físico que proporcione, a um universo indeterminado de visitantes, possibilidades de interação espaço-temporal através dos cinco sentidos.

PROCEDIMENTOS

Site interativo na internet. Serão analisadas as estatísticas de navegação do site, as páginas construídas, os diários de cada página criada e os comentários deixados por e-mail, procurando estabelecer relações e possíveis padrões sobre as dinâmicas de leitura/exploração em estruturas hipertextuais bem como sobre os potenciais de interação criativa, e não apenas informativa, no mundo virtual.

Oficinas de produção não-linear de conhecimento. Será escrito um diário de campo das oficinas e analisadas as entrevistas dos participantes, na tentativa de revelar os movimentos de aproximação ou de rejeição a metodologias não-lineares de ensino-aprendizagem.

Instalação. Serão feitas observações de estruturas arquitetônicas e experimentos de artes plásticas que sirvam como parâmetro para a tradução da não-linearidade ao nível da organização do espaço, desembocando numa instalação que sirva como inspiração para futuros espaços de ensino-aprendizagem.

Textos. Serão produzidos a partir dos experimentos com o site, as oficinas e a instalação, e em torno de questões das áreas de História, Informática e Educação: A não-linearidade inauguraria a pós-História? Quais são as possibilidades de gestão da memória humana em suportes digitais? Que tipo de espaços/ambiente/situações de aprendizagem podem ser imaginados para as próximas gerações. Não há uma tese a ser defendida. Serão apenas textos de um hipertexto que está sendo construído por todos nós, a cada momento, na busca por um conhecimento que, simplesmente, nos faça viver melhor.

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Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto