Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette
1º.junho.2000

Quem quer saber o que quem sabe quis dizer?
Eduardo Loureiro Jr.

Conta-se que determinado compositor - não sei se Beethoven ou Luís Gonzaga - após concluir a execução de uma música sua, foi inquirido nestes termos: "O que você quis dizer exatamente com essa música?" O compositor voltou ao piano - ou à sanfona - tocou novamente a música e respondeu: "Foi isso, exatamente, o que eu quis dizer."

Caso mais comprovável é o de Oswaldo Montenegro, que foi prestar vestibular em Brasília - Andréa não soube me dizer se por necessidade, vocação ou farra - e lhe caiu nas mãos, na prova de língua portuguesa, um texto de sua autoria para interpretação. Respondendo às perguntas sobre a letra de uma de suas próprias músicas, o máximo que Oswaldo Montenegro conseguiu atingir foi um 8 (oito). Fosse maior a concorrência e ele teria sido reprovado. Tamanha foi a agonia que, no ano seguinte, ele ganhou o festival da MPB com uma música que tinha justamente esse nome: agonia. Mas isto é outra história.

Minha história aqui é por que diabos nos metemos a interpretar textos, querendo saber o que o autor disse e o que deixou de dizer; sem contar o que diria hoje, se ainda estivesse vivo, ou o que teria dito há oitocentos ou novecentos anos atrás, quando Heloísa e Abelardo estavam enrabichados um pelo outro. Ah, essa minha tendência ao romantismo...

Voltemos. Quando a criatura é viva, menos mal. Beethoven ou Gonzagão ainda podiam retomar seu instrumento e retocar, sem retoques, a própria composição para não dizer outra coisa que não a mesma que já haviam dito. E o Oswaldo Montenegro, se quiser passar de menestrel a bacharel, ainda pode pleitear uma correção de notas alegando notório saber.

Mas quando morre a criatura, ai meu Deus!, salve-se quem puder, principalmente se a obra for extensa. Uns vão dizer que o defunto era partidário do qualquerismo, e invocarão a seu favor o parágrafo segundo da página cento e trinta e quatro do tomo três do volume dois das obras completas, edição na língua original do autor. De que um outro grupo vai divergir citando a última frase do penúltimo parágrafo da página vinte e dois do tomo um do volume seis das obras completas, edição revista e ampliada, e incluindo o citado autor em outrismo. Sem contar outra facção que, crítica da abordagem fragmentária dos argumentos anteriores, vai defender, segundo uma abordagem integral da obra do autor, que ele, em verdade, estava mais próximo do algumismo. E múltiplos partidos, entre eles aquele que contradiz o anterior com base no raciocínio de que o oponente está baseado nas obras do autor quando jovem, visão que lhe foi modificada com a maturidade e que o insere, com mais propriedade, em nenhumismo. Enfim, é um fim que não tem fim, cada um com sua hermenêutica e suas escolas que garantem maior porcentagem de aprovação no vestibular bem como uma premiação em dinheiro para os primeiros colocados.

Só me falta agora o leitor tomar este texto, esfregar os olhos, aproximá-lo, afastá-lo, franzir a testa, voltar uma ou duas linhas, dois ou três parágrafos, e se perguntar, de si para si, mas apenas na falta de minha presença objetiva: "Mas, afinal, o que esse cara quer dizer exatamente com isso?" E, na impossibilidade de me provocar um olho roxo ou um supercílio vermelho, sublinhar as palavras desconhecidas com uma caneta bic, preta ou azul, realçar as passagens que julga mais importantes com tinta fosforescente laranja, rosa, amarelo-canário ou verde limão, definir a idéia principal para cada parágrafo, estabelecer a introdução, o desenvolvimento e a conclusão, descobrir a lógica de construção de meu discurso, identificar meus interlocutores e, quem sabe, inglória das inglórias, fazer um fichamento, um indiciamento, uma autuação contra esta pobre mente frívola que escreve exatamente isto: exatamente isto.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto