Universidade Federal do Ceará
Programa de Pós-Graduação em Educação - Doutorado
Disciplina: Correntes Modernas da Filosofia da Ciência
Professor: André Haguette
18-25.maio.2000

Uma isma para sete ismos
Eduardo Loureiro Jr.

Os sete ismos podem ser: budismo, cristianismo, islamismo, judaísmo, kardecismo, luteranismo e xamanismo. A isma pode ser cisma. Dissidência de opiniões. Desconfiança, teima, implicância, receio supersticioso.

Os sete ismos podem ser anarquismo, capitalismo, comunismo, fascismo, nazismo, neoliberalismo e socialismo. A isma pode ser carisma. Atribuição a outrem de qualidades especiais de liderança, derivadas de sanção divina, mágica, diabólica, ou apenas de individualidade excepcional.

Os sete ismos podem ser agnosticismo, hedonismo, maniqueísmo, niilismo, positivismo, pós-modernismo e utilitarismo. A isma pode ser sofisma. Argumento falso formulado de propósito para induzir outrem a erro. Tapeação.

Este seria o início do texto que eu escreveria contrapondo ismos e ismas. Tomando os ismos por brutos caubóis que quisessem dobrar à força uma inocente jovem isma. Os ismos seriam esses que estão aí mesmo. A isma seria o aforisma, que não é feminino mas termina em isma. Terminava. Este maldito dicionário eletrônico, completíssimo e infalível, diz que não existe aforisma mas aforismo. Homem não chora ou os brutos também amam?

Meu texto eloqüente e grandioso foi por água abaixo. Eu queria destratar os vastos sistemas e defender o pequeno. Trocar as grandes narrativas por sentenças, máximas e provérbios.

Talvez colocar uma citação de Roberto Machado: "Quando lemos a Bíblia, desejamos nos tornar cristãos. Quando lemos O Capital, queremos nos tornar revolucionários. Quando lemos Nietzsche, queremos nos tornar nós mesmos". E acrescentar: Quando lemos aforismas, desculpem, aforismos, nos tornamos, mesmo sem querer, uma coisa e seu oposto. À maneira dos provérbios populares que desdizem uns aos outros...

Bom conselheiro é travesseiro versus quem madruga, Deus ajuda.

A corda sempre quebra do lado mais fraco versus água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

A melhor defesa é o ataque versus quem com ferro fere com ferro será ferido.

A primeira impressão é a que vale versus as aparências enganam.

A união faz a força versus cada macaco no seu galho.

Cada qual com seu igual versus os opostos se atraem.

Conversa fiada não enche barriga versus quem tem boca vai a Roma.

O que vale é a intenção versus de boas intenções, o inferno está cheio.

Depois da tempestade vem a bonança versus desgraça pouca é bobagem.

Casa de ferreiro, espeto de pau versus a boca fala do que o coração está cheio.

Longe dos olhos, perto do coração versus o que os olhos não vêem o coração não sente.

E, quase no final, citar Freud, retirando-lhe um pedaço de frase e transformando-o num imperativo: "seja tratado meramente como matéria-prima e possa ser cortado e ligeiramente alterado e, mais especialmente, desligado de seu contexto".

Só para no final negar a si mesmo e dizer que aquelas sessenta linhas talvez não valessem nada e que mereceriam ser substituídas por um único aforisma, quero dizer, aforismo, como por exemplo: "A verdade é filha do tempo, não da autoridade", de Sir Francis Bacon; ou então "quem acumula muita informação, perde o condão de adivinhar", de Manoel de Barros.

Mas aforismo é macho, não é fêmea, e dei uma viagem perdida, fui a Roma e não vi o papa, apesar da feiúra da vista, que bonita me parece.

 

Fonte: http://www.patio.com.br/labirinto